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Depois de seis dias, finalmente chegamos à ilha de São Vicente, no arquipélago de Cabo Verde. A capital Mindelo é a base da maioria dos veleiros que cruzam o Equador, uma encruzilhada de barcos de todas bandeiras. Antes mesmo de jogarmos âncora, fomos abordados por um marinheiro em um pequeno bote inflável, que nos orientou, em português, o melhor lugar para pararmos. Chamava-se Humberto e queria serviço. Estávamos um pouco desconfiados pois tínhamos lido nos guias náuticos que Cabo Verde não era um lugar muito seguro. Ouvíamos um disco da Cesária Évora e o nosso amigo gostou do som. "É a nossa música" disse com simpatia. Bastou alguns minutos de conversa com ele para disssipar toda nossa desconfiança. Fomos à terra em sua companhia e ele nos ajudou com a interminável burocracia das autoridades locais. Apesar de tudo, fomos bem tratados e os caboverdianos são amáveis, principalmente depois de saberem que éramos brasileiros. O futebol nos abriu muitos sorrisos. Cabo Verde é pobre, mas descente. Foi durante cinco séculos colônia de Portugal e língua oficial, além do crioulo, é o português. A maioria da população é negra. Muito parecidos conosco, eles têm a nossa familiar mistura luso- africana. São calorosos, simpáticos e muito musicais. O ritmo está em todos os lugares. Seu som parece um carimbó, um tipo de salsa eletrônia bem dançante. O arquipélago é de origem vulcânica, grande parte das ilhas tem relevo escarpado, sem rios permanentes. O clima é árido e as chuvas escassas. Situa-se a umas 350 milhas das costas do Senegal, o país mais ocidental da África. O Senegal é a fronteira entre o árabe e o negro, onde o deserto dá lugar às florestas. No litoral, à oeste, onde o verde encontra o mar, existe um promontório cujo nome traduz bem essas mudanças: chama-se Cabo Verde. Foi este acidente geográfico que batizou as ilhas ao seu lado no Atlântico e que, ironicamente nada têm de verdes. Abastecemos o Zimbros com ajuda do nosso novo auxiliar, o Humberto. Mesmo assim foi muito difícil conseguir tudo o que precisávamos. Os mercados são fracos e os alimentos frescos raros. Só encontramos enlatados, a maioria importados, alguns do Brasil. Existem poucas verduras e legumes, assim mesmo muito feios. Carne nem pensar, exceto as de peixe. Fomos ao mercado de pescados mas não tivemos coragem de comprar nada. Os produtos ficam todos expostos ao ar livre, sem refrigeração, cheios de moscas sobre os balcões. Mas o mais difícil foi achar água. A ilha é totalmente seca, sem rios perenes, e o abasteciento é feito por dessalinizadores, aparelhos que transformam a água do mar em potável. Para poupar eneriga essas máquinas não funcionam o tempo todo. A água produzida fica parada dentro das tubulações de ferro, que acabam enferrujando. A água é poluida e não indicada para consumo humano. Tívemos um enorme trabalho para tomar banho, cada gota valia seu peso em ouro. Abastecemos o Zimbros em um velho cais pesqueiro e aproveitamos a mangueira para uma merecida ducha. Não misturamos a água de Cabo Verde com a que tínhamos à bordo, colocada nas Canárias.
