Parte doze

O táxi seguia veloz por entre o túnel de árvores que emoldurava a saída do Aeroporto Internacional Deputado Luiz Eduardo Magalhães em Salvador. Em poucos minutos estávamos na bela Avenida Luiz Eduardo Magalhães em direção ao centro histórico da capital baiana. Tudo nos fazia lembrar a figura de ACM, um dos políticos mais poderosos do país. O motorista confirmou com a cabeça nossa indagação sobre o poder do homem. “Ele fez muitas coisa boas pela Bahia" disse. “Mas também muito mal ao país” pensei calado.

Eram quase uma da manhã e havíamos chegado, Bochecha e eu no mesmo avião vindos do sul. Ele de Porto Alegre e eu de Curitiba. Sempre é uma emoção chegar em Salvador, seja por mar como pelo ar. Abri a janela do Santana e senti o bafo quente da atmosfera. Nada mau para quem tinha saído de casa com quase oito graus de temperatura. Com as ruas desertas logo chegamos à Bahia Marina, um moderno complexo náutico recentemente inaugurado na cidade baixa, próximo ao Elevador Lacerda. Ainda haviam alguns restaurantes e bares funcionando naquela hora, bem adequados à nossa sede.

Antes fomos deixar as nossas malas e acessórios no Zimbros. Ao entrar à bordo pude sentir, de cara, seu balanço e seu cheiro. Que prazer indescritível estar de volta! Fazia apenas três semanas que partira de Salvador, mas pareciam meses. Os barcos tem personalidade, temperamento como diz meu amigo Jorge Vidal, e nós temos com eles uma relação de afeto, de amor e também de ódio. É uma convivência bem passional. Encontramos o Jens, um marinheiro profissional que contratarei para me acompanhar nesta minha próxima aventura náutica: sair de Salvador e chegar em Recife, passando pela barra do Rio São Francisco, a aproximadamente 400 milhas de distância.

Acordamos cedo com o característico zum-zum das marinas. Parece que todos aqueles que trabalham com barcos só sabem falar gritando entre si. Era um sábado ensolarado e quente, impossível ficar na cama por muito mais tempo. Logo ouvi a voz do Carlinhos, o baiano que ficara responsável pelos consertos no Zimbros. Como contei nos capítulos anteriores, havia batido com o leme em uma pedra lá em Cabralia. O barco teve que passar por uma revisão bastante detalhada de todo o seu sistema de direção. Além disto havia uma dezena de outras pequenas coisas que precisaram ser feitas na minha ausência.

Nem tudo estava em ordem, mas eu queria partir logo, afinal, Recife estava a dois dias de viagem e eu tinha planos de entrar no Rio São Francisco, na divisa de Sergipe com Alagoas. Além disto uma pequena flotilha de veleiros partiria dali a algumas horas rumo norte. Eram eles o La Niña do Marcio Lima e o Poison do Castrinho, ambos gaúchos. Determinamos que a hora da largada seria as duas da tarde e arregaçamos as mangas. Ainda tinha muito trabalho pela frente: instalar um novo piloto automático, fazer um acabamento no reforço do piloto, ir ao supermercado, acertar o certificado de medição para poder correr a regata Recife-Noronha, abastecer de água e óleo, pagar as contas, etc...

O tempo voou e mal conseguimos cumprir todos nossos objetivos. Às duas e quarenta largamos amarras de Salvador e a partir de agora era tudo conosco mesmos. O dia estava esplendoroso, a luz brilhava nas águas da Baia de Todos os Santos e os três barcos com suas velas ao vento davam um colorido todo especial ao sábado. Apesar da correria e da afobação, a partida é sempre muito especial e emocionante. O mar estava calmo e o vento soprava do quadrante sul, cerca de dez nós. Abrimos umas cervejinhas, uns tira-gostos e coloquei um rock bem alto nas caixas. Perfeito!


