![]() |
||
Estivemos zanzando pela barra do Rio São Francisco por quase cinco horas sem conseguirmos achar nenhum barco de pesca que nos guiasse rio adentro. Com muito pesar redirecionamos nossos objetivos e rumamos para Recife, a cerca de 160 milhas dali. Eram apenas nove horas da manhã e a chegada à capital pernambucana estava prevista para o dia seguinte, lá pelo começo da tarde. O vento, o sol e o mar estavam a nosso favor, e o negócio, a partir de então, seria administrar o nosso tempo. Um dia a bordo nunca é igual a outro, e sempre há o que se fazer ou o que se contar. Sentado no cockpit as histórias vão aparecendo e uma sempre chama outra. Só não pode mentir, aumentar pode. Segundo o Associação Mundial dos Contadores de Casos, até trinta por cento de exagero são aceitáveis num caso bem contado. Afinal de contas, muitas vezes a versão é muito mais colorida do que o fato, que é em preto e branco. A música também não parava. Instalei um CD player, destes de carro, só que toca música em formato mp3. Cada disco chega a armazenar cerca de 150 músicas ou mais. Isto evita aquele monte de Cds espalhados pela mesa de navegação e também aquele disco que toca durante três horas sem parar. Mas meus discos estão sempre espalhados pela mesa e tocam sucessivamente até cansarem. Almoçamos um super strogonof, preparado pelo cheff aqui, que foi um sucesso. Agradeci calado os elogios da tripulação, omitindo que o prato é uma novidade da Aji-No-Moto. Já vem pronto, basta aquecer e, o que é o melhor, não precisa ficar armazenado na geladeira para se conservar. É perfeito, pois existem vários sabores e podem ficar guardados por muito tempo fora do gelo. O gosto é bom e, junto com arroz, engana a fome. Procuro fazer sempre uma quantidade maior para ser consumido mais tarde, à noite por exemplo, durante os solitários turnos da madrugada. Quando o tempo está bom comer é um grande passatempo a bordo. Estamos no litoral de Alagoas, e já faz dois dias que saímos de Salvador. Portanto hoje é dia de banho de água doce. É um grande momento. Final de tarde, sol se pondo, preparo os apetrechos: toalha, shampoo, sabonete, aparelho de barba, toalha, etc... O macete é, primeiro, dar uma boa enxagüada com água de mar. Em seguida tirar o sal com um pouco de água doce, ensaboar-se e, por fim, tomar uma rápida chuveirada. Tudo isto se equilibrando na popa do barco com muito cuidado para não cair n'água. A sensação de limpeza é impagável, tudo muda, parecemos outros. Depois, uma roupa limpa e um drinque de final de tarde com um tira-gosto. É bom demais! As dezessete horas cruzamos o paralelo dez. Ainda era dia, o vento deu uma aliviada e a velocidade caiu bastante. Bochecha inventou de querer colocar o Ginaker, uma vela leve e grande usada na proa, ideal para ventos fracos de popa. Os preparativos levaram um tempo: arrumar os cabos, prender os moitões, passar a vela e checar se tudo isto está no lugar, do contrário, na hora de levantá-la, pode virar um pandemônio dos diabos. Finalmente tudo pronto, um, dois, três, já... Num instante a vela sobe colorida e se infla com o vento. É a hora da foto, um espetáculo, o azul e o amarelo do tecido filtrando a luz do sol que se põe. A velocidade aumentou consideravelmente e o barco parecia sorrir. Todas as exclamações foram superlativas.