Gastamos toda a tarde e a manhã seguinte com essas funções. À noite, cansados e com calor, sentamos Bob e eu em um simpático boteco de esquina com mesas na calçada. Ficamos observando o movimento de final de expediente e o perfil sensual das mulheres, negras lindas que sempre habitaram o imaginário erótico e solitário de todos os navegadores, desde o primeiro português que desembarcou naquelas paradas. Comemos um delicioso peixe à moda da ilha e tomamos um vinho branco português, bom e barato. Na segunda garrafa começamos a nos achar inteligentes, bonitos e simpáticos. Eu sabia que Cesária Évora morava em Mindelo. A moça que nos atendia informou que sua casa não era longe. Foi o que bastou para irmos lá. Inventamos uma mentira qualquer para contar e, com a maior cara de pau, batemos na casa da cantora. Quem atendeu foi seu criado, um viadinho cheio de trejeitos. Nos disse que Cesária estava em Paris, do contrário seria um prazer para ela nos receber. Porra, que pena! Teria dado uma boa história aquele encontro. Fico devendo essa para você leitor. Talvez em Recife eu veja o Alceu Valença... Ficamos parados pouco menos que 24 horas em São Vicente. Na manhã seguinte, resolvidos os últimos detalhes, levantamos âncora das águas claras do Porto Grande de Mindelo. Antes porém deixamos uma lembrança no caderno de recordações do Humberto: um texto-cabeça e poético que fiz inspirado nas meta-linguagens do Antonio Garcia. Lentamente deixamos a baia para trás. Humberto nos acenava por entre os barcos fundeados na enseada. Foi uma bela imagem! Era nossa última escala em terras estrangeiras. Próxima parada: Portinho em Fernando de Noronha, 1.300 milhas sudoeste, rumo 210º. Passaríamos ao lado dos Rochedos de São Pedro e São Paulo, a 1.000 milhas de distância. Por muitas horas ainda nos acompanhou a vista do pico da ilha de Santo Antão, vizinha de São Vicente. O piloto automático começou a dar problemas e não queria funcionar. Apertamos todos os botões que tínhamos direito e pareceu adiantar. "Deus me livre ficar sem piloto, tão longe de casa" pensei angustiado. O vento fora do porto era leste, variava de 10 a 18 nós e o mar estava bom. Assim seguimos por três dias inteiros, horas e horas imperturbáveis, quase sempre iguais mas nunca enfadonhas. Estávamos todos com o astral muito alto. Nossa conversa era ótima, sempre sobre música, viagens, sonhos e planos para o futuro. Sentia saudades de casa e lá fora o mundo vinha pelas ondas curtas do nosso radinho de pilha: atentados no Egito, eleições na América do Norte, golpe de estado na Guiné Bissau, eram sempre as mesmas más notícias a nos convencer que o nosso pequeno mundo flutuante estava perfeito. Na madrugada do quinto dia o piloto automático deixou de funcionar definitivamente. Foi uma notícia terrível já que, a partir de então, teríamos que levar o Zimbros na mão. Pela manhã tentamos todas as alternativas possíveis sem sucesso, o defeito parecia ser nos circuitos eletrônicos. Betinho ficou furioso como eu nunca o tinha visto antes. Ele é muito equilibrado e jamais perde as estribeiras. Fiquei preocupado e antes que o desânimo tomasse conta, Bob rapidamente pegou o leme e completou: "Isso não é nada grave, sempre naveguei sem piloto. Pode deixar que eu toco o barco sem problema nenhum". Foi uma boa chamada para nós dois que já estávamos nos entregando. A partir de então nos dividimos em turnos de duas horas cada um no leme. Com o tempo, descobrimos que era possível amarrar o timão a um pequeno cabo e, com as velas bem equilibradas, o barco reagia bem e seguia seu rumo sem derivar muito. Mas era uma gambiarra dos diabos e tínhamos que estar sempre de olho para que o Zimbros não entrasse no vento. Bem humorados, batizamos a invenção com o sugestivo nove de Limitator de Piloto Tabajara.
A mil milhas de Noronha, no paralelo 10 norte, chegamos na famosa Zona de Interconvergência Tropical e o vento mixou por completo. É uma área de calmarias, a transição entre os alíseos do hemisfério norte e do sul. Varia muito de tamanho e chega a ter, certas épocas do ano, quase 600 milhas de largura. Mas já sabíamos disso e nos preparamos para seguir a motor por três ou quatro dias. Ficou quente e a temperatura da água chegou aos 30º C. Rumo ao sul, os dias eram lentos, mas nunca monótonos. Em algum momento, Beto e Bob viram um cardume de orcas que emergiu rápido por bombordo. No outro dia, a poucos metros de nós, passou um enorme sailfish azul, seguindo pela superfície d'água, impassível para o norte com sua enorme nadadeira dorsal servindo de vela. Uma tarde fisgamos um dourado de uns 5 quilos. O bicho era de briga, pulou fora d'água duas vezes seguidas. Foi quando pudemos ver num flash seu suculento perfil. Mas infelizemnte a linha não aguentou o tranco e o peixe fugiu, levando na boca minha preciosa rapala. Me connvenci muito tarde que deveria dar um upgrade em meus equipamentos de pesca.
