Parte 21


Ao sairmos de São Luís, fomos surpreendidos por um mar cuja cara não podia ser descrita como de "bons amigos". Os quatro primeiros dias foram de total desconforto e mal-estar à bordo. O quinto amanheceu feio com ventos fortes e mar agitado. As ondas não eram tão grandes, de três a cinco metros de altura, mas com a distância entre elas curta e irregular. O barco mau saia de uma, e lá vinha outra pegando-nos de surpresa, molhando tudo à bordo. Estávamos bem mais dispostos e à tarde as condições do mar melhoram. Já podíamos almoçar na hora certa e esta rotina foi muito importante para nos manter de alto astral.

Ao entardecer, às seis horas em ponto, Adalberto olhou no horizonte e nos alertou para um pequeno ponto bem na nossa proa. Parecia ser um navio, mas a condição da atmosfera tornava difícil saber do que se tratava. Liguei o rádio e estabeleci contato. Em poucos minutos, num inglês da china, respondeu o operador dizendo que nos tinha avistado. Era um cargueiro indo para São Luís e, exatamente às seis e dez, passou ao nosso lado! O que quero dizer é que o barco levou exatos dez minutos desde o momento que o avistamos até chegar por nós à bombordo. Eu já tinha lido e ouvido muita coisa a respeito do tempo que uma embarcação leva para alcançar um veleiro quando se cruzam no mar. Cálculos logarítmicos e trigonométricos sobre a velocidade de ambos, a inclinação da terra, a altura do convés, etc, estabeleciam em vinte minutos o intervalo entre a ver o barco e tê-lo sobre você no meio do oceano. Caro amigo, se você também é velejador já ouviu essa baboseira. Pois eu lhe digo, pela minha própria experiência: "Dez minutos é o tempo que um navio oceânico leva para passar por cima do seu barco, se você se distrair". Portanto fique com os olhos bem abertos ao navegar, seja de dia ou de noite! Dez minutos, não esqueça.


Glauco: olhos abertos no horizonte e gps na mão.

Exceto por estes eventuais encontros, nada mais víamos, além de água, céu e nuvens. Havia também uma infinidade de peixes voadores que, assustados com nossa passagem, faziam vôos imensos fora d'água, alguns chegavam à centena de metros. Outros, menos afortunados, vinham cair dentro do Zimbros. Cor azul turquesa, eram belíssimos. Durante a noite, quando não podíamos vê-los, muitos morriam no convés. Certa manhã encontramos um pequeno no banheiro. Foi muito azar dele acertar bem na gaiúta aberta e acabar dentro do vaso fedorento. Passamos também, ao entardecer, por um veleiro francês que seguia para Tobago vindo de Fortaleza. Seguia lento e ao ultrapassá-lo pudemos trocar alguns acenos com os caras. Para mim foi uma grande novidade encontrar um companheiro naquela imensidão de mar. Conversamos pelo VHF e eles estavam sem pressa nenhuma para chegar na tarde do dia seguinte ao seu destino. Tinham pego o mesmo mar que nós, éramos portanto solidários no sofrimento.

Sexto dia: rumo 305º, vento nordeste constante de quinze a vinte nós, ondas pentelhas como sempre e um sol gostoso no lombo. Já estávamos bem acostumados com a rotina de marinheiros. Aí começou outro drama, o da monotonia! Quis organizar uma competição de pesca entre nós, mas ninguém pegou nada. Era impossível tirar qualquer coisa d'água com o barco na velocidade que estava. E a tripulação foi tomada pelo banzo, cada qual mergulhado na sua própria solidão, sentindo saudades de casa, dos filhos, da mulher, do cachorro, da geladeira... "Navegar é também aprender a dar valor às banalidades domésticas. Faz bem ao casamento! Vocês vão voltar para casa com outros olhos" disse querendo melhorar o humor da turma, que permaneceu tenebroso. Quanto a mim, acho que minhas preocupações não me deixam sentir nada. Quero chegar logo, parar num porto seguro, tomar uma cerveja bem gelada, esquecer tudo o que sofri e partir para a próxima. "Montou no burro, agüenta o trote" diz o ditado.


Navegar é um esporte masoquista. O melhor mesmo é a cerveja na chegada.

