Parte 27


Golfinhos acompanham o Zimbros: um sinal de boa sorte!

Com muito custo deixamos as Bermudas para trás. Como sempre acontecia nas saídas, o vento forte soprava contra. Nosso destino: os Açores, 1.900 milhas à leste, do outro lado do Atlântico. Orçamos o máximo que pudemos no rumo sudeste. Assim passamos o resto do dia, molhados e com frio. Às onze da noite, quando o vento girou para leste, mudamos nossa proa para nordeste. Estávamos inseguros, sem saber exatamente qual direção seguir. Através de um telefone celular via satélite Iridium , aluguado em Miami, ligamos para o Crespo em Curitiba. Queríamos ajuda com a meteorologia. Não demorou a resposta. A previsão era de calmaria por aproximadamente cinco dias! Uma má notícia. Logo nas primeiras horas de uma longa viagem, teríamos que ir à motor. Nossa autonomia de diesel não era suficiente, e arriscávamos ficar sem combustível no meio do mar.

Em seguida o prognóstico confirmou-se. O vento diminuiu e tivemos que ligar o motor. Cruzamos um cargueiro que seguia da América para o Mediterrâneo. Pelo rádio, pedi a previsãodo tempo para os próximos dias. Estávamos bem no meio de uma zona de alta pressão, as Azores High, bastante comuns no Atlântico Norte. Seguíamos no motor, mas a qualquer brisa, abríamos as velas para aproveitá-la melhor. Tínhamos que poupar combustível o máximo possível. Rumamos um pouco mais para norte. Queríamos chegar próximo aos 40º para fugir da latitude dos cavalos, assim chamada pelos antigos navegadores por ser a região onde estes animais eram abatidos. Serviam de lanche à tripulação faminta. Suas lentas naus, movidas só à vela, passavam semanas boiando sem vento no meio do nada Suas despensas rapidamente se esvaziavam, o que os obrigava a apelar para uma dieta mais sangrenta.

Finalmente no amanhecer do quarto dia nossa busca terminou, achamos os alíseos e a Corrente do Golfo. Ambos nos empurraram generosamente em direção aos Açores. Abrimos as velas e desligamos o motor depois de quase vinte horas funcionando. O dia estava tranqüilo e a temperatura, tanto do ar como da água, era de 21º C. Aos poucos as rajadas aumentaram de intensidade e nos obrigaram a tirar a mestra e reduzir a genoa. Em seguida começou uma chuva fina e chata. Ficamos três dias sem sair da cabine! A umidade fez com que a sensação térmica despencasse. No meio da madrugada fria e escura, sem poder ver onde terminava o mar e começava o céu, lua nova e céu tenebroso, eu ouvia só o ronco do vento soprando forte pela popa, e o barulho das ondas espumando por trás. Foi mais um daqueles momentos em que me preguntei que porra era aquela que eu estava fazendo ali.

Esfriou mais, Bob jurou ter visto um iceberg. Era brincadeira, mas não estava tão fora de propósito. Estávamos pouco abaixo dos 40º N, o limite máximo onde se pode encontrar estes monstros gelados. Em poucos dias passaríamos perto de onde, em 1912, o desfortunado Titanic encontrou seu trágico destino. Os icebergs vêm do norte justamente entre março e julho com a chegada do calor que derrete o gelo no Ártico. A corrente do Labrador traz estas montanhas flutuantes bem para o meio do Atlântico Norte. O mar mais aquecido do sul se encarrega de derretê-los lentamente e é muito difícil encontrá-los abaixo dos 40º. Estávamos safos, navegávamos nos 36º com os ventos e correntes favoráveis que buscávamos. Minha única preocupação era com os navios na nossa rota. Estávamos no caminho deles, apesar de termos visto poucos até aquele momento. "Oxvaldo, a possibilidade de batermox num navio é a mexma de acertarmox na loteria sozinhox" disse Bob do alto de sua experiência de já ter cruzado o Atlântico três vezes. Por dúvida, e sabendo que o azar e a sorte existem na mesma proporção, pedi que nunca ficássemos mais que quinze minutos sem checar nosso horizonte. Peguei muito no pé do Bob por essa!


Bob & Beto: enfrentando o frio das altas latitudes.

Uma semana à bordo. Estávamos exatamente no meio do caminho entre as Bermudas e os Açores. Mantínhamos os olhos bem abertos no barômetro, para fugir das altas pressões e antecipar a entrada de alguma frente. Seguíamos as recomendações dos guias e do Crespo que monitorava nossa trajetória. Pelo telefone ele mandava pequenos torpedos direcionando nossa rota em busca dos melhores ventos. Procurávamos ficar bem no meio dos alíseos e das correntes. Eram o nosso principal combustível, sem eles ficaríamos na estrada. No oitavo dia, o vento rondou para norte. Depois de dois dias sem mexer nas velas, voltamos a levantar a grande e retiramos o pau-de-spi da genoa. Havíamos feito 360 milhas em 48 horas só com a genoa armada em asa de pombo! Uma média sensacional para um barco como o Zimbros.