Faltavam mais de 600 milhas para Noronha, quase a metade do percursso e nada dos ventos. O tempo era estranho com nuvens de tempestades por todos os lados e o mar estava liso, mas com um aspecto sombrio. Chovia e fazia sol várias vezes ao dia. Pegamos algumas tormentas tropicais com muita chuva e vento. Perdemos a adriça da genoa em uma pauleira dessas. Felizmente tínhamos outra de reserva, mas fiquei preocupado em perdê-la novamente, pois teria que subir no mastro para fazer algum eventual reparo. Mas, para meu alívio, não foi preciso. Aproveitamos alguns dos aguaçeiros para tomar refrescantes banhos. Parados no mar, o Zimbros boiando no meio do nada, mergulhamos nas águas quentes tropicais e nos deleitamos com a chuva abundandante que caía de graça do céu. Foi um banho único, uma infantil sensação de prazer nos inundou. Um barco custa muito caro; um cruzeiro pelo mundo também não é barato; mas tomar banho de chuva no meio do Atlântico, não tem preço.
No paralelo 5 norte, pudemos velejar por algumas horas com o que pensávamos ser os alíseos. Mas foi só ilusão. As chuvas voltaram trazendo consigo a antiga inconstância dos ventos. Um fascinante arco-iris inteiro apareceu depois de uma borrasca. A brisa virou um temporal e passou a soprar de sudeste, muito desigual. Mas suficiente para tornar o mar ruim e desconfortável. Passamos a dormir pouco e mal. O nosso piloto Tabajara era uma piada e funcionava no padrão do Casseta & Planeta, só que sem graça nenhuma. Procuramos levar nosso cotidiano do jeito menos ruim possível. Era impossível cozinhar, e o nosso cardápio se resumia a alguns enlatados que o Betinho melhorava com alguma arte. O resto do tempo cada um ficava o mais imóvel possível, esperando que aquele mal estar durasse pouco. Era impossível ler ou escrever. Pelo menos a música era boa. Gravei antes de partir alguns cds em formato mp3 com todos os estilos de música que gosto. Alguns, que nunca ouvíamos, eram de black music, hip-hop misturados com rhithm and blues, outros de fusion e reggae. Já não aguentava mais os de jazz e música brasileira que se repetiam infinitamente. Resolvi trocar para os novos, mas Bob achou ruim e queria tirá-los do aparelho. Como não deixei, ele pediu ao Betinho que me convencesse a fazê-lo. "Porra Betinho, você quer mesmo mudar esse som tão legal?" perguntei-lhe contrariado. Como o Beto não é de polêmicas, negou. "Então fica esta porra. Aqui no Zimbros vale a democracia" dei meu recado. "A democracia da Guiné Bissau" completou ele bem baixinho, fazendo uma irônica referência ao triste país da costa africana, cujo governo havia sido deposto alguns dias antes. Foi uma gargalhada geral que se escutou no meio do mar. Em homenagem a esse gol de placa, mudei o som e voltaram os Coltrane e os Duke Ellington de sempre. Aos 2 graus de latidude norte entraram finalmente os alíseos de sudeste. Eram de frente e variavam de 10 a 15 nós. Seguíamos em orça bem fechada. A tendência é que os ventos e as correntes arrastem para oeste, em direção ao Caribe, todos veleiros que sequem para baixo no Atlântico. A partir do Equador, os elementos passam a ser contrários para quem veleja para o sul. Cruzamos com um enorme barco de pesca espanhol que voltava para seu país, vindo da Argentina. Nos confirmou que o tempo para baixo estava feio, com ondas grandes e ventos fortes. O operador do rádio pareceu assustado com o tamanho do nosso barco e com a nossa aventura. A sua apreensão me contaminou um pouco, mas guardei silêncio dos meus temores. Cruzamos o Equador na altura do meridiano 30. Faltavam pouco menos que dois dias para a chegada, começamos nossa contagem regressiva para Noronha. As sinistras previsões do barco espanhol confirmaram-se e