Parte dez


Los três mosqueteiros: Guto, eu e o André

Deixamos o Arquipélago de Abrolhos às quatro da tarde do dia 18 de agosto, com destino à Barra de Santo André, próximo à Santa Cruz de Cabralia, a primeira terra avistada por Cabral quando chegou por estes ermos há quinhentos anos. O vento era favorável, entrava pela alheta com 18 nós de velocidade, perfeito! O mar também estava mais calmo que na véspera, dando oportunidade para uma bela e confortável velejada.

O trajeto, de aproximadamente 110 milhas, foi feito com facilidade durante toda a noite. Nem precisamos dos turnos duplos, apenas um tripulante ficava de guarda para a eventualidade de se fazer alguma correção nas velas ou no leme. O piloto automático, um Autohelm 5000 era o nosso mais precioso tripulante, não incomodava, não enjoava e nem bebia muito. Mas como não adianta elogiar muito, lá pelas tantas da manhã, no meu turno, o bicho parou de funcionar, perdendo totalmente o rumo e a utilidade. A partir daquele momento, foi pilotar o Zimbros na mão mesmo. Uma chatice, já que à noite nós temos apenas a bússola como referência para orientar nosso rumo.

A terra nos apareceu com o amanhecer, estávamos ao sul do Arraial da Ajuda e queríamos ver o Monte Pascoal, a terra avistada pelos europeus quando chegaram aqui pela primeira vez. Mas há controvérsias sobre este assunto, pois é praticamente certo que os portugueses já haviam estado no Brasil antes. Um dos defensores desta tese é meu caro amigo Dalmo Viera Filho. Do alto da sua erudição, ele sustenta: Bartolomeu Dias (que morreu na expedição chefiada por Cabral) chegou ao Cabo da Boa Esperança fazendo o penoso caminho litorâneo, quase à vista da África. Era o percurso de todos os capitães portugueses deste os tempos do Infante, com ventos e correntes desfavoráveis. As viagens lusitanas tinham uma certa freqüência, mesmo durante reinados menos propensos às aventuras marítimas. Exatamente quando alcançaram o sul da África, abrindo o caminho para as Índias, este ritmo acabou, havendo um hiato de 10 anos entre as expedições de Bartolomeu Dias e do grande Vasco da Gama, nome que os séculos tornariam glorioso, mas que Eurico Miranda acabaria por afundar na lama.

Por quais rumos seguiu Vasco da Gama? Pelo caminho do mar, muito afastado da costa da África, a ponto de ter visto os mesmos sinais de terra encontrados por Cabral. Camões, o poeta maior da nossa língua, quase não fala de Cabral, mas diz sobre a singradura de Vasco da Gama e esses sinais: a terra do Brasil pressentida... Ele sabia do Brasil! Como? Quando teriam os portugueses aprendido que era mais fácil fugir do litoral africano? Muito provavelmente em expedições anteriores, realizadas logo depois do retorno de Bartolomeu Dias. Um dos comandantes a ter chegado por aqui, pode ter sido Gonçalo Coelho. Outro indício: quando Colombo morreu, depois de quatro viagens ao Caribe, ainda acreditava ter chegado ao oriente. Na carta de Caminha, que o Dalmo tem como livro de cabeceira, no original, os portugueses não levantam a menor suspeita sobre este assunto, sabiam perfeitamente que estavam em um mundo novo: desde quando?

Sem o piloto automático funcionando, facilidade impensável no tempo dos descobrimentos, tivemos que por as mãos à obra e trabalhar em turnos. O dia nublado e chuvoso não nos permitiu avistar o Monte Pascoal, mas a navegação ainda era boa, pois o vento soprava à favor e o mar estava camarada. Além disso, faltavam apenas algumas horas para acessarmos nosso destino, a tranqüila Barra de Santo André, pouco ao norte de Santa Cruz de Cabralia. Estive ali há uns anos e me apaixonei pelo lugar, fazia tempo que queria retornar. Além do mais, esperava encontrar o Jürgen, um velejador alemão que, dizem por lá, chegou junto com a frota de Cabral. Um bom amigo num porto estrangeiro é sempre uma grande alegria.