Adiantei uma hora no relógio de bordo. Explico porque: se dividirmos os 360º da circunferência da terra pelas vinte e quatro horas do dia, teremos o equivalente a uma hora para cada 15º de longitude percorridos. A mais, quando se segue para o leste, ou a menos quando se viaja para o oeste. Como cada grau corresponde, no equador, a 60 milhas, significa que a cada 900 milhas andadas, alteramos uma hora no relógio. Não entenderam? Não tem importância, não muda nada à bordo. É apenas uma maneira de se marcar o poente e o nascente para que os turnos comecem sempre na mesma hora. Funciona também nas chegadas, para que o horário do destino esteja um pouco aproximado do de bordo. Serve também para marcarmos a hora da fome.

É impressionante como nossos hábitos alimentares se adaptam com facilidade ao meio e à penúria. Para economizar energia elétrica, todos nossos alimentos prescindiam da geladeira. Arroz ou macarrão acompanhados de algum tipo de molho enlatado, era a nossa comida diária. De manhã, pão integral, queijo, alguns cereais e frutas eram nosso desjejum. À noite, uma sopa de pacote tipo Maggi. Durante todo o dia preenchíamos a gula com bobagens como doces, chocolates, bolachas, etc... Apesar de levar uma linha de arrasto na popa, jamais consegui pegar qualquer tipo de peixe durante todo o trajeto. Raramente bebíamos álcool, exceto um copo de vinho quando o tempo estava camarada. Para compensar o regime, passávamos horas sonhando com picanhas mal passadas, sorvetes com muito creme, cerveja gelada e todos os tipos de delícias que não podíamos ter conosco.

No décimo dia faltavam mil milhas para chegar aos Açores. Começamos a contagem regressiva. Fazíamos uma média de 180 milhas por dia! Durante a noite o vento aumentou para 25 nós. Com a grande e a genoa em cima, embora rizadas, surfávamos nas ondas. Na descida das vagas o Zimbros chegava à onze nós de velocidade, um recorde! O piloto automático funcionava esplendidamente, não deixando que o barco perdesse o rumo com o balanço das ondas. Na popa, um fiapo de lua nova se punha no horizonte refletindo um brilho amarelo por sobre a água. Uma velejada perfeita, eu sentia um grande prazer de estar ali no meio do nada vencendo milhas e milhas a cada dia em direção ao meu destino.

Amanheceu e o vento chegou a trinta nós. O mar cresceu perigosamente. Seria imprudência continuarmos com todas as velas abertas. Com muito trabalho, abaixamos a mestra e enrolamos a genoa no tamanho de uma pequena buja. O Zimbros manteve a mesma velocidade, porém com mais estabilidade. Se há algo que aprendi desde que dexei meu porto, muitas milhas atrás é: sempre navegar com menos vela, e ancorar com mais cabo. Permanecemos durante todo o dia dentro da cabine, saindo apenas a cada quinze minutos para checar se não havia outro barco no nosso caminho. Ficar fechado numa condição daquelas era muito desconfortável, não dava para fazer nada, exceto deitar e esperar passar a tribuzana.


Atlântico Norte: muito vento, pouca vela.

Beto estava em pé na cozinha, Bob deitado, e eu tentava ligar o telefone. De repente, na descida de uma onda enorme, o piloto automático não respondeu com a rapidez necessária, o Zimbros atravessou, inclinando-se perigosamente para bombordo. O barco diminuiu sua marcha e o vagalhão que vinha atrás arrebentou sobre o cockpit, invadindo tudo pela frente, inclusive a gaiúta de acesso à cabine. Lá dentro tudo pareceu acontecer em câmara lenta: o barco adernou, ouvimos o estrondo da onda e, finalmente, um aguaceiro dos diabos invadiu tudo, indo cair direto sobre o fogão. Beto e eu nos olhamos: "Você viu isto" falei numa calma como se nada tivesse acontecido. No segundo seguinte o piloto retomou rapidamente seu rumo e o Zimbros aprumou-se no caminho correto.

Pouco depois aconteceu de novo. Ondas entrando pela cabine, eu nunca tinha visto nada igual antes! Na verdade não corremos nenhum risco por estarmos todos protegidos dentro do barco. Mas seria muito perigoso se alguém estivesse lá fora, sem cinto de segurança. Corria-se o risco de ser jogado para o mar. Em uma situação daquelas, seria uma tragédia. Por via das dúvidas passamos a usar o cinto mesmo quando só colocávamos a cabeça para fora para checar se estávamos sós. No mar a segurança é tudo, o risco tem que ser zero!