Oito da noite, a temperatura estava ótima e as luzes de Maceió sugiram na frente. Colocamos um disco do Djavan para dar um clima: "Só eu sei as esquinas por que passei...". Próximos da costa, estávamos cerca de cinco milhas de distância, era possível pegar o sinal dos celulares. Todos ligamos para casa e para os amigos contando nossas aventuras. Era realmente fantástico estar alí. Bochecha levava o Zimbros na mão, para poder controlar melhor suas derivações. Como Ginaker é muito grande, o barco tem uma tendência a entrar no vento. É preciso fazê-lo voltar ao rumo certo. Estava deitado no cockpit, olhando para cima, observando as velas e as estrelas. Com Marte bem acima de nós, pensava que se o homem sempre sonhou em voar, foi para poder flutuar livre nas três direções, sem qualquer obstáculo a lhe impedir os movimentos. E velejar, de certa forma, também é um vôo, só que em duas dimensões, mas com um elemento a mais que é a água. O mar e suas entranhas, suas lendas e seus temores é um universo misterioso que nos enche de respeito e admiração. As velas são nossas asas e a direção somos nós quem determinamos, não existem limites para o rumo, estamos livres, vamos para onde quisermos... Um momento de felicidade total! Fui para dentro mudar o disco e, pow! escutei um barulho estranho com o barco dando uma freiada brusca. "A vela foi para mar, arrebentou a adriça" ouvi o Jens gritar. Corri para fora e vi o Ginaker dentro d'água à bombordo. Não perdemos tempo, imediatamente começamos a puxá-lo para cima. Estava muito pesado, com toda a água acumulada em cima dele. Num instante fiquei ensopado, adeus meu banho, mas conseguimos trazê-lo para bordo e colocá-lo no saco. Porra! A adriça, o cabo que suspende a vela, deve ter roçado em algum lugar do mastro e arrebentado, vindo tudo para baixo. A solução, no momento, era voltar a usar a genôa, e nos conformarmos com o pouco vento. No melhor do vôo cortaram minha asa! Reativamos o piloto automático, ajustamos de novo as velas e nos preparamos para mais uma noite tranquila. Às cinco da manhã, com os primeiros raios, cruzamos finalmente a fronteira que separa Alagoas de Pernambuco. O vento aumentou e a previsão de chegada ao Recife melhorou, seria lá pela uma da tarde. Excelente, pensamos, vamos almoçar no clube. Às dez estávamos a 8º20' de latitude sul, no través do Cabo de Santo Agostinho, um dos pontos mais importantes da costa brasileira, a partir do século XV. Todas as embarcações que saiam de Portugal ou da Espanha com destino ao novo continente, paravam, respectivamente, na Madeira ou nas Canárias. A seguir enfrentavam o imenso no oceano a lhes fazer medo ou vontade de voltar. Mas a esperança era mesmo poder escutar o "terra à vista". E o Cabo de Santo Agostinho foi, durante séculos, esse famoso "terra à vista".
Estava quente e o clima já era pura festa. Demos um rápido mergulho, sem esquecer que aquelas águas estão cheias de tubarões, abrimos umas cervejas e retomamos nosso estoque de histórias. Quando se faz uma travessia de alguns dias, pode ficar certo que você vai acabar sabendo toda a vida de quem estiver a bordo. Aos poucos o contorno dos prédios de Recife e o relevo de Olinda começaram a aparecer no horizonte. Nos aproximamos da praia e pudemos ver os coqueiros e algumas jangadas ao largo. Estava emocionado, afinal percorri muitas milhas para chegar alí e me sentia orgulhoso do meu feito. Estava completando mais uma página das minhas aventuras. Às 12h40, cruzamos as bóias e os molhes e entramos nas águas abrigadas do porto. De cara, a visão impressionante do Cisne Branco, o maravilhoso veleiro da Marinha Brasileira, ancorado no trapiche do porto com a bandeira brasileira tremulando na popa.
