Parte quatorze


Na Refeno, uma grande tripulação: Tarcísio, Alfredo, eu, Luiz e o Guto

Os quatro dias no Cabanga Iate Clube de Recife passaram rápido, com muito trabalho e alguma diversão. Tive que preparar o Zimbros para sua jornada até Fernando de Noronha e de lá até Natal. Seriam quase 500 milhas, em uma semana de viagem, e havia muito a ser feito à bordo para que nada faltasse nesta etapa das minhas aventuras. O maior problema era, mais uma vez, o abastecimento de água, combustível e comida, pois em Noronha, o acesso à terra é feito com nossos pequenos botes de desembarque, ou seja, bastante dificil de transportar tudo. Além disto, tive que passar pela inspeção da Marinha para obter a autorização de navegar longe da costa. Apesar dos oficiais da Capitania dos Portos serem bastante camaradas, alguns itens das suas exigências me deram algum trabalho.

A tripulação começou a aparecer aos poucos. Primeiro Alfredo e Tarcísio, que já estiveram no Zimbros de Porto Belo até Angra dos Reis. Depois o Luiz e o Guto, meu irmão, ambos morando em Floripa. Guto veio comigo de Vitória a Salvador. E havia também as tripulações dos outros barcos chegando diariamente, sempre motivo de festa e muita conversa. O ambiente no clube era de camaradagem e confraternização, em cada reencontro, uma história diferente para contar. Logo de cara tive que pagar minha dívida para com as tripulações do Athena, do La Niña e do Drakon. Apostei com cada um deles, separadamente, que quem chegasse primeiro ao Recife, ganharia um jantar. Perdi dos três, e foi com prazer que zerei o débido com todos, numa bela churrascaria lá de Boa Viagem.

Finalmente sábado, o dia da largada, a adrenalina estava à flor da pele. Mais de cem barcos inscritos, distribuidos em cinco baterias, sendo que a primeira largaria ao meio-dia em ponto. A cada cada dez minutos, partiam as subsequentes, com os veleiros mais lentos saindo antes. A largada seria dentro do Rio Capibaribe, entre a medonha escultura fálica criada pelo artista plástico pernambucano Francisco Brennan, posicionada sobre os molhes do porto, à direita, e o barco da Comissão de Regata, ancorado em frente ao marco zero da cidade, uma praça próximo ao cais. Iríamos percorrer, antes de chegar ao mar aberto, um corredor de aproximadamente mil metros de extensão, limitado pelo recifes à boreste e a cidade velha à bombordo. Centenas e centenas de pessoas de ambos os lados aguardavam a saída. Música, discursso, fanfarra, um legítimo festerê pernambucano.

O vento soprava de través com cerca de dez nós, decidimos que largaríamos com o Genaker, nossa vela colorida, ideal para a situação. A uns cinco minutos antes do nosso tiro, nos posicionamos a sotavento da raia e aproamos para a linha de largada. Nós e a torcida do Flamengo! Todos queriam estar na mesma posição, pois dalí qualquer barco teria preferência sobre outro que tentasse ultrapassá-lo da direita para a esquerda. São as regras. Há um minuto do tiro, todos os adversários já estavam com suas velas abertas, somente nós iríamos largar com o Genaker. Bateu a dúvida e o Luiz quis mudar os planos e abrir nossa Genoa. "Agora não, porra! Vamos com o Genaker mesmo" gritei, sem saber bem no que ia dar. Um, dois, três... já. Uma gritaria, um esforço do cão, puxa cabo, caça escota, morde a adriça... e a vela subiu. Foi um show, valeu a pena! O pano colorido inflou-se com o vento e apareceu majestoso nas suas cores azul e amarelo. Todos os espectadores que estavam sobre os arrecifes, à nossa direita, começaram a gritar e a aplaudir! "Aí Zimbros, vai lá Zimbros...". Foi uma emoção única, parecíamos ídolos.

O barco começou a ganhar velocidade e fomos lentamente ultrapassando todos os que estavam na nossa frente. Mas não tinha espaço, a raia estava congestionada para o nosso lado, e o Tarcísio lá na proa, muito educadamente, ia pedindo: "Por favor, vamos passar" E os adversários saiam da frente. "Muito obrigado, valeu" respondíamos com a maior fleuma. Isso só acontece numa regata como esta mesmo. Para quem nunca viu uma, saiba que vale a lei do grito: quem fala mais alto, ganha o direito de passar.


Largada da XV Refeno: O Zimbros é o de vela colorida. Aplausos na saída.


Saída de Recife: próxima parada, Estação Noronha, 400 milhas adiante.

