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Voltei ao Zimbros um mês e meio depois de tê-lo deixado em Salvador, vindo da Europa. Nesse tempo o barco ficou encostado no cais do Centro Náutico da Bahia. Vinha decidido a levá-lo de volta ao seu porto de origem. Eu não estava totalmente recuperado do acidente que sofri na chegada. Uma queda no cais me rendeu oito pontos no pé. Apesar do corte estar cicatrizado, eu ainda sentia dores no osso. Para aumentar meu desespero, uma nova tripulação iria me acompanhar a partir de lá até Parati, litoral do Rio de Janeiro. Eram eles Arnaldo, que já navegara comigo até Fortaleza, Renato, amante do mar e do conforto e Roberto, pescador, mergulhador e aventureiro náutico, apaixonado por Abrolhos. Todos eram velhos amigos e se dispunham a largar a segurança de seus lares para uma aventura incerta em mar aberto. Era uma manhã de sábado e Salvador fervia no calor de suas farras perpétuas. A algazarra de centenas de berimbaus no vizinho Mercado Modelo aquecia nossa alma. A tripulação, contagiada pela doce preguiça baiana, cedo esqueceu a pressa em partir, rendendo-se ao modo de ser dos nativos. A Bahia sabe, como poucos, enfeitiçar seus visitantes, e é mesmo muito difícil ir embora em um final de semana agitado. O fascínio se deve não só às praias, ou ao clima, mas também à sua fauna, principalmente aos mamíferos-fêmea da espécie homo sapiens. Com pesar conseguimos sair do Centro Náutico às duas da tarde. O vento era a favor, soprava de leste com 15 nós. O mar estava calmo, o dia ensolarado. Navegamos sem surpresas pelos dois dias seguintes. Procurei ficar longe da costa, cerca de 25 milhas, para fugir das redes dos pescadores e também para ter espaço de manobra, caso fosse alcançado por alguma trovoada de leste. Havia muitas tempestades tropicais à volta. Fomos pegos por algumas, mas sem maiores conseqüências. A moral à bordo era alta, apenas o Renato estava um pouco mareado com o balanço do Zimbros. Chegamos ao arquipélago dos Abrolhos pela manhã do segundo dia de viagem. Nos aproximamos pelo norte, vagarosamente ultrapassei o raso canal entre as ilhas Santa Bárbara e Redonda. Fundeamos ao lado da Siriba, em uma poita usada pelas embarcações de turismo que visitam a ilha, vindas do continente. A maré estava baixa e cheguei a tocar o fundo de areia com a quilha do Zimbros. Centenas de peixes podiam ser vistos mesmo de cima da amurada. Os Abrolhos sempre nos reservam grandes surpresas. Tinha planos de partir logo ao anoitecer, mas mudei de idéia frente ao fascínio do arquipélago sobre a tripulação. Na região entre o sul da Bahia e o norte do Espírito Santo, a plataforma continental avança por cerca de 200 quilômetros mar adentro. O fundo do oceano eleva-se, muitas vezes bruscamente, de 400 para 50 metros. Os trechos rasos servem de base para numerosos recifes de coral, muito perigosos para a navegação. É aí que situa-se o Arquipélago dos Abrolhos, a cerca de 70 quilômetros da costa, na altura de Caravelas. É um belo ecossistema marino com águas transparentes, visibilidade de até 30 metros e profundidades médias de apenas cinco metros. A temperatura da água varia de 22 a 24 graus. Acima na superfície, as ilhas são habitat de milhares de aves marinhas que escolheram aquele paraíso para se multiplicarem. A tripulação não queria ir embora de jeito nenhum. Em êxtase, acabaram até esquecendo as mais básicas noções de cuidados à bordo como a limpeza da louça e abastecimento do pequeno motor do dingue. Mas nada como uma réstia de bárbaros impropérios para colocar ordem na casa. Todo comandante tem que dar broncas, uma velha reputação que gosto de sustentar. "Vocês em matéria de mar são uns neófitos" gritei com eles. Arnaldo não gostou muito, visto que eu não estava sendo nada lisonjeiro. No começo da tarde do dia seguinte deixamos nosso abrigo. O vento era fraco, nordeste, mas suficiente para inflar nossas velas. Fizemos uma navegação tranqüila, sem sustos e chegamos ao Iate Clube de Vitória às 18:00 horas do dia seguinte. Em terra nos esperava o Ronaldo, um velho amigo, também velejador, que iria substituir Arnaldo a partir de lá. Ao manobrar dentro da marina, o Zimbros foi reconhecido por um sócio amante da vela, leitor destas crônicas, que nos saudou com entusiasmo e, muito delicadamente, se pôs à nossa disposição para qualquer emergência. "Fiquei famoso" pensei cheio de vaidade.
