Parte 29


O Zimbros flutuando em Puerto Guélvez: finalmente Sevilha.

Sevilha, 35º centígrados, dez da manhã. E eu perdido de táxi em busca do Zimbros, ancorado em uma marina cuja direção não sabia bem. Cheguei na cidade durante a madrugada, vindo de Lisboa. Em vão andava pelos ancoradouros o Guadalquivir. Bob e Betinho, na Europa já há uma semana, haviam trazido o barco de Portugal. Combinamos nosso encontro por e-mail, mas eu tinha esquecido, na pressa da partida, o nome da marina em que eles estariam. Já pensava em um hotel, quando o jovem motorista lembrou-se de perguntar a seu pai se existia algum outro porto onde pudessem estacionar barcos de cruzeiros. "Sim, Gélvez", lembrou-lhe o velho. Mas não foi fácil chegar lá. Tudo é confuso para estrangeiros e para taxistas inexperientes. Algumas obras atrapalhavam o trânsito, e o acesso ao condomínio onde se localiza a marina estava cheio de atalhos e derivações. O calor era sufocante, a pé caminhei um trecho que me pareceu muito mais distante do que realmente era. Logo que consegui, ainda longe, ter uma vista geral da marina, pude ver dentre os demais barcos o Zimbros placidamente estacionado dentro do porto. "Cheguei em casa" respirei aliviado.

Mais um sonho realizado, lá eu estava em Sevilha com o Zimbros, minha pequena casa ambulante. Infelizmente não demoramos na cidade. Recém-chegados, em dois dias preparamos nossa partida. Um calor insuportável, os termômetros chegavam a 45º C. Por sorte, conhecemos Antonio García Gutiérrez, amigo que o Tadeu Smolka apresentara e que nos recebeu com carinho e muita curiosidade, afinal, só loucos chegam à Sevilha de barco, ainda mais em agosto, no auge do verão. Antonio é um sujeito extraordinário, como teríamos a chance de saber nos próximos dias. Foi com ele que descobrimos um pouco dos mistérios da cidade. Saímos dos bairros turísticos que representam uma Sevilha mais aparente e mais exterior e fomos para a Sevilha íntima, que não se oferece facilmente. Caminhamos por bairros populares, descobrindo seus becos, botecos e praças. Monumentos atestam, a cada esquina, o contínuo amor da cidade pelo barroco. Impossível não lembrar de João Cabral, que morou lá nos anos cinqüenta e cujas ruas fazem parte de seu universo poético: "Só em Sevilha o corpo está com todos os sentidos em riste, sentidos que nem se sabia, antes de andá-la, que existissem".

Antiga Hispalis, foi centro romano cujos domínios no Mediterrâneo ocidental duraram sete séculos. Seguiu-se uma longa ocupação árabe, que lhe deixaram marcas permanentes, assim como em toda Al-Andalus. Situada às margens do Guadalquivir deteve outrora o fabulosamente rico monopólio das trocas comerciais da Espanha com a América, o que fez dela a maior cidade do país na época e um dos centros mais ricos da Europa. Ao lado do rio Guadalquivir, protegido pela Torre Del Oro, em meio aos armazéns e estaleiros, aos alaridos de gente, lamentos de mães e ao choro das noivas, partiram navegadores em busca da fortuna e da glória. Partiu Fernão de Magalhães, meu herói e mentor, para a maior das aventuras náuticas de todos os tempos, a circunavegação do globo terrestre. Hoje a coisa mudou, só restam aventureiros como eu, em busca de fantasmas e histórias para contar. A influência do rio sobre a cidade diminuiu com seu assoreamento, no século XVII. Contudo Sevilha permanece ainda como um dos portos fluviais mais ativos de toda a península ibérica.


Navegando o Guadalquivir: Antonio assume o leme com Beto de olho nas margens.

Mal amanheceu largamos as amarras do cais e lentamente saímos em direção ao Guadalquivir. À bordo, Bob, Beto, eu e Antônio que aceitou o convite de nos acompanhar até Gibraltar. De cara entregamos a ele o leme. Marinheiro de primeira viagem, cauteloso, procurou levar o barco o mais eqüidistante possível das margens. A navegação é fácil, o rio bem sinalizado, sua profundidade média é de quatro a cinco metros. Ele é navegável desde Sevilha até sua foz em Sanlucar de Barrameda, na costa atlântica, 40 milhas ao sul. Ao longo de seu curso, a cada curva, em cada povoado, imagens nos contavam um pouco de seu glorioso passado. O dia quente pedia um mergulho. Mas só eu não resisti, os três preferiram assistir do seco às minhas braçadas. A partir do meio-dia preparamos um super churrasco em homenagem ao nosso ilustre convidado. Armamos uma rede na proa e, em meio aos vinhos de Rioja e muita filosofia, deslizamos placidamente rumo ao mar. Foi um grande momento, um alinhamento único de astros a favor da nossa interação. Ao som de Bebo Valdés e Diego El Cigala, Bob, deitado na rede com uma taça de vinho numa mão e um charuto na outra, disparou a máxima do dia: "Amigos, se algum dia fui pobre não me lembro mais".


