Parte 25


Catamaran Marina em Antigua: o começo de uma nova etapa da viagem, a travessia do Atlântico.

Por cerca de cinquenta dias, o Zimbros ficou imóvel, amarrado ao cais da Catamaran Marina, em Antigua. Foi muito tempo para meu gosto, senti falta do seu balanço e do trabalho que ele me sempre me dá. Barcos são como filhos, é preciso tê-los sempre por perto. Pouco antes de minha partida, contratei uma pequena firma de manutenção para cuidar da sua segurança e limpeza. Nesse tempo, comuniquei-me com eles via e-mail, procurando acertar aquilo que eu não tivera tempo de fazer ao deixar a ilha. Preços, serviços, etc... Apesar de ter deixado um mega bilhete à bordo com todas as instruções, fiquei inseguro quanto à competência deles para cumprir minhas determinações. Estes temores confirmaram-se na minha chegada.

Ao entrar à bordo, vi com desânimo que meu barco continuava exatamente do mesmo jeito que eu o havia deixado, sem qualquer tipo de atenção. Quase nada havia sido feito na minha ausência, mas uma enorme lista de cobranças estava a minha espera. Antigua é um dos principais portos de vela do mundo. Milhares de barcos estacionam lá todos os anos. O turismo náutico seguramente é uma das principais fontes de arrecadação da ilha. E eles sabem explorar direitinho esta fonte. Cobram sem perdão. A marina, o pessoal de manutenção, a aduana, a imigração, todos tinham uma nota para me apresentar. Quando achei que estava quites com todas as taxas, me apareceu um sujeito com uma cobrança de cento e cinquenta dólares, referentes a um trabalho extra de limpeza que, alegava ele, foi feito pouco antes da minha chegada. De fato, havia pedido o tal serviço por e-mail, mas ele não foi feito. E o cara de pau teve o displante de ainda vir me cobrar! Não paguei. Juro que não sou racista, mas tenho que admitir que esses pretos do Caribe são uns folgados, exploradores. Não perdem uma oportunidade de tirar algum dinheiro de quem quer que seja. E o pior, nunca cumprem o que combinam.

Fiquei três dias em Antigua. Estavam comigo desta vez Bob e Betinho, antigos companheiros velejadores que já tinham me acompanhado no Brasil. Desta vez, nossa aventura seria muito maior: iríamos cruzar juntos o Atlântico Norte, rumo à Portugal. Existem duas maneiras de voltar do Caribe para o Brasil. Uma, mais curta, é pelo rumo sul, costeando as Guianas. Contra o vento e contra todas as correntes, é uma tortura. Outra, seguindo os alísios do norte, rumo à Europa. Escolhi a segunda opção por ser a menos sacrificada, embora mais longa. Como ainda sou um aprendiz, neste trecho da minha viagem eu precisava estar cercado de marinheiros que soubessem o que estavam fazendo. Beto e Bob, não estavam alí por acaso. Eles são navegadores em quem se pode confiar. Mas antes eu precisava prepar o Zimbros para a odisséia. Nossa primeira escala era St. Maarteen, um porto livre, cem milhas à noroeste da nossa posição. Lá pretendia instalar alguns equipamentos necessários à nossa viagem: rádio SSB, placas solares, Epirb, etc... Como a ilha é um porto livre, esperava encontrar tudo o que precisava a preços mais acessíveis. Só que no Caribe, não existe nada barato.



Beto & Bob: os caras que sabem tudo.

Deixamos Antigua na manhã do dia 27 de junho. Como era quinta-feira, de nada adiantaria chegarmos no nosso destino no dia seguinte, já que o final de semana nas Antilhas começa na sexta à tarde. Resolvemos fazer o percursso mais longo, indo por St. Kitts e St. Barts para poder conhecê-las, mesmo que rapidamente. Rumo 290º, vento de popa, Nevis na proa a 50 milhas e Tom Jobim na caixa, são um resumo das nossas primeiras horas navegando. Poucos antes das seis da tarde jogamos âncora em Major Bay, pequena enseada deserta ao sul de St. Kitts. O local não era dos melhores. Dois barcos em ruínas nas pedras e alguns bodes nas colinas nos serviram de companhias durante a noite.

Às cinco da manhã já estávamos de pé. Prosseguimos para o norte com pretenção de parar em Statia, segundo nosso guia, um paraíso. Chegando lá, ao abrigo do vento, frente à Oranje Baai, não vimos nada de excepcional que justificasse uma parada. Nem mesmo um veleiro ancorado nas redondezas. O vento soprava forte e não haviam bóias de amarração para prendermos o barco. Teríamos que jogar nossa âncora, e se desembarcarmos, eu não ficaria tranquilo em deixar o Zimbros naquele mar. Desistimos da escala. Preferimos seguir direto para St. Barts, poucas milhas distante e com vento favorável.

