Parte 17


Visto do mar, o relevo em terra era baixo, deixando aparecer apenas uma rala vegetação sobre as dunas. A profundidade diminuia rapidamente e as ondas altas batiam de lado no costado do Zimbros. Faltava pouco para a entrada da barra de um rio cujo nome eu nem sabia direito. De repente um baque seco! A quilha tocou o fundo e o barco parou seu curso. O leme não obedecia mais e perdi o controle sobre o rumo. A medida que as vagas nos açoitavam lateralmente, o barco ia, aos solavancos, cada vez mais para o raso, ficando cada vez mais preso no banco de areia. Ninguém à vista para pedir socorro, e se não pudesse desencalhar em poucos minutos, o veleiro estaria condenado para sempre. Eu gritava como um louco para o vazio, não havia quem ouvisse meus lamentos...

Pulei na cama sobressaltado. Acabara de ter um pesadelo que acompanhava meu sono nos últimos dias: o Zimbros encalhado e perdido numa praia distante do nordeste brasileiro. Eu andava inseguro com relação à próxima etapa da minha viagem, ir de Natal à São Luis do Maranhão, tentando entrar em algumas barras do litoral que separa as duas capitais. Eu nunca havia navegado naqueles mares, apenas sabia que a costa brasileira, depois do Cabo do Calcanhar no Rio Grande do Norte, era cheio de bancos e lajes traiçoeiras. Nas cartas náuticas e nos livros via nomes como Touros, Galinhos, Jeriquaquara, Tutóia, Preguiças e imaginava, cheio de expectativa e medo, se seria seguro parar em tantos portos exóticos e distantes.

Poucos dias depois, no início de dezembro de 2003, cheguei à Natal. Fazia dois meses que estivera lá vindo de Fernando de Noronha e mal podia esperar para rever o Zimbros, torcendo para que tudo estivesse em ordem à bordo. Um barco parado por tanto tempo é uma fonte segura de problemas. Eu havia deixado um responsável para cuidar da sua manutenção básica e da sua segurança, mas não estava muito convicto da competência do cara. Em breve estas minhas desconfianças, infelizmente, viriam a se confirmar.

A equipe convocada para essa etapa foi aparecendo aos poucos. Roberto, um carioca que mora em Natal há anos, foi o primeiro. Depois Arnaldo, vindo de Curitiba e finalmente André, de Fortaleza. Nenhum deles se conhecia entre si e, em comum, tinham apenas o gosto pela aventura. Roberto é pai de um amigo meu e tínhamos nos falado apenas por telefone. Navegador e mergulhador experiente, já teve seu próprio veleiro e conhece bem o litoral por onde haveríamos de passar. Era o tipo do companheiro que eu precisava para me deixar menos inseguro. André já tinha me acompanhado no trecho entre entre Vitória e Salvador. Um cara safo e que sabe resolver problemas, largou seus projetos para ousar-se em mais uma etapa dessa minha viagem. Finalmente, Arnaldo, um grande amigo de décadas, colega de colégio, amante do mar, que jamais havia navegado num veleiro oceânico, mas que tinha alguma experiência em navegação de monotipos.


A intrépida tripulação do Zimbros: Arnaldo, André e Roberto

Abastecidos e apresentados, nos fizemos ao mar numa quinta-feira, sob um brilhante sol típico das manhãs potiguares. Um dia perfeito, com vento sudeste soprando de fraco a moderado, mas suficiente para inflar nossas velas no rumo certo. Ainda dentro das águas abrigadas do Rio Potengi, os primeiros problemas: o piloto automático não quis funcionar e as baterias não estavam segurando a carga. Será que um era consequência do outro? A resposta só poderia ser confirmada em Fortaleza. Parece que é eternamente assim, sempre alguma coisa não funciona à bordo, por mais que me esforce para que tudo esteja em ordem. Descobri cedo que meu encarregado não andou cumprindo suas obrigações de manutenção conforme o combinado. Suponho que ele tenha usado o guincho da âncora com o motor desligado e isso arriou minhas baterias e minha paciência. Mas naquele momento nada havia a fazer, exceto traçar o rumo e prosseguir.

