Parte 33


Ceuta e o estreito de Gibraltar

Ceuta fica no sul do estreito de Gibraltar. É um dos apoios das colunas de Hércules da antiguidade, a garganta do mundo a partir de onde só existiam dragões. Quatorze quilômetros a separam das costas da Europa. A cidade está localizada sobre um istmo que avança para o mar no sentido oeste-leste. Ao sul deste cabo fica o porto e a pequena marina. Depois de uma exótica viagem ao interior do Marrocos, deixamos a cidade em uma sexta-feira ensolarada e quente. Um dia que, segundo as supertições náuticas, não é aconselhável partir. Mas não tínhamos escolha, Antonio tinha voltado à Sevilha e restava apenas nos lançarmos ao mar e encarar, sem resignação, os desafios do grande Atlântico.

Largamos as amarras pouco depois do meio-dia para aproveitar a hora da maré vazante, ideal para quem deixa o Mediterrâneo. Ao lado da polícia marítima notamos uma cena incomum. As autoridades retiravam d'água um enorme embrulho com vários pacotes de haxixe, cuidadosamente embalados para que não molhassem. Foi uma surpresa, pois quando chegamos à Ceuta, havíamos visto um igual àquele boiando próximo ao litoral. Valia uma fortuna no outro lado do estreito. Não pudemos deixar de imaginar, por brincadeira, o dinheiro que poderíamos faturar se tivéssemos embarcado aquela carga ilegal. Ao sair encontramos um vento forte do lado de fora. Não estávamos esperando um tempo daqueles.Voltamos para dentro do porto e nos prepararmos para agüentar a pauleira. Rizamos as velas, colocamos nossos abrigos impermeáveis e voltamos ao mar aberto. Ao largo, um enorme navio de passageiros esperava o embarque dos turistas que haviam passado o dia em terra. O vento era o famoso poente, soprava de oeste com vinte e sete nós. Tínhamos que seguir em orça fechada para vencer Ponta Leona, um pequeno cabo na saída de Ceuta. Parecia até brincadeira de mau gosto, ter que sair de Gibraltar com vento contra e forte. Nossa entrada, um mês antes fora nas mesmas condições. O estreito mais uma vez confirmava sua má fama.

Com dificuldade passamos por Ponta Leona. O mar em alguns pontos parecia ferver. Era o encontro das marés que fluíam pelo estreito com suas correntes indomáveis. O Zimbros seguia lentamente e parecia que nunca conseguiria vencer o trecho. Mais tarde quando nos aproximamos da baia de Tanger, notamos um navio-patrulha manobrando na nossa proa. Mesmo com binóculos não conseguimos distinguir sua nacionalidade, já que não havia em sua popa a bandeira do país de origem, obrigatória em todos os barcos do mundo. No convés alguns marinheiros confusos tentavam desembarcar um pequeno bote de borracha. Ao nos aproximarmos mais, o navio manobrou de ré tentando chegar próximo a nós vindo de popa. Parecia o samba do crioulo doido. De dentro do bote inflável alguns marinheiros nos acenaram. A encrenca era conosco! Diminuímos a marcha e fomos ao encontro deles. Acercaram-se de nós e um dos marinheiros tentou subir à bordo. Desajeitado, não caiu no mar porque corri em sua ajuda e dei-lhe a mão para puxá-lo ao convés.

Tinha um aspecto horrível, todo molhado, com roupas civis e um ridículo chinelo parecido com nosso rider. Sem identificação alguma que o apresentasse como um oficial da aduana marroquina, entrou à bordo sem desculpas nem licenças, exigindo nossos passaportes. Tirou do bolso um pequeno papel amassado e, com uma caneta nossa, anotou o número dos nossos documentos. Nós três estávamos perplexos. Se não fosse o navio-patrulha estacionado lá fora, aquele desconhecido poderia muito bem se passar por um pirata. Ao examinar os documentos do Bob achou ruim o fato dele ter dois passaportes. "É que um deles contém o visto americano" explicamos. Mas o cara não se convenceu e passou a nos olhar como contrabandistas. Resolveu dar uma geral à bordo. Começou por revistar o camarote de proa, depois passou para o resto do barco. Sentou-se todo molhado nas camas e revirou tudo em busca de alguma muamba. Bob argumentou que não levávamos nenhum tipo de drogas, nem contrabando. Ele respondeu que, se não cooperássemos, poderia trazer para bordo um cachorro farejador dos brabos. Ameaçados nos calamos e aguardamos que o nosso hóspede vasculhasse todos os cantos do barco para enfim se convencer que não éramos traficantes. A única droga à bordo era aquela merda toda! Um interminável tempo depois, da mesma forma que veio, se foi sem explicações, desculpas ou despedidas. Foi um alívio vê-lo pelas costas.


