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Foi com alívio e alegria que cruzamos a linha de chegada da XV Refeno, a maior competição náutica de percursso do país. Eram quase seis da manhã e o sol já batia forte nas íngremes montanhas do arquipélago. As sombras davam um belo destaque ao relevo acidentado das suas encostas. Recolhemos as velas, abrimos o bimini, o toldo que proteje do calor do dia, e nos dirigimos à enseada próxima ao pequeno porto da ilha principal. Já haviam alguns barcos ancorados e não foi difícil encontrar um lugar para jogarmos nossa âncora. Com cinco metros de profundidade era possível enxergar toda a corrente e o nosso ferro preso ao fundo. Chegamos e podíamos finalmente relaxar de verdade.
Aos poucos os outros barcos foram aparecendo no horizonte e, através do rádio, podíamos saber quem eram e qual o tempo que levaram para concluir seu percursso. João Norbertodo do Drakon cruzou a linha às 6:45 horas, e pela nossas contas, já estava em vantagem sobre nós, pois seu rating era bem menor e, portanto, tínhamos que pagar muito para ele. Procurei não pensar nisso e abri um champagne reservado especialmente para o momento. "Vamos comemorar nossa façanha, tripulação" disse espocando a rolha que vôou por entre a gaiúta de acesso e foi cair lá dentro d'água. Foi nosso primeiro pecado. Já nos tinham avisado em Recife que o Ibama era muito rigoroso e nada poderia ser jogado ao mar em Noronha. Com prazer, coloquei um calção e mergulhei em busca do meu involuntário lixo. Em pouco tempo já estavam a bordo do Zimbros, João Norberto e sua tripulação, Álvaro, Joaquim e Jens, nos acompanhando num merecido café da manhã. Bochecha veio com o La Niña e também apareceu. Começou a festa! Todos falavam ao mesmo tempo e cada um tinha uma versão diferente de um mesmo fato para discutir. A música alta servia para confundir ainda mais aquela excitante interlocução, mas o brilho da manhã iluminava nossas idéias, e todos nos entendíamos. Nossa alegria era comum. Após o encontro, demos uma ordem no nosso restrito espaço e começamos os preparativos para desembarcar. Ir à terra requeria um certo planejamento, já que o pequeno inflável acomodava, com muita boa vontade, somente quatro pessoas. "Quem vai primeiro?" perguntei pragmático. "Eu vou!" disseram todos ao mesmo tempo. "Vai ser difícil decidir, tem que ser no par ou ímpar" pensei. Nem lembro direito, mas tenho a impressão de ter sido o último a desembarcar. Na verdade não estava tão ansioso assim para ir à terra. Teríamos cinco dias ainda pela frente e eu não tinha pressa alguma, só me preocupava o abastecimento de água e gelo. Queria também alugar um buggy para podermos rodar pela ilha mais livremente, e já sabia que neste período, a demanda seria muito maior que a oferta, portanto, os preços estavam inflacionados.
Por setenta pratas a diária conseguimos alugar uma lata velha e suja, mas que foi um grande quebra-galho. Num instante toda a tripulação sumiu e eu, com grande alívio, voltei só para bordo. Que maravilha a sensação de poder relaxar e ver o tempo passar sem preocupação alguma. O escritor americano Charles Bukowski disse certa vez, que detestava os turistas que iam em busca da última palmeira da praia. Parece próprio da natureza humana querer ver o que está do lado de lá, sem se dar conta muitas vezes, que o lado de cá é muito mais bonito. A mim , naquele momento, bastava a enseada ensolarada e de águas cristalinas onde o Zimbros estava ancorado em segurança. Desliguei o VHF e o celular, abri o bar e me isolei do mundo.
Também é da natureza do homem moderno, conferir seu celular para ver se há alguma mensagem na memória do aparelho. Mania pura! No exato momento em que liguei meu telefone, ele começou a tocar. Era o Joaquim, ví logo na tela e atendi, pensando que ele poderia estar querendo algo importante lá em terra. Sucedeu-se um evento digno de um filme de Almodovar: "Estou aqui no porto com uma garota à procura do Luiz. Ele trouxe de Floripa uma roupa de neoprene, destas de mergulho, que vai ser usada por ela numa cerimônia de casamento hoje à tarde" disse rapidamente, passando seu aparelho para a louca em pânico, atrás de seu traje submarino. Não entendi nada do que disse com seu sotaque de mané lá da ilha. "Pôrra meu, tenho que aguentar essa chata e ainda pagar por um interurbano dos bem caros" pensei puto, imaginando que tipo de enxoval seria aquele. Teria véu e grinalda? Em poucos minutos ela chegou à bordo e eu lhe entreguei, mal-humorado, sua veste de noiva. Nem dei papo, passei o pacote e voltei para dentro sem dizer sequer uma palavra. E eu que pensava estar a salvo dos lunáticos, em paz no meu pequeno mundo flutuante... Mas Fernando de Noronha é mesmo um lugar para os anjos. Todos que vão para lá estão sintonizados numa mesma frequência de comunhão com a natureza. O que mais me impressionou foi sua fauna exuberante, nunca vi tantos peixes juntos na minha vida. É possível encontrar nas suas águas claras todos os tipos, de todos os tamanhos e cores. Diversos cardumes, aos montes, nadando próximos à praia. E nem precisava de aparelhos de mergulho muito sofisticados para assistir a estas maravilhas submarinas. Apenas com uma máscara comum, tartarugas, arraias, moréias, golfinhos, estavam alí ao alcance da vista. Os golfinhos rotatores são um espetáculo à parte. Aparecem às centenas com incríveis cambalhotas no ar, dando um show de acrobacia! E as aves? Centenas, de espécimes diferentes, voando próximos à superfície do mar em busca de alimento. O imponente Albatroz, com quase dois metros de envergadura, e os ágeis Mergulhões, submergindo como uma flexa, são um espetáculo que valem a viagem, basta ter olhos para enxergar.
