![]() |
||
Na noite que antecedeu nossa saída fomos comemorar em um restaurante muito especial, o Alimenta. Comemos muito bem, mas procuramos segurar as pontas nas bebidas, afinal ainda estavam bem vivos na minha memória os maus momentos que passei no último trecho da viagem, seguramente causados pelo álcool. Duas garrafas de um Chardonay chileno para quatro foram suficientes para alegrar nossa despedida. Pela manhã, abastecidos e completos, nos despedimos da cidade de José de Alencar, eu particularmente com uma ponta de dor no coração. A saída foi perfeita, com sol forte, vento favorável e mar tranquilo. A navegação naquele trecho da costa nordestina é relativamente segura, pois não existem os terríveis baixios do Rio Grande do Norte, pesadelo de qualquer marinheiro. Jeri estava a 120 milhas na direção noroeste, o que significava que chegaríamos lá ao amanhecer do dia seguinte. O vento soprava de 15 a 20 nós e o nosso rumo era 330º na bússola. A noite foi calma, a lua crescente iluminava nosso caminho. Jantamos um baião de dois feito pela Márcia, mulher do André Grieser, especialmente para nós. É um dos meus pratos favoritos, uma mistura de arroz, feijão e queijo temperado com coentro. Tem o gosto do Ceará. Pouco antes do amanhecer, no meu turno, avistei o farol da ponta de Jeri a aproximadamente 45º à bombordo. Desfiz a armação da vela em Asa de Pombo e, com vento de través, rumei o barco para sua direção. Quando clareou pude identificar o contorno da serra, cujo relevo também dá nome à vila. Os nativos a chamam de Serrote. A profundidade diminuiu sensivelmente e aos poucos estávamos ao abrigo da pequena e rasa enseada. Jogamos âncora com quatro metros de profundidade. Ainda assim longe da praia, cerca de trezentos metros. A maré estava cheia, sua variação era grande e não quis arriscar chegar mais perto. O vento fraco, o mar calmo, um dia radiante prometia. No cockpit fizemos um delicioso café da manhã e começamos a nos preparar para o desembarque. Tudo estava perfeito, exceto pelo motorzinho que voltou a encrencar e não funcionava de jeito nenhum. "Merda! Vou jogar esta pôrra n'água" disse irritado. Sem motor não havia condição nenhuma de ir à terra. Mas para esse tormento tínhamos o Dudo: o cara é capaz de desmontar qualquer mecanismo que lhe caia na mão, desde que tenha as chaves adequadas. Eu não entendo nada de mecânica, mas tenho todas as ferramentas e sei convidar as pessoas certas. "Dudo ao trabalho. Foi por isto que te convidei" disse rindo. O Dudo é um amigão de muitos anos, nos conhecemos fazendo enduro. O gosto pela aventura fortaleceu nossa amizade. Ele é bem mais novo que eu, tem uns trinta e poucos anos, faz parte da geração coca-cola com vídeo-game. Mas nossa linguagem é comum e nos divertimos muito quando estamos juntos. Quando garoto, costumava desmontar tudo o que via pela frente, nem sempre com o mesmo talento para recolocar o que havia tirado do lugar. Muitas vezes acabava com peças sobrando na sua mão. Uma vez foi um relógio de parede que sucumbiu à sua curiosidade. Seu pai nunca o perdôou. Mas a experiência fez dele um bom mecânico. Em pouco tempo nosso motor estava novo, era apenas um minúsculo grão de borracha entupindo o respiro do tanque. Eu nunca teria conseguido achá-lo. Volúvel, voltei a fazer as pazes com meu querido motorzinho, pensando como seria injusto se o jogasse no mar, além de caro, é claro. Finalmente pudemos desembarcar. Bob ficou à bordo, pois os contratempos lá de Gostoso nos ensinaram que não dava para deixar o barco naquelas águas sem ninguém de plantão. O vento e o mar crescem com muita rapidez e eu não confiava mais nas minhas âncoras. Aquela seria minha quarta vez em Jeri. Na primeira, há mais de vinte anos, a vila era desconhecida para o mundo. Ainda continua uma maravilha, apesar da multidão de turistas que visitam suas praias a cada ano. Não sou saudosista, daqueles que preferem os lugares sempre inalterados. A descoberta de Jeri trouxe bastante benefício para os moradores. Lembro-me que não havia nem luz, nem água, nem escolas, nem postos de saúde, e para se chegar lá, levava um dia inteiro de viagem. Os pneus do meu carro, na época, furaram dez vezes na ida e na volta, foi uma odisséia. Mas não me arrependi, lembro-me que comíamos camarão e peixe seco junto com farinha, a única refeição que contratávamos a preço de banana. Mas isso foi há muito tempo. Foi só dar no New York Times que Jeri era uma das dez mais belas praias do mundo que, pronto, choveu gringo do globo todo! Os preços agora são os de Paris. Pagamos uma nota preta por uma pequena porção de peixe, ainda por cima congelado. Fazer o quê? Pelo menos o dinheiro que circula, acaba ajudando um pouco os nativos. Em 1984 aquele incrível cenário de dunas, coqueiros e mar, foi transformado em Área de Proteção Ambiental garantindo, em teoria, sua proteção dos desmandos e do mau-gosto da invasão imobiliária que assola todo nosso litoral.