Navio-patrula marroquino: geral à bordo.

Após essa inoportuna visita seguimos nosso rumo navegando próximo à costa. Com vento e corrente contra, em oito horas tínhamos vencido apenas trinta milhas. Ao escurecer dobramos o Cabo Spartel a partir do qual a costa da África corre no sentido sudoeste. As correntes nos ficaram mais favoráveis e começamos a andar um pouco melhor. A meia-noite afogaram-se no breu as últimas luzes do continente africano. O dia seguinte amanheceu sem vento. Evoluímos lentamente no nosso longo caminho de volta para casa, pouco mais que 130 milhas em 24 horas, uma média medíocre. Mais tarde, para nossa preocupação, descobrimos que nos restava pouco gás de cozinha e que teríamos que economizar o máximo na hora de cozinhar. Mas se navegar é preciso, saber poupar é muito mais.

No dia 26 de setembro, um domingo nublado, finalmente ganhamos um presente especial: os alíseos. Desligamos o motor. Esses ventos são, desde tempos imemoráveis, uma benção para os que navegam. Um combustível fiel e barato para velejadores de todas as épocas. Tenho uma teoria segundo a qual nosso continente sul americano foi achado e colonizado por portugueses e espanhóis por conseqüência desses ventos. É claro que nossas riquezas naturais também ajudaram, mas se não fosse a facilidade e a constância dos alíseos, talvez nosso destino tivesse sido outro. Lá pelo final da tarde, Bob, cheio de pudores e vergonha, nos diz que era seu aniversário. Foi o que bastou para organizarmos uma festa em homenagem aos seus 67 anos. Ele tem uma boa folha corrida de vida, e eu gostaria eu de poder chegar na sua idade com a mesma disposição, lucidez e elegância dele. Parabéns Bob!

Com os alíseos de norte soprando constante e fielmente, seguimos de vento em popa, literalmente. Armamos as velas em asa-de-pombo e pudemos recuperar um pouco do tempo perdido na saída. Quando faltava menos que um dia para chegarmos às Canárias, surgiu uma dúvida quanto ao nosso destino: aportar em Tenerife ou em Gran Canária? Deixamos que o vento decidisse, já que ele estava rondando para noroeste e não queríamos mexer nas velas. À noite andamos muito bem com todas as velas brilhando na lua cheia que, finalmente, resolveu aparecer. Uma faixa prateada sobre a superfície tranqüila do mar deixava a noite clara como o dia. Ao amanhecer resolvemos arribar para Las Palmas, aonde chegamos perto do meio-dia, horário local. Foram 700 milhas desde Ceuta. Cinco dias de viagem, camaradagem e comemorações.

Pedimos autorização para entrar no Muelle Deportivo de Las Palmas e fomos informados que só poderíamos ficar lá no máximo por dois dias. Estavam lotados devido a uma regata oceânica que aconteceria no próximo sábado. Além desse evento, dentro de algumas semanas iria rolar a famosa regata ARC 2004, a Atlantic Rally for Cruisers, que todos os anos sai de Las Palmas em novembro rumo à Santa Lúcia no Caribe. Mais um rally do que uma regata, é a mais popular maneira de se cruzar o Atlântico para os que têm o barco na Europa. Dizem ser o mais longo evento náutico do mundo, com um percurso aproximado de 2.700 milhas. Reunem-se todos os veleiros que fogem do inverno europeu em direção ao calor antilhano. Mais de duzentos barcos largam com os tradewind de nordeste, os ventos favoráveis do hemisfério norte usados desde o passado por todos os navegantes em busca do novo Continente.


Muelle Deportivo de Las Palmas: parada no meio do Atlântico

Uma vez no cais, tivemos oportunidade de conhecer muitos desses aventureiros que aguardam, ansiosos e cheios de histórias, a hora da partida. O Zimbros virou então um ponto de encontro dos novos amigos. Certa hora estavam à bordo, além de nós, Eli e Julian, um casal espanhol que seguia para o Caribe, John e Ashley, sul-africanos e Francesco, italiano, os três vindos da África do Sul para o Mediterrâneo. Depois de algumas canas, cada um falava seu próprio idioma e todos nos entendíamos como se fôssemos amigos desde sempre. Foi um bom momento que passamos juntos. Tínhamos em comum além da febre de navegar, a vontade de trocar nossas experiências náuticas. Nos restava pouco tempo, e o fato de todos sabermos de cor que aquela união era fugaz, nos fazia viver intensamente cada momento. Convencemos Eli e Julian a mudarem seu rumo para o Brasil. Como estavam em busca de aventuras mais emocionantes, Bob acertou na mosca: "A Bahia é mil vezes melhor que o Caribe" afirmou convicto. Dei a eles de presente um guia náutico do litoral baiano feito pelo velejador Hélio Magalhães. Sua maior preocupação era com a segurança pois, infelizmente, as únicas notícias do Brasil que chegam até lá são da nossa violência. Agimos como embaixadores, mostrando ao casal que a violência tão propagada pela mídia existe sim, mas é pontual e passa longe das nossas enseadas. É claro que é preciso ficar sempre de olhos bem abertos, precauções que têm que ser tomadas em qualquer porto do planeta.