Somente na manhã seguinte o tempo acalmou-se. Foram vinte horas de pauleira! Fizemos 190 milhas em um único dia, outro recorde! Acordei com o barco velejando tranqüilamente com todas as velas abertas. O vento rondara para noroeste e estava com dez nós de velocidade, um passeio! Nada como um dia depois do outro para quem está navegando. A temperatura caiu. A brisa vinda do quadrante norte trouxe o frio do Ártico até nós. Aproveitando o bom tempo e, para compensar o sofrimento das últimas horas, tomamos todos um merecido banho quente, sem economia de água. Chequei os tanques e vi que ainda tínhamos metade deles cheios. O nosso controle tinha funcionado bem, sem desperdícios. É impressionante como esbanjamos água no dia a dia. O Zimbros tem um tanque com capacidade de apenas 300 litros, complementados por mais 60 levados em camburões de plástico. É pouco, mas suficiente para passarmos os três, mais de duas semanas no mar. É só saber poupar.

Faço parte de uma organização chamada Universidade da Água, cujo objetivo, entre outros, é a conscientização sobre o futuro das nossas reservas naturais deste precioso líquido. A Uniágua, concebida e guiada pelo meu incansável e altruísta amigo Roberto Barbosa, luta com dificuldades para mostrar uma verdade que poucos querem ver. O panorama é assustador segundo ele: de toda a água do planeta, somente 3% é doce. Destes, apenas 1% está disponível para consumo. E o pior, esta pequena quantidade está ameaçada pelo crescimento urbano desordenado e a conseqüente ocupação irregular dos mananciais. Prefiro não ser sombrio, mas num futuro bem próximo vamos ter que lutar por água, assim como hoje lutamos pelo petróleo. Água vai valer ouro. Ao entardecer, conversávamos sobre estas previsões sinistras. O capitão Bob, que sempre torce pelo bandido, previu sombriamente que nosso planeta não vai durar mais que trinta anos. Da minha parte, já estou treinando a viver com pouco...

Quando supunha faltarem apenas dois dias para chegarmos, aconteceu aquilo que todo velejador reza para que não aconteça: o vento ficou contra. Soprava fraco de leste mas o suficiente para nos segurar um dia a mais no mar. Ligamos o motor. No final da tarde, soprava de todos os quadrantes menos de onde precisava. "Vento cocoroeste" definiu Bob. Foi uma das piores horas de toda a viagem para mim. Já estava considerando a possibilidade de tomar um banho quente e comer alguma coisa diferente de arroz ou massa, quando vi que tinha mais um dia ainda até lá.

Aprendi que o mais difícil numa travessia longa é saber lidar com o tempo cronológico, muito mais que com o tempo meteorológico. Passamos a maior parte das horas a sós com os nossos pensamentos e idéias. É preciso arranjar alguma coisa para fazer. Eu gosto muito de pensar. Refletir sobre meus valores e minhas eternas questões existenciais. "Traga-me vinho e a verdade" disse Alceu, um filósofo jônico da antiguidade, resumindo bem o espírito da dúvida que nos persegue desde sempre. Quem sou, de onde vim, pra onde vou? Quando, como e onde vai parar meu coração? Nenhuma conclusão, só que, no cotidiano, usamos nosso tempo como se ele fosse um bem inesgotável, e não é bem assim. Não somos imortais, o tempo é o nosso maior patrimônio. Mas a mesma filosofia que inquieta, também conforta: o que são alguns dias de isolamento frente à solidão da eternidade.


Fernando Pessoa: só quem navegou todos os mares, conhece a solidão de si mesmo.

Duas semanas de mar. As quatro da manhã, além do vento contrário, pegamos a corrente dos Açores que vinha do leste. Desligamos o motor e, com todas as velas em cima, rumamos para sudoeste, que infelizmente não era nosso rumo . As cinco Bob, solitário em seu turno gelado, avistou a Ilha do Pico e seu imenso cume com mais de dois mil metros de altura. Alternávamos vela e motor seguidas vezes sem sucesso. São Miguel, a ilha dos Açores que decidimos parar, demorava-nos à proa. Escureceu sem novidades. As duas e meia da madrugada Betinho avistou a luz do farol de São Miguel. Amanheceu frio e nublado. Bob acordou-me com uma festa. "Terra à vista" gritou ele lá de cima. Sonolento subi para o cockpit e vi, ao longe entre nuvens, o belo relevo vulcânico do nosso esperado destino. Não pude deixar de exultar de felicidade ao ver o maravilhoso contorno de São Miguel. "Até que enfim, graças a Deus". Foi tudo o que pude pensar, um momento heróico para mim. Chegava no lugar cuja história, de certa forma, está também ligada à nossa. Uma terra de santos e silvas como nós.


