Parte 35


Fernando de Noronha: a Ilha Dois Irmãos ou os populares Fafá de Belém.

Finalmente chegamos em Fernando de Noronha. Foram 1.300 milhas desde Cabo Verde, vencidadas em pouco menos que dez dias. Estávamos cansados com o mau tempo que pegamos a partir do paralelo cinco, norte. Mas nada importava, o Zimbros estava de volta ao paraíso. Mas o paraíso não existe. Dormimos tal qual pedras e, logo cedo, fomos acordados pela zorra que faziam os barcos das operadoras de mergulho, que se preparavam para mais um dia de trabalho. O Portinho, em certas épocas do ano, é o único lugar protegido da ilha. Os barcos fundeados em um pequeno espaço, ficam muito próximos uns dos outros. Como chegamos à noite, por segurança, jogamos nossa âncora bem afastados da maioria. Ao acordar senti que o Zimbros balançava como se estivesse em alto mar. Sai para o cockpit e vi, com surpresa, um enorme barco passar a não mais que dois metros do nosso costado. Logo em seguida outros imprudentes repetiram o mesmo trajeto. O oceano é tão grande e aqueles ignorantes faziam questão de passar raspando em nós em uma velocidade de competição, apenas para se mostrarem, deixando claro que o mar pertencia só a eles.

Ainda não eram sete da manhã, o dia estava radiante, ensolarado e quente. Bob inquieto queria desembarcar. Seu filho Rodrigo o aguardava em terra. Colocamos nosso pequeno dingue na água e o Bob partiu só. Combinamos não falar que chegávamos da Europa, para evitar transtornos com as autoridades locais. Assim que pôs os pés na praia, ele foi abordado pelo superintendente do porto que já sabia tudo de nós, inclusive que vínhamos do estrangeiro. Solicitava nossa presença em seu escritório para as formalidades de chegada. Formalidade que se resumia no pagamento de uma absurda taxa de fundeio no valor de U$ 75/dia. Um disparate! Apenas para jogar âncora em Fernando de Noronha, o governo de Pernambuco, que administra o território, instituiu uma taxa completamente arbitrária e inconstitucional. Sim, pois qualquer embarcação, independente de hora ou lugar, pode parar de graça em todo o litoral brasileiro. Mais tarde mostrei ao funcionário que a tarifa era absurda e irregular e que, se eu me recusasse a pagá-la, ninguém iria me prender por isso. Ele reconheceu o absurdo da cobrança, mas alegou que era a lei e estava obrigado a cumpri-la. Educado, o cara quase pediu desculpas pela improcedência da taxa, e nos ofereceu muitos descontos, inclusive dois dias de estadia gratuitos. Assim, para evitar transtornos logo na chegada, concordei em pagar parte do que era exigido. Senti que os turistas não são bem vindos em Fernando de Noronha. "Chegamos ao Brasil" conclui desanimado.


Rodrigo, filho do Bob: um novo tripulante à bordo.

Reencontramos o Rodrigo, ele iria nos acompanhar até Salvador. Apesar dos contratempos com as autoridades, fomos comemorar nossa chegada com um jantar maravilhoso, regado a um super tinto reserva que havíamos ganhado do Antonio Garcia. Foi uma noite memorável, mas na manhã seguinte Bob acordou sentindo muitas dores no rim. À tarde ele piorou e resolvemos levá-lo, contra sua vontade, para um exame no pequeno hospital da vila. Ele foi muito bem atendido e a médica que o examinou resolveu que seria melhor interná-lo para observação, enquanto aguardava o resultado dos exames. Bob se acha um garoto e ficou inconformado. "Odeio médicos e nunca fui internado na vida" repetia de mal-humor. Mas não houve jeito e ele teve mesmo que passar a noite na enfermaria. Preocupado, cancelei nossa partida marcada para o dia seguinte. Eu também não estava bem, fui atacado por uma diarréia terrível. Achei que tinha comido alguma coisa que me fez mal. Mas eu estava enganado.

Os exames foram esclarecedores: Bob estava desidratado e eu também! Era inacreditável, mas verdade. Tínhamos navegado os últimos dez dias em condições muito desfavoráveis e não bebemos água o bastante para compensar nossa perda de líquidos. Simplesmente não sentimos sede durante o percurso e, portanto, bebemos quase nada de água. Alguém que está desidratado, nem sente. Os sintomas não são de sede, manifestam-se em outros órgãos. Ao Bob atacou o rim, razão pela qual ele sentiu tantas dores. Comigo foi o piriri. Sem perceber cheguei a emagrecer alguns quilos. Beto felizmente salvou-se. Mas nossa doença estava diagnosticada. Se não estávamos completamente curados, pelo menos o tratamento não era dolorido, apenas tínhamos que tomar muita água durante o dia. Bob, que nunca usa remédios, teve que consumir alguns sedativos para a dor. Mas logo melhorou. Foi sorte nossos sintomas só aparecerem na chegada. Fiquei imaginando como teria sido difícil se Bob sentisse suas dores em alto mar. A médica que nos atendeu, uma respeitável senhora, mãe de família de Recife, adorou nossa irreverência. Disse que gostaria de conhecer o Zimbros. Respondi com mais respeito que juízo: "Doutora, não me leve a mal, mas a senhora não sabe dos riscos que corre ao entrar em uma toca de ursos solitários como aquela". No fundo senti que ela estava disposta a se arriscar.