Mas além da natureza outro ponto alto da nossa estadia na ilha foram as intermináveis festas, na verdade muitos encontros com os amigos velejadores. Logo no primeiro dia fui à bordo do Athena, que ficara em primeiro lugar geral na categoria RGS, para saldar minha dívida para com a tripulação pelo seu feito extraordinário. Além deles, reencontrei muitos velejadores que não via há tempos, como a querida Circe Gama Monteiro, que está há anos em Recife. Fomos colegas de faculdade e, quando eu morei em Fortaleza, sempre nos encontrávamos. Fiquei sem vê-la por mais de dez anos e foi uma surpesa boa saber que ela já era uma veterana na Refeno.
Outro amigo, o Crespo, navegador paranaense que competiu à bordo do veleiro Toatoa no Mar, veio uma tarde nos visitar. É sempre bom conversar com ele, é o tipo do cara que conta as mais fantásticas aventuras como se fossem as coisas mais banais do mundo, assim como ir à um casamento num sábado. Em 1995 ele deixou as águas brasileiras para uma viagem que duraria quatro anos, a circunavegação do globo à bordo de seu bravo veleiro Anny Way. Um dia ainda chego lá, mas por enquanto ainda viajo com as histórias dele.
Certa tarde, na happy-hour, estávamos à toa no cockpit e o Alfredo resolveu fazer um chimarrão para nós. Ele havia me trazido direto do Rio Grande, cuia, bomba, térmica e até o mate tchê, e a ocasião era perfeita. Reza a tradição que a primeira rodada é de quem prepara, para conferir se ficou bom, se não está entupido e se a erva é boa. A água tem sua temperatura exata, nem quente, nem fria. É uma liturgia. Ele estava lá dentro, quando ouvi um grito "Puta-que-pariu, quem deixou a bomba cheia de sabão, cacete! É o fim da picada...". Ele ficou uma fera mesmo, não acalmou nem quando me declarei responsável pela iniqüidade. Na verdade, pouco antes, fui lavar a louça, passei um sabão em tudo antes para economizar água, e esqueci de enxaguar os apetrechos do chima. Foi um crime inafiançável, quase causou um motim à bordo. Nunca se deve mexer com os dogmas gaudérios.
O dia-a-dia num barco, quando se está ancorado em segurança, é perfeito e passa muito rápido. Acorda-se cedo por conta da luz e do calor. Consequentemente dorme-se cedo também. Vive-se em constante atividade, pois sempre há algo para se fazer: cozinhar, limpar, abastecer a geladeira, arrumar as avarias e por aí afora. Nunca se fica parado. Uma das coisas que incomoda é a bagunça na cozinha. Quando se está navegando, a pia é o lugar onde se amontoam todas as tralhas, copos, latas vazias, talheres, guimbas de cigarro, fósforos usados, enfim tudo. Como ela é grande, cabe tudo lá. Eu procuro sempre mantê-la mais ou menos em ordem. Mas ancorados, a história é outra, não tem porquê deixá-la suja. Mas poucos escutam minhas lamentações. Outro lugar que exige higiene absoluta é o banheiro. Como disse Danuza Leão, ao sair de um bwc, deixe tudo na mais perfeita ordem, aja como se tivesse cometido um assassinato. É uma verdade que, infelizemente, nem sempre é acatada pelos marujos. Um barco em alto mar está permanentemente em movimento e acertar o vaso é uma tarefa que exige muita pontaria. Sempre peço que o xixi seja feito sentado, mas para alguns marinheiros, é inaceitável agir como as mulheres, mesmo que não tenha ninguém como testemunha. Por isso com dois dias de mar, o banheiro cheira a um mictório público. Quando paramos, normalmente a tarefa de limpeza do sanitário é uma responsabilidade que ninguém quer assumir, e sobra pra mim. É o tal negócio, o melhor barco que existe é sempre o dos amigos.
Cinco dias passam rápido em Noronha, e logo chegamos na sexta-feira. Nossa saída estava marcada para a manhã seguinte, largaríamos em regata para Natal, 200 milhas à leste. Quando a partida é dolorosa, significa que a estadia foi boa, do contrário estaríamos ansiosos para ir embora. Estava com a tripulação desfalcada, Alfredo, Guto e Tarcísio já tinham voltado de avião. Ficamos o Luiz e eu à bordo. Convidei o Bochecha para vir conosco e ele topou. Ótimo, três era a tripulação ideal para uma travessia tranquila como aquela. Finalizamos os últimos preparativos para a viagem, e o pior mesmo foi o cansativo vai-e-vem com os garrafões de abastecimento d'água. Anoiteceu e fizemos um belo churrasco saboreando nossos últimos momentos naquele éden atlântico.
(final da parte 15) |
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