Las Palmas e os novos amigos: acima, Julian e Eli; abaixo, entre Betinho e Bob, Ashley e Francesco.

Nossa escala em Las Palmas durou só o necessário para reequiparmos o Zimbros e, assim que nada mais nos faltava à bordo, soltamos os cabos de amarração do cais. Teríamos pela frente muitas milhas até Cabo Verde. Na hora da partida fomos presenteados com uma calorosa despedida dos amigos que ficaram. Ao longe nas pedras do mole, Francesco e Ashley nos fizeram uma homenagem ao estilo da marinha italiana: ambos perfilados em posição marcial sopraram seus estridentes apitos por três vezes consecutivas em um pungente sinal de adeus. Outro amigo, o gerente do posto de abastecimento e da loja de conveniência da marina, fez soar uma poderosa buzina nos desejando sorte. Julian pelo rádio nos mandou bons fluídos. Gestos como esses são de encher a alma! Mais uma vez nosso barco partia rumo às incertezas do oceano. Em terra, amigos inesquecíveis nos desejavam bons ventos.

Las Palmas tem a forma de um triângulo alongado no sentido norte-sul. Uma enorme montanha central passa dos 2.000 metros de altura. A ilha é escarpada e muda de altura em poucos quilômetros. Gastamos duas horas para deixá-la para trás e, assim que ficamos a salvo de seu enorme relevo, o vento nos apanhou pela popa com 25 nós. Ajudado pela fria Corrente das Canárias, com todas as velas em cima, o Zimbros alcançou com facilidade a velocidade espantosa de 10 nós. A princípio comemoramos nossa média mas, depois durante a madrugada, o vento aumentou muito e nosso barco chegou a alcançar 14 nós na descida das ondas. Apesar do Zimbros seguir com estabilidade e o piloto automático responder com precisão, ficamos inquietos com a possibilidade do barco atravessar numa onda. Atravessar significa perder o controle do rumo pelo desequilíbrio provocado pela força das ondas e das velas. O barco vira de lado na descida da vaga, tomba e é arrastado por ela. Às vezes chega até a encostar o mastro dentro d'água. Quem estiver no cockpit, sem cinto de segurança, é arremessado para fora sem dó. Pode ser fatal, e é um dos piores acidentes que pode acontecer em um veleiro. Tão feio que prefiro nem seguir com esse assunto. Betinho, o mais preocupado, mal conseguiu dormir com os olhos pregados no chart-ploter que mostrava, com todas as luzes a evolução da nossa corrida. Às cinco da madrugada o mar estava um horror, super desconfortável. Não tivemos escolha, com um sufoco dos diabos, no escuro, fechamos a genoa, aproamos o Zimbros no vento e rizamos a vela grande.

O vento permaneceu duro até o final da tarde seguinte quando acalmou de vez. À noite fomos obrigados a ligar o motor. Permanecemos assim até o próximo amanhecer em que, para alívio da tripulação, voltaram os alíseos de norte. Tínhamos pegado alguma zona de baixa pressão ao deixarmos as Canárias, o que fez mudar o sistema de isobáricas de toda a região. Estávamos no paralelo 26 norte, o mesmo do Cabo Bojador, o mítico promontório nas costas da África que permaneceu, durante séculos, o limite último do universo português no século XV. Ao contrário do que afirmava a Igreja Católica, a circunferência da terra já era conhecida por todos os navegadores da antigüidade. Pensava-se contudo que a partir do Bojador os mares eram cheios de monstros, e que qualquer embarcação que se aventurasse além do Equador escorregaria sem perdão para baixo do planeta pela força da gravidade. Todas estas supertições foram dissipadas graças a intrepidez de bravos como Gil Eanes, o navegante português que venceu o cabo em 1439. A partir de então rompeu-se uma importante barreira psicológica à navegação. "Quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor" escreveu o Pessoa.

