Parte 20


Ao aproximar-se de São Luís, o avião que me levava sobrevoou por quilômetros uma imensidão de várzeas, mangues e rios desaguando na Baia de São Marcos. Uma bela paisagem ilustrativa do quanto diferente são as diversas regiões do Brasil. Vivemos num continente, cada Estado é como um país diverso do outro, com sua geografia e sua cultura próprias. Gosto muito de conhecer estes contrastes e poder compará-los. Admiro nossa unidade, e me surpreendo de saber que no fundo uma das poucas coisas que temos em comum é a língua portuguesa e a Rede Globo. Estou a cinco mil quilômetros de casa e tudo o que me esperava lá embaixo era novidade.

No aeroporto, Glauco aguardava por mim. Fizera questão de vir me buscar e foi um incansável companheiro nos dias seguintes, quando tivemos que preparar o próximo trecho da nossa viagem: São Luís à Trinidad & Tobago, cerca de mil e trezentas milhas de mar distantes entre si. Foram três dias de intermináveis esforços para podermos ficar de acordo com as formalidades legais pedidas pela Capitania dos Portos, Receita Federal, Polícia Federal, Saúde Pública, além das exigências básicas de alimentação e segurança. Adalberto chegou de Santa Catarina dois dias depois. Na correria, mal tivemos tempo de subir à bordo do Zimbros, que se encontrava ancorado na Ponta da Areia, aos humores de uma fantástica variação de maré que, em algumas épocas do ano pode chegar a sete metros. Como medida de segurança o barco ficou ancorado, nos últimos dois meses, num local raso. Sempre que a maré vazava, ele encalhava na lama. Uma visão assustadora! Mas nada de grave já que o leme e a quilha, enterravam por completo no lodo mole da baia.


Feio de ver: o Zimbros encalhado no lodo em São Luís.

A maré dificultava muito o nosso acesso à bordo, pois só era possível chegar ao barco durante as cheias. Por esta razão, determinei que nossa saída seria na quinta-feira, dia quatro de março às cinco da manhã, com a maré alta. Na véspera, as atribulações da partida foram infinitas, complicadas ainda mais pelo problema de chegarmos ao Zimbros. O medo de não ter esquecido nada me fez lembrar de um poema de Mario Quintana, publicado no seu livro Preparativos de Viagem: "A louca agitação das vésperas de partida! (...) E a gente esquecendo o que devia trazer, trazendo coisas que deviam ficar... Mas é que as coisas também querem partir. As coisas também querem chegar. A qualquer parte! - desde que não seja este eterno mesmo lugar...

Nossa partida foi muito tumultuada! Não podíamos perder tempo em nosso ancoradouro, pois sua saída era rasa e em pouco tempo não haveria calado no estreito canal que liga a Ponta de Areia à Baia de São Marcos. Era o primeiro contato dos meus novos tripulantes com o Zimbros. Eu supus que, uma vez passada a saída da barra, poderia jogar âncora em um lugar seguro e calmo onde seria fácil colocar as coisas que não haviam sido guardadas no lugar, além de uma dar uma pequena prévia do funcionamento do barco aos novos embarcados. Mas não houve jeito. O mar, fora da proteção da Ponta da Areia, estava muito agitado e seria muito ruim parar em qualquer lugar da baia de São Marcos. Resolvi prosseguir e arrumar as coisas no caminho. Foi um erro imperdoável, mais tarde iria me arrepender de ter tomado esta decisão.

A medida que deixávamos São Luís para trás, fomos alcançados por nuvens baixas e carregadas que despejaram sobre nós toda água contida em seu ventre. As ondas estavam pequenas. O vento fraco soprava de frente e nós estávamos em paz com os elementos. A chuva foi bem vinda. Nosso objetivo naquele momento era vencermos a Ponta do Zumbi, um baixio imenso, localizado poucas milhas à noroeste de nós. A partir de lá iríamos costeando o litoral maranhense até deixarmos por boreste o terrível parcéu de Manoel Luís, um afloramento de corais responsável por centenas de naufrágios desde os tempos da nossa colonização. Conta a história que o primeiro a sucumbir nas suas garras foi a nau capitânea comandada por Aires da Cunha, o primeiro mandatário da capitania do Maranhão. Bem que alguém podia levar o Sarney para dar umas voltas por lá...