La Niña: um Delta 36 igual ao Zimbros em comboio para Recife

Anoitece muito cedo no Nordeste, lá pelas cinco e meia da tarde, e a primeira luz que aparece no céu nesta época é o Planeta Marte, que está próximo da Terra como nunca esteve nos últimos séculos. É um espetáculo ímpar. Bochecha, mostrou que também conhece bem as artes culinárias e nos preparou um arroz com frango super especial. Jantamos muito bem e em seguida fui dar um cochilo na minha cabine, tentando repor um pouco do meu sono que estava atrasado, afinal fui dormir lá pelas cinco da manhã, uivando para a lua cheia. Eu sempre extrapolo no primeiro dia de viagem.

Marco Faccini Porto, o Bochecha é um amigão de Porto Alegre. Nos conhecemos quando estava construindo o Zimbros e tive que ir para lá algumas vezes. Os gaúchos são bons velejadores e só competem para ganhar. Marco tem apenas 24 anos, mas é um cara muito responsável. Trabalha feito louco como bancário, mas quando está de folga é uma das pessoas mais divertidas que conheço, só pensa em vela e mulher. E aqui para nós, não tem nada melhor mesmo, apesar dos dois serem incompatíveis. Costumo dizer que misturar prazeres não dá certo. Marco deveria ir comigo só até Recife e lá embarcar no La Niña para a regata até Noronha.


Bochecha e Jens: a tripulação que me fazia companhia

O dia também chega mais cedo nestas longitudes, lá pelas cinco já é claro. Resolvemos chegar mais perto da costa para podermos apreciar as longínquas praias do litoral baiano. Nunca vi praias tão grandes, nem tão desertar como lá. Aos poucos, com muito cuidado, fomos arribando para o continente até chegarmos a menos de mil metros do litoral. Pudemos distinguir na praia um pequeno vilarejo com alguns barzinhos na areia. Deu vontade de jogar âncora e ir de bote até lá para tomar uma cerveja e comer um peixinho frito. Mas era apenas delírio, o litoral baiano é muito plano, cheio de baixios e recifes, sem nenhum abrigo para ancoragens. Tivemos que nos contentar com uma barra de Nutri mesmo.

Olhado nas cartas vimos que chegaríamos na divisa da Bahia com Sergipe lá pelas duas da tarde. A linha que separa os dois estados é a Barra do Rio Real ao lado do qual está localizada Mangue Seco, a famosa vila onde Cacá Diegues filmou em 95, da obra de Jorge Amado, Tieta do Agreste, um dos filmes mais chatos que eu já vi na vida. Estávamos a 120 milhas de Salvador. Já andei por lá antes com o Dalmo e a Silvinha, mas chegamos por terra. Jens conhecia um velejador que conseguiu entrar no rio com um barco maior que o Zimbros. Era o que eu queria ouvir. Decidi entrar na barra para fazer a posse do território em nome Del Rey, tomar umas geladas, comer um peixe frito, observar as nativas em seus trajes sumários e dar o fora antes de anoitecer. Velejar é a maneira mais lenta de se ir de um bar a outro.

Era o local certo, mas não era a nossa hora. Foi impossível alcançar qualquer barco de pesca que nos guiasse rio adentro. A barra, muito rasa e extensa, não permite erros. Tivemos que desistir da nossa pretensão de desembarque e redirecionamos o rumo para o Rio São Francisco. Contrariado, voltei a dormir para esquecer.

Anoiteceu e aos poucos as luzes de Aracajú surgiram à bombordo junto a uma série de outras, das plataformas de petróleo da costa sergipana. Existem dezenas por ali, muitas não sinalizadas. Com olhos bem abertos e um vento leste-sudeste de nove nós seguimos adiante com grande velocidade. Pelos nossos cálculos, se seguíssemos naquele pique, estaríamos na barra do São Chico antes do amanhecer. Não era uma boa hora. Tínhamos que chegar de dia, portanto, tratamos de diminuir as velas para perder velocidade. Por incrível que pareça, com todos os panos rizados, o barco ainda andava a mais de seis nós. Não conseguíamos fazê-lo ir mais lento! Para mim aquilo era uma experiência nova, tentar fazer um barco ir mais devagar do que o vento pode levá-lo. O Zimbros é como um cavalo de raça, impossível freia-lo no galope. Fiquei muito orgulhoso da minha nave.


