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Foi com um grande alívio que deixamos para trás a Barra de Santo André em Santa Cruz de Cabrália. Depois de avariar o leme do Zimbros batendo numa pedra, e conseguir consertá-lo em apenas dois dias, nós só queríamos sair dali e procurar praias mais atrativas e menos desastrosas. O objetivo era chegarmos em Itacaré, aproximadamente 130 milhas ao norte. Com ajuda do Carlindo, passamos pela barra ao lado da famosa “baixinha”, assim os nativos chamavam a pedra em que batemos. Era conhecida e nós, lamentavelmente, não fomos os primeiros nem os últimos a encontrá-la. Na saída tivemos alguns pequenos problemas com a regulagem da roda de leme que ficou invertida, mas nada grave. Ficamos ancorados pouco afora dos recifes que cercam o litoral, fazendo os reparos necessários. Enquanto esperava, preparei um almoço com lentilhas refogadas e paio. Tinha tudo para ficar bom, mas foi uma droga. Usei uma panela de pressão, deixei tempo demais e, o que era para ser uma bela refeição, transformou-se numa papa do cacete. Mas a tripulação comeu tudo sem reclamar.
Rumo nordeste, vento de través, mar um pouco mexido, lá fomos nós para Itacaré. Em pouco tempo escureceu e foi aí que começou a tortura de levar o barco sem o piloto automático. Como disse antes, quem está no leme tem apenas a bússola como referência para seguir no rumo. Deve-se fixar os olhos nela para não fugir muito do curso. É um saco! Nos organizamos em turnos duplos de três horas. Neste período nós nos alternávamos a cada meia hora no leme. Foi uma solução que deu certo, pois cansava um pouco menos, mas ainda assim era chato pra burro. Que saudades do meu querido piloto automático! O relógio não passava e o tempo piorava. O vento aumentou, o mar engrossou e ainda por cima começou a chover. Costumo dizer que um barco a vela é a maneira mais cara de se viajar de terceira classe. A única hora boa era quando acabava o meu turno e eu me mandava para o afago de meu cobertor. Mas não demorava muito e lá estava o Tadeu me chamando para subir e ver alguma coisa que ia errada. Era um desconforto ter que levantar e colocar a roupa de mau tempo com todo o quarto balançando. Casaco, calça e umas botas de borracha que pareciam ter dois números a menos que o meu pé. José Tadeu Smolka é um amigo do tempo de faculdade. Bom velejador, já aprendi muita coisa com ele. Inteligente, é capaz de discorrer com conhecimento e clareza sobre parabolóides hiperbólicos ou sobre a densidade dos sólidos por horas sem cansar. Mas não peça para ele lavar um prato, que é demais. Como está com alguns quilinhos a mais, fica difícil para ele se manter de pé num convés em movimento. Lá pelas tantas da madrugada, caindo de sono fui verificar um problema com o spinaker que estava solto, e batendo nos estais. O cara não parava de cair em cima de mim, parecia uma pata choca e gorda! “Porra Natasha sai fora!” Gritei puto. Ficou decidido que, chegando em casa, ele vai entrar numa academia de ginástica e cuidar um pouco mais de seu roliço corpinho. Quando amanheceu estávamos ainda a algumas horas da barra de Itacaré. A previsão era chegarmos lá pelas dez da manhã. Cansados e com sono o jeito foi administrar o bode e seguir em frente, mesmo porque não tinha como sair dali mesmo. Finalmente chegamos ao nosso destino. Eu tenho um guia náutico feito pelo Hélio Magalhães que é muito detalhado, inclusive mostrando como acessar aquela barra. Mas o mar estava feio mesmo, com ondas muito grandes, já que estávamos com menos de cinco metros de profundidade. As recordações de Santo André ainda estavam bem vivas na minha memória, então decidi esperar que alguém nos visse e viesse ajudar. Minutos pareceram horas ali naquele mar. Finalmente avistamos uma pequena embarcação de pescadores vindo em nossa direção. Foi um alívio. Seguimos na sua popa, passamos a uns cinqüenta metros do farol e adentramos o abrigo do porto. Parecia outro mundo, sem ondas e sem perigo, que alegria! Jogamos âncora próximo à outras embarcações em frente à vila dos pescadores. Agradeci aos marinheiros que nos ajudaram e dei a eles cinqüenta pila e algumas camisetas que sempre trago comigo para estas horas. Tadeu achou muito, mas lembrei o quanto gastaria se algo tivesse dado errado na entrada. Prefirí pagar a passar o que passei lá em Cabrália. A partir de então Natasha decretou que "Um Osvaldo" valiam Cinqüenta Reais. Moeda forte esta, não? Finalmente o sol apareceu com toda sua força, e pela primeira vez em toda a viagem pudemos relaxar de verdade. Então abrimos o bar e mandamos ver nos etílicos sem culpa. Arrumamos a baderna causada pela navegada da noite, pusemos para secar tudo o que estava molhado e demos um ar um pouco mais decente ao nosso lar. O lugar em que paramos, a Barra do Rio das Contas era magnífico. Do lado oposto da cidade, uma praia quase deserta com areias bem claras