Parte 28

Deixamos os Açores com uma fraca brisa de final de tarde. Nos preparamos para vencer o último trecho da travessia do Atlântico. Seriam pouco mais que oitocentas milhas até Cascais, ao lado de Lisboa, na foz do Rio Tejo. Tão logo os enormes picos da ilha de São Miguel encobriram o pouco que havia de vento, ligamos o motor. Os próximos dois dias foram monótonos, avançamos lentamente, movidos ora por vela ora por motor. Enfim na madrugada do terceiro dia entrou um vento sul de quinze nós que nos acelerou no rumo esperado. Logo começou a chover.

Um navio vindo do oeste nos alcançou pela popa, passando por bombordo, próximos a nós cerca de uma milha. Tentei contato com o rádio, sem sucesso. Estávamos curiosos com o resultado da partida final da Eurocopa, Portugal versus Grécia. Era a metade do caminho entre os Açores e a Europa. A temperatura durante o dia não passava dos 20ºC. Ao longe podíamos ver nuvens carregadas com redemoinhos formando pequenos ciclones. Uma imagem bela mas assustadora ao mesmo tempo. Por via das dúvidas, mudamos um pouco nosso rumo para nos distanciarmos daqueles centros de mal tempo. Faltavam apenas dois dias para a chegada


Aviso de tempestade: xô Satanás.


Eu acreditava que este trecho da viagem seria o mais tranqüilo de todos. Nossas coordenadas eram 37ºN e 13ºW. Mas quando nos aproximamos dos 11º o vento rondou de norte para nordeste, aumentando bruscamente a força, chegando a trinta nós nas rajadas. Era tudo o que não queríamos, embora houvesse uma previsão de que pegaríamos tempo muito duro nas costas de Portugal. Rapidamente diminuímos todas as velas, a grande no segundo rizo e a genoa no tamanho de uma pequena buja.

Ocorre que a genoa, quando enrolada, perde totalmente o seu desenho aerodinâmico e fica quase impossível navegar contra o vento. O ângulo de orça aumenta muito. Em pouco tempo o mar cresceu e ficou muito difícil manter o rumo para Lisboa. Corremos com o tempo e arribamos para o sul, um pouco mais à favor das ondas e do vento que passou a nos pegar de lado, por bombordo. Pensei que aquela instabilidade não iria durar muito e, em breve, poderíamos voltar nossa proa para o leste. Mas não foi isso o que aconteceu.

O mar aumentou. As ondas chegaram a cerca de três metros de altura, algumas até com cinco, arrebentando na crista. Ficou feio de se ver. O Zimbros virou uma frágil casquinha de noz, jogada de um lado para outro ao sabor dos elementos. E nós lá dentro! Mas o barco é muito resistente e seguro. Foi projetado para aguentar todo tipo de esforços. Um veleiro moderno é o resultado de muitos séculos de evolução náutica, e o Zimbros é o resultado disto. Eu sempre soube, mas quando se está sob pressão, sofrendo na prática o que se sabe na teoria, nossos conceitos mudam. Passamos, se não por uma mudança, diria que por uma série de dúvidas atrozes. "Será que o barco aguenta?" era a pergunta mais freqüente que me fazia quando ouvia o estrondo do mar e o ronco das rajadas lá fora.

Escureceu e nada do tempo nos dar uma trégua. Temperatura 16º C, dentro da cabine reinava o caos. Estávamos úmidos e nada parava no lugar. Ficava difícil até mesmo caminhar. Ir no banheiro, por exemplo, nem pensar! Cozinhar então... Mesmo assim, Betinho nos preparou um risoto quente para aquecer um pouco nosso ânimo. O barulho do vento e das ondas se quebrando contra o casco amplificavam-se dentro da pequena cabine. E nós quietos, cada qual no seu canto com seus próprios pensamentos e temores. A cada quinze minutos, preso ao cinto de segurança, um de nós fazia uma rápida visada lá fora, para ver se não havia ninguém na nossa rota. Ao longe, na proa, vimos duas luzes de tope do mastro de dois catamarãs que partiram conosco de São Miguel. Deviam estar sofrendo mais que nós.