Ao entardecer o vento refrescou, o mar aumentou, e o barco começou a jogar muito. Permanecer alí seria muito desconfortável, além de perigoso. "É melhor darmos o fora e passarmos a noite no mar, do que ficar aqui ancorados nesse liquidificador" disse o Bob com sabedoria. Eu tinha planos de partir somente no dia seguinte, para podermos chegar aos Lençois ao amanhecer do outro dia. Mas seria insuportável permanecer naquelas condições. "Vamos nessa, tripulação" decidi seguir os conselhos do nosso capitão. Enquanto erguíamos âncora e levantávamos as velas, anoiteceu. Ficou difícil trabalhar no escuro, apesar das luzes da cruzeta estarem ligadas. O breu era total, ouvia-se apenas o barulho do vento e do mar. Quando conseguimos finalmente sair, desci para traçar o rumo no plotter, estava preocupado com os obstáculos da saída. Atrás de nós havia um barco de pesca ancorado, e era impossível enxergá-lo no escuro, mais um problema para nós. Repentinamente, lá de dentro, ouvi um estrondo do cão, com o Zimbros adernando forte para boreste. "Batemos no barco" foi a primeira coisa que pensei desesperado. Corri para cima e ví, aliviado, que não: tínhamos dado mais um jaibe, a retranca não estava presa e mudou de bordo numa velocidade do cacete. Foi um susto, mas ainda bem que por uma razão menor. Velas arrumadas, retranca presa, rumo redefinido, vento e mar à favor, tudo voltou ao normal. Decidimos nossos turnos e prosseguimos tranquilos no meio da noite. Amanhecemos no través de Parnaíba, litoral do Piauí. Aos poucos o clima ficou diferente, nuvens escuras apareceram no céu, começou a chover forte, a primeira vez desde a Bahia. Estávamos em águas maranhenses. Moral alta, todos bem à bordo, o Zimbros navegando com segurança, o que mais eu podia querer? Mas eu estava apreensivo. Chegaríamos à barra do Preguiças lá pelo meio do dia, e o vento começava a aumentar e o mar estaria mais agitado. Naquelas condições seria arriscado entrar. Mas guardei segredo dos meus medos, todos estavam felizes, não queria estragar o astral daquele momento. Aos poucos a terra nos surgiu na proa. O litoral maranhense é plano, e só se consegue ver a costa quando se está bem próximo. A profundidade diminuiu, as ondas cresceram e o meu medo aumentou. Lá estava eu de novo tentando entrar numa barra desconhecida, perigosa e sem ninguém por perto a nos orientar. Nenhum barco de pesca à vista. Seguindo as instruções do mestre lá de Fortaleza, chegamos bem próximo à praia, uns duzentos metros, e seguimos paralelo a ela rumo à oeste. Continuávamos vendo só o farol de Caboré, localizado dentro da baia, mais nada, nem casas, nem gente. Profundidade: cinco metros, velocidade três nós, batimento cardíaco 250 por minuto. Ninguém conversava. "O cara disse que era fácil" pensei. Mas tudo é fácil para quem sabe, até falar grego. Quando a profundidade caiu para três metros decidí: "Não vai dar galera, meia-volta volver". O paraíso ao meu lado e eu sem saber a entrada, do lado de cá do muro. Decepcionante, mas um alívio para todos. Foi o quarto fracasso da viagem. Contrariado, desisto de entrar numa barra desconhecida e retomo o rumo à segurança de um porto sinalizado. Dessa vez para São Luis do Maranhão, localizado a cerca de 120 milhas à oeste da nossa posição. Eram duas da tarde e a previsão de chegada era para a manhã do dia seguinte. Conferi no plotter qual seria a maré para nossa chegada, pois na Baia de São Marcos, só se entra com maré enchente. "Ok, positivo, cheia" deu na mosca. Pelo menos dessa vez não ficaríamos de fora com cara de bobos. Noite tranquila, vento bom, mar calmo, lua cheia e muitos barcos de pesca ao largo. Navegamos bem, e pouco depois do amanhecer já conseguíamos avistar as edificações da capital maranhense. A cor da água ficou marrom, as ondas diminuiram de tamanho, mas a profundidade continuou alta. Muitos navios apareceram, o trânsito de acesso ao Porto de Itaquí é enorme, me pareceu maior que o de Paranaguá. Um olho neles e outro no plotter. Existem bancos e baixios, mas todos sinalizados na carta. Era domingo, estava nublado, um dia meio triste, mas estávamos a mil, felizes de chegar. Bob no timão, fomos nos aproximando aos poucos, procurando a melhor entrada pela carta do plotter. Joaquim, lá dentro dava as coordenadas, nós em cima só palpites. De repente ele falou: "pelo plotter aqui, estamos em cima da areia". Ocorre