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O Zimbros, com três ilustres novos passageiros: Thaís, minha mulher, André e Flavia, meus filhos, partiu atrasado do balneário de Altea em direção à Ibiza, cerca de setenta milhas à oeste. Dado à hora da largada, meio-dia, chegaríamos, sem esperança, à noite no nosso destino. Mas o dia estava tranqüilo, embora quente, e coberto por uma fina poeira que uma fraca brisa teimava em trazer das costas da África. Seguíamos no rumo leste e, em poucos minutos, cruzamos o meridiano de Greenwich, a linha vertical imaginária que divide o planeta em dois hemisférios e que determina a hora relativa de todos os relógios da terra. Mal anoiteceu, começou a soprar uma brisa de proa, a princípio fraca, mas que foi aumentando a medida que nos aproximávamos do nosso paradeiro. As onze da noite o vento uivava nos estais. Nos abrigamos na escura enseada de Cala Corral, localizada na parte oeste da ilha. O nosso guia náutico nos indicava uma marina que não conseguimos achar no breu das trevas. O vento aumentou mais, e não tivemos outra escolha senão passar a noite ancorados próximos a umas pedras que mal tínhamos condições de avaliar a que distância estavam. Betinho, sempre precavido, preferiu dormir no cockpit, dentro de um saco de dormir providencial que tenho para estas horas. Amanheceu com o vento roncando forte. Ouvia-se apenas o pandemônio desafinado das adriças do Zimbros batendo contra o mastro. Não era a música apropriada que eu pensava oferecer à minha família, justo no seu primeiro dia à bordo. A marina que buscávamos, chamada Coralmar, na verdade não passava apenas de algumas bóias de atracação para pequenas embarcações, impossíveis de serem notadas mesmo de dia. Na verdade, naquele lado da ilha, existem apenas algumas enseadas, as grandes marinas estão do outro lado, a uma grande distância de onde jogamos nossa âncora. Surgiu uma dúvida cruel: ou ficávamos parados ao abrigo do vento na parte menos interessante de Ibiza, ou enfrentávamos algumas horas de sofrimento até os modernos abrigos à barlavento. Decidi rápido, mas confesso hoje que não sei se foi a melhor escolha. Preparados para o combate, levantamos âncora em busca das luzes e do brilho da capital da badalação e do exibicionismo: Ibiza. Ao dobrarmos o lado sul das pedras, no canal formado por Ibiza e Es Vedranell, o vento encanado acelerou e chegou a trinta nós, felizmente sem ondas. A partir de lá, fomos contornando uma sucessão interminável de promontórios e pontas rochosas e, a cada curva, o vento e o mar pareciam mais duros. Quando pensávamos estar a apenas algumas milhas do nosso porto, no través da Torre des ses Portes, concluímos que a passagem por aquela ponta era muito arriscada dada à força do vento e a algumas pedras de arrepiar, semi-submersas, que enxergávamos bem no meio do nosso caminho. O que fazer? Mais uma pergunta atroz em meio a tribuzana implacável. E o pior, a tripulação recém embarcada já estava demonstrando sinais indisfarçáveis de ódio ao comandante. Nada daquilo fazia parte das idílicas descrições que eu havia feito do nosso cruzeiro no Mediterrâneo. Decidi voltar, mas quando regulamos as velas para o retorno, vimos ao longe, próximo à Illa des Penjats, um enorme ferry-boat cruzar uma bóia de sinalização entre ambas. Mais uma contra ordem, e resolvi encarar o canal. Uma vez vencida aquela passagem, faltariam menos que cinco milhas até nosso porto salvador. "Uma hora a mais de sofrimento, e estamos à salvo dentro da marina" pensei. Foi uma ilusão vã. O que passou foi que, ao vencermos a bóia, ficamos ao sabor das correntes e ondas que vinham de leste, contra as quais estávamos abrigados pelo relevo de Ibiza. O mar cresceu muito com vagas irregulares e imprevisíveis. O Zimbros, embora navegando com vento de lado, calçado nas velas, parecia um brinquedo de criança dentro de uma máquina de lavar roupas. Beto no leme, Bob, André e eu em pé no cockpit, ninguém emitia uma só palavra. Mas lá de dentro o choro das minhas pequenas, assustadas e enjoadas pelo balanço, foi de cortar meu coração. "Que merda que eu fui inventar?" era só o que me passava pela cabeça, cheia de remorsos. O sofrimento durou uma eternidade, até que nos pusemos a salvo nas enormes pedras que marcam a entrada do porto e, em águas plácidas, prendemos nossas amarras no moderno e grandioso cais da marina Ibiza Nueva. Para minha surpresa, tão logo as garotas desembarcaram, pareciam novas em folha, como se