Com estilo: Bob descansa na rede.


Na descida do rio: Betinho prepara nosso almoço.

Peixes pulavam para fora d'água, pequenas tainhas, garças voavam pelas margens, cada esquina do rio nos reservava uma surpresa. Foram muitas e inesquecíveis. No meio da tarde, finalmente, Sanlucar da Barrameda nos surgiu à proa, adormecida na tarde modorrenta. Em pouco tempo, vencemos a barra e entramos no Atlântico. O balanço das ondas e vento vindo do leste mudaram nossa pasmaceira à bordo. Era preciso estar atento ao grande movimento de barcos ao longo da costa. Em um par de horas entrávamos por entre os molhes de pedra que limitam o Puerto América em Cadiz. O sol tinha acabado de se por era dia ainda. Foram onze horas desde Sevilha, mas passou como um segundo. O dia tinha sido muito especial, único mesmo, graças sobretudo às nossas perpétuas discussões filosóficas. Antonio é chefe da cadeira de jornalismo da Universidade de Sevilha. Intelectual, pensador, filósofo, já escreveu dezenas livros e prepara mais um. Define-se como um materialista, anti-mentalista e costuma sustentar que nossas emoções não passam de reações químicas neurais. Segundo ele somos seres conceituais e toda nossas crenças não passam de mitos. "Obaldo, los espacios míticos de nuestro inconsciente nunca estan vacios. Toda deducion racional no passa de um mito..." dizia. Incrível como naquele momento eu entendia e concordava com tudo o que dizia ele! Filosofar em espanhol é o máximo!

Cadiz, afirmam os historiadores, é a cidade habitada mais antiga da Europa. Fundada há mais de três mil anos, já viveu muitas fases de auge e decadência. Fenícios, cartagineses, romanos e árabes, todos estão presentes na sua história. A primeira impressão que me causou foi de um centro alegre e vivo. Seu desenho urbano é recente, racional, com ruas retas, estreitas. Lá não existem monumentos. Altas fachadas parecem tocar-se acima do passeio que vibra de vida em todas as direções. Muitos bares e botecos, ah os botecos! Cada esquina convida para uma cerveja acompanhada dos mais variados e deliciosos tapas. Os tapas, uma instituição espanhola, são aperitivos, tira-gostos que acompanham os drinques e são verdadeiros almoços. Dezenas, cada um mais apetitoso que o outro. Impossível provar todos. E as livrarias? Procurava por um guia náutico específico e percorri com Antonio algumas lojas de livros do centro. São impressionantes pelo tamanho e pela quantidade de títulos à disposição. Não achei meu guia, mas não pude deixar de levar alguns livros que me pareceram irresistíveis. Sou um rato de livrarias e quando entro em uma, costumo comprar compulsoriamente. Adoro livros, suas capas, seu volume, seu cheiro. Passo horas manuseando-os, imaginando seu conteúdo, as sabedorias que contém. Mas infelizmente gasto tanto tempo apreciando-os que quase me falta tempo para a leitura.


Bob, eu e Antonio: navegar é também apreciar bons vinhos.

Às quatorze horas do dia seguinte deixamos Cadiz em direção à Barbate, 35 milhas à sudeste. Dia tranqüilo, quente, sem vento nem ondas. Algumas horas depois passamos pelo Cabo de Trafalgar ao lado do qual a Espanha, aliada da França contra Napoleão, perdeu toda sua esquadra para a Inglaterra no começo do século XIX. Glória de Nelson, o triunfo de uns, a ruína de outros. A história passando pela nossa amurada e Antonio a querer decifrar meus sonhos: "Usted és un sonhador Obaldo. Vês fantasmas em cada piedra del litoral". Concordei. Estou sempre em busca de heróis, suas causas, glórias e derrotas. São eles que preenchem meus espaços. Sou capaz de inventar um sol a partir de uma simples mancha amarela. Antonio é um cético para quem, tanto a poesia como a filosofia, levam ao suicídio. Aprendi que o materialismo de Hegel influenciou o pensamento de Marx. Ainda assim continuo preferindo a sabedoria heróica de Colombo ao pensamento erudito daqueles ilustres cavalheiros. Conversas sem fim, o tempo passou rápido, logo chegamos à Barbate, nosso destino. Circulamos por entre barcos, gaivotas e pescadores em meio à luz violeta do por do sol. Na marina, enfim o descanso merecido de muitas emoções e descobertas. O dia tinha sido cheio.

