Parte 18



André & Bob: grandes companheiros de aventuras

A nossa partida de Gostoso, no litoral do Rio Grande do Norte, foi muito tumultuada. O vento era forte e nos atrapalhou bastante. Para piorar as coisas, eu estava cansado de uma noite mal dormida, e com uma ressaquinha bem chata. Uma vez em mar aberto, tracei o rumo para a barra de Galinhos, localizada cerca de 50 milhas à oeste. A previsão de chegada era lá pelas duas da tarde. Era preciso estar muito atento, pois nestas águas existem muitos bancos de areia longe da costa, e a navegação deve ser feita próximo ao litoral. Como o Roberto já conhecia bem este trecho, pude dar uma relaxada e procurei dormir um pouco.

Navegávamos com pouca profundidade, cerca de quatro metros, e o vento soprava pela popa a vinte nós. Consequentemente o mar estava agitado, as ondas eram grandes mas favoráveis. Nossas velas estavam armadas em Asa de Pombo, ou seja, cada uma para um lado do barco, a Grande por bombordo e a Genoa, aberta com o Pau de Spi, por boreste. Uma navegada maravilhosa, exceto pela minha indisposição. Deitado no beliche da sala, ouvia Bob, André e Arnaldo lá fora nos seus intermináveis casos. O Roberto é um cara capaz de falar por dias de suas aventuras sem nunca ser repetitivo. Apesar de pedir segredo, ele é formado em Engenharia Elétrica e chegou a trabalhar um tempo na Eletrobrás, mas é um assunto que prefere esquecer. Numa determinada época da sua vida, deu um adeus para os confortos previsíveis do dia a dia e se mandou para o mundo. "Hoje, faço exatamente como o peixe, NADA!!!" costuma repetir quando quando lhe indagamos da antiga profissão.


Asa de Pombo: armação ideal para ventos de popa.

Lá dentro eu não conseguia dormir, apenas cochilava prestando atenção na conversa da tripulação. De repente ouço um barulho dos infernos e e um solavando assustador no barco. "Puta merda, encalhamos no meio do mar" foi a primeira coisa que pensei assustado. Corri para fora e, pela cara dos três, não era tão grave assim. Demos um jaibe, o vento entrou por trás da vela grande, e ela passou como um foguete para o lado contrário de onde estava. É distração que pode custar caro, afinal a velocidade e o peso da retranca são tão grandes, que pode arrancar a cabeça de um marinheiro distraído. Eu havia preparado lá em Vitória, um cabo com moitão e mordedor para prender a retranca e evitar este tipo de acidente. Mas minha engenhoca nunca funcionou direito e acabei deixando de lado meu invento. A solução mais prática foi improvisar um preventer, um cabo solteiro amarrando a retranca à borda do barco. Simples e barato, e como o próprio nome diz, uma solução preventiva. Mas meu remédio chegou um pouco tarde, o jaibe acabou danificando o moitão do carrinho.

As baterias arriadas, o piloto automático não queria trabalhar e agora isso! Detesto estar no mar e ver as coisas se quebrando com o uso, abala a moral da tripulação. Como eu estava meio combalido, voltei para o meu abrigo, resmungando calado. Faltavam poucas milhas para o nosso destino e eu precisava chegar lá um pouco mais inteiro, pois uma barra nunca é fácil. Levantei-me logo depois, com o alarme do chart-plotter avisando que estávamos próximos da entrada de Galinhos. Mas cadê a bóia de sinalização, e onde estavam os rebocadores que atendem à Petrobrás? Nada! Apenas mar, céu e muito vento. A profundidade diminuindo e as ondas aumentando - o meu pesadelo estava alí na frente. Abaixamos as velas, ligamos o motor e pelo rádio, consegui contato com as plataformas da Petrobrás, localizadas um pouco mais para fora da nossa posição. O operador nos atendeu muito bem e fez uma ponte entre nós e os rebocadores de terra. Soubemos que não haveria nenhum barco naquela hora para nos guiar barra adentro, mas apressou-se em nos passar as posições das bóias de acesso ao porto. Consegui anotar a primeira, mas não pude suportar o mal estar causados pelo calor e pelo balanço da cabine. Rapidametne fui para fora devolver o café da manhã aos peixes. Bob assumiu meu lugar e obteve as posições necessárias. Mas valeria a pena arriscar? Sem um prático que conhecesse a entrada seria muita perigoso entrar apenas com os way points das bóias. Fazer o que? Bob resolveu na hora o impasse: "Oxvaldo, exte lugar é uma merda" fulminou com seu sotaque zona sul carioca. Era o que eu precisava para decidir. "Marujos vamos direto para Fortaleza" disse num esforço derradeiro.


Bob: o cara conhece todo o litoral norte do Brasil.