No penúltimo dia antes de Trinidad, o clima era de já cheguei! Adalberto caprichou num arroz à carreteiro e, pela primeira vez desde a partida, tomamos um gole de conhaque para abrir o apetite. O astral estava bom, ouvíamos música, um luxo raro, pois tive que desligar quase todos os eletrônicos de bordo para economizar energia. Só funcionavam o piloto automático e à noite, a luz do tope do mastro, mais nada, nem luzes de navegação. Ligava o motor umas duas horas por dia para repor as cargas na bateria e procurava poupá-las ao máximo. A água, outro luxo, também era racionada. Tomávamos banho sempre que possível, e usávamos cerca de dois litros por pessoa apenas. Isto seria um terror para as mulheres, mas para nós era o suficiente para uma boa meia sola no corpinho salgado. Nos lavamos e nos preparamos felizes para a chegada!

The last day: acordei pouco antes de amanhecer e pude distinguir as luzes do farol da ponta oriental da Ilha de Trinidad. À direita, o clarão de Tobago e ao largo, a iluminação de alguns navios e de plataformas de petróleo. Estávamos voltando à civilização! Era dia quando cruzamos a Passagens dos Galeões, o estreito que separa Trinidad de Tobago. Entrávamos finalmente no mar do Caribe. Mas ainda estávamos muito longe do nosso destino. A ilha é muito grande, tem cerca cem quilômetros de cada lado, e nosso porto, Chaquaramas, ficava na extremidade oeste, dentro do Golfo de Pária. Com relevo acidentado de origem vulcânica, Trinidad & Tobago são a continuação geológica da Cordilheira dos Andes. Todo o Caribe é.

Trinidad foi descoberto por Colombo na sua terceira viagem no final do século XV. Pertenceu à Espanha que, por quase trezentos anos, não manifestou qualquer interesse por aqueles ermos, cuja única novidade eram enormes lagos de um óleo pegajoso, o asfalto, conhecido pelos indígenas apenas para calafetar suas naus, portanto sem qualquer valor econômico para a cobiça do reino de Castela. Em 1797 a Inglaterra assumiu a ilha à força, pensando exclusivamente na exploração do fumo. Para ajudar, importaram escravos negros da África. Enquanto isso, Tobago era tomada pelos franceses que a transformaram numa colônia produtora de açúcar. Pouco depois foi comprada pela Inglaterra. Com a proibição da escravidão, decretada pelos ingleses, começaram as imigrações de trabalhadores vindos de outras colônias, sobretudo da Índia. Hoje sua composição étnica é basicamente constituída pelos descendentes destes dois povos, indianos e negros. É um país rico e estável e sua principal fonte econômica vem da petroquímica e da exploração do gás do petróleo. Se os espanhóis soubessem...

Foi somente no meio da tarde que cruzamos a Boca Del Dragon, uma das quatro estreitas passagens que separam o Mar do Caribe do Golfo de Pária. Em poucos minutos navegávamos por entre centenas de barcos de todas as nacionalidades e tamanhos, ancorados frente a Chaquaramas, cuja baia abriga a maioria das marinas de serviço de Trinidad. É uma localidade distante cerca de meia hora da capital, Port Of Spain. Vagarosamente, com muito cagaço, nos aproximamos do cais da Power Boat, em cuja marina eu havia feito uma reserva antes de partir. Várias pessoas por ali, mas ninguém ajudava ninguém, nem davam a mínima para nós. Amarramos o barco na amurada de tijolos e fomos à terra. Tudo girou em volta, parecíamos bêbados, no jeito de andar e na aparência. Troquei algumas palavras com um nativo que me informou, num inglês quase incompreensível, onde era o escritório do lugar. Em pouco tempo, estávamos abrigados numa apertada vaga na marina, entre barcos em reformas que nos impediam qualquer vista do entorno. Mas isso não tinha importância alguma, queríamos apenas comemorar nossa chegada.


A Boca Del Dragon, entrada do Golfo de Pária: finalmente estamos em Trinidad.

Como Trinidad está fora da zona de furacões, é um grande pólo náutico para onde vão, de agosto a novembro, a grande maioria dos barcos da região, fugindo da fúria dos elementos. É um bom local para se fazerem reparos à bordo. Muitos vêm para cá arrumar seus barcos a preços bem mais acessíveis que os do norte. Precisava tirar o Zimbros d'água e teria que ficar naquele porto por cerca de uma semana. Começava ali mais uma temporada de tortura e de espera para o Zimbros e para nós. O sofrimento ainda não acabara...