Às quinze horas, manobrávamos por entre centenas de barcos parados frente à Gustavia, a capital da ilha. Prosseguimos até dentro do porto onde há dezenas de bóias disponíveis aos barcos que chegam. Estávamos os três hipnotizados com tanta beleza. Já ouvira falar que St. Barts era a ilha mais charmosa do Caribe, mas nunca imaginara que fosse tão fantástica. Normandos e bretões chegaram lá em meados do século dezessete, para plantar fumo. Em 1784 a ilha foi vendida para os suecos que a devolveram um século depois, alegando que sua manutenção era muito cara. Foram eles que batizaram a capital em homenagem ao rei Gustavo III. Hoje St. Barts faz parte de Guadaloupe, portanto é território francês. Uma curiosidade é que, por ser muito árida e difícil para a agricultura, não foram necessários escravos, portanto a população é predominantemente branca, uma raridade no Caribe. O lugar é uma maravilha, um dos mais agradáveis que conheci nas Antilhas. Vale uma visita, mas já vou avisando, prepare seu cartão de crédito porque os preços não são para simples mortais.


Baia de Gustavia a capital de St. Barts: um dos lugares mais charmosos do Caribe.

Dois dias depois, largamos amarras em direção à St. Maarteen. Antes porém fizemos uma pequena parada em Île Fourchue, uma ilha deserta e seca situada poucas milhas a noroeste de Gustavia. Não há nada lá, exceto bodes e pedras. Mas é de uma beleza selvagem e agreste. Demos um pequeno mergulho e prosseguimos nosso rumo. Pouco depois das quatorze horas chegamos frente ao canal que liga o mar aberto à Simpson Bay Lagoon. A ponte elevadiça que permite o acesso ao interior estava fechada e só abriria às dezessete e trinta. Jogamos âncora ao lado da Pelican Cay, frente a um enorme resort. Passei um rádio para a marina onde pretendíamos ficar e em poucos minutos um funcionário veio até nós com um bote inflável. Serviço de primeira, nos orientou como seria o acesso à marina e quando a ponte abriu-se veio nos acompanhar no trajeto até lá.

Em poucos minutos estávamos amarrados ao cais do Simpson Bay Yatch Club. Junto conosco chegou um veleiro pouco maior que o Zimbros, e parou bem ao nosso lado. Era americano, chamava-e Heart Of Texas e, abaixo do nome escrito no casco, tinha um coração desenhado com a silhueta do estado do Texas no meio. Eu já conhecia a fama de bairrista dos texanos, mas nunca tinha presenciado nada igual. Por associação apelidamos o dono do barco de Gaúcho. Com o perdão de todos os meus amigos lá do Rio Grande, o cara era muito babaca. Seu barco parecia um mostruário de uma loja de artigos náuticos: tinha de tudo o que se pode comprar para equipar uma embarcação. Era um casal de meia idade, ela até que simpática, mas o Gaúcho, nem sequer nos deu bom dia. Coisas de americano.

Alugamos um pequeno carro para fazer um tour de reconhecimento na ilha. St. Maarteen tem apenas treze quilômetros em ambos os sentidos. É dividida ao meio. O lado norte é francês e o sul, holandês. Esse parcelamenteo pacífico tem trezentos anos. A fronteira não é demarcada com muros ou guaritas, apenas algumas placas indicam que você deixou Sint Maarteen do lado holandês e entrou em Saint Martin, francês. Conta a lenda que para determinarem essas fronteiras, foi posto um francês com uma garrafa de vinho caminhando do litoral norte para sul e um holandês com uma garrafa de gin no sentido oposto. Onde se encontraram passou a ser a fronteira. O francês avancou um poucom mais porque o gin é mais forte que o vinho. Tudo bobagem! A ilha não tem graça nenhuma, nenhum de nós achou nada de especial lá. Existem lugares muito mais bonitos e charmosos sem ter contudo a mesma fama.

Para a travessia, tínhamos planos de fazer um up-grade total à bordo. Mas mudei de idéia frente às dificuldades encontradas. No Caribe existe um enorme apoio náutico, tanto de serviços como de materiais. Entretanto, o timing deles é outro, demorado e sem pressa. Para a instalação dos painéis solares, chamei um eletricista que só apareceu no final do dia. Entregou-me um orçamento vinte e quatro horas depois e só poderia começar a trabalhar dois dias depois, assim mesmo depois das dezoito horas. Sem condições de esperar, desisitimos. Compramos nós mesmos um painel solar e fizemos a instalação. Bob, engenheiro eletricista, deu as coordenadas técnicas, Beto, engenheiro civil executou e eu, arquiteto, determinei o lugar onde que ficasse mais prático e menos feio. Um trabalho em equipe perfeito que nos tomou apenas um par de horas!

