Parte Final

Por cerca de um mês o Zimbros ficou parado nas águas do Iate Clube de Santos à minha espera. Eu pretendia trazê-lo o mais rápido possível para Porto Belo, em Santa Catarina. Contudo as frentes frias que me obrigaram a deixá-lo lá ainda estavam presentes no litoral paulista. Era janeiro, pleno verão, mês em que essas instabilidades deveriam ser menos constantes, mas por alguma razão São Pedro estava me sacaneando. As frentes sucediam-se inteminavelmente por toda a Região Sul, impedindo-me de sair de Santos. Em um determinado momento, impaciente, decidi seguir viagem sem me importar com as sombrias previsões. Tive a impressão que se eu fosse esperar alguma janela de nordeste, talvez nunca mais traria o Zimbros de volta para casa.

Na companhia do Joaquim resolvi encarar o mau tempo. Ele é um velho amigo, quase irmão, meu parceiro de outros cruzeiros. Estivemos juntos entre Fortaleza e São Luís e no Caribe. Chegamos no Guarujá com a perspectiva de uma grande massa de ar frio avançando pelo sul nos próximos dias. Havia um alerta da defesa civil para o risco de tempestades de vento. As moças responsáveis pela meteorologia do Iate nos desencorajaram a partir. Foram mais que convincentes, principalmente depois de nos lembrar da tragédia ocorrida em dezembro de 2000. Naquela oportunidade dois velejadores experientes, ambos sexagenários, perderam suas vidas no litoral do Paraná ao tentarem vencer uma terrível frente que os apanhou entre Paranaguá e São Francisco do Sul. Mas não foi por falta de aviso. Eles foram aconselhados no próprio iate de Santos do mau tempo que se aproximava, mas consideraram-se aptos suficientes para encará-lo. Infelizmente, por razões desconhecidas, ambos cairam na água frente à Caiobá e foram engolidos pelas ondas. O mar não perdoa erros.


No mar: Joaquim confere na carta náutica o nosso avanço para o sul.

Convencidos a não partir, permanecemos ociosos no conforto do elegante iate de Santos. A depressão finalmente chegou com uma queda abrupta na pressão atmosférica, chuva abundande e ventos fortes. Mas não era tão poderosa quanto o previsto. Após as primeiras horas o tempo acalmou-se e nada mais nos segurava em terra. Só nos restava partir. Deixamos a marina com as primeiras luzes de uma manhã feia e cinzenta. O vento era fraco e soprava de sudeste, o mar estava calmo. Navegamos à motor até a ilha da Queimada Grande, onde novamente fiz uma escala para verificar uma estranha vibração que aparentemente vinha do hélice. No través do Rio de Janeiro um pedaço de corda jogado no mar enrolou-se no eixo do motor. Depois de retirá-lo surgiu uma estranha vibração nas baixas rotações. Eu suspeitava que algo havia deslocado o hélice do seu centro. Megulhei para averiguar a razão do tremor, mas foi impossível descobrir qualquer dano. Prejuízo à vista: ao chegar em casa teria que retirar o Zimbros d'água para fazer uma revisão completa sob seu costado.


Continuamos no motor até o anoitecer quando um vento sudeste de 10 nós firmou-se pelo través. Desligamos a máquina e içamos todas as velas. Estávamos em orça folgada e o Zimbros navegava confortável sobre as vagas. De madrugada cruzamos a fronteira de São Paulo com o Paraná. Começou a cair uma garoa fina e chata que nos ensopou até o pensamento. O novo dia veio com cara de poucos amigos, nublado e com chuviscos que não paravam nunca. À medida que prosseguimos, deixamos para trás todos os pontos geográficos que faziam parte do meu mundo desde meus primeiros passos no mar: a Ilha do Bom Abrigo, a barra de Paranaguá, a baia de São Francisco do Sul, a Ponta da Vigia, o porto de Itajaí. Lembrei-me de como eram longínquos uns dos outros, quase inalcansáveis. Bom Abrigo, o fim do meu universo náutico, estava no limite norte, a partir do qual só haviam imensidões temerárias.


Carta Náutica: ilha de Bom Abrigo e as baias de Paranaguá e de Guaratuba.

Apesar das chuvas e da umidade, a visibilidade era boa. Nosso rumo nos aproximou da costa e aos poucos pude decifrar alguns pontos em terra. Às 17:00 horas vi na proa o morro de Santa Luzia, no município de Bombinhas, meu velho conhecido. No final dos anos 90 criamos uma associação de moradores, a Amar Zimbros, cujo objetivo maior era lutar pela preservação das suas encostas, ameaçadas, como hoje, por uma sede imobiliária sem escrúpulos. Na posição de onze horas em relação à proa, apareceram o Arvoredo, as Galés e a Ponta de Porto Belo. "Estou em casa! Cheguei, consegui realizar meu sonho, fui e voltei inteiro" pensei triunfante. Apesar de algumas cicatrizes, como as que ganhei no pé lá em Salvador, estarem ainda abertas no meu corpo, me considerei safo. Tinha Navegado 15.000 milhas, aportado em 12 países e três continentes. Atravessei duas vezes o Atlântico. Mas não fui só. Devo demasiado aos 26 companheiros que estiveram comigo nos maus e nos bons momentos durante todas as cruzadas. Estava orgulhoso de mim, dos meus amigos e do Zimbros.


