Parte 32


Embarcação fenícia: domínio naval do todo o Mediterrâneo.

Barcelona foi nosso derradeiro porto em território europeu. A partir de lá demos início à longa volta para casa. Muita água ainda nos aguardava pela proa até a Bahia. Deixamos a Porto Veil Marina em uma sexta-feira ensolarada e quente. Emoção na saída, afinal não se despede assim, sem mais nem menos, de Barcelona, da Espanha e da Europa. A noite foi tranqüila e o mar calmo. O céu ficou pequeno para tantas estrelas. Amanheceu deslumbrante e seguíamos ora na vela, ora no motor. Às dez da manhã o calor era denso. Aliviava um pouco a fraca brisa que parecia vir de todos os lados. O passatempo era dormir, comer, ler e muita conversa, sobre todos os temas: música, cinema, musas...

Nosso estoque de assuntos sempre foram intermináveis. Como Bob adora filmes, apesar de ele ser do tempo do cinema mudo, quis saber quem eram as suas divas favoritas das telas. Ele não demorou para responder: "Catherine Deneuve, Lauren Bacall e Catherine Hepburn". Boas escolhas, gosto de todas, principalmente da Deneuve. As minhas são Candice Bergen, que sempre amei por seus olhos tristes, Juliete Binoche pelo seu ar de desamparo e Vitória Abril, cujo bocão alimenta minhas fantasias de velejador solitário. Bob aprovou. Betinho, pragmático, não gosta de papo de intelectual, recusou-se a confessar suas preferências.

O calor opressivo me deu vontade de cair na água. Desejo descartado de pronto pelos dois que não são de paradas gratuitas. Lembrei-me que em Las Fuentes, eu havia visto um enorme pôster turístico de umas ilhas chamadas Columbretes. Conferi nas cartas e elas não estavam muito fora da nossa rota. Decidi dar uma pequena parada lá. É um grupo de quatro ilhas vulcânicas localizadas a umas trinta milhas da costa. Um dos melhores lugares do Mediterrâneo para o mergulho e a pesca, parte delas formam uma reserva marinha. A maior, Columbrete Grande, ao norte do arquipélago, é o remanescente de uma cratera com novecentos metros de diâmetro. Abriga um farol e uma pequena guarnição militar. Paramos lá o tempo suficiente para efetuarmos uma limpeza no casco do Zimbros. Zarpamos em seguida.


Columbretes na proa: Betinho aproveita o calor mediterraneo.

Tão logo deixamos o pequeno abrigo da cratera fomos surpreendidos por um vento sul raso, bem na nossa cara. O mar cresceu pouco, mas o suficiente para tornar nosso seguimento desconfortável. Abrimos as velas e arribamos para o continente, navegando em orça fechada, ou seja a quase 45º em relação ao vento. Como é possível um barco velejar contra o vento? Adivinhei sua pergunta? Ele não pode ir diretamente contra, mas pode seguir adiante com ventos de 30º a 45º em relação à proa. A vela funciona como a asa de um avião. O seu formato obriga o fluxo de ar a percorrer um caminho mais longo de um lado do que do outro da vela. Isto produz uma diferença de pressão entre as duas superfícies e o barco na verdade é puxado, e não empurrado, pelo vento. Dependendo do ângulo de incidência da brisa, as velas devem ser folgadas ou cochadas. É uma arte saber regulá-las com precisão. Um talento que não tenho. Meus ajustes são apenas aproximados e eu não levo muito em conta considerações aerodinâmicas.

Navegamos até as onze da noite com um mar ruim, molhado, salgado e frio. Próximos à terra cambamos para bombordo, isto é viramos para a esquerda, direto para o Cabo de la Nao. Com a corrente da maré e a ventania contra, nos pareceu que nunca conseguiríamos vencer aquele promontório. Foi só as seis da manhã, depois de uma noite ruim, que conseguimos deixá-lo por boreste. Logo em seguida o vento como em um passe de mágica acalmou. Parecia até brincadeira de algum deus sacana. O dia que estava meio triste e nublado, ficou azul ensolarado e pudemos ver, a todo instante, velas e iates de passeio cruzando conosco no horizonte. As três da tarde já tínhamos andado 245 milhas, uma excelente média apesar do vento e das correntes contrárias.

