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Permanecemos em St Maarteen o mínimo necessário para prepararmos o Zimbros a enfrentar sua grande façanha, a travessia do Atlântico. Normalmente, quando se fala em fazer um cruzeiro num pequeno barco a vela, se pensa em aventura e liberdade. Na verdade, não é só isso. É também, o resultado de muito planejamento e trabalho. O mar é algumas vezes muitíssimo duro e não perdoa erros. Se por um lado há muita gente navegando, sobretudo no Atlântico Norte, por outro, há muito que se preparar e aprender para evitar que uma aventura se transforme numa tragédia. São muitos os obstáculos para quem vai para o mar. Mas talvez o mais difícil seja mesmo a decisão de partir. Finalmente partimos. À medida que o Zimbros deslizava suavemente pelas águas da Sympson Bay Marine, vimos que o vento fora da baia estava forte. Quem nos alertou foi o auxiliar da marina que nos acompanhava com seu bote inflável. Às onze em ponto a ponte sobre o canal que liga a baia ao mar aberto abriu-se e nos oferceu todo o oceâno à nossa frente. Dali para diante seria somente conosco, não teríamos qualquer tipo de assistência para qualquer problema que surgisse à bordo nas próximas duas mil milhas. Tão logo ficamos fora do abrigo das montanhas que cercam o lado sul de St. Maarteen, o vento e mar nos pegaram sem piedade. Até um detalhe simples como levantar a vela grande foi feito com muito esforço. Planejamos circundar a ilha pelo leste e a partir de lá, seguir no rumo norte passando próximo de Anguila. Com vinte nós de um nordeste na cara, navegávamos numa orça bem fechada e desconfortável. "Começamos bem!" pensei com meus botões. "Talvez melhore" disse Betinho querendo um consolo para aquela situação. "Não Beto, não vai mudar, nós é que vamos nos acostumar com esta pauleira" disse eu, já descolado em partir com tempo contra. Fazia sol e estava quente, mas em apenas alguns minutos tudo no cokpit estava molhado. Sobretudo nós que não estávamos protegidos com nossos impermeáveis. Por mais que orçássemos, não conseguíamos livrar Scrub Island, localizada no extremo nordeste de Anguila. Decidi que passaríamos entre as duas, em um estreito canal com menos de cem metros de largura. Ao chegarmos perto, ao abrigo do relevo, o mar ficou mais tranquilo e pudemos ver as costas desertas das duas ilhas. Não havia nenhuma casa ou construção, apenas uma vegetação rala e seca. O chart-plotter nos dava o rumo, e o ecobatímetro a profundidade. Apesar dos instrumentos mostrarem que a navegação naquele ponto era segura, não pude deixar de sentir certo pavor de passar por aquela pequena passagem. Tão logo a cruzamos, demos um último adeus à terra apreciando a bela e selvagem geografia lunar de Scrub Island. A partir daquele ponto, terra só nos Açores. Anoiteceu. Às três da manhã, no turno do Beto, o piloto automático parou de funcionar. Não podia haver uma notícia pior naquele momento. Teríamos que levar o Zimbros na mão grande mesmo. Dormi mau, cheio de pressentimentos ruins. Quando amanheceu, o vento e o mar continuavam contra. Tiramos toda a carga do porão de proa, dentro do qual localiza-se o braço do piloto. Rapidamente localizamos e reparamos o defeito: um dos fios de alimentação havia se soltado. Mas o pior foi ver que o suporte de fibra que fixa o aparelho na carenagem do barco estava quase se quebrando. Bah, que notícia ruim! Não