Parte 22



O mundo é grande mas cabe na palma da mão...

À bordo do Zimbros, Tadeu, Joaquim e eu deixamos a marina Power Boat em Trinidad no final da tarde de sexta-feira do dia 19 de março. Era a hora do lusco-fusco e mal conseguíamos distinguir as luzes de terra das dos barcos ancorados na baia de Chaquaramas. O céu estava claro com uma bela lua crescente iluminando o horizonte. Lentamente ficamos à salvo das embarcações e bóias e nos preparamos para levantar a vela grande. A temperatura era amena, não havia vento e o mar estava uma piscina. A noite prometia uma grande travessia. Teríamos que percorrer cerca de 120 milhas até Carriacou a primeira ilha ao norte de Granada. Otimista, calculei que chegaríamos lá, pelas onze da manhã seguinte.

Era uma sexta-feira, dia em que muitos velejadores evitam sair, pois segundo a lenda dá azar. Eu não acredito nesta tolice, mas admito que é verdade. Fiz o sinal da cruz, pedi aos santos que nos protegessem e seguimos em direção ao breu da noite desconhecida. Ao nos aproximarmos da Boca del Dragon, uma das passagens que liga o mar do Caribe ao golfo de Pária, ondas muito grandes vindas do oceano aberto nos pegaram pela proa, fazendo o barco balançar horrores. Desacelerei o motor e reduzi a velocidade para evitar que alguma daquelas vagas embarcasse no Zimbros. Adiantou pouco, o encontro da vazante do golfo com a água do Caribe criaram uma ondulação assustadora. A profundidade era muito alta, mais de cem metros, e a vazão muito forte. Não havia vento, a vela grande não conseguia firmar o barco, e parecíamos uma pequena rolha ao sabor das marés.

Levamos um bom tempo até finalmente alcançarmos uma distância da costa em que o choque das corrrentes diminuísse. Os recém-embarcados sentiram os desconfortos da saída. Vento zero e mar mexido, prosseguimos a motor até cerca das três da manhã, quando a previsão de um nordeste de vinte nós confirmou-se com precisão britânica. Regulamos as velas, o rumo e nos preparamos para a tribuzana. Eu já vira aquele filme. Começava tudo de novo, vento forte, orça fechada, barco adernado e mal estar à bordo. Tadeu e Joaquim começaram a enjoar. Ainda bem que eu não. Pra piorar, a impermeabilização no convés de proa que eu fizera em Trinidad não deu certo. O barco continuava a fazer água. Mas a hora não era para lamentações. "Velejador tem que comer o que vem no prato" lembrei-me das palavras do Pirão, sábio instrutor de vela e amigo lá de Floripa.

Por sorte organizei os turnos na hora da saída, assim pudemos descansar um pouco durante a noite. Mas foi quase nada. Às cinco da manhã, Tadeu me acordou para ajudá-lo na regulagem das velas. Estava frio e chovia. Antes de sair para o convés, vesti meu traje de tempestade, inclusive as botas impermeáveis. Enfim aprendi a encarar o mau tempo adequadamente. "Não foi isto o combinado." Tadeu referinda-se a uma mensagem otimista que mandei poucos dias antes, aos candidatos a velejar no Caribe comigo. Na verdade todos nós temos de lá uma imagem idílica, de praias ensolaradas e calmas, areias brancas e coqueiros sem fim. Mas não é bem assim. Isso só aparece nas fotos, a realidade é um pouco diferente. Pelo menos era para nós naquele momento.

Nove da manhã e o vento continuava forte e contra. Recalculei nossa chegada em Carriacou lá pelas quatro da tarde. Para mim, que passara oito dias naquelas mesmas condições, não era muito, mas para o resto da tripulação, um martírio. Seria muito injusto com eles fazê-los sofrer tanto logo no primeiro dia de navegação. Estávamos com Granada à umas dez milhas no través de boreste. Resolvi cambar para lá. Troquei o lado pelo qual a vela recebe o vento, virando cerca de cem graus para direita no rumo da ilha. O barco ficou menos adernado e as ondas nos atingiam num ângulo melhor, mais confortável. Parecia que estávamos navegando num outro mar. Aos poucos o relevo foi ficando mais visível e eu já podia ver algumas casas e enseadas ao longo da costa. Orientado pelo nosso guia náutico, decidi parar em Halifax Harbour, uma pequena baia abrigada, segura e deserta.

