Parte 24


O caminho do Zimbros: Caribe e as ilhas de Barlavento e de Sotavento

Ficamos em St. Lucia apenas dois dias. Tadeu desembarcou. Foi substituído por Thaís, minha mulher e a Vera, do Joaquim, que chegaram à ilha depois de um périplo por vários aeroportos desde Curitiba. A estadia foi muito trabalhosa. Tivemos que arrumar toda bagunça à bordo para recebermos nossas pequenas com um mínimo de decência. Além de tudo fiz um reparo no lazy-jaquet e na genoa, que me custaram um tempão. Outros complicadores foram as formalidades de entrada e saída exigidas pelas autoridades da imigração e da aduana. Papéis, carimbos, passaportes, taxas, que nos tomaram um tempo precioso. Eu estava com pressa, queria ficar o mínimo por lá e sair o quanto antes rumo à Martinica.

St. Lucia é tida como a mais francesa das ilhas inglesas. A língua oficial é o inglês mas no cotidiano todos falam o patuá, um dialeto incompreensível onde predomina o francês. É uma parada obrigatória para quem navega nas ilhas de barlavento em direção ao sul. Existe lá uma grande estrutura náutica com excelentes marinas. Pode-se encontrar tudo para reparar uma embarcação avariada. Muitos vivem disto, mas se você precisar de algum serviço local, é melhor que não seja numa sexta-feira à tarde, pois tudo para. Ninguém quer saber de nada no final de semana, nem que seja pra ganhar o dobro. Tive que implorar para fazerem um pequeno reparo na minha vela. "Vai te custar caro" já foi logo avisando o negão que me atendeu. Eu era uma presa fácil nas suas mãos, não tive alternativa e morri com uma pequena fortuna, comparada com os nossos preços do Brasil. Me deu uma bruta saudade de casa...

Na correria da partida, uma notícia triste me chegou via e-mail: a perda do capitão Dalmo Viera, pai do meu amigo Dalmo. O velho marujo tinha acabado de atravessar o Atlântico em um navio de passageiros e estava em Barcelona quando sofreu um infarte sem chances. A primeira vez que entrei em um veleiro na vida aconteceu no Diana, um sloop de madeira pertencente a ele. Foi um mestre, ensinou minhas noções fundamentais de marinharia. Como consolo, pensei que eu, ali naqueles mares tão distantes, estava levando adiante um pouco do seu espírito. Não pude conter as lágrimas ao saber da partida do meu amigo.

À uma da tarde de sábado, dia 27 de março, nos despedimos da nossa nova amiga Maggie e soltamos as amarras do Zimbros da Rodney Bay Marine em St. Lucia. Lentamente cruzamos o canal que liga as tranquilas águas da enseada à baia. Ao ultrapassarmos Pigeon Islands, levantamos velas e acertamos nosso rumo para o sul da Martinica, a vinte milhas, tão próximo que era possível vê-la no horizonte. A viagem foi rápida, às cinco manobrávamos por entre os barcos ancorados na bela enseada frente à pequena vila de St. Anne. Local e hora certos para um brinde com champagne, vinhos e deliciosos acepipes.


Maggie: nossa amiga de St. Lucia adorou o presente que lhe demos

Finalmente as Antilhas francesas! Um dos meus sonhos estava se realizando com cores e sabores que eu jamais imaginara. Sem vontade de fazer nada, nem desembarcar, decidimos passar a noite por ali mesmo. Mergulhei na água cristalina para verificar se nossa Bruce estava bem presa ao fundo de areia. Estávamos craques em ancoragens depois de tantas paradas em lugares onde qualquer vacilada terminaria em prejuízo. As garotas nos prepararam um risoto à quatro mãos que ficou fantástico. Acho que foi a primeira grande refeição no Zimbros desde muito tempo, afinal mulher à bordo era uma novidade desde que saíra de Porto Belo, quase um ano atrás. Equanto comíamos, pela pequena escotilha lateral eu conseguia ver um pedaço daquele sonho, a Martinica e toda sua beleza e sua história.