nada tivesse acontecido. Em minutos tomaram um banho e estavam prontas, super fashion, bolsinhas na mão, para um passeio de reconhecimento básico do território. Descobri que a curiosidade é um santo remédio para enjôos à bordo. E Ibiza é um labirinto de novidades e de divertimentos mundanos no Mediterrâneo. Mas é também cidade Patrimônio da Humanidade. Fundada pelos fenícios no século VII aC, se converteu mais tarde em cidade púnica e depois romana. Posteriormente virou a Madina Yabisa islâmica. No século XIII, conquistada pelos catalães, incorporou-se à coroa de Aragão.Terra sobre o mar foi, desde sempre, encruzilhada de navegantes, mercadores e corsários. Destino, pousada e escala de todas as rotas entre o estreito e o oriente. Da baia vê-se o perfil dos seus edifícios contra o céu: a Catedral, o Castelo e as muralhas renascentistas. Dentro do cinturão fortificado amontoam-se as construções da Dalt Vila, a cidade alta. São museus, ateliês, residências, restaurantes e um comércio muito sofisticado. Além dos muros, quase ao nível do mar, ficam os bairros chiques, o porto e as marinas. Uma ilha que merece muito tempo para ser explorada.
Mas, dois dias depois, partimos de volta ao continente. Tivemos que cancelar nosso projeto de seguir até Mallorca e Menorca, por conta do forte vento que ainda predominava de leste. Thaís e Flavia, vítimas da travessia impiedosa, foram poupadas do trecho e embarcaram em um veloz ferry-boat que faz o percurso de volta em um par de horas. O mar ainda estava agitado, mas as ondas no sentido em que seguíamos, tornou tudo mais fácil a bordo. Nossa próxima parada era Valencia. Na madrugada o vento morreu e terminamos o resto do trecho com nosso fiel vento de porão. As seis da manhã entramos nas águas abrigadas do Real Club Náutico de Valencia. Fundado no começo do século passado, é o maior clube náutico da Espanha com mais de 1.200 ancoradouros. Não havia ninguém no cais para nos orientar, tampouco no rádio. Estacionamos à contrabordo do posto de gasolina da marina, vazio àquela hora da manhã. Dormimos um par de horas e, ao acordar, caminhei por centenas de metros através dos enormes trapiches cheios de barcos, cada um mais impressionante que seu vizinho. Não havia ninguém na secretaria náutica. Fui informado que o escritório só abriria depois do almoço do responsável, as nove da manhã. Um almoço àquela hora me pareceu uma coisa fora do comum, mas não quis me aprofundar nos hábitos nativos e voltei ao barco. Ao chegar dei de cara com um baixinho gorducho mal-humorado reclamando que aquele não era lugar de paradas e que deveria providenciar de imediato a retirada do Zimbros. Sobravam dúvidas e informações contraditórias em um espaço de tempo muito curto. Achei por bem ignorar os desagravos do anão e retirei-me no silêncio da minha cabine. A primeira impressão que tive dos valencianos foi de que eles são um pouco confusos e desorganizados. Quase senti saudades do iate de Paranaguá. Mas me mantive calado. Demorou pouco e sai para percorrer o equivalente a muitos quilômetros quando finalmente consegui uma vaga para nossa estadia. Um lugar especial, pelo menos em relação aos nossos vizinhos. Próximos a nós, do outro lado do canal de acesso à marina, descansava imponente o inconfundível casco do Luna Rossa, o veleiro patrocinado pela Prada, vice-campeão da American's Cup de 2000. Naquela ocasião, os italianos estavam sob as determinações táticas do nosso Torben Grael, e conseguiram desbancar os americanos capitaneados pelo vitorioso skiper Paul Cayard. Valencia seria palco, nos próximos dias, de uma série de seletivas que definiriam as equipes desafiantes do atual campeão, o barco suíço Alinghi, o primeiro vencedor europeu da história da competição. A American's Cup é a regata mais antiga do planeta. Sua primeira edição, disputada na Inglaterra em 1851, tinha por objetivo principal mostrar a superioridade tecnológica das embarcações britânicas. Havia séculos, o iatismo era o esporte oficial da monarquia, que queria reafirmar sua superioridade naval para o resto do mundo. Mas eles dançaram. Os americanos, considerados uns caipiras já naquela época, levaram o prêmio com o mítico iate América, especialmente construído para a competição. Com isto, a taça entregue ao vencedor menos esperado, adquiriu um status legendário. Desde então, a America’s Cup virou uma questão de orgulho nacional e passou a ser um pretexto para cada país mostrar o que pode ter de tecnologia e dinheiro.