que a escala da carta era pequena, e nestes casos a precisão fica prejudicada. Não dá para confiar cegamente no aparelho nas manobras mais restritas, perto da costa. Avistamos alguns catamarãs manobrando dentro da baia onde desejávamos entrar. No mesmo instante aproximou-se de nós um pequeno barco à motor, casquinho como eles chamam, com dois marujos que nos orientaram sobre o melhor local de fundeio, ao lado de um veleiro de aço inglês. Era preciso estar muito atento com as incríveis variações de maré do Maranhão, que chegam a quase oito metros em determinadas épocas do ano. Para aquele domingo a oscilação seria de apenas quatro metros. Jogamos ferro próximo ao gringo e amarramos nossa popa numa enorme bóia metálica, usada pelas embarcações que fazem o translado até Alcântara. Mais tarde nos arrependeríamos disto, os caras simplesmente nos tocaram dalí, cheios de ameaças. São Luis para mim sempre teve a ver com grandes variações de maré, com velhos sobrados revestidos de azulejos e com a poesia de Ferreira Gullar. Conheci o poeta no final dos anos 70, quando vivíamos a barra pesada da ditadura. Seu livro Dentro da Noite Veloz, publicado em 75, quase todo escrito no exílio, retrata toda sua amargura daquele período. Mas, para mim, o poema mais marcante do livro não tem nada de engajado. É Fotografia Aérea, uma descrição emocionada de Gullar ao ver, já maduro, uma foto feita, muitos anos antes, por um avião de sua cidade natal, : "Eu devo ter ouvido aquela tarde um avião passar sobre a cidade, aberta como a palma da mão, entre palmeiras e mangues, vazando no mar o sangue de seus rios, as horas do dia tropical...". Pois ali estava eu, às margens do Bacanga, em São Luis do Maranhão, no norte do Brasil, sob as nuvens, num domingo qualquer desejando que o tempo parasse para que pudesse melhor apreender aquelas emoções. Dezenas de catamarãs circulavam próximos a nós, preparando-se para uma regata. Com o sobe-desce das marés, esses barcos são a maioria, pela facilidade com que podem encalhar em qualquer praia. Terminada a competição, pudemos conhecer os velejadores da ilha. Existem lá, dezenas de estaleiros produzindo uma grande quantidade de multicascos, geralmente em madeira. São belos barcos, marinheiros, arrojados de desejo e de perfomance. E o pessoal foi sensacional conosco, nos tratarando com muita hospitalidade. Fizemos bons amigos.
Deixamos o Zimbros ancorado na Ponta da Areia, aos cuidados dos nossos novos amigos e seguimos de carro para os Lençois Maranhenses, junto com o Glauco, um cara que não dispensa uma boa aventura. Nossa primeira parada foi em Atins, uma pequena vila de pescadores próximo à barra do Preguiças, onde havíamos tentado entrar. Uma embarcação à vela, tradicional do lugar, nos levou para o lado de fora daquela barra. Muitas ondas quebrando, perguntei ao timoneiro a profundidade, e se era possível a entrada de um barco como o Zimbros, com calado de 1,70 metros. "Tranquilo, aqui tem mais de três metros" disse-me, indicando o ponto mais raso do canal. "Vou conferir" disse ao incrédulo pescador, que mal conseguiu balbuciar algumas palavras. Tchbum! Fui para água. E não me supreendi com o que ví: eu estava com menos de dois metros d'água abaixo de mim, podia ficar de pé na areia e com as mão para fora. Não era para ter entrado alí mesmo. Retornei nadando ao barco, subi à bordo. "Moço se eu fosse o senhor, não mergulharia neste mar. Tem muito tubarão aqui" disse o pescador, montrando-me uma enorme cicatriz na sua perna, causada por um deles. Senti um frio na espinha, mas fiquei feliz por não ser saboroso o suficiente para servir de isca de tubarão.
Voltando à São Luis, através do Sérgio, amigo velejador, consegui um marinheiro para tomar conta do Zimbros nos próximos dois meses. Eu estava muito longe de casa e ansioso para voltar. Nas últimas duas semanas havia visto e vivido muitas emoções em mares muito diferentes daqueles a que estava habituado no sul. Ali o clima é previsível, estável e seguro. Tinha conseguido vencer mais uma vez os meus medos e ansiedades. O desconhecido é sempre um lugar que me desperta curiosidade e temor. O Rio Grande do Norte e o Ceará já eram coisas do passado. E o futuro? Para mim, do lugar onde está o Zimbros, é mais rápido chegar ao Caribe do que voltar à Salvador. Caribe eu falei? Pronto já fiquei ansioso com meu próximo passo.
(final da parte 19) |
||