Se na adversidade se conhece o bom amigo, os transtornos nos deram oportunidade de descobrir muitos. Bob é um cara muito popular em Noronha. Costumava fazer charter com seu veleiro Persona, vindo de Natal. Também já foi assíduo mergulhador em suas águas, quando a caça submarina era permitida. Ganhamos uma inestimável assistência dos seus antigoa companheiros, que nos ajudaram de todas as maneiras para resolvermos nossos problemas. À noitinha, véspera da partida, recebemos a visita de alguns desses camaradas. Marinheiros profissionais que tiram seu sustendo do mar, foram à bordo conhecer o Zimbros e ouvir nossas histórias. Eles pareceram impressionados com nossos relatos, e não pude deixar de me envaidecer ao notar que aqueles lobos do mar nos viam com respeito e admiração.

Ao amanhecer partimos de Fernando de Noronha com destino à Salvador. O Zimbros voltava a encontrar a sua própria esteira, deixada para trás há quase um ano e meio. A partir de lá, todos os caminhos me eram familiares. O mar estava calmo, o vento era sudeste, vinha da proa, e variava de 10 a 15 nós. Velejamos bem por dois dias consecutivos, apesar da orça fechada. Rodrigo, nosso novo tripulante, já conhecia o mar e não estranhou o desconforto. Foi bom tê-lo à bordo, já que mudamos um pouco o rumo das polêmicas e a qualidade do som. Ele é um especialista em música popular brasileira, sambas e choros. Seu programa Samba de Bamba, está no ar há vários anos na Rádio Educativa do Paraná. Pedi que nos trouxesse alguns discos diferentes e ele nos presenteou com algumas novidades muito especiais.

Ao anoitecer do segundo dia, o vento rondou para sudoeste, exato no nosso rumo, e instalou a confusão à bordo. Recolhemos as velas e ligamos o motor. Mas o problema com o combustível não tinha sido resolvido e a nossa máquina começou a falhar. Estávamos no través de Pernambuco, vento na cara, sem piloto automático e com o motor recusando-se a funcionar. Baixou a moral e a tripulação resolveu arribar para Recife. Eu contava nos dedos a hora de chegar em Salvador mas, contrariado, concordei em fazer uma escala no Cabanga Iate Clube. Lá poderíamos limpar o tanque de combustível e esperar que o vento soprasse, senão à favor, pelo menos não na proa.

O novo dia nasceu feio com uma chuva bem fina e a cara do mar era de poucos amigos. Como mudamos o rumo, pudemos ter o vento pelo través, o que nos deixava mais estáveis em relação às ondas. Aos poucos surgiu no horizonte o perfil concreto da orla de Boa Viagem. Eu estava aborrecido pelo desvio, mas assim que nos aproximamos da costa meu humor mudou e fui tomado por uma sensação de saudades e de alívio por voltar à Recife. Manobramos ao lado dos quebra-ondas que protegem a entrada do porto onde, segundo a modéstia pernambucana, o Beberibe e o Capibaribe se encontram para formar o Oceano Atlântico. Ao meio-dia entramos nas águas do Iate Clube.

Tão logo desembarcamos, fomos envolvidos por uma onda de hospitalidade irreal. Reencontramos velhos amigos, ganhamos novos, os quais, sabendo do nosso feito, queriam conhecer o Zimbros e interar-se das aventuras e desventuras da nossa viagem. Rapidamente conseguimos uma equipe para desmontar e limpar nosso tanque de diesel. O barco passou por um frisson de gente que chegava e partia a cada minuto. "Beto, viramos celebridade" cochichei para ele. Jotapê, Cleidson, Alcoforado, o comodoro, o vice, o diretor de vela, todos queriam saber das nossas histórias. Em um determinado momento, à noite, estavam à bordo umas dez pessoas e muitos outros reuniam-se no cais flutuante. Era uma enorme confraternização de navegadores. Ah, esqueci de mencionar os três funcionários que trabalhavam na cabine de popa para retirar o tanque de dentro do barco.

A festa continuou pelos próximos dias. A hospitalidade do Cabanga deveria ser exemplo para outras associações náuticas do Brasil afora. Fomos tratados com muita deferência por todos, do mais humilde ao mais graduado funcionário do clube. Em pouco tempo nossos problemas com o combustível foram resolvidos. Mas o melhor de tudo foi que, para minha surpresa, o Cleidson, o popular Torpedo, nos apresentou um técnico em eletrônica que trabalha com aeromodelismo. O moço esteve à bordo e, em menos de uma hora, conseguiu resolver nossa pane com o piloto automático. Era uma invisível oxidação na placa do circuito integrado que ele descobriu e reparou facilmente. Com todas nossas avarias solucionadas, só nos restava partir. Mas o vento lá fora ainda era sudoeste forte e seria muito desgastante seguir contra ele. Esperamos um dia a mais, quando finalmente pudemos sair.