Subimos as velas, traçamos um novo rumo e aproamos o Zimbros para o litoral do Ceará. Todos ficamos aliviados com a decisão, mas eu piorara muito da minha náusea. Normalmente melhoro depois de vomitar, mas não naquela hora. Mal tive forças para verificar se nossa direção estava livre de obstáculos no chart-plotter e voltei a me deitar. Mal conseguia trocar algumas palavras com os três e, deitado, passava algumas ordens que imaginava essenciais para nossa segurança. Mas era apena um ridículo cacoete de comando, pois naquele momento eu não passava de um pobre arremedo de capitão. Felizmente a tripulação sabia muito bem o que fazer, e pudemos prosseguir enquanto a noite nos alcançava pelo leste.

Com dificuldade, consegui organizar o nosso turno para a noite, de três horas para cada dupla. Ao chegar a minha vez, junto com o André, juntei o resto de força que me restava e mal consegui cumprir minha parte. A noite estava quente e o vento soprava com força, íamos na vela e no motor, para ajudar a carregar as baterias. O maior esforço era mesmo ter que ficar no leme tentando manter o rumo apenas com a bússola, um sacrifício. A cada meia hora, trocávamos de posição, para cansar menos. André estava no leme, e eu deitado no banco olhando para a proa do barco. Já estávamos em águas cearenses, quando de repente, vi passar bem do nosso lado uma bandeirola, dessas de marcação de rede pesca. "Porra, pegamos uma rede" disse desligando o motor, para evitar que a linha enrolasse no hélice. Mas foi inútil, pois a bóia prendeu-e no barco e passou a nos seguir pela popa. André sugeriu que cortássemos a linha, mas seria muito perigoso tentar qualquer ação, debruçado na popa com um mar daqueles naquela hora. "Ao amanhecer fazemos isso" disse. Naquele momento o negócio era administrar o problema. "Não faça hoje aquilo que você pode deixar para o dia seguinte. Amahã pode ser que não precise mais" é uma das máximas do Bob, que resolvi seguir à risca.

Ao terminar meu turno, voltei para minha cabine e dormi imediatamente. Acordei pouco depois com um barulho inexplicável vindo do casco. Era como se alguém estivesse batendo forte com os pés sobre a fibra. Era estranho, pois todos estavam quietos lá em cima. Em pouco descobri o segredo: eram as bóias do espinhel que, presos à quilha, batiam na parte inferior do casco. Pus na cabeça que não era nada de grave, afinal essas bóias normalmente são de isopor, e tentei dormir. Mas foi impossível com uma batucada daquelas no ouvido. "Espero que não danifique o leme" rezei baixinho. Ao amanhecer, logo com os primeiros raios do dia, fomos ver o estrago. "Arnaldo pra água" era a senha para ele mergulhar e ver o quanto de linha estava ainda presa no barco. Foi uma operação complicada, pois tivemos que abaixar as velas e aproar o barco no vento. Havia o perigo de cabos e linhas submersas que poderiam prender Arnaldo no mergulho, Deus me livre! Mas ele é um atleta e um grande nadador e em minutos estava de volta com uma boa notícia: não havia nem sinal da rede debaixo do casco, até mesmo o hélice estava livre. "Um problema a menos" respiramos aliviados.

Já que tudo estava bem, subimos os panos, refizemos o rumo e seguimos adiante. Havíamos perdido muito tempo parados alí no meio do nada. Todos estavam dispostos, exceto eu. Não melhorara do meu enjôo, estava feio na foto mesmo. Voltei para cama, mas só fazia piorar. Há mais de vinte e quatro horas que eu não parava de vomitar e para poder aguentar sem desidratar, deixava por perto uma garrafa de água mineral, que ia tomando aos poucos. Eu vivia aquele momento, sem dúvida o pior de toda minha viagem, com aquela velha questão: "O que é que eu estou fazendo aqui?" Duvido que haja um velejador que nunca tenha se feito esta famosa pergunta pelo menos uma vez na vida. Tenho a impressão que num momentos desses não há nada a ser feito, a não ser esperar passar. Haja paciência! Pobres daqueles que imaginam uma viagem de veleiro com aquelas imagens idílicas de garotas ao sol saboreando os mais saborosos drinques. Mas não é nada disto. São muitos os amigos que se candidatam a viajar no Zimbros. Contudo seria um pesadelo para a maioria enfrentar as durezas que às vezes somos obrigados a encarar. Vale a pena? Claro! Faria tudo de novo. Quando estou sofrendo a bordo não vejo a hora de chegar. Uma vez em terra, fico impaciente desejando voltar a bordo o mais rápido possível. Coisa de maluco mesmo.