Ao amanhecer, deixamos o abrigo do porto e seguimos rumo aos segredos de Gibraltar, as colunas de Hércules do mundo antigo, ou o Djebel al Tariq árabe. Portão para o oceano infinito, o lugar onde o sol encontra sua morte, segundo Homero, limite oeste dos territórios comerciais desde fenícios até romanos. Estávamos apreensivos, pois as notícias que tínhamos sobre a entrada do estreito eram unânimes em dizer que aquele era um trecho terrível para a navegação. As correntes de superfície correm através do estreito no sentido oeste-leste, com o Atlântico recolocando as águas que o ensolarado Mediterrâneo perde por evaporação. As marés são fortes e, dependendo da hora, fica quase impossível passar pelo estreito com um barco lento como um veleiro. Além disto, o clima e o regime de ventos é inconstante, e nunca se sabe ao certo qual vai ser o tempo de amanhã. Segundo alguns velejadores, o vento no Mediterrâneo segue duas regras infalíveis: ou inexiste ou é contra. E tem mais, o tráfego maritimo, sempre intenso, exige um sentido de mão e contramão a ser obedecido tanto para quem entra como para quem sai do Mediterrâneo. Mas o dia estava tranqüilo, ensolarado, sem brisa nem mar. Nada parecia atrapalhar nosso confortável cruzeiro.

Para nossa satisfação, soubemos que era aniversário do Antonio. Comemoramos com alegria, como de costume comemorávamos todos os dias. Vinho e brandy com charutos, Betinho caprichou no almoço. Seguíamos próximos à costa, observando atentamente o áspero relevo da costa andaluza. No través de Tarifa, exatamente onde inicia o estreito, começou a soprar um vento leste, bem na nossa cara. A principio fraco, mas a medida que avançávamos, aumentou de força chegando a vinte nós. As ondas mudaram de tamanho. Apesar de baixas ficaram curtas fazendo com que o barco batesse contra elas com violência. Perdemos velocidade, íamos a três nós, devagar quase parando. Não havia portos disponíveis onde pudéssemos nos abrigar. Tínhamos duas opções, ou voltávamos ou agüentávamos o tranco seguindo em frente.

Fomos adiante esperando que o tempo melhorasse. Mas piorou. Repentinamente, apareceu do nada uma grossa e úmida neblina, acabando com toda a visibilidade. Mal conseguíamos ver a proa do Zimbros. Ouvimos à frente uma buzina que nos pareceu ser de um imenso navio, pronto a se chocar com nossa frágil embarcação. Um suspense, comecei logo com as orações mas, para nosso alívio, era apenas um sinal sonoro de um farol de terra, Punta Canero. Foram muitas emoções em um curto espaço de tempo. Uma terrível neblina, um farol que apitava, tudo novidade para mim, acostumado com o brilho constante dos nossos ares tropicais. Os olhos não se desgrudavam do horizonte, a cada momento parecia que íamos dar de cara com um superpetroleiro vindo para cima da gente. "Esta neblina Gibraltar importa da Inglaterra através de enormes gasodutos" disse Bob para amenizar um pouco o clima de nervos à bordo.

À medida que lentamente nos aproximamos do waypoint da entrada, surgiram por entre a espessa névoa, enormes navios cargueiros ancorados ao largo, aguardando sua vez de atracarem. Era assustador navegar às cegas, estávamos tensos e íamos adiante apenas porque não havia outra opção. Aos poucos, como um milagre, a neblina começou a subir da superfície para o alto, e pudemos ver o contorno dos molhes do porto que cercam Gibraltar. Estávamos apreensivos, surgiu uma discussão sobre qual a melhor conduta para aportamos. Pelo rádio, nos informaram que deveríamos parar em primeiro lugar no cais da imigração para os procedimentos legais de chegada. Subimos a bandeira amarela à boreste, sinalização obrigatória de quem chega em um porto estrangeiro, e em pouco tempo, sob um sol que queria dar as caras por entre a neblina que teimava em permanecer a meia altura, atracamos no cais da imigração.


Bob e Antonio no cais da imigração inglesa: ao fundo Gibraltar, The Rock entre brumas.

Nada como ser recebido com a tradicional educação inglesa. Contudo a falta de tempero bretão é o primeiro contraste para quem chega em Gibraltar vindo da apimentada Espanha. Não existe nada mais sem-graça do que aquele enclave ao pé da enorme rocha que dá nome ao lugar. Porto livre, seu comércio parece um Paraguai para europeus. Lá ninguém parece nem inglês nem espanhol. Há pouco houve um enquete para saber a qual país os moradores desejariam pertencer. Deu Inglaterra na cabeça. Eu teria votado Espanha. Antonio defende a emancipação total do território, transformá-lo em um pequeno país independente assim como Mônaco ou Andorra. Mas as barreiras econômicas da comunidade européia inviabilizam a proposta. Assim sendo, desembarcamos dispostos a ver o que a Inglaterra tinha a nos oferecer.