Bochecha fazendo a navegação.

Às três da madrugada já era possível enxergar o farol do Chico. Às cinco, finalmente chegamos ao nosso destino: a barra do mítico São Francisco. Uma imensidão de água que corre por cerca de 2.600 quilômetros dentro do coração do Brasil, ali desembocando bem na nossa frente. Nasce na longínqua Serra da Canastra em Minas Gerais, onde o oculto do mistério se escondeu. É o maior curso d’água genuinamente nacional e foi descoberto em 1501 pela famosa expedição de Duarte Coelho e Américo Vespúcio. Os navegadores, os primeiros depois de Cabral, a explorarem o desconhecido território, navegavam com o calendário litúrgico nas mãos, batizando os pontos geográficos do litoral de acordo com o santo do dia. Chegaram à sua foz no dia 4 de outubro, dia de São Francisco de Assis, daí seu nome.

Uma praia com areia muito clara, era possível avistar ao longe a pequena vila de pescadores encoberta por uma floresta de coqueiros. Demarquei na carta náutica um ponto próximo à entrada, onde a profundidade era segura, e nos dirigimos para lá com o Gps de mão. A partir desta marcação, ficamos navegando em zigue-zague, perpendicular a costa, para que alguém nos avistasse e viesse nos guiar para dentro do rio. Era apavorante estar passeando naquelas águas cheias de baixios não demarcados. Ao sul, as ondas quebravam longe da costa, nos fazendo redobrar a atenção. Pelo ecobatímetro eu controlava a profundidade que não poderia ficar inferior a quatro metros. Mesmo com todos os instrumentos que dispúnhamos, confesso que era assustador ficar vagando ali naquelas águas.

Eu estava cansado com muito sono, mas a apreensão não me deixava fechar os olhos. Minutos pareciam horas e nada acontecia, ninguém aparecia, nem havia qualquer sinal de pescadores vindo para o mar. De repente o Jens avistou saindo da barra, dois pequenos barcos de pesca. Só que seu rumo era mais ao sul da arrebentação que víamos ao lado. Para chegarmos neles, deveríamos contornar os baixios que provocavam as ondas, indo muito para fora de onde estávamos. Começamos uma verdadeira caçada no mar atrás das embarcações. Mas não deu certo, a distância que nos separava era muito grande e os barcos se distanciaram de nós cada vez mais em direção ao sul. Voltamos ao nosso way-point marcado no Gps e continuamos no nosso zigue-zague esperançosos que alguém lá de dentro nos visse. Mas nada, nem pescadores, nem barcos apareceram.

Jens, mais uma vez, localizou alguns pesqueiros fazendo arrastão de camarão ao largo da costa, muito distante de nós, mar adentro. Uma trovoada se formava para os lados deles e em instantes começou a chover e a ventar forte. Decidimos ir ao seu encontro no rumo leste. Acho que andamos mais de uma hora até chegarmos próximos aos barcos que buscávamos. Os pescadores, distraídos e olhando em frente, assustaram-se quando viram um veleiro chegando por sua popa, assim do nada. Aproximamo-nos até a distância de sermos ouvidos e indagamos sobre a entrada da barra. O pescador nos confirmou que era funda, cinco metros disse, mas que só podíamos demandá-la com um piloto, mas que não havia nenhum disponível naquele momento. Eles seguiriam para o norte e não poderiam nos ajudar.

Que droga! Eram nove da manhã, e já fazia quase cinco horas que estávamos por ali, sem sucesso. O jeito era desistir, infelizmente. “Nós tentamos, fizemos tudo o que tinha de ser feito, mas não vai ser desta vez” disse para desconsolo da tripulação. Só nos restava ajustar as velas, mudar o rumo e dar um até breve para o lugar. A partir daquele momento, nosso único objetivo era chegar em Recife o quanto antes. A cerveja e o peixe frito teriam que esperar até o dia seguinte


Eu e o Márcio Lima, a bordo do La Niña.

(Final da parte doze)