o vento aumentou para 25 nós. O mar também. Deixamos a genoa no tamanho de uma pequena buja. Ficamos mais estáveis mas fugimos do rumo, já que a vela de proa quando enrolada, perde seu desenho e diminui a capacidade de orça do barco. Daquele jeito não íamos alcançar Noronha. As noites eram terríveis, a cada minuto uma onda invadia o cockpit e molhava tudo, principalmente o timoneiro. Era impossível tirar a cara para fora da cabine sem roupa de mau tempo. Recolhemos a genoa e ligamos o motor. Funcionou com o rumo, mas pouco tempo depois o motor pifou. O balanço excessivo do mar fez com que a sujeira do tanque de combustível se misturasse ao diesel, entupindo seu fluxo. Tudo parecia estar na contramão, começei a ficar preocupado. Betinho abriu o compartimento de máquina, meteu metade do corpo lá dentro e se pôs a trabalhar numa situação horrível, já que o barco jogava de um lado para o outro. Abri um pouco a vela para nos dar sustentação e começamos a andar muito devagar. Finalmente, após uns minutos que pareceram eternos, Beto gritou lá de baixo para eu tentar a partida. Girei a chave e, alguns solavancos depois, VRUMMMM, o motor afortunadamente pegou, para alívio de todos. Grande Beto, nos tirou de uma enrascada na hora certa. Beto e Bob são dois caras que fazem a diferença à bordo. Mais tarde, quando chegamos ao Brasil, muitos amigos velejadores surpreenderam-se com o fato de termos feito tantas milhas sem quaisquer danos maiores à bordo. Nada importante quebrou no Zimbros durante toda a viagem. A explicação é que fizemos um time perfeito, sabíamos das restrições do barco e sempre encaramos o tempo ruim com muita cautela, nos antecipando aos perigos. Nossa maior preocupação sempre foi com a segurança. O bom entendimento fez com que suportássemos as adversidades com sangue-frio e humor. A experiência do Bob e a competência do Beto foram fundamentais nas horas difíceis, iguais aquelas que estávamos vivendo. Eu próprio tenho minhas limitações e inseguranças. Mas sou consciente dos meus vazios e procuro compensar meus defeitos escolhendo companheiros que tenham as habilidades que me faltam. Faltava pouco, menos que cem milhas para nosso destino. Decidimos desligar o motor, assim poderíamos poupá-lo para as manobras da chegada. Por tentativa e erro, descobrimos que com a vela mestra no segundo rizo e a genoa toda aberta, conseguíamos orçar bem mais, apesar do mar enorme e da molhadeira à bordo. Aos poucos fomos recuperando a altura perdida e voltamos ao rumo de Noronha. O Zimbros começou a andar muito bem, chegando facilmente aos 8 nós de velocidade. Mas o último dia foi cruel. Ficou muito desconfortável e mal conseguimos nos alimentar. Mas não perdemos a classe. Abrimos um último Rioja e o degustamos com um fantástico Roquefor cremoso que sobrou das Canárias. Hay que sofrer pero sin perder a elegância jamas. À meia-noite do décimo dia, lenta e cuidadosamente, passamos pelo través da Ilha Rata e jogamos âncora nas águas do Portinho, a enseada protegida pela ponta de Santo Antonio no arquipélago de Fenando de Noronha. Havia sido uma odisséia! Descobri que o pior no mar não é o tamanho das ondas nem a força do vento. É o tempo que passamos sujeitos a eles. Os últimos quatro dias foram muito duros e adversos. Apesar dos ventos não terem ultrapassado os 30 nós e as ondas nunca serem maiores que os 5 metros, o pior de tudo foi o longo tempo que passamos naquela situação. É preciso ser forte e ter muito saco para agüentar a pressão do desconforto. Mas estávamos em casa, enfim fundeados em águas brasileiras. No meio da noite dei um refrescante mergulho para comemorar nosso feito. Fui dormir feliz e aliviado.
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