Parte 16


Como a Flavia, minha filha de dez anos, me vê.

Acordamos mais cedo que de costume naquele nosso último sábado nas ensolaradas enseadas de Fernando de Noronha. Eram quase seis e já estávamos atrasados para a largada da regata que sairia às nove em ponto com destino à Natal no Rio Grande do Norte. Ainda haviam algums detalhes técnicos que faltavam serem vistos, além de uma última ida à terra para abastecermos o barco de água e gelo. O trecho que nos esperava nada tinha de complicado, seriam apenas 200 milhas com vento favorável e mar relativamente calmo. "Dá para almoçarmos lá amanhã" previmos otimistas.

Cerca de trinta barcos estavam na raia e, infelizmente, chegamos atrasados ao tiro de largada. Quando chegamos, a maioria já ia longe na nossa frente, e eu tive que usar um artifício completamente ilegal para descontar o prejuízo: acelerei o motor até quase cruzar linha. A regra diz que os motores devem ser desligados cinco minutos antes da saída, sob pena de desclassificação. Mas eu não estava levando muito a sério a competição e passei por cima das leis. Ainda bem que ninguém viu.

Bochecha, Luiz e eu éramos os tripulantes nessa perna da viagem. Ambos são bons velejadores e experientes regateiros o que nos ajudou a ganhar terreno no início da peleja. É sempre uma emoção a largada de uma regata, quando os barcos ainda estão bem próximos uns dos outros e é preciso usar muita técnica para ultrapassá-los. Aos poucos fomos deixando os mais lentos para trás e nos distanciando do restante da flotilha. João Norberto do Drakon largou muito bem, e estava a uma boa distância na nossa frente. Fomos ao seu encalço.

Nosso rumo era oeste e o vento soprava de sudeste, perfeito! Em alguns minutos saímos da proteção da ilha, uma lufada quente e generosa encheu as velas e a velocidade aumentou. O relevo do arquipélago foi aos poucos ficando para trás e, com alguma tristeza, acenamos para Fernando de Noronha pela última vez. "Até ano que vem" pensei. Acertamos o rumo para ficarmos um pouco a barlavento do nosso destino, regulamos os panos, aumentamos o volume da música e nos preparamos para uma excelente navegada. A segunda melhor coisa que existe na vida é uma velejada. A primeira é uma grande velejada!

O Drakon na nossa proa era uma grande razão para levarmos o Zimbros na ponta dos dedos. Vagarosamente fomos nos aproximando até que finalmente pudemos passá-lo, não sem as costumeiras gozações marinheiras. No cockpit apenas o Joaquim a testemunhar nossa perfomance. Acho que o João e o Iens se meteram pra dentro da cabine para se pouparem do constrangimento de se verem deixados para trás.


O Drakon na luta: nosso adversário não entregou os pontos.

À vista, na frente, nos restava o Gaivota Sete, um 34 pés bem marinheiro, equipado com velas exóticas, um tecido especial que aumenta seu desempenho. Fomos à sua caça, e não demorou para nossa distância diminuir visivelmente. Os caras ficaram inseguros, resolveram trocar de vela, e subiram o Genaker. Para isso mudaram de bordo e seguiram mais para o nosso boreste, indo em um rumo completamente fora de Natal. Foi um erro imperdoável e, para desespero deles, fizemos uma ultrapassagem à altura de um gol de Ronaldinho. Mas eles não estavam a fim de entregar os pontos sem luta. Recolocaram a Genoa, vieram para cima da gente e nos alcançaram. A briga ficou pessoal. Em certo momento ao cambar novamente, eles se puseram em rota de colisão com o Zimbros, mas nós tínhamos a preferência pelas regras. "Água, água" gritamos na linguagem náutica de quem tem a vez. Contrariando a mais básica das leis físicas, dois veleiros no meio do vasto oceano brigavam para estar no mesmo lugar ao mesmo tempo. Era inacreditável, mas verdade. Infelizmente, a outra equipe acordou, conseguiu reparar seus erros, e nos superou seguindo na frente.

Anoiteceu cedo, lá pelas cinco e meia. Recolhi o toldo protetor para ver os astros. Marte foi o primeiro brilho a aparecer no céu. No escuro, um bom jeito de se navegar é através das estrelas. Marca-se o rumo na bússola e a seguir procura-se no horizonte uma estrela mais visível para ir atrás. A nossa era Antares. Estima-se que na Via Láctea existam cerca de 200 bilhões de estrelas. Próximo ao zênite, a oeste, está Escorpião, a constelação que representa bem o animal que lhe deu o nome. Podemos facilmente identificar todas as estrelas que compõem seu corpo, em especial a vermelha Antares, localizada bem no coração do bicho e cujo nome signigica "rival de Marte" devido à cor. "Siga Antares" disse o Luiz querendo facilitar a vida do timoneiro de plantão. Gostei, achei bonito o "siga Antares" dele, tinha tudo a ver conosco naquela hora.