Não demoramos na capital capixaba, a saída de Vitória foi às duas da tarde do dia seguinte. Ficamos pouco menos que 24 horas na cidade. O suficiente apenas para abastecer o barco, trocar de tripulante e, com ajuda do amigo Ben Hur, comprar um equipamento de pesca mais decente. O vento continuava generoso, de 10 a 15 nós, nordeste. Perfeito! Logo de saída o Betão fez valer a nova aquisição e conseguiu fisgar duas belas cavalas de aproximadamente 4 kg cada. A menor virou sushi e a outra foi direto para a panela. A noite estava linda, com lua crescente sem nuvens. Apesar do mar calmo, Ronaldo passou mal a maior parte do tempo. Mas mesmo mareado, ele conseguiu manter seu bom humor. Na madrugada, com todas as velas em cima, armadas em asa de pombo, fomos surpreendidos por um vento forte que chegou aos 20 nós. O Zimbros alcançou facilmente à velocidade de 11 nós. Não consegui dormir. Fiquei no convés apreensivo, apesar do barco navegar firme nas ondas. Amanheceu ao dobramos o legendário Cabo de São Tomé, o ponto onde a costa do Brasil deflete para sudoeste. O vento apertou, o mar cresceu e fui obrigado a rizar as velas. Demos um jaibe, mudamos o bordo e aproamos o Zimbros direto para a ponta de Cabo Frio.
Ao entardecer o vento morreu. Mas logo voltou a soprar do quadrante oeste, bem na nossa cara. À medida que nos aproximamos de Cabo Frio as rajadas aumentaram e as correntes contrárias tornaram nosso percurso mais sofrido. O motor mal conseguia vencer a força do mar. Estava à 2.000 giros e o barco seguia lento, com quatro nós de velocidade. Pensei em parar no Arraial do Cabo, mas aos poucos a correnteza diminuiu e conseguimos vencer a ponta. O vento permaneceu forte a noite toda, e pela manhã passamos no través da Baia da Guanabara. Sintonizei a Rádio Globo. Às 18:00 horas conseguimos chegar no lado de fora da ilha Grande. Fizemos uma pequena parada na ilha Jorge Grego, que eu não conhecia. É um belo lugar! Depois de um rápido mergulho, contornonamos a ponta dos Meros e prosseguimos em direção ao continente. Anoiteceu e uma chuva fina caiu sem piedade sobre nós. Apesar do desconforto a tripulação estava feliz com a chegada. À meia-noite aportamos em Parati. No trapiche da marina do Amyr Klink, nos aguardavam Betinho, Tarcísio e Paulinho. Mas não tivemos tempo para comemorações, pois, cansados, estávamos muito mais interessados em nossos beliches do que em festas. Em compensação, passamos todo o dia seguinte, um domingo, celebrando nossa chegada. Beto está em Parati há alguns anos. Mora no seu barco, o Odysséa II, um Main 35'. Combinamos um churrasco com todos os velejadores, amigos seus, também fundeados na Baia de Angra dos Reis. É curioso como existem, também no Brasil, centenas de navegadores que vivem em seus barcos. Precisa-se muito desprendimento para largar os confortos urbanos em troca do limitado espaço de um veleiro. Mas vale a pena, pois como diz o Weber, um gaúcho que há anos deixou Porto Alegre pelas praias do mundo: "O apartamento é pequeno, mas a piscina...".
