Parte 23


Happy hour nas Antilhas

Com pesar deixamos Carriacou no meio da tarde de um domingo ensolarado. Tínhamos pouco tempo para chegar ainda de dia em Tobago Cays, quinze milhas ao norte. Centenas de veleiros de todos os tamanhos e procedências navegavam num mar cristalino, brilhando com a luz do sol. O vento estava bom, cerca de dez nós, nordeste. Deixamos a ilha à vela, numa orça bem fechada, com o motor ligado para ajudar a empurrar o Zimbros com mais velocidade. A pouca distância na nossa frente um Benneteau de 38 pés seguia no mesmo rumo com todas as velas enfunadas. Ajudado pelo motor, aos poucos fomos chegando próximos a ele. Seus tripulantes, alertas com nossa aproximação, passaram a ajustar os panos com mais cuidado. Ninguém gosta de ser ultrapassado no mar. Mas de pouco adiantou, deixamos os gringos para trás, para desespero deles, ultrapassando-os por boreste. A saída do escapamento do Zimbros está localizado na popa à bombordo, ou seja, impossível para o outro barco saber que seguíamos também no motor. Deve ter sido difícil para os branquelos terem sido ultrapassados por um barco menor. Quanto a mim, adorei a trapaça.

Seguimos no rumo nordeste, passando entre Union e Palm Island, num estreito canal de águas cristalinas e cheias de arrecifes de coral. Uma navegação segura, pois todos os obstáculos estão bem sinalizados. Veleiros e mais veleiros ao largo. Pequenos aviões chegavam e saiam a cada minuto do aeroporto localizado em Clifton Harbour, ao lado do qual existe uma excelente marina. Aos poucos fomos nos aproximando da entrada sul de Tobago Cays, ao lado de baixios de corais e de areia. Não é um acesso tranquilo, mas a água é cristalina e era possível enxergar a olho nu todos os perigos do caminho. Um olho no mar e outro no ecobatímetro, vagarosamente nos aproximamos do canal que separa as pequenas ilhas de Petit Rameau e Petit Bateau. Jogamos âncora com uma profundidade de quatro metros, fundo de areia.

Lembrava-me bem do acontecido em Halifax Harbour, quando nossa âncora soltou-se do fundo arrastando o Zimbros para perto das pedras. Com os últimos raios do sol, mergulhei para verificar se o ferro estava bem preso. Além dos quinze metros de corrente, foi preciso liberar muito mais cabo para que a ela ficasse totalmente encostada na superfície submersa de areia. A beleza do lugar engana muito, pois a natureza alí costuma ser implacável durante certos dias, já que quase não existem barreiras para segurar nem o vento nem as correntes que vêm do Atlântico. Mas tudo funcionou de acordo, e o barco ficou bem seguro no seu novo ancoradouro.

Tobago Cays é um parque nacional, um dos mais belos lugares do Caribe. Um grupo de pequenas e desertas ilhas protegidas do Atlântico por uma barreira de corais. A água tem todas as cores, verde, azul, turquesa e é impossível compará-la a qualquer outra que eu já vira antes. A paisagem magnífica serviu de moldura para nosso jantar que preparei com o carinho que a ocasião pedia: macarrão com defumados, vinho tinto e charutos para finalizar. Depois de um fausto ágape, dormimos como crianças. Eu tinha pensado em fazer turnos durante a noite para nos proteger de qualquer acidente com nossa âncora, mas o vento não estava tão terrível que justificasse tanta precaução.


Nas Granadinas: barcos de todos os tamanhos e categorias.

O dia seguinte foi inesquecível. Acordamos cedo, preparamos um super café e ficamos a manhã toda sem compromisso algum, apenas aproveitando o calor e o brilho das Granadinas. Todos nossos elogios eram superlativos, estávamos em comunhão absoluta com o universo. Saímos de nosso ancoradouro e jogamos ferro bem em frente aos arrecifes numa profundidade menor que dois metros, afastado de qualquer embarcação. Sempre me preocupei em ficar bem longe de outros barcos, sobretudo quando ancoro a barlavento, quer dizer acima deles em relação ao vento. Se por qualquer circunstância minha âncora se soltar, há o perigo dos barcos se chocarem, com sérios riscos de prejuízo pra mim, já que não tenho seguro contra terceiros. Meu medo era bater num daqueles veleiros caríssimos, de algum americano pentelho e levar um processo nas costas. Alguns iatistas, segundo me disseram, criam uma empresa com a única finalidade de registrar seu barco. Caso sejam vítimas de alguma ação milionária, apenas os bens da empresa respondem pelo prejuízo. Uma medida inteligente, quando se sabe o preço das embarcações que circulam pelo Caribe.