Prosseguimos até a barra do rio, onde estava posicionada uma bóia amarela que determinava o final do canal. A partir dalí , viramos 90º para boreste rumo a outra bóia, esta de sinalização do porto, localizada a umas duas milhas no mar aberto. Passada esta segunda sinalização, o negócio era apontar direto para Noronha, 400 milhas a nordeste. Baixamos o Genaker e abrimos a Genoa, pois o vento agora estava mais orçado. Neste momento vímos, para infelicidade geral, que a adriça do Genaker estava quase arrebentando novamente, e não poderíamos usá-la mais. Um erro de projeto, a posição da roldana no tope do mastro fazia com que o cabo se desgastasse em contato com ele. Tínhamos uma adriça sobressalente, mas de nada adiantaria pois ela estaria sujeita ao mesmo desgaste. Foi um baque!

Me perdoem se me estendendo em questões técnicas, mas é importante para o desfecho da trama. Ocorre que todos os barcos tem uma medição, que determina um fator, que é multiplicado pelo tempo que ele leva para concluir uma regata. Isto permite que barcos de diferentes tamanhos possam competir entre sí. Aquele que tem mais área vélica, ou uma linha d'água maior, pagam para outros menores, entenderam? Um exempo: como consequência de eu estar usando um Genaker, uma vela muito grande, meu tempo real é descontado no final, eu tenho que pagar um tempo a mais por usá-lo. Paguei mas não usei. Outro ponto negativo: o Zimbros foi muito mal medido lá em Salvador, sem a minha presença. Estava pesado demais com os tanques de água e combustíveis cheios e, outro detalhe infeliz, o Pau de Spi, uma haste metálica que serve para manter a vela de proa aberta nos ventos de popa, estava maior que a medida exigida nas regras. Pela primeira vez na vida fui penalizado pelo tamanho do meus instrumentos (he,he, he...).

Existe um problema que todos os anos atinge os participantes da Refeno. São as bóias de marcação das redes de pesca de lagosta. Elas são muitas no litoral pernambucano, e estão localizadas entre as profundidades de trinta a cem metros. Como íamos num rumo transversal à costa, este trecho leva muitas horas para ser percorrido, e existe o perigo real do barco ficar preso nos cabos aos quais estão presas as redes. Alguns deles são de aço e, no passado, houveram casos deles danificarem o leme das embarcações. Ao longo da tarde e do resto da noite, passamos por dezenas destas linhas, e tivemos que desviá-las com muita dificuldade. São realmente muito pentelhas, mas conseguimos, com atenção redobrada, nos livrar de todas. A última delas, apareceu no meu turno na madrugada, a poucos metros na nossa frente, no escuro. Tive que virar o barco quase 90º para nos safarmos. Foi uma barulheira dos diabos, as velas ficaram folgadas, a grande deu um jaibe, passou para o outro lado, e o barco balançou como num maremoto, mas nos safamos.

Amanheceu, o vento aumentou e o mar ficou mais mexido. Rizamos a vela grande para o barco ficar mais equilibrado e seguimos na mesma velocidade. Dois navios-patrulha da Marinha acompanhavam a regata, dando apoio em caso de problemas. Às oito e às dezoito horas, diariamente, pelo rádio VHF, todos tínhamos que passar nossa posição e rumo para controle deles. Desda forma íamos sabendo como e onde estavam nossos adversários. Haviam muitos com dificuldades, alguns sem leme, realmente um problemão àquela distância da costa. A Refeno é uma regata relativamente tranquila, feita com um vento constante e num bordo só. Mas é muito longa, e a grande maioria da flotilha anda no limite. Depois das primeiras 24 horas fica cansativa e o equipamento começa a dar problemas, e se existe a mínima chance de algo dar errado, dará. Em se tratando de mar, Murphy é um verdadeiro otimista.


Ao longo do dia os barcos foram distanciando-se entre sí, restanto poucos ao alcance da vista. Anoiteceu, o vento aliviou e andamos o máximo que estava ao nosso alcance, sete, oito nós de velocidade. Ninguém queria ficar para trás, muito menos eu. Apostei de novo, desta vez com o Hans, Cem Euros como chegava na frente dele no tempo corrigido. Quase impossível faturar esta grana, mas eu queria dar um ânimo a mais na turma e, quem sabe? se ainda pudesse botar a mão no bolso do alemão, seria um lucro dobrado. Cansados, dormíamos pouco, comíamos mal e estávamos sempre ligados. Ajustávamos as velas com muita atenção, pois nesta competição, ganha quem erra menos. A chegada estava prevista para os primeiros raios do dia seguinte. Pelas três da manhã começamos a ver o clarão do farol do arquipélago. Apesar do desconforto, ou exatamente por ele, o clima à bordo era de de "já cheguei".


Luiz na boéia: no final do segundo dia, o clima já era de chegada.