Ao vencermos a barra, o movimento das ondas agitou o conforto de bordo, mas a medida que nos afastamos da terra, direcionamos nossa proa mais para o norte, e ficamos melhores posicionados com as vagas vindo pela popa. Iríamos passar próximo ao Cabo de São Roque, o ponto da costa brasileira geograficamente mais próximo da África. Localizado 20 milhas acima de Natal, o cabo determina o começo do Canal de São Roque, uma estreita passagem por entre os baixios que se prolongam por milhas e a terra. Uma navegação feita com muito cuidado, mas com segurança, já que Roberto conhecia bem aquelas águas. A costa nesse trecho do litoral é plana com muitas dunas, e a orientação pelo relevo é dificil, pois não se distinguem pontos marcantes na praia, exceto pequenas vilas. Mas Bob, conhecedor de cada palmo daquele litoral, sabia de cor o nome de todas as praias. O balanço do mar me deixou um pouco enjoado, e o melhor que pude fazer foi deitar-me e ficar quieto por uns instantes.

Deixamos o Canal de São Roque para trás e, às quatro da tarde, vencemos finalmente o mítico Cabo do Calcanhar, o lugar onde o Brasil faz a curva. A partir desse ponto, o nosso litoral se estende no sentido sudeste-noroeste e os ventos alísios sopram constantemente do quadrante leste. A força das correntes marinhas é muito forte e ajuda aos navegadores que seguem para cima, rumo à Região Norte. Mas é um caminho sem volta, para cada dia subindo a costa pelo mar, são pelo menos três para retornar. Estas dificuldades, somadas aos traiçoeiros baixios que se prolongam até o Maranhão, foram uma das causas do atraso na colonização desses ermos pelos portugueses. Foi somente no século 17 que os primeiros colonizadores se fixaram por aqui.


Farol do Calcanhar: um dos mais altos do mundo com 62 metros.

O rumo passou a ser 330º na bússola. Tínhamos previsto parar em uma praia já conhecida do Bob, São Miguel do Gostoso, um local protegido pela Ponta de Santo Cristo. É a única saliência no litoral do Rio Grande do Norte, formando uma estreita angra onde se localiza a pequena cidade. Escurecia rapidamente, e eu não queria entrar na enseada à noite. Liguei o motor para ganharmos um pouco de velocidade e torcemos para que a noite demorasse a chegar. Com os últimos raios do dia, vencemos as pedras do cabo e nos dirigimos para dentro do porto, muito vagarosamente. A profundidade baixa, e pedras próximas à praia, nos diziam que aquele não era um lugar seguro para se chegar à noite. Jogamos âncora com maré baixa a dois metros de profundidade, longe das luzes da vila. O vento era forte e as ondas, desviadas pela ponta, entravam de lado no nosso abrigo, fazendo o barco balançar muito desconfortavelmente. Mas estávamos felizes, tínhamos chegado em segurança.

Depois de uma noite muito mal dormida com o Zimbros dançando de uma lado para outro, resolvemos, logo ao amanhecer, nos dirigir para a vila, que ficara a umas duas milhas à oeste da nossa posição. Jogamos ferro ao lado de alguns barcos de pesca, ancorados em frente à praia. O vento acalmara, tudo parecia seguro, fomos pois fazer o reconhecimento do local. O nome não podia ser mais convidativo: Gostoso! Bob já era freguês daquele paraíso há muito tempo, mas nós, turistas de primeira viagem, estávamos excitados. Trata-se de uma cidadezinha de uns oito mil habitantes onde só recentemente chegaram o asfalto e a luz elétrica. Um cartão postal: dunas, pouca vegetação e uma paisagem quase desértica e assolada por um vento eterno, suas águas são muito procuradas pelos praticantes do windsulf.

Fomos para terra. Mais problemas: o motor de popa do nosso botinho não funcionava. Pensei nos cem pilas que dei ao rapaz que cuidou do barco em Natal, para que o levasse ao mecânico. Mas o mar não é um bom lugar para remorsos. Fomos à remo mesmo. Arnaldo nadou até a praia. Em terra firme, a primeira parada, naturalmente, foi num boteco de um amigo do Bob, chamado Leonardo. Mas eram só dez da manhã, muito cedo ainda para o primeiro trago. Resolvemos tomar café, ora pois. O sol já estava forte e o dia ia ser longo. Procuramos saber de alguém que pudesse fazer uma revisão no nosso motorzinho. Em poucos minutos chegava a nós o Pedrinho e seu auxiliar Pedro, ambos mecânicos de moto. Com a mesma rapidez que apareceram, retornaram com o Evinrude funcionando direitinho. Dei vintão para os dois e ainda achei caro. Mal poderia imaginar que a agilidade deles iria me tirar de uma grande enrascada em poucas horas.