Nosso centenário abrigo parecia um canteiro de obras, sendo modernizado e acrescido de novos cais à espera das máquinas de última geração e das tripulações que iriam disputar o seu lugar no podium. Cerca de dois meses depois, no auge do evento, um vendaval sem piedade nem rumo, varreu como um tufão aquele pedaço de aristocracia náutica e derrubou, como pedras de dominó, muitos dos barcos estaleirados no pátio ao lado do qual eu estava agora placidamente estacionado. Ficamos no iate apenas o suficiente para alguns inesquecíveis passeios por Valencia e, aos primeiros minutos de uma quente madrugada, partimos com a maré rumo ao Cabo de Tortosa. Fizemos uma tranqüila navegação noturna, acompanhando a sucessão de luzes que compõe o litoral valenciano. De manhã acabou a festa. Entrou um vento nordeste bem na nossa cara, com vinte nós de velocidade. "Vento no Mediterrâneo é contra ou inexistente" lembrei do aviso de um velejador lá dos Açores. Com uma tribuzana daquelas, mudei o rumo para Peñiscola, onde nosso guia náutico indicava um porto seguro. Mas ainda assim ficou impossível seguir contra os elementos. Faltavam ainda cerca de dez milhas para achegada e mudei de novo o rumo, agora para Las Fuentes, um balneário moderno com marina e todos os confortos, a cerca de cinco milhas à bombordo. A tripulação mais jovem agradeceu. Pouco antes do meio-dia entramos em Las Fuentes, um moderno complexo imobiliário, que incluía, além da bela marina, uma série de casas, sobrados, apartamentos, e um centro comercial muito charmoso. Era um domingo, a temporada de verão já tinha ficado para trás, e tudo parecia deserto e triste. Só faltou mesmo a voz do Faustão para acabar de vez com nossa alegria. Mas não nos demos por vencidos e preparamos à bordo um churrasco de dar inveja aos poucos gringos que sobraram das férias. Betinho esmerou-se nos grelhados e, como sempre, fez um enorme sucesso com a nova tripulação.
A noite foi temerária, com ventos fortes e trovoadas parecendo anunciar que o céu tinha se partido ao meio. Cedo, restava apenas uma brisa fresca e um mar camarada. Soltamos os cabos que nos prendiam ao trapiche e continuamos no rumo interrompido. Resolvemos, mais uma vez, fazer uma pequena parada em Peñiscola, a oito milhas de distância. Voltei para o calor da minha cama e dormi uma boa horinha até Beto me chamar lá de cima, avisando que a entrada do molhe estava quase na nossa proa. Ao tirar a cabeça para fora vi, com surpresa, uma maquete de cinema iluminada pelo sol. Peñiscola é uma pequena vila situada num promontório rochoso, em cima do qual se situa um castelo construído pelos templários no século XIII. A colina fortificada e um longo molhe de pedra mais recente, criam um pequeno porto abrigado aos humores irregulares do clima. Paramos num cais interno de concreto, possivelmente reservado à grandes embarcações de pesca, mas vazio no frescor daquela manhã. Desembarcamos todos, exceto Beto que ficou para cuidar do barco, e Flavia mergulhada nos seus sonhos, alheia aos mil anos de história que a cidade tinha para nos contar. Ao lado da praça-forte, cercada por muros medievais, fica a moderna cidade, vibrando em um fragor ensolarado de vida e de gente. Em meio ao burburinho do ir e vir da segunda-feira, descobrimos uma feira de verduras e legumes ao ar livre onde fizemos algumas compras para abastecer a despensa do Zimbros.