Granada localiza-se na extremidade sul das chamadas lhas de Barlavento. Altas montanhas, uma densa floresta, está quase sempre coberta por nuvens baixas e carregadas. O clima é tropical, muita chuva e sol no mesmo dia. Não é grande, tem apenas quinze milhas no seu maior sentido. Foi colônia inglesa até sua independência em 74. No começo dos anos 80, com a ameaça de um governo favorável às idéias socialistas de Fidel Castro, foi invadida pelos americanos, já naquela época auto proclamados xerifes do planeta. Parece que os gringos foram bem recebidos e não houve nenhuma reação à presença deles no país. É conhecida como Ilha das Especiarias por sua produção de inúmeros tipos de tempero tropicais, principalmente a noz-moscada. Sob o ponto de vista náutico, Granada tem desenvolvido nos últimos anos uma grande estrutura para receber iatistas de todo o Caribe. Existem várias marinas por lá, mas não pudemos ver nenhuma. Segundo alguns, a região também está, ao lado de Trinidad, a salvo das tormentas do clima que afligem seus vizinhos do norte.

Tinha só um veleiro de bandeira inglesa ancorado em Halifax Harbour . Inseguro onde jogar âncora, parei bem ao seu lado. Parece que é sempre assim, todo navegador fica perto de outro na hora de parar em um lugar desconhecido. A baia era meio estranha. Um navio velho abandonado na praia e fios de alta tensão sobre nós, não parecia exatamente o cartão postal que procurávamos. Mas a água era bem clara e calma. O sol apareceu, botou cor em tudo, e melhorou o humor da tripulação. Demos um mergulho, fizemos um almoço e descançamos um pouco da dura noite. Estávamos mais dispostos e, como aquele não era um lugar dos mais lindos, decidimos continuar a viagem.


Tadeu e Joaquim: uma nova tripulação navegando no Caribe.

No exato momento em que deliberamos partir, notamos que o Zimbros se afastava muito do nosso vizinho. A âncora garrou, quer dizer que soltou-se na linguagem náutica. Recolhemos o ferro e apressamos nossa saída. O vento continuava forte e contra. Decidimos seguir motorando até a ponta norte de Granada. Quando ficamos fora do abrigo da ilha o mar cresceu e as rajadas chegavam a vinte e cinco nós, bem na cara. É para estas horas que existe o vento de porão a nosso serviço. Aceleramos o motor de modo que a velocidade do barco ficasse em compasso com o ritmo das ondas e batesse o menos possível. Mas não evitou que, eventualmente, uma onda nos deixasse no ar, fazendo-nos despencar lá de cima com um estrondo terrível. Era assustador ouvir o barulho do casco chocando-se contra a água. "Será que o Zimbros agüenta?" me perguntava apavorado.

As quinze milhas que separam Granada de Carriacou foram dolorosas para o barco, mas ele reagiu bem. A correnteza é muito forte e pode chegar a mais de dois nós oeste. Existem algumas pequenas ilhas no percurso, chamadas Isle de Ronde, mas infelizmente nenhuma é habitada e a ancoragem não é muito recomendada. Mas o pior é um vulcão submarino localizado duas milhas a oeste da Isle. Duas erupções recentes, uma em 88 e outra em 89, fizeram com que as autoridades criassem, como medida de precaução, uma zona de exclusão com cerca de um quilômetro e meio em volta do vulcão. Quando a água ferve, o raio é ampliado para cinco quilômetros. Não é obrigatório, é facultativo, depende de você. Para evitarmos o perigo, teríamos que fazer um desvio muito grande, e nosso tempo era curto. Tínhamos que chegar em Carriacou ainda dia. Foi fácil decidir: passamos bem por cima da cratera submersa que, para nosso alívio, permaneceu inerte. Emoção pouca é bobagem quando se navega no Zimbros...