servia de campo de futebol, assim pelo menos nos pareceu pelas duas traves colocadas cada um num nível diferente da outra. Do lado de cá, centenas de coqueiros serviam de abrigo aos antigos casarões da vila. Itacaré é uma pequena cidade com cerca de oito mil habitantes, que cresceu graças a cultura do cacau. Agora o turismo é sua grande vocação. São dezoito praias, algumas desertas, cachoeiras, mangues e muitos sítios fora de série. Só para se ter uma idéia, a Praia do Pontal tem cerca de 20 km de extensão. Uma vastidão de areias brancas, coqueiros e um mar de esmeralda a perder de vista. Há pouco, um povo mais alternativo descobriu a beleza de sua geografia e elegeu este pedaço da Bahia para passar suas férias e até mesmo para morar. Pode-se encontrar em Itacaré bons restaurantes, pousadas legais e um pessoal bem descolado circulando por suas praias. Vale conhecer, mas é um lugar longe de tudo. Nos preparamos para ir em terra comer alguma coisa, pois estávamos famintos. Foi uma operação demorada: descer o botinho e o motor, colocar gasolina, arrumar o que levar... Durou mais de uma hora a função toda. Observo ao longe uma canoa, destas feitas com um tronco só, com um preto retinto remando em nossa direção bem vagarosamente. O cara não estava com pressa nenhuma, parecia que vinha com a maré. Finalmente encostou no barco e nos perguntou se precisávamos de algo. O Guto, sem paciência com os serviços baianos, dispensou o guia na hora. Mas eu o chamei de volta e perguntei-lhe qualquer coisa, só para dar papo. O baiano era uma figura mesmo, meio pateta, meio malandro. “Como você se chama?” perguntei. “Neblina” responde o negão bem sério. “Sou guia turístico, e consigo tudo o que vocês quiserem, até muié” completou. Foi muito engraçado, tem coisas que só existem na Bahia mesmo. Contratei o Neblina para cuidar do Zimbros, pensando na qualidade das mulheres que ele trabalhava.
Em terra nos esbaldamos com água de coco, lagosta, peixe frito, cerveja e cachaça. Os nativos destas paragens sabem como tratar bem seus hóspedes. Era sexta-feira e a noite prometia. Mas não conseguimos vencer nosso cansaço e, às oito já estávamos dormindo como crianças. No dia seguinte pela manhã voltamos aos botecos da praia, existem dezenas, para aproveitar um pouco as delícias do clima baiano. Mas, infelizmente, tínhamos hora para deixar aquele paraíso. Deveríamos deixar a barra com maré alta, lá pelas quatro da tarde. Mas eu não queria mais ir embora.
Pouco antes da saída, Neblina nos guiou para dentro do Rio das Contas. Foi um espetáculo à parte, um lindo lugar. Andamos por cerca de uma hora rio adentro no meio de uma vegetação ainda bastante preservada. A maioria do município está situada numa área de proteção ambiental chamada Itacaré/Serra Grande. Quando voltamos mal tivemos tempo para despedidas. Recolhemos o botinho, o motor, preparamos as velas e demos mais um dolorido adeus para mais um belo lugar. "Vou voltar, sei que ainda vou voltar e ainda hei de ouvir cantar uma sábia" lembrei de Tom Jobim.
Salvador nos esperava a 80 milhas no rumo norte, muito perto se comparado com as outras distancias que percorremos. Com um vento muito fraco seguimos no motor. Foi uma viagem bem tranqüila e logo que escureceu pudemos avistar as luzes da capital baiana. O tempo passou rápido e logo estávamos adentrando a barra da Bahia de Todos os Santos. É sempre uma alegria chegar em Salvador, e aos poucos começamos a identificar os pontos mais importantes da barra como o farol, as praias e as edificações da orla. Eram três da manhã, estávamos Tadeu e eu no nosso turno e resolvemos acordar a tripulação de um jeito bem adequado. Mandei ver com os Novos Baianos com o som a todo volume.
Finalmente passamos ao lado do secular Forte São de Marcelo, ao lado do qual situa-se o Centro Náutico da Bahia, o ponto final deste trecho da minha viagem. Amarramos o Zimbros facilmente no cais e, sem sono, ficamos até ao amanhecer bebericando umas cervejas e repassando os melhores momentos da nossa aventura. À tarde Tadeu e André partiram para suas casas e eu fiquei com o Guto para procurar alguém que me ajudasse a consertar todos os desgastes que o Zimbros sofrera nestes últimos dias. No Centro Náutico reencontrei vários velejadores amigos que não via há muito tempo. Muitos estavam, como eu, seguindo para Pernambuco, participar da regata Recife-Fernando de Noronha prevista para setembro. Foram bons momentos com boa conversa, e junto a eles consegui arranjar um bom mecânico para reparar as feridas sofridas pelo Zimbros. Teria que retirar seu leme e averiguar todos os danos sofridos em Cabrália, nada barato, supus. Esta é uma das piores horas, e há quem diga que ter um barco é como ter uma amante argentina: a gente nunca para de gastar, e só tem prazer quando está em cima (he, he, he...).
(Final da parte onze) |
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