Café da manhã à bordo: como manda o figurino

No século XV a divisão do mundo entre Portugal e Espanha pelo Tratado de Tordesilhas causou uma enorme reação da França. "Onde está o testamento de Adão que dividiu o mundo só para portugueses e espanhóis" perguntaram eles. Não conformados, tentaram de todas as maneiras se apossarem também de um pedaço do Novo Mundo. Primeiro no Brasil, com o Rio de Janeiro e São Luís. Deu errado. Assim foram subindo a costa da América do Sul com os alísios, conquistando primeiro a Guiana e depois a Martinica, então conhecida pelos índios como Matinino. Isto não impediu que fosse tomada pelos ingleses mais tarde. Na verdade toda a colonização do Caribe foi uma feroz luta entre ingleses, franceses, espanhóis e holandeses. A maioria das ilhas já foi colônia de um destas potências ao menos uma vez na sua história. No começo apenas como ponto de abastecimento de suas armadas. Mas no século XVIII o açucar, o fumo e outras especiarias tornam-se produtos vitais na economia européia. Ocorreu aquilo que já estamos acostumados desde sempre: disputas territoriais frequentemente decididas pelo poder de fogo de cada um. Ou você acha que o a ideologia do Bush nasceu ontem?

O dia seguinte amanheceu majestoso, brilhante, colorido, um quadro de Gauguin! Acordamos cedo e ganhamos um super café da manhã preparado com muito carinho. Quanta diferença nos fazia nossas novas companhias. O Zimbros arrumado, varrido e com o banheiro todo cheiroso estava perfeito. Café da manhã e almoço na hora certa, eram uma novidade. No começo da tarde, recolhemos âncora e nos dirigimos para dentro do Cul-de-sac du Marin, a enorme baia de Marin, localizada bem ao nosso lado. É lá que está a melhor estrutura náutica de toda a Martinica. Em menos de uma hora nos acercávamos do cais do Marin Yach Harbor. Desembarcamos, tomamos banho e fomos em busca de um restaurante para almoçar. Antes porém, alguns probleminhas.

Os negros nativos daquelas terras, embora cristão e supostamente temerosos das leis do Senhor, simplesmente desconhecem o sétimo mandamento. Tanto assim que não podiam ver nossas pequenas sem lhes atiçar seus instintos mais básicos. Quando estávamos Joaquim e eu por perto, até que eram discretos. Mas tão logo nós sumíamos de vista, eles não perdiam tempo em assédiar as meninas. Um deles até tentou entrar no banheiro onde elas tentavam banhar-se. Gritos e insultos em português bem claro fizeram-no entender que mantivesse distância delas. E o banho teve que ser transferido para bordo. Como os caras eram muitos e maiores, Joaquim e eu apenas mantínhamos um certo controle da situação, aliás não tão grave assim. Nos divertíamos, pois no fundo eles estavam com uma inveja danada de nós e elas, embora negassem, até que gostaram do frisson provado nos nativos.

A Martinica, a maior das ilhas chamadas de Barlavento, é território da França. A moeda é o Euro e os preços são os da Champs Elysées. Estávamos ansiosos para jantar num restaurante francês de verdade. Escolhemos o Mango Bay dentro da marina, pois nos pareceu simpático e bucólico. Na recepção o mau humor da garçonete nos lembrou que estávamos na França mesmo! A comida foi banal, mas o pior veio depois, uma conta de virar o estômago, e baratas que começaram a sair de todas as frestas do restaurante. Se um dia você visitar a Martinica, lembre-se bem deste nome, Mango Bay, e nunca apareça por lá! Depois destas surpresas a ilha começou a perder a graça. O dia seguinte, uma segunda-feira, passamos todos tentando comprar um dingue e um motor de popa novos. Os meus já faziam um tempo que não davam para mais nada. Contudo, nas Antilhas as coisas não andam bem como aqui, onde um vendedor sai correndo atrás de quaisquer eventurais candidatos a comprador. Lá, tem-se que ir atrás e implorar para ser atendido, independente de preço que se esteja disposto a gastar. Quase desisti, mas acabou que consegui tudo o que queria. No final da tarde eu só desejava um coisa: ir embora dali o mais rápido possível.