As correntes no Mediterrâneo são uma história à parte. Imprevisíveis e irregulares, deixam o mar mexido com ondas curtas e baixas que dificultam muito a navegação. Em outra oportunidade eu já tinha visto, perplexo, duas ondas se chocarem uma contra a outra no meio do mar, levantando um volume respeitável de água para todos os lados. Procuramos seguir bem próximos à costa onde o efeito destas correntes era menor.

Ao por do sol estávamos no través do Cabo de Palos, de novo na Andaluzia. A Espanha é um país formado por diversos outros, cada qual com sua língua, história e cultura próprias. Nunca cometa a gafe de confundi-los, que você pode ser hostilizado, como eu fui quando perguntei se em Valencia se falava catalão. No entardecer tomamos um vinho que Antonio nos tinha presenteado de sua adega, um Rioja Gran Reserva 1995. Coisa fina! Esvaziamos seu conteúdo e jogamos a garrafa no mar com uma mensagem de bêbados poliglotas: "You're a lucky guy. The treasure is inside yourself". Tive o cuidado de colocar o lápis junto, para dar um toque mais materialista ao recado. Bob adorou a poesia do ato!


Beto e Bob: conversas intermináveis sobre todos os temas.

Ao anoitecer fui testemunha de um acontecimento insólito. A lua estava quase cheia e o mar tranqüilo. Só, com meus pensamentos deitado no cockpit, olhava a lua bem acima da minha cabeça. Aos poucos, entretanto, notei que o disco prateado foi diminuindo de tamanho, coberto por uma sombra misteriosa. Em poucos minutos, só era possível ver um anel brilhante no céu. Não pude acreditar, mas testemunhava um singular eclipse. Outro presente dos céus para o Zimbros. Mais tarde, com a lua ainda encoberta, ao passar o turno para o Betinho, alertei-o do eclipse e o deixei na companhia de tão inesperado evento.

As nove da manhã do terceiro dia dobramos o Cabo da Gata e aproamos finalmente para oeste, nosso último trecho ao largo da Espanha. Um vento nordeste bom nos pegou pela alheta. Entramos no Golfo de Almeria com vista para a pequena vila salineira de Almadraba. Ao longe, nos pés de uma inóspita cadeia de montanhas, via-se uma igreja secular e seu velho campanário, impassíveis diante da eternidade. O vento rondou para sudeste com dez nós. Ficamos em um través pai d'égua, sem mar, o sonho de qualquer velejador. Mais algumas horas e vimos Almeria e o majestoso perfil das muralhas do Castelo de Alcazaba.

Tínhamos navegado 400 milhas em três dias. No final da tarde fui chamado ao cockpit pela gritaria do Beto. Inacreditável, estávamos sendo comboiados por um cardume de baleias-piloto. Eram muitas, de todos os tamanhos, seguiram por algum tempo em incríveis acrobacias na proa do Zimbros. As baleias-piloto têm um comprimento médio entre cinco e seis metros, pesando cerca de três toneladas. São parecidas com os golfinhos pela forma da sua cabeça e pela barbatana dorsal mais larga e curva. Estes cetáceos alimentam-se essencialmente de lulas, para isso mergulham bastante fundo, pelo menos a 600 metros de profundidade. Elas têm um sistema de eco-localização bem desenvolvido, devido à falta de luz dessas profundidades. Mas naquele momento estavam todas empenhadas em um luminoso espetáculo. Foi inesquecível. Espetáculos assim fazem uma viagem valer a pena.


Show das baleia-piloto: o Zimbros escoltados por um cardume desses cetáceos.

Na madrugada seguinte, pouco antes de amanhecer, a 30 milhas de Estepona, mudamos novamente o rumo para 230º em direção ao Marrocos. Deixamos para trás, finalmente, o continente europeu. Na fronteira entre dois mundos, o Zimbros avançou na esteira milenar das embarcações que há séculos seguem o rumo do Magreb. Fenícios, romanos, vândalos, visigodos, bizantinos, árabes e ibéricos fizeram uma historia comum ao norte e ao sul do estreito. Atravessamos o Mediterrâneo no seu ponto mais justo para fugir das fortes correntes que vinham do estreito. À bombordo, envolta em eternas brumas, apareceu, por instantes, o imponente monolito de Gibraltar. Navios-patrulha indo e vindo nos mostravam que aquele mar separa duas realidades muito diferentes e que a circulação por ali é rigidamente controlada.