Além das equações técnicas, tivemos muito o que fazer para enfrentar o Atlântico. Desta vez não haveria porto no meio do caminho onde pudéssemos nos abastecer. "Quem vai ao mar, avia-se em terra" diz o ditado. Nada poderia faltar neste trecho da nossa viagem. Minha preocupação maior era com a limitada autonomia de água e combustível do Zimbros. Toda nossa energia, luzes, rádio, piloto automático, geladeira, som, vem das baterias. Para recarregá-las é preciso ligar o motor pelo menos uma hora por dia. A placa solar não era suficiente para suprir todas nossas necessidades. Tivemos que comprar vários tanques de plásticos para enchê-los com água e diesel. Seriam uma precisosa reserva, caso não encontrássemos vento e nos atrasássemos no mar. Nossa previsão era levarmos aproximadamente duas semanas até os Açores. Precisávamos trabalhar rápido e resolver todos nossos impasses, sem erros, nem esquecimentos.

Havia um outro problema: como eu tinha comprado dingue e motor novos na Martinica, precisava me livrar dos velhos, sob pena de ter que carregá-los por todo o Atlântico. Descobrimos que, pela manhã, no canal 14 do VHF, havia um serviço de informações e ajuda aos velejadores. É possível anunciar de tudo lá. Comuniquei minha intenção de vender meus equipamentos e, em pouco tempo, apareceram três candidatos. Mas nenhum quis fechar o negócio logo de cara, apesar da barganha que eu estava pedindo. Um problema para mim, que pretendia partir em dois dias. Quando achei que não conseguiria me livrar daquela tralha, um jovem australiano, apareceu e bateu o martelo. Meia hora depois surgiu o outro candidato, um americano, que jurava que o tinha reservado para si. Ficou furioso com a notícia de que o barco e o motor já tinham sido vendidos. Brigou comigo, dizendo que eu não tinha sido legal com ele, essas babaquicies todas. "Fuck you man" eu disse encerrando de uma vez por todas aquela conversa fiada numa linguagem que ele entendia bem.

Acordamos mais cedo que o usual no dia da nossa partida. Ainda faltavam alguns detalhes a serem resolvidos. Saíriamos na abertura da ponte das onze e meia da manhã. Aparentemente todos estávamos calmos, mas no fundo de cada um havia uma grande apreenssão. A grande aventura iria começar dali a poucas horas: a travessia do grande mar Oceano, assim os antigos conheciam o Atlântico. Na verdade o Atlântico Norte nesta época do ano, é como uma imensa avenida com centenas de barcos, europeus sobretudo, voltando para casa fugindo da temporada dos furacões. Não estaríamos sós na nossa aventura. Fiz uma última consulta no site de meteorologia para verificar a força e direção dos ventos e o tamanho do mar. O tempo e as correntes também são bastante previsíveis no verão do hemisfério norte. Iríamos de carona nos alísios, ou trade-winds, os ventos que já há séculos levava de volta para a Europa, as frotas que transportavam a riqueza do novo mundo.

A diferença de temperatura entre os polos e o equador faz com que o ar da atmosfera esteja em constante movimento. O ar frio dos polos move-se em direção ao equador. Este movimento, associado à rotação da Terra, cria no planeta um sistema de ventos constantes chamados alísios. De forma simplificada pode-se dizer que nos mares do sul os ventos predominantes giram no sentido anti-horário e nos do norte no sentido horário. O nosso caminho até o leste acompanharia a ponta deste relógio invisível, mas real.

Às onze e quinze, largamos amarras do cais da Simpson Bay Yatch Club em direção ao enorme mar que nos esperava com todas suas surpresas, armadilhas e mistérios. Em silêncio pedi aos deuses que nos guiassem em segurança, Netuno com mar tranquilo e Eolo com ventos favoráveis. Foi no oceano infinito que os deuses nasceram. Na Babilônia, no Egito, na Polinésia, em Homero, tudo começou nas águas. Os antigos gregos confiavam a realização de seus desejos aos deuses. Estes, imperfeitos e imprevisíveis, nem sempre correspondiam às preces de seus devotos, frustando seu fervor e sua fé. Se as entidades mitológicas do passado falhavam com seus asseclas mais empenhados, imagine com um crente de última hora como eu. Nas próximas semanas eu iria pagar o preço da minha infidelidade.


A porta de saída da Simpson Bay: próxima parada o Algarve

Final da parte 25