A noite foi dura, achei que o Zimbros não fosse aguentar. Não conseguia tirar da minha cabeça os barcos que perderam o leme e ficaram a deriva. Lembrava do conserto do meu leme feito lá em Salvador, sem minha supervisão. "Será que aquele cara fez o serviço direito?" pensava preocupado. Na dúvida, quando eu estava no timão, procurava aliviar um pouco o esforço, mas logo em seguida lembrava da minha aposta, e também do João Norberto do Drakon, que vinha na minha cola, e mandava ver no Zimbros.

Amanhecemos com o contorno de Noronha bem na nossa frente. É deslumbrante ver o arquipélago emergindo de dentro do mar, como querendo lançar-se ao céu para alcançar as nuvens. É inacreditável que exista um ilha tão longe da costa. Na verdade todo o arquipélago é a ponta de um gigantesco vulcão, cuja base esta a mais de três mil metros de profundidade. As ilhas são a parte de cima do cone, com cerca de 20 quilômetros de diâmetro. A principal tem uma forma alongada com dez quilômetros de comprimento por quatro de largura. Seu relevo é acidentado com muitos morros como o Pirocão, ou morro do Pico, o mais alto, com mais de trezentos metros de altura. Atribuí-se o descobrimento de Fernando de Noronha em 1503, a uma das expedições de Gonçalo Coelho e Américo Vespúcio (sempre eles). Mas há registros náuticos anteriores que supostamente a chamavam Ilha da Quaresma ou São João. O arquipélago foi doado pela coroa portuguesa ao financiador da expedição de Vespúcio, um tal Fernão de Loronha, vindo a ser a primeira capitania desta Terra de Santa Cruz. Não deu em nada, virou uma zona, foi invadida por franceses, holandeses e chegou até a ser uma prisão em meados do século XVIII.

Os demais competidores que haviam sumido da nossa vista, começaram a aparecer no funil da chegada. Na nossa frente, a poucos minutos, o Jasper havia se distanciado de nós durante a noite. Sua rota era um pouco mais afastada da ponta sudoeste da ilha principal, pois alí existe uma grande laje submersa. Não tínhamos a menor chance de alcançá-lo, a menos que cortássemos caminho entre a laje e a ilha, uma manobra arriscada, já tentada ano passado quando eu fazia parte da tripulação do Athena. Estávamos todos no cockpit, contemplando a beleza da geografia, quando decici: " Tripulação, vamos passar entre a laje e a ilha". Para desespero de todos, aproamos direto para a enorme pedra de uns cem metros de altura na ponta da ilha. Quando estávamos apenas a poucos metros, viramos a bombordo e passamos ao lado dela. Foi hard! Tarcísio, lá de dentro acompanhando nosso rumo pelo chart-ploter, fazia sinais e gritava: " mais pra direita, mais pra direita..." sem imaginar que, mais pra direita, estava a tal pedra. Só de pensar nas profundidades abissais abaixo de nós, dava um frio na barriga. Mas tanto faz, com três mil metros ou três metros, o estrago seria o mesmo. "Passamos" gritou finalmente nosso navegador lá de dentro, para alívio de todos. "Para o comandante não basta chegar, tem que ser com emoção" desabafou o Guto.

Mas de nada adiantou a estratégia. Nosso vento, protegido pelo relevo, ficou sujo, perdeu a direção, e o Jasper manteve sua distância. Alfredo ficou muito puto, conosco alí parados no meio daquelas lajes sem vento algum. "Porra, devíamos ter ido pelo lado de fora" disse inconformado. Foi a primeira vez que vi o índio perder a fleuma. "Paciência, errei" pensei lá com meus botões. Aos poucos o vento voltou a inflar a vela e conseguimos ver a Comissão de Regata, ao lado da qual começava a linha de chegada. Faltava pouco, íamos vagarosamente, e parecia que o tempo não passava. Finalmente cruzamos a linha e recebemos o tiro de chegada. Emoção pura! Eram 5:57 da manhã e levamos 41 horas para fazer o percursso. Fomos os terceiros da nossa categoria a chegar, quase meia hora na frente do quarto. Um ótimo resultado, comemoramos iludidos.

Infelizmente, como expliquei, nossa medição era muito ruim e, no resultado final, ficamos apenas com o nono lugar. Uma merda de classificação! Fiquei inconformado, mas fazer o quê? Aposto que se tivéssemos ganho, não estaria reclamado nem me explicando tanto. Coisas de competição. Mas estávamos felizes e vitoriosos, havíamos completado mais uma grande aventura. Afinal, o importante não é ganhar e sim competir, já disse um perdedor.


Fernando de Noronha: a chegada foi ao amanecer.

(Final da parte quatorze)