Quinze dias de mar: terra à vista, a Ilha de São Miguel.

A aventura marítima portuguesa começou com a exploração das costas da África. As frágeis embarcações navegavam para o sul, sempre à vista da terra, seguindo os alíseos de nordeste. Como estas primitivas naus tinham um ângulo de orça muito grande, no regresso eram obrigadas a afastar-se da costa para pegar o vento. E assim chegavam cada vez mais longe, até avistarem os Açores. Atribui-se sua descoberta em 1427, embora já figurasse em alguns mapas genoveses do século quatorze. A partir de sua ocupação, ordenada pelo Infante Don Henrique, o arquipélago virou ponto estratégico de apoio para as expedições ultramarinhas que regressavam das Índias e do Brasil.

Eram apenas sete da manhã quando aportamos a contrabordo de outros três barcos no cais da imigração portuguesa em Ponta Delgada. Havia dezenas de barcos na mesma situação que nós. Velejadores experientes que vinham de longe, de todos os quadrantes, Caribe, Europa, América. Tantos que não havia mais vaga disponível na marina, exceto a contrabordo uns dos outros. Bob com seu charme carioca, aproveitando-se do cartaz que nós brasileiros estávamos tendo em Portugal graças ao futebol, nos consegui um lugar de honra na marina. Desembarcamos. As primeiras impressões em terra, depois de tanto tempo navegando, são um pouco surrealistas. Parece que não estão acontecendo, tantas são as emoções. Sobretudo depois da primeira cerveja gelada que desce redonda como uma bomba. Um grande banho e um almoço especial nos deixaram em dia com nossos desejos, reprimidos em longos dias afastados dos confortos de terra.

Na manhã seguinte alugamos um pequeno carro e fomos conhecer a ilha. Bob já estivera lá antes e foi nosso cicerone. No meio do Atlântico entre a América do Norte e a Europa, a 800 milhas de Portugal e 2100 dos Estados Unidos, nove ilhas de origem vulcânica, apontada por alguns como os restos da antiga Atlântida, formam o Arquipélago dos Açores. São Miguel, também chamada Ilha Verde, pela cor de seus campos cuidadosamente cultivados, é a maior e mais populosa. Tem 65 Km de comprimento e 14 de largura. É quase do tamanho de Florianópolis. Um dos lugares mais marcantes que já vi! Vistas deslumbrantes, costas com recortes abruptos, rochedos que despencam no mar, montanhas e vales cobertos de exuberante vegetação, hortênsias, azaléias, enormes lagoas inundando crateras de vulcões extintos, gêiseres e nascentes de água quente, dão à ilha uma variedade paisagística de tirar o fôlego. Mas o melhor de tudo é o povo. Chegamos num momento de festa. Os lusos estavam vivendo um momento de euforia rara na sua história. Era pela classificação de Portugal para a final da Eurocopa. O assunto era um só: futebol e o Felipão! Se ele tivesse ganho a competição, sua estátua hoje estaria substituindo a do Marques de Pombal no ancestral centro de Lisboa.


Ilha de São Miguel: um paraíso no meio do mar.

Mas tudo o que é bom, dura pouco. Cedo chegou a hora da nossa partida. Preenchemos as formalidades legais da imigração, abastecemos o Zimbros e, antes do escurecer de um dia radiante, soltamos as amarras do cais da Marina Pêro de Teive em Ponta Delgada, capital de São Miguel. Na hora da saída um pequeno problema com o pagamento do combustível: eles não podiam aceitar nossos dólares. Quem nos ajudou foi um personagem da marina, um sujeito especial, 30 anos, um destes loucos que tem em toda cidade, mas que nos lugares pequenos são parte da comunidade. Todos gostam deles. Sempre tive muita simpatia por estas criaturas, fazem parte da minha infância de cidade pequena. Nosso amigo, uma figura folclórica, rapidamente nos ajudou a resolver nosso problema, sempre com um sorriso no rosto. Depois de partirmos, ele ficou nos acenando durante muito tempo com simpatia. Foi uma imagem muito bonita e melancólica. Um pequeno veleiro partindo para longe e um amigo no porto desejando-lhe sorte. Um terno gesto que faz parte da vida daquele povo desde sempre. Como também faz da vida do marinheiro, feita de partidas e chegadas...

Fecha o plano, enquadra o por do sol, toca Cesária Évora: "vai nesse caminho longo..." Aguarde a próxima cena de "A Travessia". Capítulo especial de ataque: a chegada a Sagres e o encontro da tripulaçâo do Zimbros com seus heróicos antepassados....

Final da parte 27