Centenas de imigrantes ilegais, todos os dias tentam desembarcar no litoral mediterrâneo da Europa. Sobretudo na Espanha, pela pouca distância que a separa da África. Eles chegam a pagar o equivalente a três mil dólares cada um para serem transportados ilegalmente até o outro lado do Mediterrâneo. A travessia é feita em barcos muito precários e os acidentes são freqüentes e fatais. Muitos são capturados e devolvidos à sua costa de origem. Outros, com mais sorte, conseguem chegar ao seu incerto destino. Próximos da costa são abandonados em frágeis barcos de borracha e ficam à deriva até alcançarem as praias. Poucos têm conhecimento do mar e nem sequer sabem nadar. Uma vez em terra começa outra luta para sobreviver em um território de angústias. Embora mais civilizado, é muitas vezes mais hostil que sua própria terra.

Um superpetroleiro nos cruzou por boreste vindo do estreito. A sete milhas de distância conseguimos ver a primeira das sete colinas da antiga Septa bizantina. Hoje é Ceuta, um território autônomo espanhol. Um sentimento pulsante de chegada apoderou-se de toda a tripulação. Pouco depois do meio-dia cruzamos os molhes que protegem o ancoradouro da cidade. A África enfim. Foram noventa horas de Barcelona até lá, sem paradas. A marina, junto ao porto, em tudo nos mostrava que não estávamos mais na Europa. Não havia lugares e o cais parecia em desordem. A principio paramos a contrabordo de um troler americano, mas mudamos de lugar por determinação de um funcionário da marina. Mais tarde outro, intitulando-se o chefe do pedaço, nos autorizou a atracar junto a um cais de concreto, que era bem mais confortável.

De tarde chegou Antonio, vindo de ferry-boat desde Algeciras. Foi um grande reencontro, todos estávamos com saudades. Há dias esperávamos aquele momento. Como havíamos combinado por e-mail, alugamos um carro, ultrapassamos a fronteira que divide Ceuta do Marrocos e fomos até Chefchaouem (pronuncia-se Xaouem), uma pequena cidade a cerca de cem quilômetros África adentro. Foi como viajar para o século onze. Chefchaouem, um lugar que ficou fechado para o ocidente até muito recentemente, ainda guarda muito de seu universo medieval. Ao contrário do restante do país, que eu já conhecia de outra aventura, nossa pequena vila era muito mais hospitaleira e calorosa. No final da tarde, sentados num pequeno café com mesas na rua, tomamos um chá de hortelã. Eu queria decifrar os mistérios e enigmas de um mundo tão distante. "Pero el pueblo se defiende de la observación y devora a quem queira decifrá-lo". Antonio é um grande mestre, e nossas conversas, como sempre, flutuavam entre bobagens hilárias e profundas reflexões sobre a razão de ser de tudo. Seria muito vazio estar num lugar daqueles sem suas brilhantes observações.


No caminho de Chefchaouem, Marrocos: viagem ao século onze.

De volta ao porto, mais uma vez preparamos nossa partida. À bordo, amarrados ao cais de concreto, alheio ao tempo e ao mundo, nossas discussões contínuas foram a síntese de toda a viagem. Antonio queria saber qual era a minha sensação de mal chegar, ter que partir logo em seguida. "És la vida de grumete" respondi. No entanto, todos sabíamos que cada encontro, embora efêmero, nos deixava lições que nos vinculava de um modo inesquecível. "Africa, al fin, queda amarrada al Zimbros y Ceuta tal vez comienza a entender su estatuto insensato: cierre poroso e inútil de la humanidad africana, esto es, de toda humanidad. La tripulación se prepara, entonces, para una fuerte tempestad sobre las subjetividades" Antonio de novo. (Leia o texto anexo que ele escreveu sobre nossa viagem. Veja também o Diário de Bordo feito pelo Bob).


Antonio e eu: com o Zimbros amarrado na África:

Forte tempestade sobre as subjetividades, eram assim nossas considerações, quase sempre passionais e abstratas. Na prática nos restava apenas levantar velas e encarar Gibraltar, a porta de saída do grande Mare Nostrum. Nos despedimos de Antonio com tristeza sem saber quando poderíamos vê-lo novamente. Chegadas e partidas, cantou o poeta, uma trilha perfeita para uma tripulação nômade como a nossa. Adios Ceuta, destino: Brasil. Antes porém breves escalas nas Canárias e em Cabo Verde. Não percam os próximos capítulos da nossa aventura.


As sete colinas de Ceuta.