Pedrinho e Pedro: a rapidez dos mecânicos me salvou o barco.

Gostoso é um lugar de pescadores, convertido em município há pouco tempo. A estrutura urbana é muito precária ainda, e só os viajantes muito descolados sabem chegar lá. Pela manhã os homens do mar vão retornando com o resultado do seu trabalho. Não pudemos resistir, compramos peixes e lagostas, quase vivos ainda, sem nunca terem tocado qualquer tipo de gelo. A esposa de Leonardo encarregou-se do seu preparo. Como ainda era cedo, resolvemos ir até a Ponta de Santo Cristo, a umas boas duas horas de caminhada, ida e volta. O lugar, lindo e deserto, era meio assustador. O vento aumentou muito e batia com força, era quase impossível caminhar contra ele. Estava meio angustiado, preocupado com o barco, e resolvi voltar logo.


Sem comentários

Supõe-se ter sido nessas areias que em agosto de 1501 aportou a primeira frota de exploração do nosso território. Comandada pelo legendário navegador português Gonçalo Coelho, as três caravelas traziam à bordo o florentino Américo Vespúcio. Aqui os tripulantes assistiram horrorizados ao primeiro banquete antropofágico que se tem notícias no Novo Mundo. Segundo escreveu Vespúcio em sua famosa Lettera, uma carta escrita em 1504 a um amigo seu de Florença e que se tornaria famosa, alguns grumetes vieram à praia para negociar com os indíos Potiguar, cujos territórios estediam-se desde o atual Ceará até João Pessoa. Um deles foi cercado por várias mulheres que o apalpava e examinava com grande curiosidade. De repente uma índia apareceu por trás e desferiu-lhe um potente golpe de tacape na cabeça, matando-o na hora. Imediatamente as outras arrastaram-no pelos pés enquanto os homens, que estavam escondidos, lançaram um feroz ataque contra os demais marinheiros, que fugiram apavorados. A seguir os indígenas esquartejaram, assaram e comeram a pobre vítima alí mesmo na praia, sob a assistência de seus colegas imobilizados nos navios. Este foi o primeiro europeu, ao que parece, a perder a cabeça por uma das nossas nativas.


Ritual antrofágico: o primeiro com um europeu foi em Gostoso.

Voltando ao boteco cansados, nos esperavam as iguarias preparadas pela cozinheira. Impagável aquela fritada de lagosta com postas de peixe frescos acompanhados de cerveja gelada! Vendo o barco em segurança, naquele momento relaxei de verdade. De repente André disse "Acho que o barco está andando". Mas nada parecia anormal. "Deixa pra lá André, você está vendo coisas" falamos, voltando nossa atenção para outro punhado de lagostas que o Leonardo nos servia. "O Zimbros está indo embora, pôrra!" gritou o André, dessa vez pulando da mesa e correndo em direção a praia. Era verdade, fui atrás, seguido do Arnaldo. Rapidamente colocamos nosso botinho n'água, com o motor funcionando graças aos Pedrinhos, e fomos em busca da nossa casa que se afastava rapidamente em direção ao mar aberto. Mas o bote era pequeno demais para três, e o Zimbros continuava a se distanciar a despeito de estarmos com toda potência no pequeno motor. "Arnaldo, você vai ter que pular n'água" disse. Aliviados do peso, fomos nos aproximando muito lentamente do barco que parecia pilotado por marinheiros fantasmas. Depois de um tempo que pareceu a eternidade, finalmente conseguimaos subir à bordo e tomar controle sobre nossa embarcação. Imediatamente fui para proa saber o que tinha acontecido com a âncora. Não havia nada lá, ferro, corrente e parte do cabo tinham desaparecido. Liguei o motor, assumi o leme e voltamos para a praia.