Luiz Schaefer é de Florianópolis e eu o conheço há mais de vinte anos. Meu irmão Guto foi casado com a irmã dele. "Você pode ter uma ex-mulher, mas um ex-cunhado nunca" diz querendo mostrar que, muitas vezes, o afeto entre amigos está acima das encrencas entre marido e mulher, estas sim bastante comuns. Quando o ví a primeira vez, ainda jovens, tenho a impressão de ter sido dentro de um barco a vela. Ele é tão fanático que possui dois veleiros, um Microtoner de 17 pés na Lagoa da Conceição e outro, oceânico de 31 pés, o Bruxo, uma máquina de ganhar regatas. Luiz e eu voltamos a navegar juntos aqui na Refeno, mas parece que, para quem veleja, o mundo é muito pequeno e sempre estamos nos cruzando nos mares por aí.


Luiz no timão: no encalço dos barcos a nossa frente

Milhares de anos atrás pensava-se que a Terra era um disco achatado com o oceâno à volta, tendo por cima a abóbada celeste. Gerações, sobretudo de egípcios e babilônios, observavam as estrelas em busca de presságios. Embora seu conhecimento astronômico fosse mais ou menos exato, nunca se duvidou que a Terra fosse plana e o céu uma abóbada. Foi então no século VI a.C. que o grego Pitágoras, observando a sombra arrendodada da Terra sobre a Lua durante uma eclipse, afirmou que nosso planeta era esférico, embora julgasse ser ele o centro do Universo. No começo a idéia foi ridicularizada, mas posteriormente passou a ser aceita. Dois séculos mais tarde Aristaco de Samos expôs uma estranha teoria que ficou quase mil anos esquecida. Afirmava que era em volta do Sol que todos os outros planetas giravam. O mundo haveria que passar ainda por muitas trevas e foqueiras para que pudéssemos iluminar nosso conhecimento e descobrirmos que, muitas vezes parecemos mesmo um planeta achatado guiado por maus presságios.

Ao brilho de uma estrela cadente, fiz um pedido secreto, e fui dormir. Acordei de manhã, pois nem o Luiz, nem o Bochecha quiseram abrir mão de ficarem no convés durante o resto da noite. A luz do sol nestas latitudes é muito forte, chega a ferir os olhos. Estava quente apesar do vento, e logo descobrimos que tínhamos que reerguer nossa capota protetora. Tínhamos andado muito bem e nossa previsão era de chegarmos no começo da tarde. Lá pelas nove , o Luiz decretou que haveria de ser dezoito horas em algum lugar do mundo e serviu-se de um scotch on the rocks duplo. Como não sei ver defunto sem chorar, acompanhei meu timoneiro na sua lida etílica, afinal nossa viagem estava quase no fim.

A clara e plana costa potiguar nos surgiu no horizonte aos poucos. Neste trecho do litoral brasileiro, o agreste sertão aproxima-se do mar e as dunas bracas prevalecem na geografia, num contraste único com o verde azulado das águas. Ao longe uma pequena jangada com suas velas maltrapilhas nos mostravam como são bons os marinheiros destes mares, na verdade heróis. Em Canoa Quebrada no começo dos anos 80, tive a oportunidade, de navegar em mar aberto à bordo de uma dessas embarcações. Foi uma das piores experiências da minha vida. Passei muito mal, enjoei à beça, parecia que ia morrer. Coloquei os bofes para fora da saída à chegada e mal tive forças para ajudar o pescador a retirar sua jangada d'água. À sombra de um pequeno abrigo deitei e dormi por horas até melhorar. Jurei que nunca mais embarcaria numa fria daquelas. Naturalmente anos depois acabei esquecendo esta promessa.

Ao contrário desses destemidos marinheiros que navegavam quase por intuição, o chart-plotter, as cartas náuticas e as bóias de sinalização nos guiaram em segurança para dentro do Rio Potengi, dentro do qual situa-se o Porto e o Iate Clube. Ao passarmos pelos molhes artificiais que protegem a barra, ao lado da belíssima Fortaleza dos Reis Magos, a ondulação do mar cessou por completo e tudo mudou à bordo. "Do alto daquelas muralhas, quatro séculos vos contemplam tripulação" disse eu, querendo imitar Napoleão. Mas sou só um pouco louco, me sentia realizado em poder cumprir em segurança mais uma etapa da minha história. O vento, protegido pelo continente acalmou e, vagarosamente, cruzamos a linha, recebendo o tiro de chegada com alegria e alívio. Ajudados pelos funcionários do clube, jogamos âncora um pouco abaixo da sede do Iate Clube de Natal. O lugar era um pouco esquisito, com uma correnteza forte e, pior, longe dos olhos dos seguranças do iate. Mas o momento não era de preocupações, queríamos apenas ir para terra aproveitar o melhor da culinária do Rio Grande do Norte: agulha frita, carangueijo, queijo coalho, carne de sol, tapioca.... e cerveja gelada!

Quanto ao resultado da regata nem me dei ao trabalho de conferir minha classificação para evitar a contrariedade que senti quando cheguei em Fernando de Noronha. "Venci essa" concluí satisfeito. Naquele momento meu objetivo maior era voltar para casa, mas já pensando qual seria meu próximo destino com o Zimbros: para o norte ou para o sul? Era a questão.


O Forte dos Reis Magos constuído pelos holandeses há quatro séculos.