Na marina fomos visitados por uma equipe da All Tv Sports, um programa de esportes radicais vinculado na Web. Eram um camara-man, um jornalista e uma apresentadora super-tcham. Souberam por lá que eu estava chegando da Europa com o Zimbros e queriam fazer uma matéria comigo. Uau, comecei a me achar o máximo! Os caras foram muito legais e ficaram à bordo por mais de uma hora. Fizeram muitas perguntas e muitas imagens, reviraram o barco pelo avesso, sem deixar passar nenhum detalhe. O programa deles é uma espécie de videoclipe e atinge uma moçada bem jovem, interessada em esportes diferentes do usual. Sua linguagem, moderna e ágil, me fez sentir um garoto vibrante. Quem quiser acessar sua programação basta clicar no www.alltv.com.br e conferir a produção da moçada. Após tantas atenções, o meu ego mal cabia dentro do barco. Ao nos despedirmos, tomamos um ferrinho saideiro em homenagem ao nosso encontro. Tão logo os garotos desembarcaram, fui cumprir uma tarefa odiosa, mas inadiável: lavar minhas roupas que estavam para lá de imundas desde Vitória. Nada como o banal cotidiano de bordo para desmistificar todo o glamour do iatismo. Voltei ao comum e tive que encarar o horror da vida real. A tripulação desembarcou toda e foi substituída por novos grumetes: Tarcísio, marinheiro veterano que me acompanhou em outros trechos; o Humberto, um amigo dos tempos de garoto, hoje um grande fotografo subaquático; Paulinho, outro camarada do coração em cujo veleiro, há muitos anos, eu aprendi meus primeiros passos na vela, e André, meu filho de 15 anos. Deixamos Parati às onze da manhã, o dia estava maravilhoso e todos à bordo excitados com a perspectiva de um grande passeio até Porto Belo, Santa Catarina. Mas ao dobrarmos a Ponta da Juatinga, o vento nos surpreendeu de sudoeste com 17 nós. Não poderia haver nada pior para nós naquele momento, já que nosso rumo era exatamente de onde soprava o vento. Arribei um pouco e tentei, sem muito sucesso, seguir na vela junto com o motor. A princípio o mar não estava tão ruim. Mas pouco antes da alvorada, no meu turno, a força do vento e das ondas recrudesceu. Instalou-se o mal estar à bordo. Paulo, Humberto e André começaram a passar mal. Amanheceu feio. No través de Santos ficamos no rumo da incerteza, indecisos quanto ao nosso destino: primeiro resolvi que seria melhor entrar em Santos, logo em seguida mudei de idéia e voltei o rumo para a ilha de Bom Abrigo. Tinha alguma esperança de poder chegar lá e dar uma trégua ao nosso sofrimento. Andamos muito bem, em orça fechada, apesar da molhadeira à bordo. O Zimbros, firme no contravento, chegou aos oito nós de velocidade. Os que não passavam bem, ficaram deitados no cockpit, que é o melhor lugar para estes casos. Mas infelizmente estavam sujeitos a todas as ondas que fatalmente embarcavam pela proa. Para passar o tempo eu fazia palavras cruzadas dentro da cabine. Quando cruzamos pela ilha da Queimada Grande o tempo se fez mais denso. Estávamos de cara com uma frente fria das grandes. E ainda tínhamos quase 12 horas até Bom Abrigo. Seria forçar muito a paciência dos meus tripulantes recém embarcados. Meu filho André a cada minuto me fazia ver o quanto arrependido ele estava por ter aceito o meu convite. Paulinho e Beto mal falavam. Voltei atrás mais uma vez e decidi regressar para Santos, 30 milhas na popa. Há horas dentro de um barco em que é preciso resignar-se e saber desistir. O vento atingiu 30 nós e o mar assombrou-se de vez. Ao virar o rumo para o norte a genoa fez um sutiã terrível, ou seja enrolou-se toda no estai de proa. Não houve jeito de desfazer o engrulho. Com o mar grande, ficou muito perigoso trabalhar lá na frente do barco, apesar de todos os esforços do Tarcísio. Seguimos para o lado protegido da Queimada onde, depois de quase uma hora de sufoco, conseguimos dar um jeito na vela. Retornamos à Santos. Escureceu e nada do tempo melhorar. Ao nos aproximarmos da entrada do porto, pudemos ver que o movimento de navios era intenso. Pelo canal 16 do VHF chamei o pessoal da praticagem para saber das condições da entrada. Fui atendido por alguém que, de cara, me desencorajou a prosseguir. Disse que o movimento era grande, o tempo estava ruim e que o melhor que eu podia fazer era cair fora. Fiquei sem voz, angustiado, querendo saber para onde ir, já que o próximo abrigo que conhecia era em Ilha Bela. Antes que eu começasse a chorar, outro funcionário, aparentemente mais graduado que o primeiro, assumiu o rádio e disse que não havia problema nenhum e que podíamos entrar na barra sim. Só deveria ficar atento ao imenso tráfego de embarcações. Nada mais. "As condições aí fora estão muito ruins, o melhor para vocês é abrigarem-se aqui dentro. Cuidado e boa entrada" nos disse com simpatia. Fiquei pensando na sacanagem que o cara que atendeu o rádio queria nos pregar. Um tipo de sujeito de mal com a vida, desejei-lhe muita luz, era o que mais ele precisava. À meia-noite chegamos ao Iate Clube de Santos. Cansados, molhados e frustrados, não tivemos disposição de nada exceto dormir profundamente. Pela manhã o tempo continuava ruim, e pouco nos restava senão abandonar nosso projeto de chegar à Porto Belo. O Zimbros ficou em Santos e nós, sem escolha, voltamos para casa. "Não foi dessa vez Paulinho" eu disse, aludindo ao fato dele nunca ter conseguido vencer o paralelo 27 (veja o belo texto anexo produzido pelo Tarcísio sobre o tema). Eu também estava inconformado, sem saber quando poderia retornar. Não seria daquela vez que eu, enfim, terminaria a viagem. As minhas aventuras teriam um capítulo a mais.
Aguarde, semana que vem, a última parte dos Retratos de Viagem.
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