O vento aumentou, e eu estava arriscado a perder mais uma âncora se parasse no mesmo local de antes. Avisamos Arnaldo e Bob o que ocorrera e fomos nos abrigar onde havíamos passamos a noite anterior. Apesar do balanço, parecia um abrigo mais confiável. Jogamos minha segunda âncora reserva, uma Bruce de 15 Kg, que nada adiantou, pois soltou-se e o barco começou a correr para terra. Cara, o vento estava muito forte mesmo. Joguei uma terceira âncora reserva, uma Danfort de alumínio, e começamos a rezar para dar certo. Mergulhei para verificar se não havia nenhum cabo enrolado na quilha. Como a água estava turva, fui tocando o casco com as mãos. No mesmo instante senti como se estivesse sendo cortado por mil navalhas. A parte submersa do barco estava cheia de cracas e, a medida que eu ia passando a mão por ele, minha carne ia sendo rasgada por infinitas pontas cortantes. Mal deu tempo de sentir dor, frente à minha preocupação com a eventualidade de ter alguma amarra presa no fundo. Não havia nada! Subi a bordo e pude ver ao vivo o estrago nas minha duas mãos e no meu pulso. Dezenas de cortes, alguns bem profundos! O sangue misturado à água salgada corria pelos braços, num espetáculo comovente. Mas o momento não era para dores. O barco agora estava seguro, bem preso ao fundo. Permanecemos à bordo por mais de uma hora para nos certificarmos de que estávamos parados. Foi com alívio e cansados que pudemos relaxar um pouco daquele estressante exercício. "André, vou a qualquer lugar contigo, cara" desabafei agradecido, enquanto ele nos servia um boa dose de conhaque.

O que teria acontecido com minha âncora? Como ela pôde soltar-se se estava presa pela corrente a um gancho amarrado no cunho da proa? Porque o guincho não predeu o cabo? Perguntas que estão sem resposta até hoje. Na hora, o que me interessava era que havia perdido minha Bruce com corrente e tudo, e que aquilo iria me fazer muita falta no futuro. Quanto à sujeira no casco, era de responsabilidade do meu auxiliar lá de Natal, a limpeza do fundo, já que a poluição no Rio Potengi, onde fiquei ancorado por dois meses, facilitava a formação deste tipo de molusco. Mais uma que ele ficou me devendo.

Enquanto isso, em terra, Bob já havia convocado seus amigos para tentarem recuperar nosso prejuízo submerso. Escurecia e ficou difícil o mergulho. Combinaram que, aos primeiros raios do dia seguinte, com auxílio de um compressor, eles mergulhariam em busca do meu naufrágio. Roberto dormiria em terra, e pela manhã, nós o resgataríamos com ou sem ferro, e partiríamos adiante.

Ao amanhecer, eu já estava de pé, preocupado com nossa saída. Na véspera, à noite tomamos uns drinques a mais e minha cabeça estava pesando o dobro. Para retirar as duas âncoras que estavam n'água, foi uma mão de obra à parte. Mal o Arnaldo acordou, teve que mergulhar para verificar se não estavam enroscadas uma na outra. A grande surpresa foi que o Bruce estava completamente solta, enquanto toda nossa segurança ficou por conta da Danfort, na qual eu confiava pouco, por parecer frágil. Voltamos ao porto dos pescadores para resgatar Bob e se possível meu precioso objeto perdido.

O que parecia um simples embarque, virou um samba do crioulo doido. Bob nos aguardava no mar, sobre o casco de uma frágil jangada, acompanhado de um pescador. Ao seus pés, nossa âncora e a corrente. A maré estava baixa, e quando quis me aproximar deles, o Zimbros subiu em cima de uma laje e encalhou com um barulho enorme, o eco da batida do aço contra a pedra. Nada muito grave, mas assustador ficar imobilizado a dezenas de metros da praia com um vento forte batendo no costado. "Arnaldo, vá buscá-lo com o botinho, aqui tem pedras, e não posso me aproximar mais" disse. No meio do caminho, o motorzinho parou de novo, deixando o Arnaldo à deriva, afastando-se rapidamente de nós com o vento forte. Eu não podia acreditar que aquilo acontecia comigo naquela hora da manhã. Bob gritava de lá, eu gritava de cá, ninguém se entendia. Finalmente depois de muitas peripécias que pareceram intermináveis, pudemos resgatar nossos valorosos marinheiros e nossos pertences perdidos ao mar. Era hora de partir, já estávamos atrasados.

Mas ainda nos restavam alguns contratempos. Subir o botinho e o seu motor, prendê-los em segurança, levantar as velas, traçar o rumo, desviar das pedras da entrada da enseada, e tudo com muito vento. Foi uma função tão cansativa, que quando finalmente chegamos em águas profundas e ajustamos o rumo, eu estava esgotado, parecia que não me recuperaria nunca mais. Nosso destino estava há 50 milhas à noroeste, num pequeno porto denominado Galinhos, no qual eu queria entrar por ser fácil e sinalizado seu acesso. Retirei-me para meu beliche para tentar recuperar um pouco meu ânimo, estava exausto e com ressaca.