Foi somente no meio da tarde que comecei a melhorar. Senti fome e pedi ao Arnaldo que me preparesse algo para comer. "Tudo bem se não precisar usar o fogão. Não fui com a cara dele, parece um dragão que quer me queimar!" fulminou. Eu já tinha ouvido de tudo à bordo do Zimbros, mas essa foi a mais inacreditável de todas as diferenças surgidas entre a tripulação e o equipamento. É certo, algumas coisas precisam de uma ergonomia mais ajustada, mas até então ninguém ainda tinha brigado com o fogão. Não discuti, afinal de contas a origem de certas diferenças são bastante passionais. "Pode ser banana com aveia" suspirei. A fome é o primeiro indício de melhora quando se está enjoado. Comi minha papa, e aos poucos fui me recuperando até finalmente ter forças para dividir as conversas no cockpit. Fui recebido com festa pela tripulação, eles estavam preocupados comigo e ficaram felizes ao verem minha recuperação. Em poucos minutos, Arnaldo esquentou o que restou das lagostas que trouxemos de Gostoso e fez um tira-gosto a altura daquele momento.


Arnaldo: mergulhador e cozinheiro.

Nos aproximamos de terra para apreciarmos melhor aquelas costas. Morro Branco, Iguape, Aquiraz, quantas dunas, quantas praias? Muito sol e cachaça já tomei naquelas areias. Era sábado, aliás à bordo todo dia é sábado, então melhor dizendo: em terra era sábado. Cruzamos algumas jangadas que mudavam seu rumo para conferirem que diabo aquele barco estranho estava fazendo em suas águas. Nos acenavam amigavelmente, lindo demais! Quase todos os pequenos povoados da costa nordestina devem sua existência ao seu principal equipamento de trabalho: a jangada. Sua origem é tão antiga que perde-se no tempo. Gregos, romanos e germanos a empregavam. Nosso primeiro cronista Pero Vaz de Caminha confundiu-a com a almadia dos mouros. Ulisses fugiu da ilha Ogídia numa jangada, registrou na Odisséia este meu ancestral colega. Ela é tão identificada com o Ceará que assim escreveu José de Alencar: "Onde vai a afoita jangada, que deixa rápida a costa cearense, aberta ao fresco terral a grande vela?". Fantástico, estávamos em boa companhia.


Jangada: esta frágil embarcação é um símbolo do litoral nordestino

Fortaleza nos surgiu ao longe, em poucas horas estaríamos em casa. Vagarosamente chegávamos: a Praia do Futuro com suas areias longilíneas ofuscadas pelo sol da tarde que se punha por trás; a Ponta do Mucuripe, seu farol e os enormes geradores de energia eólica girando melancolicamente a nos acenar; a música de Manassés, o genial guitarrista cearense, nossa trilha sonora naquele reencontro maravilhoso. Estávamos todos emocionados, eu especialmente, afinal não é sempre que se pode chegar em Fortaleza navegando. Fiquei orgulhoso do bravo Zimbros, que me trouxe até aqui em segurança e sem o qual não poderia nem pensar numa sequência de aventuras como as que vivi nos últimos oito meses. Ao dobrarmos a Ponta do Mucuripe, surgiu nos à frente toda a praia de Iracema e os edifícios da sua orla que começavam a iluminar-se. Gosto muito da arquitetura de Fortaleza, muito melhor que a do Paraná. Projetos arrojados, belas sacadas, cores, jardins e janelas abertas ao clima. Em Curitiba, o cinza predomina, e basta um apartamento ter sacada para que fechem tudo com vidro e grades. Detesto o mal gosto de quem, em nome de um conforto ridículo, altera todo um conceito de beleza. Pobre cidade a minha, onde os prédios mais parecem caixotes baratos de alvenaria.


Conferindo na carta a entrada de Fortaleza.

Mas voltemos à beleza da chegada. O por do sol estava sublime e a luzes da cidade aos poucos foram aproximando-se. Nosso destino era o Baia Marina Hotel, que mal distinguíamos no lusco-fusco do entardecer. Safamos o enorme esqueleto abandonado de um antigo cargueiro e aproamos para as bóias verde e vermelho que determinavam a entrada da marina. Ao cruzarmos as pedras do molhe, já totalmente escuro, vislumbramos ao longe o perfil de algumas pessoas sobre o muro do hotel. "Papai, papai" gritou uma criança. Era o Tomaz, o filho mais novo do André, nos aguardando cheio de ansiedade. Aqueles som nos parecia música. Depois de alguns contratempos na atracação quando ninguém se entendeu à bordo, finalmente descemos em terra e tivemos uma recepção de aquecer o coração. Minha querida Marrom, a Márcia, mulher do André e seus filhos Tomaz e Caio nos aquardavam com uma calorosa boas-vindas. Nada como chegar e ter uma recepção familiar no porto. Estávamos finalmente em casa.

(final da parte 18)