tínhamos à bordo nada que pudesse ser feito para reparar aquele tipo de avaria. A solução: voltamos ou mudamos nosso rumo para as Bermudas? Nem precisamos discutir muito, decidimos pela parada no famoso arquipélago, algumas centenas de milhas fora da nossa rota original. No primeiro dia haviamos andado cento e cinquenta milhas. Nada mal, com tudo contra. Faltavam mais 750! À noite finalmente o vento diminuiu para quinze nós e tudo ficou mais tranquilo. Na manhã seguinte, aproveitando a paz, resolvi limpar os porões que estavam cheios d'água. É uma tarefa que odeio fazer, mas não tem como evitá-la. "Quem pariu Mateus que o embale" lembrei das palavras do Glauco. Praguejava ajoelhado embaixo da mesa com um balde e uma esponja drenando as cavernas inundadas. De repente, o Cd tocou Oriente do Gil, aquela música que fala em "ir para o Japão num cargeiro do Lloyds limpando porão..." Nada podia ser mais apropriado naquele momento para ouvir. "Um barco é a maneira mais cara de se viajar de terceira classe", constatei mais uma vez. Mas não dava pra reclamar, tudo aquilo fazia parte de um script que eu sabia de cor. Dia três, quatro da tarde, cruzamos o Trópico de Capricórnio. No verão, os dias, para quem segue para cima no hemisfério norte, são cada vez mais longos. Aos poucos fomos nos entendendo com os alísios e o mar foi ficando cada vez mais dócil, sem molhadeiras no convés. No domingo, fizemos nossa primeira refeição decente com direito a salada, sobremesa, etc... Estávamos no través de Miami, pouco mais de novecentas milhas à oeste, longe de tudo e de todos. Sentia um isolamento com uma sensação de abandono, medo e prazer, tudo ao mesmo tempo. Cercado por um mar infinito, descobri que o nome do nosso planeta está errado. Deveria chamar-se planeta Água.
O calor do Caribe ficou para trás. A 29º de latitude norte começou a esfriar. O vento parou. Ligamos o motor, contra a vontade do Beto. Se dependesse dele, iríamos na vela com qualquer brisa. Mas não era o caso. Tínhamos um distância a percorrer e não podíamos nos dar ao luxo de demorar muito na travessia. Estávamos bem e confiantes. Navegávamos em águas bastante previsiveis. O equivalente da nossa latidude no hemisfério sul, era Porto Alegre. E todos sabem o quanto é traiçoeiro o mar do Rio Grande. As correntes do golfo fazem do Atlântico Norte um mar bem tranquilo no verão. O fato é que quem aprende a navegar no sul do Brasil, com toda a sua instabilidade, consegue encarar a maioria dos mares do mundo sem grandes surpresas. Motoramos por cerca de trinta horas. Faltava apenas um dia para aportarmos nas Bermudas. O clima à bordo era de já cheguei. Betinho caprichou no almoço. Abri um vinho tinto barato que comprei na Martinica. Foi um dos melhores da minha vida. Calado, ouvindo Miles Davis me senti parte de sua música, feita de silêncio e alma. Um sentimento de solidão e grandeza ao mesmo tempo. Li certa vez, não lembro onde, que Deus presenteia seus escolhidos com a loucura. Concordo, sobretudo por me considerar um pouco fora do modelo que determinamos chamar de lucidez. Alguém com padrões de valores considerados lúcidos, jamais estaria onde estávamos naquele momento. Era minha escolha, estava vivendo uma história que eu assumira por vontade própria. Não queria estar em qualquer outro lugar do mundo. Em terra, adapto-me com dificuldade à rotina. Odeio sinais vermelhos e reuniões de trabalho.