Eram quase cinco da tarde ao nos aproximamos de Tyrrel Bay, pacífica enseada à sudoeste de Carriacou. A entrada é segura e havia muitos barcos ancorados dentro. Avistamos ao longe uma bóia livre, e nos dirigimos para lá vagarosamente apreciando a paisagem e os veleiros ao largo. Amarramos o Zimbros numa poita frente ao Iate Clube de Tyrrel Bay, na verdade uma pequena marina ao sul da baia. O por-do-sol fazia as cores mudarem a cada minuto atrás de nós. Um espetáculo único. "Chegamos no Caribe tripulação" desabafei. Finalmente, desde que deixara o Brasil, eu estava num lugar que correspondia aos meus sonhos. Ao longe tocava um reggae na vitrola, um sinal para abrirmos o bar. A temperatura estava amena, tomamos um banho quente e nos preparamos para ir à terra.


Carriacou: a ilha tem cerca de oito mil habitantes e pertence à Granada.

Escureceu, seguíamos os três com muito cuidado sobre o pequeno botinho, que ameaçava afundar a cada onda que vinha de proa. Passamos a chamar Tadeu de Poita-man, uma alusão nada elogiosa ao seu peso excessivo. Ao encostarmos na praia, Joaquim desembarcou com muito cuidado para puxar nosso bote um pouco mais para o raso. Quase na areia, Tadeu foi descer, tropeçou em si mesmo, e caiu dentro d'água feito uma mala sem alça. Naufragou por completo, nem um fio de cabelo ficou sem molhar. Foi tão ridículo, que nem pude rir com pena dele. Por sorte, eu o havia desaconselhado a trazer todo seu equipamento fotográfico para terra, pouco antes de deixarmos o barco. Seria um prejuízo doloroso, bem maior que o da sua roupa ensopada.

Enquanto Poita-man voltava ao Zimbros para trocar-se, nós aproveitamos para conhecer a bucólica enseada. Um lugar parado no tempo, as pessoas em frente suas casas conversam e assistem tranqüilas ao monótono vai-e-vem das marés e dos raros visitantes. Cumprimentavam-nos curiosas, tentando adivinhar quem eram aqueles com cara de maresia, circulando perdidos num lugar daqueles. É evidente que só podíamos ser velejadores, assim como todos os branquelos que circulavam por alí. Um cronista definiu Carriacou como um lugar onde se encontram centenas de botecos mas somente um posto de gasolina. De fato, os carros são raros e os bêbados muitos, ou seja, o lugar é perfeito! Existem várias pequenas pousadas e parece que em todas há um Internet Café. Conseguimos resistir à tentação de nos conectarmos ao mundo exterior. Jantamos num pequeno restaurante, tomamos umas cervejas, rum e, cedo, voltamos para o Zimbros. As últimas vinte e quatro horas tinham sido muito cansativas.

No dia seguinte, um domingo, alugamos um taxi, demos um passeio relax pela ilha, que pertence à Granada. De cima de uma colina pudemos ver arquipélagos à perder de vista, veleiros aos montes. Nós ali integrados naquele mundo, fazíamos também parte da paisagem. Voltamos ao barco, liberamos nossa boia e partimos para Sandy Island, no outro lado da ponta norte, frente à capital Hillsborough. Um espetáculo! Uma pequena ilha, rasa, toda de areia cercada de corais, com dezenas de barcos, grandes e pequenos ancorados nas proximidades. Todos sintonizados na mesma freqüência de paz com a natureza. Pelicanos e gaivotas eram nossos vizinhos. Fantástico lugar para um mergulho, fotos e rum. Mas não pudemos ficar muito tempo, era tarde e precisávamos seguir para Tobago Keys, um arquipélago de corais localizado quinze milhas ao norte. Eram três da tarde e não podíamos entrar lá à noite. Com muito pesar, levantamos âncora e nos depedimos daquele Éden.


Sandy Islands: um dos lugares mais lindos que eu já vi no mar.

Ao deixar Sandy Islands, passamos ao lado do Royal Clipper um majestoso veleiro de 439 pés, usado para cruzeiros comerciais pelo Caribe. Tentei falar com eles pelo rádio, mas não tive retorno. Foi construído em 2000, inspirado nos tradicionais veleiros de passageiros do começo do século. Tem cinco mastros, 42 velas e é tocado por uma tripulação de cerca de cem pessoas com capacidade para mais de 220 passageiros. Um dos poucos que ainda fazem este tipo de navegação romântica pelo mundo, me fez pensar no charme das antigas travessias, quando todas as embarcações eram à vela e o tempo, um patrimônio que se consumia em gotas.


O Royal Clipper: 439 pés, 5 mastros e 42 velas.

 

(final da parte 22)