Um pé no saco, os sete dias parados na marina foram demais para espíritos nômades e aventureiros como o nosso. O Zimbros teve que passar por uma manutenção básica inadiável: trocar óleo, filtros, pintar o fundo, checar os anodos, calafetar as bordas, costurar a genôa, trocar os amantilhos do lazy-jacket, reparar o cabo da esteira da grande, arrumar o suporte de proa da âncora, substituir o vaso sanitário, desentupir o fogão, lavar as roupas, limpar o barco, comprar cartas náuticas.... Um sufoco de coisas e mais coisas que nunca acabavam. Ao final de cada dia, sob um calor sufocante, eu tinha a impressão que não havia feito nada. Parece que para hora no mar, são necessárias duas para arrumar tudo o que se estraga à bordo. Para complicar mais ainda os árduos dias, a tripulação deixou-se abater por um tédio absoluto. Era preferível agüentar todas as ondas do Atlântico do que aquela monotonia sem fim.


Zimbros fora d'água: é melhor enfrentar a fúria das ondas do que o tédio das marinas.

Minhas funções ainda me distraiam, mas Adalberto e Glauco pouco tinham a fazer dentro daquela enorme oficina de barcos. Foi duro para eles. Suas passagens de volta para o Brasil estavam marcadas apenas para o final de semana, ou seja, nada havia a fazer exceto esperar. Durante nossos dias na marina, acabamos conhecendo um casal legal, mas excêntrico: Mary, cearense e Bryan, canadense que trabalha com plataformas de petróleo. Ela, hospedada no hotel da marina, estava lá por alguns dias apenas para arrumar a vida do marido. O trabalho dele é duro, exige que fique no mar por semanas. Quando está em terra, contudo, não existe bebida no mundo que seja suficiente para saciar sua sede. O cara é boa praça, mas bebe todas, nem nós conseguimos acompanhá-lo. Por sorte demorou-se pouco em terra e logo partiu. Mary ficou, e nos mostrou todos os bares de Chaquaramas. Tenho um fraco por botecos, sobretudo os estrangeiros, chego a sonhar com eles. Mas uma coisa é certa: os bêbados são iguais no mundo todo.

Meus sonhos são heróicos e recorrentes: Estou numa sórdida taverna à beira mar com Ulisses (da Odisséia), Jonas (da baleia), Shacketon (do Endurance), Popeye (o marinheiro), Amyr Klink (esse vocês conhecem) bebendo, jogando cartas e praguejando. Súbito a porta se abre com um estrondo e um vento gelado bagunça as cartas sobre a mesa. Era uma mulata, olhos verdes e cabelo desalinhados. Procura por alguém, e ao nos ver vem direto à nossa mesa, inquieta. Para bem frente a mim e diz: "Procuro um marinheiro experiente que me leve em segurança através do estreito de Darien. Estou sem dinheiro, mas tenho outros predicados". Perplexos nos entreolhamos e, antes que qualquer um de nós possa esboçar qualquer resposta, seus olhos pousam-se nos meus. O pouco de desamparo que lhe restava dissipa-se: "Fico com o magrelo" diz decidida. Todos ficam imóveis. Tomo uma última lapada de rum, trapaceio com as cartas e bato com as dez. Recolho todo o dinheiro da mesa, ponho dentro do meu matulão, levanto-me e, antes que alguém diga um a, puxo-a pelo braço e saio do boteco, deixando meus parceiros todos com cara de otário. Alguns segundos se passam até eles recobrarem o raciocínio. "Quem é esse cara" pergunta Popeye. "Não temos a menor idéia" respondem.

Acordei com uma ressaca braba, era uma quinta-feira. Finalmente, no dia do Zimbros voltar para a água, chegaram os novos tripulantes da próxima perna da viagem: Tadeu e Joaquim. Eles já haviam participado de outros trechos comigo no Brasil. Joaquim fez de Fortaleza à São Luís e Tadeu, de Vitória à Salvador. Comemoramos o reencontro, mas ainda havia muito que se fazer para a partida no dia seguinte. As horas finais em Trinidad foram muito corridas e cansativas. Nosso projeto era irmos de lá até Santa Lúcia, passando por um sem número de belas ilhas, finalmente velejando no Mar do Caribe. Mas fiquei triste com a despedida. Deixei no cais meus companheiros, que partiriam somente nos dias seguintes. Passamos muito tempo juntos, boas e más horas, e a sensação que tive era que os estava abandonando. Mas, paciência, a vida de marinheiro é feita de encontros e despedidas. Glauco, Adalberto, Mary, Mario e sua mulher soltaram as amarras do Zimbros ao anoitecer de sexta-feira. Uma nova etapa começava naquela hora.


Mary, Tadeu, Joaquim, eu, Adalberto e Glauco: despedida à bordo do Zimbros.

(final da parte 21)