Armamos as velas em asa-de-pombo, ou seja, cada uma delas aberta para um lado do barco. A genoa com ajuda do pau de spinaker permanece a barlavento e a mestra, a sotavento, é presa ao convés por um cabo chamado preventer ou contra-escota. Isso evita o jaibe, quando a retranca é violentamente jogada de um lado para outro sobre o convés. Pode ser grave se encontrar no caminho a cabeça de algum grumete distraído. Eric Tabarly morreu disso. Mas, sempre prevenidos, passamos longe dos riscos. Tocamos o Zimbros com segurança e as milhas iam ficando para trás hora após hora. A cada dia estávamos mais perto do nosso próximo porto. Seguíamos acompanhando a inclinação das costas da África. À noite, só no convés, a mente à deriva nos intermináveis turnos da madrugada, eu escutava na FM de um pequeno rádio de pilha as estações africanas. Sentia uma terrível sensação de isolamento e apenas o rádio me unia ao longínquo litoral que passava ao lado, dentro da noite terrível e para sempre lembrada. Estávamos no través da Mauritânia, no meio do nada. A mim só restava acalmar as tormentas do coração, rezar e pedir para chegar logo e em segurança.

Eu trazia desde o Mediterrâneo uma linha de arrasto para tentar pescar algo. Depois de alguns dias no mar, o gelo acaba e não há como ter comida fresca à bordo. Um peixe sempre é bem vindo. Mas como sou um pescador incompetente e meu equipamento era muito primário, só fiz perder muitas iscas ao longo do caminho. Finalmente, em uma manhã brilhante, senti uma fisgada na linha e, em pouco tempo, embarcamos um pequeno dourado, com cerca de um quilo. Nada de mais, exceto pelo fato de ser o nosso primeiro peixe em muitas milhas. Bob esnobe disse que aquilo não era peixe, e que os bons estavam mesmo em Fernando de Noronha. Um blá, blá, blá sem fundamento. Dei uma bronca nele, pois aquele dourado era o melhor que podíamos ter no momento. "Melhor um peixe ruim na mão do que centenas bons no mar, caralho" disse-lhe no linguajar marinheiro. O tio Bob é uma peça rara, um pentelho que todos amam. Como todo carioca é um sedutor, cheio de charme que adora contar vantagens. Polêmico, gosta de contradizer a tudo e a todos, sobretudo a si mesmo. Gastamos horas e mais horas, eu e ele, discutido todos os temas. Música, livros, idéias, besteiras, tudo era motivo para embates. E nós sempre em lados opostos. Foi um excelente passatempo nas horas sem fim que passamos cercados de água por todos os lados. Uma das suas grandes tiradas foi quando nos contou que seus esportes favoritos eram dois: fazer sexo e caminhar. "Não necessariamente nessa ordem. Às seis da manhã, por exemplo, prefiro caminhar..." fulminou com humor.


Um pequeno dourado: o único peixe em toda a travessia.

Permanecemos três dias com vento norte variando de 10 a 20 nós. Uma velejada perfeita, já que por três dias não tocamos nas velas um dedo sequer! Na noite anterior à chegada o vento acalmou e fomos obrigados a ligar o motor. Na manhã seguinte, logo cedo, pudemos distinguir ao longe, o relevo calcinado da ilha de São Vicente. Ao meio-dia entramos na enseada do Porto Grande de Mindelo. Fizemos 860 milhas em seis dias, uma excelente média diária de 150 milhas. Na baia observamos emocionados a pequena cidade com suas construções baixas e seus telhados de zinco. Lembra um pouco nossa arquitetura colonial portuguesa. A vegetação é escassa e com poucas árvores. Uma paisagem lunar, bela e trágica, ao mesmo tempo encanta e assombra. Velhos cargueiros com aparência de abandono e um moderno ferry aguardando seus passageiros, estavam ancorados no porto ao lado. Em frente, na área destinada aos cruzeiristas, alguns poucos veleiros ancorados faziam bonito na paisagem. Barcos do tipo heróico, rodados, daqueles que pelo perfil viam-se que eram de longo alcance e grandes horizontes. Nada de luxo, apenas lobos do mar calejados dando um tempo naquele porto de fim de mundo. Uma incrível sensação de vitória tomou conta da tripulação. Nós também fazíamos parte daquele mundo.

São Vicente é uma das dezenas de ilhas que compõe o arquipélago de Cabo Verde que, aliás, de verde não tem nada. Mas é assim denominado porque... Bem, isso é assunto para o próximo capítulo. Aguarde!


Ilha de São Vicente em Cabo Verde: parada em Porto Grande de Mindelo.