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Antonio, o amigo de Jerez, partiu de volta para Sevilha no começo da tarde. Em seguida nós mesmos preparamos nossa saída da Marina Bay em Gibraltar rumo à Puerto Banus, o famoso balneário ao lado de Marbela, a trinta milhas de distância. Apesar do sol duvidoso, tudo indicava que teríamos um belo dia de mar. Largamos as amarras exatamente às três da tarde. A marina está localizada justo ao lado do aeroporto, cuja pista divide a cidade em dois. Navegamos bem próximo ao aterro que marca a cabeceira da pista. Manobramos entre bóias e pequenos barcos, mas com os olhos no céu na esperança de ver o pouso de algum avião. Mas o movimento no terminal é pequeno, são poucas as aeronaves circulando por Gibraltar. Grande parte dos turistas chega lá de carro, vindos da Espanha. Outrora havia enormes congestionamentos, em razão da diferença de preços dos combustíveis entre os dois países. Os motoristas aproveitavam os custos inferiores de Gibraltar para economizar alguns centavos na hora de abastecer seus veículos, mesmo que para isto perdessem todo um dia em filas intermináveis. É curioso como a classe média é a mesma em todo o lugar, até mesmo no primeiro mundo. Ao dobrarmos o cabo de Gibraltar, surpreendentemente fomos pegos por uma inacreditável neblina que acabou com toda nossa visibilidade em questão de minutos. Parecia até brincadeira, pois estava ensolarado quando deixamos a marina. Trata-se de uma inversão térmica comum na região. A diferença de temperatura entre a atmosfera e a água faz com que a névoa desça sobre a superfície do mar. Quando não há vento nem calor para espalhar a neblina, ela permanece estacionada por horas e até mesmo por dias. "Isto é o fog londrino que Gibraltar importa direto da Inglaterra" fulminou Bob. (Leia no arquivo em anexo o Diário de Bordo, escrito por ele). Naquela tarde não havia nem vento nem calor, apenas neblina. Traçamos o rumo no chart-plotter e, por alguns way-points previamente marcados na tela, mergulhamos em um mar às cegas. Foi como pular num buraco de olhos fechados. A visibilidade era quase menos que nenhuma, o Zimbros não está equipado com radar, portanto não sabíamos o que acontecia no nosso lado. Por precaução, a cada cinco minutos, eu fazia soar à bordo uma buzina de ar comprimido, procurando avisar a eventuais embarcações nas redondezas que eles não estavam sós. Bob sabe-tudo achou um exagero, mas preferí pecar por excesso do que por falta de segurança. Horas e horas intermináveis e cansativas, doía a vista concentrar-se em uma paisagem turva,silenciosa, sem limites nem pontos perceptíveis no horizonte. Os olhos bem abertos, tanto à frente como à ré, prosseguimos em meio à neblina, que a cada momento parecia ficar mais forte. Para nos orientar tínhamos um pequeno guia náutico, sem detalhes. Traçamos um rumo que nos afastava da costa, e controlávamos a profundidade para nos certificarmos de que não estávamos próximos demais das fatais pedras do litoral. Por sugestão do Bob, resolvemos encurtar o caminho e mudamos nosso destino para mais perto, poucas milhas antes de Puerto Banus. Estávamos em agosto, no auge do verão europeu. Marinas famosas como aquela e a de Marbella, estão sempre lotadas e seus preços são muito mais salgados na alta temporada. Preferimos estacionar em um lugar menor e menos badalado: Estepona. Plotamos no GPS a posição do novo porto e lentamente arribamos para terra. Visibilidade zero, a distância da terra e a profundidade diminuindo assustadoramente, Beto assumiu o leme. Eu fui para a proa tentar enxergar algum sinal de terra. Nadinha de nada!. Estávamos quase sobre a coordenada descrita no guia e não víamos um palmo na nossa frente. De repente, do nada, a dezenas de metros na nossa proa, surgiu do fundo da névoa, o molhe que limita o pequeno porto de Estepona. Foi um susto, pois estávamos a não mais que cinquenta metros das pedras. Um senhor e seu filho, perdidos em um pequeno inflável, nos ajudaram a entrar na marina. Em plena tarde de verão mal conseguíamos ver o trapiche, iluminado pela fraca luz de alguns holofotes fantasmagóricos. Amarramos o barco e caminhamos no cais mergulhado em brumas. Parecia um filme de assombração, a cada passo eu tinha a impressão que seria atacado por um corsário sem cabeça. Faltava apenas a música de fundo do filme Tubarão.