Muitas fotos e filmagens depois, chegou finalmente a hora de partimos. Nosso destino era Canouan, ilha localizada cinco milhas à nordeste da nossa posição. Tão perto que era possível vê-la de onde estávamos. Foi um passeio, em menos de uma hora de uma bela velejada, jogamos âncora em Charlestown Bay, frente ao o Tamarindo Beach Hotel e Yacht Club, mais um lugar belíssimo para o nosso curriculum. A sucessão de maravilhas era de tirar o fôlego. Agíamos como caipiras, parados de boca aberta sem saber direito o que falar e o que olhar. Tomamos banho, caprichamos no traje, esquentamos a alma com rum e fomos para terra jantar no restaurante do hotel. O lugar era muito chique, cheio de velejadores como nós, ou seja sem aquelas afetações comuns da burguesia careta. Voltamos à bordo tarde, estávamos cansados e dormimos como pedras.


Mapa esquemático das ilhas de Barlavento e de Sotavento no Caribe

Amanheceu, içamos velas e seguimos nossa marcha rumo ao norte das Granadinas. Destino: Bequia, pequena ilha há dezesseis milhas, distância que percorremos em pouco tempo com vento bom, mas contra. Chegamos cedo e vagarosamente entramos em Admiralty Bay, a enseada frente à capital, Port Elizabeth. Cercados de veleiros de todas as categorias, antes mesmo de decidirmos onde jogar nossa âncora, apareceu uma pequena lancha à motor com dois rastafari oferecendo ajuda para encontrarmos uma poita. Aceitamos, nos deixamos levar por eles baia adentro. Os caras nos conseguiram um lugar realmente privilegiado, bem frente ao pequeno trapiche da cidade, lugar onde todos deixavam seus pequenos dingues ao desembarcarem. A moeda local na maioria das ilhas é o East Caribean Dolar, conhecida com EC (pronuncia-se issi). Seu valor é semelhante ao nosso Real, vale cerca de dois e meio para cada dolar americano. Mas tudo por lá é mais caro. Dei a eles o equivalente a cinqüenta reais, o suficiente para nos tornarmos amigos de infância.

Dezenas de pequenas lanchas zanzavam entre os veleiros vendendo todo o tipo de produtos e serviços: lavanderia, combustível, água, gelo... Nossos novos amigos, já íntimos, não perderam tempo e nos ofereceram um cardápio bem diferente: cassinos, mulheres, bebidas e marijuana. "Chegamos no paraíso" pensei! Demorou pouco para abrirmos nosso bar-à-bordo e comerçarmos a velha labuta de rum, cerveja, reggae e muita conversa. Eu havia comprado em São Luís uma rede de garimpeiro que nunca usara. Improvisamos um apoio com o pau de spi e a armamos por boreste. Foi um show, um momento daqueles em que o tempo conspira a favor. Passamos todo o resto da tarde num maravilhoso ócio vagabundo, e só não esquecemos de ir à terra porque o Joaquim nos acordou daquela pasmaceira deliciosa. "Vamos conhecer o terreno tripulação" disse ele preparando-se para descer. A noitada foi espetacular e se algum dia você for a Bequia eu recomendo tomar um run punch no Frangipani, um bar e restaurante charmosíssimo à beira mar.


Bequia: negociando com os ratafari.

Amanhecemos com uma ressaca das grandes, exceto Tadeu que não bebe, não fuma, e não faz sexo. Só come. Um mergulho melhorou nosso humor. Traçamos um novo rumo e pouco depois das onze horas partimos para St. Vincent. O vento estava bom, com cerca de quinze nós soprando de nordeste. Fizemos as oito milhas que separam as duas ilhas em menos de duas horas. Ao chegarmos ao lado da St. Vincent, cujo perfil é composto de montanhas muito altas, o vento protegido pelo relevo, morreu completamente. Estávamos a umas três milhas da costa, as velas ficaram sem função e o barco estancou completamente.


Velejando de Bequia para St. Vicent: ressaca à bordo.

O calor aumentou e, como o mar estava parado, resolvi mergulhar para exorcisar o resto do rum do dia anterior. No exato momento que saltei da popa para a água, soprou uma fraca brisa, as velas encheram-se e o barco começou a andar. Ainda tentei nadar para alcançá-lo, sem sucesso. Em questão de segundos o Zimbros afastou-se de mim o que me pareceu ser uma centenas de metros. Um homem ao mar fez a tripulação acordar de sua sonolência. Rapidamente Joaquim e Tadeu assumiram o controle do barco, soltaram as velas, cambaram e vieram à minha procura. Mas eu quase sumira da vista deles. Conseguia vê-los mas eles mal me enxergavam. Não houve pânico, o perigo passou longe. O mar estava uma piscina, a brisa era leve, mas serviu de lição. Numa situação com mais vento e mar, suponho que seja muito difícil resgatar alguém que tenha caído do mar.