Passada a chuva matinal, o vento começou a soprar com mais força, de dez a quinze nós vindo de leste-nordeste, ou seja nos alcançava num ângulo bem fechado em relação à proa. A grande maioria dos barcos à vela consegue navegar contra o vento, num ângulo de no mínimo 45º em relação a ele. É quando se deve ajustar as velas de modo que elas fiquem bem fechadas, caçadas como se diz na linguagem náutica. O barco avança quase contra as ondas, que batem no seu costado e, muitas vezes, molham tudo o que está em cima da embarcação. Com mar agitado é uma navegação muito sofrida e desconfortável, exatamente o nosso caso. As águas da maré vazante quando encontraram as vagas que vinham do oceano formavam ondas irregulares e desencontradas que a todo momento, ao bater contra o barco, inundava nossa cokpit com borrifos salgados e desconfortáveis. O passeio começava a perder a graça.

O entra e sai da cabine para verificar nossa posição, a concentração no ajuste das velas e a preocupação que não me abandonava há dias me deixou completamente enjoado. Acho que minha náusea, causada evidentemente pelo balanço do barco, tem também um fundo psicológico. Ninguém pode imaginar o quanto de ansiedade e aflição trago dentro de mim durante minhas partidas. Atormenta-me sobretudo a segurança da tripulação e do barco. Muitas vezes pareço distraído, mas nunca me perdoaria se algum acidente ocorresse sob minha responsabilidade. É o peso do comando! Esta opressão e o desequilíbrio do meu labirinto me fazem perder o prumo, daí o enjôo, suponho. Mas procuro não me entregar, sei que vai passar e, num esforço pra mim quase sobre humano, tento deixar a situação à bordo em segurança e vou me deitar. Só assim consigo sofrer um pouco menos. Muitas vezes me pergunto como algo que eu amo tanto pode me fazer tanto mal.

Existe um ditado que inventei para estes momentos: "Cuidado, quando tudo vai mal num barco, prepara-te por que vai piorar". E foi o que aconteceu. Um dos bujões de plástico abastecidos com óleo diesel extra que eu armazenara dentro do paiol de velas abriu, derramando alguns litros de combustível, pouca coisa, dentro das cavernas do Zimbros. Por gravidade o líquido viscoso e mal cheiroso correu para o fundo do barco onde se misturou com água salgada, esta vinda não sei de onde. Foi uma lambança geral! O diesel e a água liquidificados com o balanço do barco, vazando para cima do piso, já que o barco estava inclinado, fizeram um estrago na nossa moral. Ficou um horror entrar na cabine para qualquer atividade. Cozinhar por exemplo era impossível. "O que é que eu estou fazendo aqui?". Eu podia adivinhar o pensamento de todos naquele momento. E era apenas o nosso primeiro dia. Calei-me e procurei fazer apenas o indispensável para sobrevivermos da maneira menos dolorida possível.