Pouco antes do amanhecer, com a maré cheia, nos despedimos do Iate de Recife que nos havia recebido com muito carinho. Rodrigo tinha que voltar para casa, infelizmente desembarcou e não fez a última perna da viagem. O dia começava a nascer quando saímos do clube. Fora da barra o mar estava calmo e o vento soprava de leste com 10 nós. Junto conosco seguiam também para o sul os veleiros Bicho Papão, do meu amigo Orion e o Jamaluce, do Jens, um gringo doidão com sotaque de gaúcho. Uma frente fria estava prevista para os próximos dias, tínhamos que nos adiantar se quiséssemos chegar à Salvador a tempo de nos livrarmos do tempo ruim. Ficamos em contato pelo rádio e, um pouco mais tarde, Orion e Jens decidiram seguir até Maceió para livrarem-se da instabilidade. Nós resolvemos encarar o trem de frente.


Saída de Recife: ao amanhecer a silhueta do Jamaluce.

Mas os dias seguiram-se bons e os ventos favoráveis. A lua estava quase cheia e seu clarão iluminava a nossa noite. Com o piloto automático trabalhando direito, tudo ficou fácil à bordo. Restava-nos apenas observar o horizonte imutável que nos cercava. À medida que alcançamos o litoral baiano o vento acalmou e fomos obrigados a ligar o motor. "Será a frente?" eu me perguntava a cada instante. Mas o tempo permaneceu firme, embora sem ventos. No final da tarde do nosso terceiro dia de navegação, nos aproximamos da costa e pudemos ver o contorno urbano de Salvador. Escureceu quando passamos no través do Rio Vermelho. Pouco depois, dobramos a ponta do Farol da Barra e entramos na Baia de Todos os Santos. A cidade e suas luzes eram magníficas vistas do mar. É sempre emocionante chegar à Salvador. Mais alguns minutos e manobramos nas águas do Centro Náutico da Bahia. Finalmente chegamos! Aquele era o ponto final de uma odisséia que começou no Mediterrâneo quase dois meses atrás.

Na manhã seguinte iniciamos nossos preparativos para desembarcar. Uma faina enorme, limpar o barco, arrumar as malas, prender os cabos, dezenas e dezenas de pequenos detalhes que não podiam ser esquecidos antes da partida. Eu lavava o convés apenas de calção, sem sapatos. Tinha nas mãos um saco de lixo para jogar fora. Não quis lançá-lo para o trapiche com medo dele abrir-se todo. Desfocado, sem prestar muita atenção, tentei pular do deck de popa para o cais. Calculei mal a distância e não venci o pequeno vão que separava o barco do cais. Caí com todo o meu peso apoiado sobre o dedinho do pé esquerdo. Desabei sobre o cais e, no mesmo instante, senti uma terrível dor no pé. Ao olhar, descobri que tinha feito um enorme corte. Estava cheio de sangue e era possível até enxergar o osso do dedo. Além da dor e do remorso, senti minhas orelhas crescendo como as de um burro. Que mico eu paguei! Havia vencido duas travessias e fui cair feito uma besta logo na chegada. E com um agravante: bem na frente de todos os velejadores conhecidos que estavam por perto. Rapidamente fui socorrido pelos amigos. Uma santa mão me fez uma atadura preventiva e, em seguida, me despachei de táxi direto a um pronto-socorro.

No hospital ganhei oito pontos no pé e severas orientações para evitar qualquer tipo de esforço. Felizmente não havia fratura, mas o pior de tudo foi a imobilidade que me foi imposta. Seria terrível repousar quando havia muito a fazer para deixar o Zimbros nos próximos dois meses. Aprendi a suportar uma travessia oceânica e os dias imóveis que se arrastam lentos à bordo, descobri a domar meus medos durante uma tempestade, mas para mim é quase impossível ficar imóvel, sem poder andar dependendo de todos para tudo. Era mais uma prova que teria que suportar nas semanas seguintes.

Beto foi o primeiro a ir embora. Nocauteado, eu parti logo em seguida. Bob permaneceu uns dias a mais em Salvador, e me ajudou nos intermináveis afazeres com o Zimbros. O que não pudemos terminar, eu deixaria para resolver quando retornasse à Bahia. Procuramos nos poupar de melancólicas despedidas, embora soubéssemos que um grande capítulo da nossa história encerrava-se naquele porto. "Quando poderei navegar com eles de novo?" me perguntei já com saudades daquela dupla.


Salvador: o forte de São Marcelo ao lado do Centro Náutico.