Atlântico Norte: o pau comeu há dois dias da chegada.

Amanheceu feio! Naquela altura, já tínhamos desistido de seguir até Cascais. O nosso novo rumo era para onde o vento queria nos levar, o Algarve, no sul de Portugal. Nosso esforço se resumia apenas em agüentar o desconforto. As velas estavam bem reguladas e o piloto automático seguia seguro no controle dos solavancos. Eu estava deitado na cabine de proa. De repente, senti um choque no costado e ouvi o estrondo de uma onda. A vaga quebrou-se sobre o cockpit inundando-o. A água levou um minuto para escoar-se toda. Antes porém, pela abertura do auto-falante de popa, jorrou como uma cachoeira para dentro da cabine, exato sobre a cama onde eu estava. Caiu bem em cima da minha bolsa de equipamentos fotográficos que, felizmente, estava fechada, evitando um prejuízo doloroso. Beto estava lá fora e, apesar da surpresa, manteve-se calmo.

Rapidamente Bob ajudou-me a secar meus apetrechos eletrônicos. Mas minha cama estava totalmente ensopada. Drenamos o que era possível e, momentos depois, quando tudo parecia sob controle, aconteceu de novo. Uma nova onda inundou o Zimbros e invadiu minha cabine de novo. Parecia que aquela tortura nunca mais iria acabar. Revendo hoje, concluo que aqueles dois últimos dias antes de completar minha travessia, foram os piores de toda minha viagem, desde a saída de Porto Belo um ano atrás. Eu já tinha pego ventos fortes e mar desconfortável, mas não por tanto tempo seguido. Nem mesmo no trajeto São Luiz à Trinidad eu sofri tanto!

A noite veio e ainda não tínhamos uma trégua do tempo. Dormíamos mal, em intervalos cada vez menores. Fazia frio e estávamos todos molhados. Parecia que nunca chegaríamos. Mas as três da madrugada o vento, com a mesma rapidez que veio, se foi completamente, obrigando-nos a ligar o motor. A medida que avançávamos, avistamos no horizonte a luz do farol do Cabo de São Vicente, o mais poderoso da Europa com um alcance estimado em cinqüenta milhas. Faltava pouco para a chegada, contávamos o tempo minuto a minuto.

Amanheceu e pudemos ver as enormes falésias da costa sul portuguesa. Dezenas de navios apareceram do nada no horizonte, indo e vindo de todas as direções. Muitos deles seguiam para Gibraltar. O tráfego intenso nos obrigava a ficar em vigília permanente. As seis da manhã cruzamos o mítico Cabo de São Vicente, desde séculos um importante ponto de referência para a navegação. Na Idade Média este promontório, varrido pelos ventos, no extremo sudoeste da Europa, era considerado o fim do mundo. Gregos e romanos o chamavam Promontorium Sacrum, mais tarde, Sagres pelos lusos. Ali onde termina a terra e começa o oceâno, nas palavras de Camões, suas falésias de até 60 metros sobre o Atlântico, ainda tem uma beleza trágica e misteriosa.