A nossa noite número um foi um martírio. Ao escurecer organizei os turnos de modo que cada tripulante ficasse duas horas acordado e quatro dormindo. O sono seria suficiente para recompor um pouco nossas energias. Eu estava mal, e a única atividade que me aliviava um pouco era ficar deitado. Dormia torto, e ao acordar parecia que estava dentro de um pesadelo. O Zimbros jogava loucamente dentro da noite em algum lugar longe de tudo. Eu não estava em nenhum passeio de final de semana. Amanheceu cinza e molhado. Glauco e Adalberto subestimaram as variações de temperatura tropicais e não trouxeram nenhum abrigo impermeável para a viagem. Estavam úmidos e cansados. Pelo meio da manhã eu, deitado no beliche, tentava diminuir um pouco meu desconforto, quando ouvi lá de fora Glauco gritar "Comandante, pegamos uma linha. Está presa na quilha". Era só o que me faltava. Pulei da cama, corri para fora pensando em como parar o barco para poder mergulhar num mar daqueles e soltar os cabos do fundo. Dei de cara com os dois numa boa risada: "Acabamos de passar pelo Equador. A linha está presa na quilha do Zimbros, he, he, he".


Gluco & Adalberto: mesmo nas dificuldades, o humor estava alto.

Foi um bom momento! No meio daquele desacerto tínhamos algo que comemorar, mais uma conquista para nós e para o Zimbros. Reza a tradição que aquele que cruza, navegando pela primeira vez, o equador deve ser batizado no melhor estilo náutico: ovos, farinha, água gelada, vale qualquer sacanagem. Eu já havia sido pego quando cruzei o hemisfério à bordo do Frotasul, um cargueiro que seguia para a França em 1982. Mas naquela hora seria muita tortura para eles terem que suportar mais uma peça dessas. Deixei pra depois e acabei esquecendo, frente às dificuldades que nos aguardavam.

E elas não tardaram. Adalberto, ao tentar pegar seu boné, que lhe voara da cabeça, bate com força na sua própria vara de pescar, presa ao guarda-mancebo do bombordo, e enfia um anzol na mão esquerda. Porra, o primeiro acidente à bordo desde que saí de casa há dez meses! E longe de tudo e de todos.

Não havia como retirar a isca por onde ela tinha entrado sem fazer um estrago enorme na sua mão: anzóis são projetados para entrarem, não para sairem. Por sorte, dias antes comprei em São Luís, por sugestão do próprio Adalberto, um alicate de corte especial para uma emergência como aquela. Bravamente ele mesmo cortou a parte de trás do anzol, e fez com que ele prosseguisse seu caminho, perfurando sua mão até sair do outro lado, por um novo buraco. Deve ter sido muito dolorido, mas era a única maneira de resolver o problema. Ainda bem, pois eu já estava mentalmente considerando a possibilidade de ter que parar em Belém, na eventualidade de termos que lhe fazer uma pequena cirurgia. Glauco ajudou-o a desinfetar o ferimento e lhe fez um pequeno curativo salvador. Rezamos para que não infeccionasse.

Adalberto Graf, um amigo meu do Iate Porto Belo, é valoroso self-made-man que passou a vida toda trabalhando duro. Há alguns anos ao livrar-se de uma grave enfermidade, decidiu mudar de vida. E o mar foi a escolha certa. A pesca e a vela são suas paixões. Contudo, quando candidatou-se a fazer esse trecho comigo, não imaginava sofrer tanto. Infelizmente minhas promessas de mar tranqüilo, muito peixe e boas refeições não se cumpriram. Mas nossa experiência foi gratificante. "Sofrer juntos, reforça a amizade" eu costumava dizer nas horas mais duras.


Adalberto: o que ele mais gosta é pescar garoupa.

No terceiro dia o mal-estar continuava presente. À medida que avançávamos pela costa do Brasil, arribávamos em relação ao vento no rumo 345º. As velas ficaram mais folgadas e adernávamos menos, indo com mais de conforto menos inclinados. Ao meio-dia o vento, pela primeira e única vez na viagem, amenizou e o calor aumentou muito. Decidimos dar um mergulho para diminuir o stress. Foi uma maravilha poder desfrutar daquela água morna, azul e cristalina. É evidente que não cometemos a loucura de irmos os três para a mar ao mesmo tempo. Lembramos da história contada pelo Amyr Klink, quando a tripulação de um veleiro desapareceu depois de pularem todos n'água, sem baixarem a escada de acesso ao convés. Dias depois o barco foi achado vazio, com seu casco todo arranhado pelas unhas desesperadas dos infelizes tripulantes tentando subir pelo costado! Toc-toc, bato na madeira para afastar esta imagem terrível da minha mente.