Às dezoito horas, quase escuro, contrariando um regra básica de navegação, partimos da Martinica em direção à Guadaloupe. Andamos durante toda a noite com um mar muito tranqüilo e ventos fracos. Ao amanhecer, no través da Dominica, no turno do Joaquim, fui acordado por ele, confuso. Lá fora um pescador com sua pequena lancha tentava nos falar num idioma incompreenssível. Sonolento, apenas entendi que o cara não estava satisfeito conosco alí naquelas águas. Pelo seu jeito, havíamos invadido seu território. Escutei a palavra mooring, bóia em português, e fiz uma rápida associação: ele só podia estar querendo defender sua rede de pesca, localizada bem no nosso rumo. Mudei nossa direção e o pobre homem parece que ficou satisfeito e nos acenou agradecido. "O gado só cresce sob o olhar do dono", pensei. Sob os primeiros raios de sol, o imenso contorno da Dominica apareceu soberano à leste. À oeste, nuvens baixas deixavam refletir seu branco sobre um mar que parecia formado por azeite. Todos dormiam lá embaixo. Obeservei solitário, sentado na proa do Zimbros, o alvorecer de mais um dia, banal para a maioria, mas um momento muito especial para mim. "Estou aqui" pensei feliz.

Consultamos nossa bíblia náutica, o Cruising Guide To The Leeward Islands do Chris Doyle, e decidimos parar em Iles des Saints, pequeno arquipélago no sul de Guadaloupe. O nome foi dado por Colombo que esteve aqui logo depois do dia de Todos os Santos. Quatro ilhas muito áridas e com relevo acidentado, foi colonizada por franceses da Bretanha, na sua maioria, que se dedicaram à pesca. Hoje o turismo é seu principal ganha-pão. Por tratar-se de um lugar impossível para a agricultura, escravos nunca foram levados para lá. É muito curioso, pois é um dos poucos lugares no Caribe onde predominam os brancos. A pequena Bourg des Saintes é a única cidade do arquipélago, localizada em Terre D'en Haut, a maior ilha do grupo. É charmosíssima, parece um presépio com suas construções coloridas, telhados de zinco pintados de vermelho, ruas estreitas. Mas o mais impressionante é o minúsculo aeroporto localizado entre duas colinas que tiveram que ser recortadas para permitir o pouso de pequenas aeronaves. Tem-se a impressão que os aviões vão chocar-se de encontro aos morros durante a aterrisagem.

Em terra, alugamos duas pequenas scooters e, num par de horas, conhecemos toda a ilha. Jantamos num bistrô muito aconchegante, com direito a tudo que nos foi negado na Martinica. Cedo nos recolhemos e cedo pulamos da cama para prosseguirmos nosso cruzeiro. A uma milha frente à Bourg des Saints, jogamos âncora na Île Cabrit que, como diz o nome, só tem cabritos e pedras. Tomamos café ao som destes animais agrestes, demos um belo mergulho e, com cronograma apertado, seguimos adiante. No final da tarde, com um belíssimo por do sol, entramos na enseada de Deshais, no noroeste de Guadeloupe. A mesma paisagem e o mesmo encanto na chegada. Mais um belo lugar no nosso curriculum. Mas só para deixar claro que o paraíso não existe, à esquerda da baia, pouco afastado da vila, um veleiro jazia inerte entre as pedras, talvez conseqüência de algum furacão dos muitos que passam por alí com terrível freqüência. Um calafrio me passou pela espinha só de ver a cena. Por via das dúvidas, mergulhei para conferir se nossa âncora estava bem presa.


Efeito furacão: não existe nada que resista à sua fúria.

Pela manhã a mesma rotina: tomamos café, recolhemos âncora e seguimos pra próxima ilha. No caso, a mítica Antigua, nosso último porto, um ex-território inglês imortalizado por ninguém menos que o Almirante Nelson. Estava excitado em poder conhecer um pouco do lugar onde viveu o famoso navegador. Finalmente iria me encontrar com alguém à minha altura, sem falsa modéstia. De fato, o grande argonauta tinha 1,70 de altura, era magro e adorava dar ordens. Hoje Antigua é o grande centro de vela do Caribe. Em maio acontece a famosa Semana de Vela de Antigua, um dos mais badalados eventos esportivos náuticos do mundo. Nosso destino era English Harbour, mas como era cedo quando nos aproximamos do sul da ilha, resolvi, com ajuda do nosso guia, conhecer Indian Creek, uma pequena e protegida enseada, próximo à nós, junto a qual ficava a mansão de Eric Clapton. Como sou seu fã de carteirinha, não resisti ao programinha bem classe-média de conhecer como vive meu ídolo. A nossa aproximação foi bastante cuidadosa, pois a entrada é escondida entre duas elevações muito altas. O vento forte era um complicador a mais, pois as ondas ficaram maiores e mal conseguíamos distinguir a entrada da enseada. Guiados pelo GPS, finalmente nos aproximamos e, vagarosamente, adentramos na baia, em forma de S. Altas escarpas áridas com uma vegetação bem rala davam ao lugar uma aparência assustadora. Sob a colina à frente, ergue-se um conjunto de várias construções feitas com pedras do próprio local: a famosa casa do titio Eric. É uma obra esquisita, árida, sem jardins nem plantas, mas com uma vista espetacular. Na verdade, não invejei meu ídolo, pois o lugar é muito árido e seco. Após uma ligeira soneca, levantamos âncora e partimos aliviados para English Harbour.