Estepona é uma antiga vila de pescadores que sofreu grandes mudanças com o turismo de massa. O sul da Espanha, por seu clima ameno e custo de vida baixo em relação ao resto do continente. Por isto vem sendo ocupado por enormes empreendimentos imobiliários cujo mercado é o europeu do norte, sobretudo ingleses e alemães. São enormes resorts, apartamentos e marinas para um público em busca do calor, da economia e dos mistérios da Espanha. A marina onde paramos é uma ampliação do velho porto pesqueiro, que ainda funciona ao lado. Apesar da invasão imobiliária, a escala dos empreendimentos não é monstruosa e não agride tanto a paisagem. É um lugar charmoso, com muitos restaurantes, bares e lojas que criam uma atmosfera bem intimista e elegante na orla. Doce ócio, sentamos em um dos pequenos cafés para observar os turistas de todas nacionalidade em um vai-e-vem interminável pelas calçadas. Visitamos também o porto pesqueiro, organizado e limpo, há poucos minutos de caminhada. Lá existe um restaurante bem simples que atende aos pescadores e seus familiares. Um lugar acolhedor, sem turistas. Não resistimos a umas umas cervejas e ficamos bem à vontade naquele porto típico. Tínhamos planos de alugar um carro e seguir até Porto Banus e Marbella, mas desisitimos, frente à hospitalidade e ao charme da pequena Estepona. Mas tínhamos um cronograma apertado a cumprir. Às dezoito horas do dia seguinte partimos com destino à Almeria, pouco menos que 150 milhas à leste. Iríamos fazer uma navegação noturna, aproveitando a meteorologia favorável. O sol se punha somente às vinte e uma horas, assim teríamos ainda alguma luz até o anoitecer. A fraca neblina não nos impedia de ver ao longe um pouco da costa. Admiramos o poente frente às cordilheiras de Ronda, uma dramática cadeia de montanhas que se eleva no desolado interior da Andaluzia. Tão logo escureceu, surgiu no horizonte o brilho da lua cheia, embora ofuscada pela neblina. O vento ficou fraco, insuficiente para levar o Zimbros a uma velocidade satisfatória. Motoramos pelo resto da noite, nos revezando em turnos de duas horas cada um. Na madrugada, somente o contínuo barulho das ondas contra o costado do barco marcava o compasso da nossa insônia. Amanheceu azul, o calor e o brilho da Costra Tropical ofuscaram nossos olhos acostumados às brumas que nos seguiam desde Gibraltar. Um dia perfeito, uma surpresa a cada milha. Mais uma vez Betinho esmerou-se na cozinha tentando adaptar a receita de um livro que comprara em Cadiz. Nota dez para o quesito visual e para os suculentos sabores da sua culinária. Vinho branco de Sanlucar, licor de Jerez e charutos de Havana deram o toque ao belo almoço. Navegar é sofrer e passar bem na mesma proporção.
Às dezesseis horas chegamos na baia frente à Almeria. Ao longe a cidade apareceu imponente sobre um relevo árido e calcinado. No meio das construções, a monumental muralha da fortaleza de Alcazaba é um testemunho insólito da época de ouro de Almeria, quando foi um porto importante do califado de Córdoba. Percebe-se ainda, mesmo de longe, um ar árabe na sua arquitetura e nas suas calles cobertas por palmeiras. Passei um rádio para a marina e em poucos minutos estávamos atracados no cais do moderno Club de Mar de Almeria. O calor era tão sufocante que o melhor que fizemos foi aguardar o cair da tarde para circular na cidade com mais conforto. Na manhã seguinte conhecemos a magnífica fortaleza de Alcazaba. De cima de suas muralhas de mais de mil anos, é possível contemplar a vista magnífica da cidade e da baia. Outrora, daqueles muros, costumava-se soar um gongo quando se avistava algum barco pirata no horizonte. Foi a maior construção feita pelos árabes na Europa, com 25.000 metros quadrados e uma muralha de mais de 400 metros. Após algumas horas cumprindo uma extensa agenda cultural, descemos as íngremes ladeiras da cidade velha e fomos cuidar do copo, perdão, do corpo. Há no centro um antigo mercado público que é uma maravilha. Pode-se encontrar lá as mais deliciosas iguarias. Não resistimos às azeitonas, azeites, embutidos e vinhos espanhóis. Ao lado da velha construção, um mundo interminável de cheiros, de vida e de negócios ferve no calor da manhã. Entre quitandas e amontoados de ambulantes, alguns bons restaurantes, simples e baratos, atendem a fome da cidade. Sardina en espeto e boqueron vitoriano acompanhados de uma cerveja geladíssima, foram nossa refeição.