Verificando no chart-plotter, ví que a maré estava muito baixa, e que talvez não fosse possível entrar na marina. O Cabanga Iate Clube de Recife esta localizado depois do porto, no fundo do canal formado pelos recifes naturais que o protegem. É uma entrada muito estreita e rasa, dificultando o acesso nas marés secas. Passei um rádio ao clube avisando a minha chegada eminente e indagando sobre as condições da maré. O operador recebeu-me com cortesia e, após saber do meu calado, falou categórico: "Vocês não devem entrar no clube agora. Somente às quatro da tarde. A maré neste momento está no seu ponto mais baixo e vocês vão encalhar. Não entrem!". Droga! Era só o que me faltava, nadar e morrer na praia. Não era nem uma da tarde, estava um calor do cão, e eu não podia entrar no clube já avistando os mastros de todos os veleiros lá dentro, apenas dezenas de metros na minha frente. Nunca! "Comigo não jacaré, odeio ficar de fora nos bailes", baixou o santo. Acelerei o motor e avisei a todos que se segurassem pois eu ia tentar entrar de qualquer jeito. O pior que poderia acontecer seria ficar encalhado na porta do Cabanga. Acompanhando o ecobatímetro pude ver a profundidade diminuindo drasticamente, dois metros, um metro e oitenta, um metro e setenta... Faltava pouco quando chegamos a um e sessenta, bem ao lado das bóias que sinalizavam a entrada. Senti a quilha do Zimbros raspando no fundo, acelerei mais, e fui arando um sulco no lodo por mais ou menos uns dez metros. O barco foi diminuindo a velocidade, parecia que ia ficar, mas não, finalmente a profundidade aumentou e, eureka, conseguimos! entramos dentro do clube. Viva!!! Gosto de emoções e não regulo mixaria.
Nas águas abrigadas e fedorentas da marina, muitos barcos nos tinham antecedido. Encontrar um lugar confortável, onde amarrar o Zimbros, não foi tarefa fácil. Finalmente conseguimos, com ajuda de um funcionário, ficar à contrabordo de um veleiro cujo proprietário era um simpático uruguaio. Jens já se entendeu com ele, afinal eram conterrâneos. Na verdade todo o clima era de entendimento. Lá estavam o Hans e a sua tripulação do Athena e Zalmir com seu veleiro Orage, ambos do Iate Clube Porto Belo. Todos preparavam-se para a XV Regata Recife-Fernando de Noronha, a famosa Refeno. E eu não era excessão, tinha que esperar meus novos tripulantes e havia muito o que fazer para deixar o barco pronto para a regata. Mas aquele momento era para comemorações, a cerveja os amigos nos esperavam. Os dias passados em Recife foram de correria e atribulações. Como a Refeno é uma regata em mar aberto, a Capitania dos Portos permite a participação de veleiros que não preencham totalmente os requisitos exigidos por ela para esse tipo de navegação. Para tanto, alguns ítens que tem que ser cumpridos rigorosamente. São fogos de sinalização, extintores extras, apitos, bóias, etc... Além das exigências da Capitania uma série de outras dezenas de tarefas tiveram que ser feitas para preparar o Zimbros para sua próxima jornada. Mas o ambiente no clube era de camaradagem, confraternização e reencontros. Uma grande festa. Na verdade uma festa de pirata, com muitos homens e alguns canhões. A excessão era o Drifter, um veleiro tocado exclusivamete por uma equipe feminina. Vindas de Brasíla, as garotas fizeram o maior sucesso na mídia local e com o macharedo de plantão. Todos as tratavam com muita consideração, exceto eu. Certa tarde fui apresentado a uma delas e estavámos, Alfredo e eu, trocando algumas cordialidades assim do tipo "Parabéns, a presença de vocês aqui só faz engrandecer o nosso esporte, se precisarem de alguma coisa é só pedir e tal". De repente o Bochecha, com seu indefectível óculos de playboy de shoping center, surgiu do nada e fulminou "Bah, vocês é que são as perseguidas..." Porra meu, fiquei com vontade de me jogar dentro da água suja da marina! "Depende a que você esteja se referindo" respondeu ela, educadamente. Ele ainda tentou consertar, mas o mal já estava feito, nada mais havia a dizer senão dar um até logo e sair bem de mansinho com o filme queimado muito antes da largada.
(final da parte treze) |
||