Energizados com a aventura prosseguimos no motor bem próximos à costa. Chegamos à Chateaubelair Bay no meio da tarde. Ao entrarmos na baia, ao contrário do que acontece em todos os portos que passamos antes, não vimos nenhum veleiro ancorado lá dentro. Era um lugar estranho, feio, com uma pequena vila aparentemente sem charme algum, muita vegetação e uns poucos barcos pesqueiros parados ao fundo. Como ninguém foi com a cara do lugar, ficou fácil decidir. Resolvemos ir embora para outra ilha e tentar chegar ainda dia num porto mais charmoso.

Mas estávamos ainda muito longe das costas de Santa Lucia. A passagem entre as duas ilhas, com cerca de 25 milhas de distância, costuma ser muito dura em razão do vento e das correntes que chegam do Atlântico sem qualquer obstáculo. Mas Netuno nos ajudou e fizemos uma bela velejada, com orça fechada e ventos de quize nós. Apesar de tudo, só chegamos em Soufriere à nove da noite. É uma cidade relativamente grande, muitas luzes e muitos barcos ancorados dificultavam nossa aproximação, apesar da entrada do pequeno porto ser bem sinalizada com bóias iluminadas. Não demorou muito para, no meio do breu do mar, aparecer um pequeno bote com um guia oferecendo para nos levar a uma poita segura. Foi perfeito, em minutos estávamos presos a uma boia bem ao lado de um paredão rochoso, assustador naquela hora da noite.

Acordamos cedo, soltamos amarraras e, lentamente fizemos um passeio de reconhecimento ao longo da costa. Estávamos justo ao lado do Petit e do Gros Piton, dois enormes picos com mais de setecentos metros cada um. Estão dentro de uma espécie de parque marinho e são o cartão postal de St. Lucia. É um lugar muito especial e exótico, ideal para alguns dias de exploração. Mas não era o nosso caso. Tínhamos um cronograma a seguir e tão logo fizemos algumas rápidas imagens seguimos para o norte, rumo à Rodney Bay. Foi um belo passeio, navegando bem próximos à costa, junto a muitos outros veleiros que faziam o mesmo percursso. Ao meio-dia estrávamos no canal de acesso à Marigot Bay, um dos lugares mais espetaculares de todas as Antilhas.

Trata-se de uma pequena enseada cujo interior é um excelente abrigo contra todos os ventos e correntes. Circundada por altas montanhas cobertas de densa vegetação, o verde da mata tropical e o azul turquesa do mar é o que se pode definir como paraíso único na terra. A entrada sinuosa e o relevo acidentado, tornam impossível ver seu interior para quem está no mar. Um lugar ideal para abrigar uma verdadeira frota de veleiros. Antigo porto de piratas, foi em Marigot que a armada Britânica, fugindo dos franceses em maior número, escondeu-se disfarçando seus mastros com folhas de palmeiras. Os galegos passaram ao largo sem sequer imaginar que seus inimigos escondiam-se impotentes justo ao lado.

Ao contrário do que acontece no nosso país, a ocupação das costas em volta da baia é feita preservando-se ao máximo a vegetação e o relevo. As encostas não são destruídas e existe muita integração entre a arquitetura e a natureza. Lugar ideal para nossos executivos da construção civil e administradores municipais aprenderem como aproveitar as belezas do nosso litoral com sabedoria. Ideal improvável, já que está provado não existir vida inteligente em nenhuma das duas categorias. A costa catarinense no geral e o Caixa D'Aço em particular são exemplos lamentáveis da ignorância que assola nossas praias.

Almoçamos em terra e logo partimos. As distâncias são pequenas e em pouco tempo, às cinco da tarde, chegamos à Rodney Bay, uma enorme baia ao norte em cujo interior localiza-se a maior marina de St. Lucia. Pelo rádio fiz contato com eles e em poucos minutos estávamos parados na vaga determinada pela administração. "Chegamos tripulação". Era nossa senha para abrirmos algumas Carib, a deliciosa cerveja caribenha, e comemorarmos mais uma escala da nossa viagem. No cais, navegadores de todas as nacionalidade, ninguém com pressa. Em pouco tempo à bordo já estávamos com alguns novos amigos, como Maggie, uma divertida nativa que trabalha lavando a roupa das tripulações que chegam do mar. Nada como sentir o clima e os confortos de um porto depois de algum tempo de navegação. Foram seis dias de Trinidad até lá, mas pareciam meses, tantas as emoções e os lugares vividos.


O Zimbros em Rodney Bay Marina: um exótico barco vendendo frutas e verduras.

(final da parte 23)