Voltamos ao barco e às dezessete horas deixamos a marina rumo à Cartagena. Não havia ondas, e o vento estava à favor, sudoeste fraco, dez nós de velocidade. Fizemos uma grande velejada no Golfo de Almeria e no final da tarde passamos ao lado do Cabo da Gata cuja beleza dramática encheu nossos olhos. Aos poucos o vento morreu e tivemos que ligar o motor. À noite fomos presenteados pela lua e por um mar tranqüilo. A música de João Gilberto estava perfeita, no mesmo ritmo do barulho das ondas. Amanheceu, o Zimbros seguia sob uma luz radiante onde pássaro migratórios e gaivotas famintas procuravam identificar algum alimento. Às oito da manhã, com um calor de arder, chegamos ao nosso destino. Enormes molhes de pedras marcam os limites do porto de Cartagena que mais parece ser uma praça de guerra. Casamatas, fortificações e dezenas de navios da marinha confirmam a eterna vocação bélica da baia. Cartagena, uma cidade com mais de 2.500 anos de existência, ofecere ao viajante em cada uma de seus ângulos, o testemunho monumental de seu passado histórico e das civilizações que arribaram através de seu porto. Cartago e Roma, gregos e fenicios, ibéricos… Cartagena ou Qart-Hadast, porto principal dos grandes impérios mediterraneos e integrador das culturas do mundo antigo. Foi de lá que partiu Aníbal, no século três a.C, para invadir Roma por terra através do norte, talvez uma das empresas bélicas mais ousadas de toda a história. Ao visitante moderno resta a aventura de descobrir vestígios de arquitetura que remetem aos séculos em que Cartago Nova foi uma das principais cidades da Hispania Romana. Sob um sol bárbaro caminhamos entre ruínas de um anfiteatro e restos da antiga muralha púnica. O anfiteatro, descoberto há pouco, estava encoberto por prédios populares que foram construídos servindo-se de suas pedras como fundação. Todo o bairro foi retirado, sua população transferida e o monumento, agora visível, passa por um minucioso trabalho arqueológico de restauração. Apesar de todas as belezas e curiosidades à nossa disposição, cedo tivemos que partir. O vento era favorável, sudeste de dez nós e o dia esplêndido. Dobramos o cabo de Palos discutindo se o rock morreu ou não. Bob, que algumas vezes parece que parou no tempo, sustenta que sim. Saudosista, para ele a última grande banda foi o Pink Floyd. Ele é daqueles que esperam uma revolução a cada disco novo lançado, coisa que só aconteceu na década de sessenta. Eu acho que a música pode ser também descartável, por que não? Música é passatempo, não doutrina, penso. Ao anoitecer entramos no pequeno porto pesqueiro da Ilha de Tabarca, uma reserva marinha nas costas da província valenciana. Pernoitamos na cais usado pelo ferry-boat que faz o transporte de passageiros entre a ilha e o continente. Uma vila hospitaleira, pequenas casas, poucos restaurantes, nenhum turista, alguns moradores... Lembrei-me de Porto Seguro no passado, quando ainda não havia sido invadido pelas hordas bárbaras que assolam nosso litoral . Queria ficar, mas não era possível, o mar nos chamava...