English Harbour é um capítulo extra para quem viaja pelo Caribe. Principal base naval inglesa nos séculos dezoito e dezenove, é parte importante da história da colonização das Antilhas. Estrategicamente localizada no centro do Caribe, e com características geográficas que a protegem de todos os ventos, inclusive furacões, este legendário porto foi escolhido pela Inglaterra para abrigar sua poderosa armada. Nelson Dockyard é nome da antiga base onde era feita a manutenção dos navios. No final do século dezenove, com a perda da importância do Caribe na política internacional, o porto foi abandonado e assim ficou por muito tempo. Somente nos anos cinquenta, um movimento grande surgiu para a restauração daquela importante praça de guerra. Suas ruinas foram restauradas e hoje a área é um monumento nacional que abriga um cais de concreto com uma boa estrutura para quem vem do mar.

Entramos lentamente na baia através do estreito canal, que outrora era fechado com uma corrente para evitar ataques de surpresa. Lembrei-me do Iate Clube de Caiobá, no litoral paranaense, onde no passado, o acesso à marina foi bloqueado com uma cancela para evitar abelhudos menos afortunadas. Mas as semalhanças ficam por aí. English Harbour é coisa de cinema. Ketches, escunas, cutters, sllops, barcos de todos os tamanhos e desenhos. Clássicos de madeira com seus cascos e metais brilhando, modernos projetos hight-tec, uma imensidão de veleiros por todos os lados. Como a semana de vela começaria dentro de um mês, veleiros de todas as categorias preparavam-se para a famosa competição. Eu já vira algumas daquelas embarcações alí pelo Caribe, mas todas juntas num só porto foi demais. O Zimbros até desaparecia frente aquelas máquinas de navegar. "Olhe aquele, e aquele, veja este mastro, e o casco, o desenho..." parecíamos bobos com tanta ostentação. Navegar naquelas águas foi um grande testemunho do poder da grana do hemisfério norte. Não existe nada parecido abaixo do equador.


English Harbour: a força do capital presente no hemisfério norte

Como detesto complexo de inferioridade, passei logo um rádio para a marina e pedi permissão para estacionar lá. Fui autorizado a parar em qualquer lugar, já que havia várias vagas disponíveis. Manobrei o Zimbros bem ao lado de dois monstruosos ketches que o fizeram desaparecer no meio deles. Nem dei importância às dimensões de meus vizinhos e tampouco aos seus olhares indiscretos sobre nós. Mais tarde descobri que a curiosidade das tripulações era para nossas gatas. Bem blasé, fiz de conta que não estava nem aí, abri uma garrafa de vinho e comemoramos nossa chegada.


Nelson's Dockyard: O Zimbros desaparece ao lados dos outros barcos

Dois dias depois retirei o Zimbros do Nelson's Dockyard e o levei à Catamaran Manina em Falmouth Harbour para deixá-lo nos próximos dois meses. Preferi esta pequena marina por ser menos movimentada e mais segura, embora mais cara. Como estávamos numa sexta-feira, contratei, quase implorando, uma pequena firma para cuidar da manutenção e da segurança do barco enquanto estivesse fora. Minha preocupação era com os cabos de amarração que poderiam romper-se na eventuralidade de algum temporal inesperado. Mas não fiquei confiante na capacidade daqueles caras de cuidarem do Zimbros com a atenção que eu gostaria. E o pior, na pressa da partida, cometi o erro mortal de não combinar o preço de seus serviços. Mais tarde, na volta, iria pagar caro por este imperdoável lapso.

(final da parte 24)

Atenção, semana que vem, a partir da parte 25, embarque na travessia do Atlântico à bordo do Zimbros.