Precisava comprar um guia de navegação que me orientasse dentro do Mediterrâneo. Encontrei um de bolso, barato, em uma casa de artigos náuticos. Mas era sábado, a loja estava lotada. Apenas três funcionários atendiam uma multidão de velejadores que, como eu, escolheram justo aquele dia para reformar seus barcos. Fiquei quinze minutos com minha compra no caixa, aguardando que alguém me cobrasse o equivalente a dez reais por ela. Nada! Quanto mais desesperado eu olhava os funcionários, mais distraídos eles se faziam. Pensei em desistir, mas precisava do guia. Sem ele não poderia prosseguir Mediterrâneo adentro. Decidi friamente. Coloquei o volume dentro da minha mochila e saí calmamente para fora da loja. Mas no íntimo suava frio, pensando que todos os alarmes do mundo soariam nas minhas costas. Nada. Prossegui pela calçada mal disfarçando as batidas do meu coração. Sentia que a cada passo alguém iria me segurar pelo braço dizendo: "Cavalheiro, queira me seguir...". Ser contra a lei é mesmo emocionante! Em poucos minutos estava na segurança do meu aparelho, ou melhor, do meu barco. A primeira coisa que Antonio perguntou-me foi se tinha comprado o tal livro e que preço pagara por ele. Pensei em mentir, por vergonha. Mas abri o jogo: "Custou nada. Roubei" disse-lhe sem rodeios. Ele pareceu embaraçado, ficou em silêncio por alguns minutos e finalmente concluiu: "Obaldo, usted não agiu mal. Quien roba de ladrón, tiene cien años de pierdón já que los ingleses robaram Gibraltar de nosotros". Foi uma bom julgamento. Fiquei aliviado com a sabedoria do seu parecer!

Antonio é realmente uma figura muito rara. Não poderíamos ter um guia melhor de viagem. Para provocá-lo indaguei-lhe sobre as divergências que existem entre as diferentes regiões da Espanha, cada qual querendo ser independente uma das outras. "Vocês são espanhóis ou o quê?". "Não soy español, tampoco andaluz. Soy apenas um cara de Jerez, nada más. La España és una invención de los reyes católicos del século XIV". Porra, se ele não está de acordo com uma unificação que já tem mais de seiscentos anos, não seria eu a querer convencê-lo do contrário. Mais tarde pedi a ele que fizesse uma análise crítica dos meus Retratos. Sem piedade. A princípio relutou mas como insisti, acabou concordando. Depois de ler um ou dois capítulos disse-me: "Seu texto é bom, parabéns. MAS...." e deitou o pau conforme meu pedido. Foram bons conselhos que eu tento aplicar agora, sem sucesso. Esta é a razão pela qual estou tão atrasado nestas minhas crônicas. Cada vez que penso em suas orientações me dá um branco abissal e a folha continua vazia. Uma vez alguém descreveu o pânico que um goleiro deve sentir frente à cobrança de um pênalti. Acho que é o mesmo que passa pela cabeça de um escritor amador como eu, frente à uma tela em branco.

Infelizmente nosso convidado teve de partir. Detesto despedidas, prefiro as chegadas. Assim fomos à um pub comemorar. Alguns drinques depois, nos abraçamos fraternalmente e com um até breve, selamos nosso próximo encontro. Será que um dia poderíamos nos rever? Perguntei-me sem acreditar muito na possibilidade, afinal nosso cruzeiro tinha sido tão intenso que muito dificilmente poderíamos vivê-lo de novo. Como se verá nos próximos capítulos eu estava enganado. Na saída, pedi a ele que escrevesse uma pequena crônica sobre a nossa aventura. Não demorou muito para recebermos um artigo enigmático, bem do jeito dele, descrevendo nosso passeio. Segundo Antonio é um texto aberto, muito mais para ser sentido do que entendido, muito mais provocativo que elucidativo. Convido-o caro leitor a participar da mesma emoção que sentimos, abrindo e lendo o arquivo anexo acima.

Tão logo nosso amigo partiu, preparamos nós mesmos nossa saída rumo ao leste. Tínhamos pressa, o mar Mediterrâneo nos aguardava. Que histórias teria ele para nos contar a partir daquele momento? Não perca no próximo capítulo, o Zimbros pelas belas marinas da costa espanhola. Estepona moderna, Almeria moura e Cartagena púnica onde ví a cara de Aníbal. Semana que vem direto no seu e-mail, se não me acometer nenhuma outra crise intelectual.