Pela manhã fizemos algumas imagens aproveitando a luz transparente da alvorada. Em seguida soltamos as amarras e deixamos Tabarca com bom tempo. Mas durou pouco a alegria. Logo que saímos da proteção da ilha pegamos na cara um vento duro. Resolvemos parar em Benidorm, cidade que descobrimos no guia das marinas da Espanha. Próximo ao meio dia, estávamos frente aos enormes prédios à beira mar que marcam o perfil daquele enorme balneário. Ao chegarmos próximos à marina, pelo rádio, ficamos sabendo que não havia vagas. Apesar do vento continuar soprando contra, não nos abatemos e resolvemos seguir até a próxima marina, localizada apenas a algumas milhas ao norte. Um pequeno porto chamado Altea. No litoral mediterrâneo da Espanha existe uma marina a cada vinte milhas, uma facilidade enorme para aqueles que navegam. Bob teimava em lembrar seus dogmas do século dezenove enquanto seguíamos bem próximos à costa apreciando seu árido relevo. Montanhas íngremes, pedras com perfil de esfinges mergulham dentro do mar, paredes de falésias com grutas e costões assustadores, não há uma única enseada onde se abrigar. No meio da encosta monumental, uma vertigem: uma cascata flui mágica de dentro da terra. Aparentemente trata-se do afloramento do lençol freático, uma fonte doce, abundante, cristalina, revogando todos os conceitos que eu supunha ter de hidráulica.
No meio da tarde, sob um calor sufocante, finalmente entramos na moderna marina de Altea. Fomos atendidos com muita má vontade por um funcionário que agia como se fosse o dono do mundo. Fiz a ele algumas indagações práticas sobre a marina, preços, banheiros, telefones, dúvidas básicas para nós que chegávamos de longe. O sujeito fez uma cara de nojo e disse que eram muitas as perguntas e que minhas questões tinham que ser resolvidas somente na secretaria. Eu já conhecia aquele tipo e não perdi tempo em devaneios: "Tu trabalhas aqui para atender-me hombre. Qual é a dificuldade em responder? Soy brasileño e não um francês, carajo" dei uns gritos com o imbecil e ele ficou ainda mais difícil. Comecei a chamá-lo, a partir de então, de Rei da Espanha. No final, ficou hilário, e ele até se tornou nosso amigo. Estava abafado e ventava forte. Um vento ardente, seco, que enchia a atmosfera de uma poeira úmida e suja. Demoramos a descobrir que aquilo era areia vinda do norte da África trazida pelo vento sudeste. O Zimbros ficou coberto de terra que, misturada com o sereno da manhã, transformou-se em um verdadeiro lamaçal. Nada ficava limpo por mais que esfregássemos o convés com escovas e esponjas. Para nossa infelicidade a mangueira de água que tínhamos não se encaixava nas torneiras da marina. Por mais adaptadores que tínhamos, em cada parada eu era obrigado a comprar mais um. Acabei ficando com uma caixa cheia de conexões e, todas as vezes que encontrava um nova torneira, Murphy aparecia, e nada dava certo. O mesmo problema tive com o gás. Levei do Brasil três bujões, e o último já estava no final. Não houve jeito de conseguir enchê-los, por mais que o Beto usasse seu talento. Ele trouxe, junto com sua bagagem, uma mangueira especialmente preparada para transferir gás de um bujão ao outro. Mas na Europa as válvulas por segurança não permitem este tipo de operação. Para resumir, tive que comprar um novo bujão com válvula e tudo. Paguei uma fortuna por eles, se comparados com nossos preços. Era impossível fazer a conversão de euros para reais sem ficar de mau-humor. Altea é um balneário grande, denso, cujos apartamentos e hotéis são quase todos ocupados por europeus do norte que vão para lá em busca do calor. Assim que cumpri as formalidades de chegada, aluguei um carro para chegar à Valencia, cerca de cem quilômetros ao norte. Iria buscar minha família que chegava do Brasil. Minha mulher Thaís, e meus dois filhos, André de 14 anos e a Flavia de 11. Eu estava um pouco apreensivo em ter tanta gente à bordo, inseguro com relação ao nosso conforto. Além disto, teria que enfrentar uma tripulação, digamos assim, um pouco rebelde. Na verdade todas as minhas experiências anteriores de navegar com a família foram amiúde estressantes. Meus adolescentes, aliás como todos, não tem uma visão muito rígida da disciplina náutica e desconhecem totalmente a regra mais sagrada à bordo que determina que o comandante tem sempre razão. Mas como se verá nos capítulos seguintes, eu fui totalmetne injusto em meus pré-julgamentos.
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