Depois das compras, sentado em um pequeno café com mesas na calçada, me senti um cidadão comum, apreciando a energia buliçosa da manhã. Foi um bom momento! Estar ali nos diferenciava do turista comum, quase sempre acostumado ao conforto previsível dos hotéis e aos passeios programados dos pacotes de viagem. Fazer compras, barganhar, procurar uma peça que estava faltando, cozinhar, levar a roupas na lavanderia, sempre foi uma boa interação com os lugares onde costumávamos parar. Não éramos turistas apenas contemplativos e sim parte da cidade. O Zimbros é uma casa flutuante, onde estão nossas roupas, livros, discos e onde preparamos nosso almoço como em qualquer cozinha do mundo. Com a vantagem de poder mudá-lo a hora que quiser e encaixá-lo no bairro que escolher.
Abastecidos e satisfeitos, deixamos Peñiscola ao meio-dia. Me chamou a atenção um solitário pescador, sentado no final do cais de concreto ao lado de seu reluzente Audi. Parecia absorto, à margem do mundo e do tempo mal notou nossa presença. O dia era esplêndido, o vento rondou para sul e o mar virou uma piscina. Ficou quente, todos tomavam sol no convés, apreciando os drinques e tapas que o Beto inventava na hora. Fechei a genoa e joguei um longo cabo pela popa, em cuja ponta fixei a bóia salva-vidas. Foi a senha para as crianças pularem na água. Divertiam-se em mergulhar do púlpito de proa e alcançar a bóia, flutuando ao lado do barco. Foi assim que eu os ensinei a nadar. Desde muito pequenos, fazia com que mergulhassem do convés e, sem ajuda, procurassem boiar até a escada de popa. Na época foi uma forma de navegarmos mais tranqüilos, sabendo que, se algum deles caísse na água, teriam pelo menos alguns minutos antes de afundar feito pedras.
O dia permaneceu maravilhoso, só o vento diminuiu o suficiente para ligarmos o motor. Escureceu as nove, pouco depois de avistarmos as encostas calcinadas da Catalunha. Tão logo o céu mergulhou na escuridão total, nos apareceram as luzes que marcavam nosso derradeiro porto no Mediterrâneo: Barcelona. A cada cinco minutos um avião decolava do aeroporto localizado ao sul da cidade, bem na nossa proa. Foi quase impossível dormir com um cenário emocionante daqueles. Contudo, não resisti por muito tempo e desci para uma rápida soneca. Acordei com os chamados do Bob, pois estávamos quase dentro do porto de Barcelona, um dos maiores e mais modernos da Europa. Pelo canal vimos, com todas as luzes do mundo ligadas, enormes navios mercantes sendo carregados sem interrupção, dia após dia. Levamos cerca de uma hora navegando ao longo do cais, cheios de exclamações de surpresa. Uma ponte ultramoderna faz a ligação entre a parte nova e a antiga do porto. Era impossível estimar se sua altura seria suficiente para os quinze metros do mastro do Zimbros. Pelo rádio, chamei a marina onde pretendíamos parar e, em instantes, fomos informados que sobravam ainda cinco metros até batermos na superestrutura metálica. Ao fundo, logo após a ponte, começaram a aparecer enormes iates, que ofuscavam com suas luzes de cidade a própria luz da marina. Era impossível definir seus tamanhos e preços, um universo que, nem de longe nem de perto, fazia parte da nossa realidade. Com prudência nos aproximamos do cais de recepção. A Marina Port Veil está localizada em um dos pontos mais bonitos de Barcelona, justo ao lado do Museu da História da Catalunha e a poucos minutos das ramblas, do bairro gótico, da Barceloneta, enfim, do centro do mundo. Ao amanhecer indicaram nossa vaga, por entre veleiros monstruosos e iates de reis que nos faziam parecer nada mais que um simples barquinho de brinquedo. Mas sou um velejador e não me impressiono (muito) com monumentos do poder e da grana. Meus ideais de grandeza são menos palpáveis. Naveguei nove mil milhas até Barcelona, sem marinheiros profissionais, só com meus amigos e minha família. Uma conquista para mim, talvez maior do que ter um barco monumental. O bravo Zimbros não devia nada a qualquer uma daquelas jóias flutuantes, e no fundo não o trocaria por nenhum outro.
Os três dias passados em Barcelona foram eternos e as nossas experiências e descobertas não cabem neste relatório, que é náutico e aquático. Só posso dizer que senti a cidade pelos olhos de meus filhos e nada me deu mais satisfação que ver seus pequenos olhos arregalados frente a tanta novidade e beleza. Tenho certeza que eles nunca mais esquecerão a aventura de terem conhecido comigo, à bordo do Zimbros, mundos novos como aqueles. Isto também é uma forma de perpetuar as minhas próprias aventuras. |
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