Terra à vista: o Cabo de São Vicente, extremo sudoeste da Europa

Ao abrigo da costa o mar ficou calmo, sem ondas. Chegamos na Enseada de Sagres, a sede da exploração ultramarinha portuguesa a partir do início do século quinze. Um processo expansionista que começou não só por razões econômicas mas também religiosas, a luta entre a Europa cristã e o mundo árabe. A tomada de Ceuta no Marrocos pelos lusos em 1415, um divisor de águas na história portuguesa, marca o começo dessa marcha. A partir dai, o mundo ficou pequeno para Portugal. Instalado no Algarve, ou El-Ghard, a terra do poente em árabe, o infante D. Henrique, filho do rei D. João I, foi o grande arquiteto do imperialismo luso, financiando expedições ao longo da costa da África. Cercado de sábios, cartógrafos, astrônomos e astrólogos fundou a Escola de Sagres, que existiu apenas no sentido figurativo. Ao contrário do que se afirma, nunca houve um espaço físico ou um edifício de estudos na ponta de Sagres. Na verdade, afirmam alguns, o fidalgo alojou-se na vizinha Lagos. A razão é bem simples. Localizada dentro de uma enorme baia, Lagos apresenta melhores condições de abrigo tanto para saídas e chegadas como para a manutenção das pesadas naus lusitanas.


O Cabo de São Vicente: o Promontorium Sacrum dos gregos virou a Sagres dos lusos.

Com ajuda do guia náutico, decidimos parar na Marina de Lagos. Navegávamos próximos à costa para melhor apreciar suas reentrâncias nuas e pedregosas. Na base, enormes cavernas criadas pela erosão das ondas aumentavam ainda mais seu mistério. Não por acaso, um lugar outrora ocupado por druidas. Celtas e iberos costumavam dizer que ali os deuses faziam seus ágapes noturnos. Semanas no mar, um banquete cheio de virgens me deram o que pensar. Pequenas embarcações de pesca e de turismo seguiam próximos a nós. Cruzamos com um velho pescador e sua rede. "Quem ganhou o jogo" foi nossa única curiosidade. "Os gregos" gritou o homem. "Pelo menos perderam para os parentes mais próximos das divindades olímpicas" concluímos consolados. Após a ponta da Piedade, sobre a qual está localizado um solitário farol neoclássico, de novo os gregos, conseguimos localizar os molhes que marcam o início do canal de acesso à marina. Às dez e meia atracamos no cais de recepção, bem ao lado das modernas instalações do escritório e da imigração.


Cabo da Piedade: segundo os celtas, a sentinela dos deuses.

Desembarcamos! Foi com emoção que pus os pés em terra. Mas eu não era mais o mesmo de antes. Dei um salto na minha carreira de aprendiz de marinheiro, consegui o que poucos conseguem. "Triunfei, venci Possêidon, deus do mar ruim" comemorei em silêncio. Um feito notável para o grande Zimbros, um barco de apenas trinta e seis pés, standard, sem qualquer tipo de equipamento extra, somente os de fábrica. Me senti orgulhoso do meu lado corsário, do Osvaldo o Terrível nas palavras do Uwe Kötter. Embora centenas de navegadores façam esse cruzeiro todos os anos, não é fácil, não é para qualquer um. Eu agora fazia parte do grupo dos caras, homens e mulheres, que conseguiram atravessar o grande Mar Tenebroso. Me, Beto and Bob. "One for the road", mandamos um conhaque para dentro e nos cumprimentamos orgulhosamente, trocando socos, punho contra punho, num viril gesto marinheiro.

Não demoramos para preencher as formalidades de entrada. Logo fomos autorizados a entrar na moderna marina de Lagos. Daquelas que não existem similares no Brasil. Com lojas, restaurantes, hotéis, apartamentos, piscinas, um verdadeiro centro de lazer cinco estrelas. Uma ponte de pedestres abriu-se sobre nós e entramos dentro do cais, onde o Zimbros ficaria pelos próximos dois meses. Havia muito que fazer à bordo para que pudéssemos voltar ao Brasil. Em dois dias, executamos todas nossas tarefas e partimos para Lisboa. Na hora da saída não pude deixar de olhar para trás, já com saudades da minha próxima aventura. Quando estamos no mar, não vemos a hora de chegar em terra. Uma vez desembarcados, contamos nos dedos os minutos que faltam para voltarmos a navegar. É a febre do mar. A cura é homeopática. Primeiro um pouco de brisa, depois vento e finalmente com tempestades!


Marina de Lagos, Algarve: consegui chegar!

Final da parte 28