O amanhecer do último dia foi esplendoroso. Nada de vento, seguíamos no motor. Às dez da manhã não pude resistir ao chamado das sereias e mergulhei no mar cristalino das Bermudas. Bob e Beto, por receio, relutaram em seguir-me. Mas quando viram minhas exclamações, também caíram na água. Estávamos a três mil metros de profundidade. Uma sensação estranha ter uma imensidão infinita e escura abaixo de nós. Um contraste enorme, a poucos metros da superfície, seres de outro planeta vivem onde nenhuma luz jamais chega Quando se fala nas Bermudas a primeira coisa que a maioria lembra é do famoso triângulo. Ele ficou conhecido na década de 70 em consequência de um livro sensacionalista de Charles Berlitz que descrevia a área como amaldiçoada para a barcos e aviões. Li o livro na época. Lembro-me de ter ficado muito impressionado, mas com o oportunismo ridículo dos que inventam demônios para vender aos crentes menos avisados. A região também conhecida como Triângulo do Diabo, é limitada pela Flórida à oeste, pelas Bermudas ao norte e por Porto Rico ao sul. O seu tamanho varia de 500.000 milhas quadradas a três vezes mais, dependendo da imaginação do autor. Alguns chegam a incluir os Açores, o Golfo do México e as Indias Ocidentais no triângulo. Muitas teorias foram criadas para explicar o mistério dos aviões e navios desaparecidos. Extraterrestres, campos magnéticos, resíduos de cristais da perdida Atlântica, vórtices da quarta dimensão estão entre os favoritos dos inventores de fantasias. Campos magnéticos, gás metano vindo do fundo do oceano são os motivos apontados pelos mais técnicos. Outros mais céticos argumentam que não existe mistério a ser solucionado. O número de naufrágios na zona não é extraordinário, dado o seu tamanho, localização e o tráfego que recebe. No meu entender, tempestades, furacões, ondas, correntes, azar, piratas, navegantes incompetentes e outras causas naturais e humanas são as mais prováveis causas do mito. Longe destas fábulas, nosso dia continuava maravilhoso. Os instrumentos estimavam nossa chegada às duas da tarde. Mas não conseguíamos ver qualquer sinal de terra no horizonte, apesar de estarmos a apenas trinta milhas do nosso destino. Seguindo uma secular tradição náutica, ofereci um quartilho extra de rum ao marujo que primeiro avistasse terra. Betinho, que quase não bebe, foi o felizardo. As Bermudas são um arquipélago vulcânico de baixa altura, sem montanhas. É muito difícil conseguir distinguí-las do mar. Estão isoladas no meio do Atlântico, equidistantes novecentas milhas do continente americano e do Caribe. Aos poucos o contorno da ilha foi ficando mais nítido e podíamos ver suas construções brilhando ao sol. Todo o arquipélago é cercado por uma barreira intransponível de perigosos bancos de areia e recifes de corais. O nosso destino era St. George ao norte. Trata-se de uma pequena baia, que teve seu acesso aberto pelas mãos do homem, o Town Cut Channel, um estreito canal escavado no leito do mar. Sem esta entrada estratégica, seria impossível ocupar um território tão escasso de abrigos naturais. Localizamos as bóias de sinalização e pedimos autorização aos funcionários da alfândega para entrarmos no porto. A boca é muito justa, se algum transatlantico estiver saindo ou entrando, nenhuma outra embarcação consegue passar.
À medida que vagarosamente adentramos na baia, pudemos ver dois imensos navios de passageiros parados no pequeno porto. Ao longo do caminho, dezenas de veleiros de todos os lugares do mundo ancorados. Um pouco diferente do Caribe, pois ali só chegavam os que se aventuravam longe de casa. Pelo VHF, a imigração nos indicou um pequeno cais em Ordnance Island, onde paramos para preencher as formalidades de entrada no país. Tão logo cumprimos com nossa obrigação legal, parti em busca do primeiro boteco atrás de uma cerveja bem gelada. Que prazer indescritível poder consumir de um só gole um delicisoso pint of lager inglês. Na hora de pagar, descobri uma dura realidade da ilha, os preços: cerca de seis dólares americanos por um chopp.