Apesar do banho, permanecíamos todos ainda muitos enjoados e mal conseguíamos comer, exceto barras de cereais e frutas. Meus tripulantes, não obatante o bom humor e a camaradagem, davam sinais de desgaste. Glauco estava com dores na coluna. Acostumado a navegar apenas em catamarãs, a inclinação do Zimbros era uma novidade dolorosa, já que não havia uma posição que lhe fosse confortável. E Adalberto não conseguia esquecer os confortos do seu apartamento à beira-mar e do seu veleiro, todo limpinho ancorado na segurança do Iate Porto Belo. Um só falava das maravilhas dos multicascos, e outro da eficiência do seu barco e eu, ali no meio do nada, me sentido só como um náufrago, a suportar a nostalgia crítica daqueles dois manés sem ter para onde fugir. Costumo reagir mal a apreciações negativas e decretei: "Está proibido à bordo do Zimbros falar das vantagens de outros veleiros. Só quero ouvir elogios ao meu barco, afinal foi ele quem nos trouxe até aqui em segurança e será ele a nos deixar vivos no nosso próximo destino".

No quarto dia, um domingo, o panorama estava terrível, com nuvens baixas, vento forte e mar agitado. Estávamos no través do Amapá, a umas cem milhas da costa, entre nada e coisa nenhuma. Eu no cokpit vestia meu agasalho de mau tempo e botas impermeáveis. As velas estavam rizadas e bem ajustadas e, pela primeira vez desde a partida, me sentia melhor, confiante em mim e no barco. Na verdade, minha grande preocupação no mar é saber se o barco agüenta o rojão, se o mastro não cai, se o leme não parte, se não há um contêiner no meu caminho... Muitos se que me torturam o sono. O Zimbros já vinha mostrando ser bem marinheiro, resistente e veloz. Chegamos a fazer cento e noventa milhas em vinte e quatro horas, uma espantosa média de quase oito nós! Seu único problema era uma infiltração d'água que não parava de jeito nenhum, sem que eu sequer suspeitasse de onde vinha. Mas já estávamos no quarto dia de mar, e as coisas foram se acomodando melhor. Pudemos secar o porão, drenar o diesel e deixar a cabine um pouco mais acolhedora. Foi a condição ideal para prepararmos nossa primeira refeição quente desde a partida. Que maravilha a comida fez com nosso humor e nossa disposição.

No final da tarde, aproveitando uma trégua dos elementos, ligamos para casa com o Globalstar, um telefone celular via satélite, gentilmente emprestado pelo Hans Voswinckel. Estávamos passando pelo Cabo Orange, limite setentrional do Brasil, era inacretitável poder falar de tão longe com tanta clareza. Em poucas horas entraríamos em águas estrangeiras da Guiana Francesa. Seguindo os conselhos de velejadores que já haviam feito esse mesmo percurso, Crespo, Mario e o Sérgio lá de São Luís, traçamos nosso rumo de modo a ficar sempre entre as profundidades de mil a dois mil metros. Eu achava que com todo esse mar abaixo de nós, as ondas seriam mais regulares, mas me enganei. Elas permaneciam desencontradas, curtas e bem molhadas. Davam medo de se ver. Nossas únicas garantias, se naufragássemos, eram o telefone do Hans e a balsa salva-vidas, também emprestada pelo Vinícius Budel, um grande companheiro velejador também do Iate Porto Belo. Na verdade eu estava onde estava graças a muita gente, não somente àqueles que estivaram embarcados comigo nos últimos meses, mas também aos amigos que ficaram em terra torcendo pelo sucesso da minha aventura...

(final da parte 20)