Dia molhado: ávido para chegar.

Depois de tantos mares vistos pelo avesso e pelo direito, aqueles pontos eram para mim apenas a porta de entrada da minha casa. Andei muito nos últimos dois anos. O sol da Bahia, as marés do Maranhão, o mar do Caribe, os ventos de Gibraltar, o Guadalquivir que ainda corre para o mar, Espanha, Africa... Aprendi um bocado, vivi muita coisa. Mas continuo me sentindo apenas um aprendiz, para quem os mistérios do mar têm muito o que ensinar. Se cada gota do mar me mostrou a mais profunda beleza da vida e do ser, as ondas do Atlântico sempre vão despertar em mim um sentimento de respeito e temor. Ninfas, tempestades e tentações vi. Fui em busca dos meus limites e cheguei lá. Ganhei um grande prêmio, maior que a maior loteria, um troféu que nunca vou perder.

O clima não era para papo. Joaquim é um cara que não gosta de jogar conversa fora, eu nem tanto. Ficamos calados. À bordo existem momentos em que a conversa fica em segundo plano. Descobri muitas vezes que o silêncio pode ser mais eloquente que um milhão de discursos. Encontrei comigo, sozinho vivi o deserto e me pus à sua prova. Acostumei-me a decifrar os 360º da rosa do ventos, a suportar a monotonia e o terrror do tempo, a encarar a solidão e o medo. No mar os dias podem ser iguais ou diferentes, depende de quanto preparado você está para ver o que acontece à sua volta. Às vezes navegando no meio do nada eu esquecia qual dia da semana estava. E uma incrível sensação de liberdade tomava conta de mim. Noutros momentos não via a hora de chegar em um porto e abandonar tudo o que me ligava ao mar. O barco é o um meio que pode ensinar com clareza a filosofia oriental do Yin e Yang: o paraíso e o inferno se sucedem a toda a hora, ambos são parte da mesma realidade. Um não existe sem o outro, faces da mesma moeda.


Navegar é Yin & Yang.

Faltava pouco para terminhar minha grande aventura. Era um alívio realizar o meu grande projeto. Mas também não conseguia disfarçar uma ponta de tristeza: dentro em pouco tudo estaria acabado. "Qual minha próxima aventura?" me perguntava inquieto. Pela minha cabeça passaram, num relance, todos os grandes momentos que vivi nos últimos meses à bordo do Zimbros. E muitas perguntas: Quais foram os melhores lugares? Qual a importância dessa viagem para o bem da humanidade? Valeu a pena? Mas o que vi, senti e conheci nos últimos anos foi coisa demasiada para poder resumir em uma simples resposta. Tudo pareceu tão rápido que minhas emoções se sobrepunham umas às outras. Era como se eu tivesse partido na véspera e toda a minha história se concentrasse em um único segundo. Os primeiros capítulos destas minhas crônicas, que começei a escrever quando deixei Paranaguá, me pareceram tão recentes. Confesso que outra grande viagem que fiz ao longo do caminho, foi através destes textos.

Ao escrever pude reviver várias emoções. Mas também não foi fácil, como no mar eu não podia errar. Enfrentei tempestades existenciais e calmarias criativas nas quais quase naufraguei. Estudei muito, li e reli todos os meus heróis. Comecei a interessar-me, embora com timidez, pela arte da escrita. Aproximei-me e quis conviver com amigos escritores. Descobri Ulisses e João Cabral, revi Fernando Pessoa, Ferreira Gullar e Gabriel Garcia Marques. Aproximei-me dos grandes, fiquei íntimo deles e quis, sem muito sucesso, copiá-los. Se não consegui inteiramente, pelo menos melhorei um pouco minha redação. Acho que subi um degrau na escala evolucionária, mas Hemingway pode descansar em paz que não vou ameaça-lo. Sou apenas seu fiel imitador. Igualmente, ao tentar seguir os passos dos meus ídolos navegadores, acabei me tornando um deles: Amyr Klink, Aleixo Belov, Hélio Seti Jr, João de Deus, Cabinho... Sou meio abestado mas aprendo rápido. Procurei copiar os grandes e espero ter sido um bom aluno. Se você leitor(a) chegou até aqui, significa que tive algum sucesso.

Às nove da noite o Zimbros passou discreto pelas bóias que demarcam o acesso ao Iate Clube Porto Belo. Em silêncio agradeci aos deuses por chegar à salvo ao meu porto seguro. Estava escuro e ainda chovia. No cais molhado, ao jogar os cabos de amarração, só dois humildes funcionários me aguardavam: o porteiro Zézinho e o vigia Pedro. Desembarquei e fiz questão de apertar a mão de ambos, únicas testemunhas da minha chegada. Fechei o ciclo, a mesma onda que me levou, me trouxe de volta. Na parede da cabine, em uma fotocópia desbotada pela umidade, o texto que Antonio Garcia registrou para sempre era a melhor tradução de toda a viagem: "Así transitó estos mares la tripulación del Zimbros, nomádica, mezcladora de flujos y lugares, de líquida sensibilidad en una bóveda no revelada, cartógrafa de la inmanencia, de ensoñación y ataraxia. ¿Quiénes fuimos?


Fim