Conseguimos uma vaga numa marina bem ao lado de Ordnance Island. Em pouco tempo, manobrávamos no cais da Captain Smoke Marina. Na chegada, Betinho fez uma aproximação triunfal com o Zimbros entrando de popa por entre outros dois veleiros. Uma correnteza e um vento de través dificultavam nossa manobra. Beto calculou com precisão os vetores resultantes de todas as forças, acelerou o motor à ré e encaixou com precisão o Zimbros na estreita vaga que nos era reservada. Na proa eu me encarreguei de jogar a âncora e Bob, na popa, com rapidez pulou em terra com um cabo para fixá-lo no cunho de amarração. Um trabalho de equipe perfeito! A hora da chegada é muitas vezes a pior de toda a viagem. Pode-se navegar por todos os oceânos e cometer um erro que pode ser fatal na hora da atracação. Cansaço, pressa ou negligência são as principais causas dos acidentes de chegada.
Em terra não perdemos tempo. Nos dividimos em equipes e, no final da tarde, o apoio que fixa o braço do piloto automático já estava reparado. Mais uma vez Beto e Bob mostraram seu talento em lidar com fibra de vidro. Aproveitei a parada para subir no mastro e substituí, pela segunda vez, os cabos que fixam o lazy-jacket, uma espécie de bolsa dentro da qual se recolhe a vela grande. Lá de cima pude ter uma visão privilegiada de toda a marina e seus entornos. Captain Smoke é um pequeno cais de concreto e suas instalações são bastante modestas, embora muito charmosas. Havia não mais que meia duzia de barcos parados lá. Alemães, franceses, ingleses e uns americanos bem babacas eram nossos vizinhos. Já falei antes que não sou racista, mas ultimamente comecei a implicar com a prepotência dos americanos. Os caras são muitos cheios de sí e se acham no centro do mundo. Mas o que mais me irrita é o fato deles se levarem muito à sério. É impossível ter uma conversa de igual para igual com caras que não sabem onde fica o Amazonas, por exemplo. Depois das obrigações cumpridas, resolvemos conhecer a terra dos nossos anfitriões. As Bermudas são um arquipélago de origem vulcânica composto por uma ilha principal, cercada de outras cinco menores, todas ligadas entre si por pontes e aterros. O conjunto todo tem a forma de um imenso anzol, com cerca de vinte quilômetros de um extremo ao outro. O relevo é plano e seco. Atingida pela corrente do golfo, as Bermudas gozam de um clima sub-tropical incomum para sua latidude. É um paraíso fiscal onde estão instaladas mais de três mil seguradoras de todo o mundo. Daí sua riqueza, além do turismo. Um belo lugar, onde todos parecem felizes. Atribui-se o seu descobrimento no começo do século dezesseis ao espanhol Juan Bermudes, daí o seu nome. Nos anos sessenta algumas beldades menos sujeitas às regras da moda, começaram a usar uma calça mais curta e larga, mais apropriadas ao clima. Nascia a famosa bermuda, um traje hoje universal.
Estávamos preparados para nossa saída quando, na véspera, uma instabilidade causada pela passagem de uma zona de baixa pressão nos segurou no porto. A meteorologia previa ventos de quarenta nós fora do abrigo da baia. Durante a noite, registrei no anemômetro de bordo, ventos de até trinta nós. Por sorte estávamos bem protegidos e amarrados. Um vento daqueles em mar aberto seria um sufoco dos diabos. Como não valia a pena correr riscos desnecessários, adiamos a partida para o dia seguinte. A medida que frente deixou a região, o regime de ventos mudou completamente, e os alísios que sempre vêm de oeste, mudaram de direção, passando a soprar de leste, exatamente no rumo que pretendíamos seguir. Tivemos que suspender mais uma vez nossa saída. Na terceira manhã, aos primeiros raios do dia, com um vento ainda contra, mas não tão forte, cruzamos mais uma vez o Town Cut Channel. esta vez na direção da sua saída. Demos um triste adeus aquela bela e hospitaleira ilha e nos preparamos para, agora sim, cruzarmos o Atlântico Norte.
Final da parte 26
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