A entrada da barra é muito justa, mas nós tínhamos alguns way-points de acesso e eu pensava que já conhecia as pedras do caminho. Por via das dúvidas, telefonei ao Jürgen e para mais um prático que de lá, para nos dar suporte. Ninguém atendeu, tentei pelo VHF e também nada. Porra, tínhamos que entrar com a maré alta, e aquela era a hora. Se não desse, só dali a 12 horas, portanto não tive dúvidas e mandei ver. O mar estava tranqüilo e ao abrigo dos recifes ficou mais calmo ainda. Vagarosamente nos dirigimos rumo a barra do rio.

O litoral todo da Bahia é formado por recifes que correm paralelos à praia. Como é plano, os rios serpenteiam pelo litoral, desaguando finalmente no mar, entre a praia e o recifes. A demanda destes cursos, muito perigosa e pouco cartografada, requer prática e só deve ser tentada com maré alta. Perfeito! Osvaldo Hoffmann Filho, marinheiro, prático e sabidão do bairro mandou ver. Não deu outra, de repente o Zimbros, com um barulho dos infernos, bate numa pedra submersa. A primeira batida foi com a quilha. Imediatamente virei o leme para dar meia volta e o barco girou com a quilha por sobre a laje e bateu com o leme, entortando-o. Fiquei sem leme no meio das pedras, puta-que-pariu que barbeiragem!!! Como a maré estava vazando, fomos levados para fora das lajes, ajudados também pelo motor. Nos livramos, mas ainda sem poder ir a direção alguma. "Jogar âncora, jogar âncora" gritei branco de susto. Desta vez meus anjos da guarda não colaboraram.

A Bahia é a terra de todos os santos e o meu orixá é Ogum, rei da guerra, da demanda e da luta. Herdei dele o tipo. Adoro o perigo e o movimento. Impaciente, não gosto de esperar e, muitas vezes, tomo decisões precipitadas. Mas tenho o corpo fechado, olho-grande não me pega. Todas as merdas que acontecem comigo são culpa minha mesmo. E ali estava uma bem grande. Pelo rádio pedi ajuda e fui prontamente atendido por uma escuna de passeio que veio em nossa ajuda. Rebocados entramos no rio, uma vergonha! A poucas centenas de metros barra adentro existem alguns restaurantes em frente dos quais há alguns veleiros ancorados. Largamos ferro ali, e só faltou chorar.

Puta merda que pepino, perdi o leme, nunca tinha me acontecido nada parecido. A moral à bordo chegou a profundidades abissais. Lembrei-me da minha primeira chegada ali em dezembro de 2000. Que diferença de ânimo. Sabe quando você faz uma burrada, daquelas injustificáveis, assim como bater com o carro no portão da garagem? Era desta forma que eu estava me sentindo. Surgiram milhares de alternativas que eu poderia ter feito: ter ido dez metros mais a boreste, esperar pelo prático, ter seguido direto para Salvador... Mas não tinha jeito, os danos estavam feitos e o negócio agora era administrar o prejuízo. Mas fazer o que naquele fim de mundo sem estrutura nenhuma?

Liguei para Porto Alegre e falei com o Ricardo Weber, o construtor do barco. Quando contei do ocorrido, ele não acreditou e ficou sem saber que solução me dar. Comecei a ficar preocupado de verdade! Em pouco tempo recebi várias ligações dos amigos de lá, tentando me ajudar. Germano, Marcio, Alfredo... Pelo menos era um conforto! Foram muitas as sugestões, mas quem matou a charada foi mesmo o Ricardo. O negócio era encalhar o Zimbros e tentar cortar a parte do leme que estava presa ao casco. Mas como é que eu iria conseguir fazer um barco de seis toneladas ficar em pé sobre sua quilha? Teria que improvisar uns cavaletes de madeira apoiando seu costado neles para não cair de lado. Uma operação de muitos dias, para dizer o mínimo, e nós não tínhamos todo esse tempo disponível.

Depois de muitas idas e vindas sem solução, liguei para o Jürgen, consegui encontrá-lo em Salvador, e pedi a ele o nome de alguém que pudesse me ajudar nesta operação de resgate do pobre Zimbros. O incrédulo alemão me recomendou que procurasse o Carlindo, um nativo velejador e professor de vela que morava por alí. Emprestei uma bicicleta de uns guris e saí em busca do tal cara. Encontrei-o em casa, poucos minutos de onde estávamos ancorados. Contei-lhe o ocorrido e ele deu a solução no ato: Deveríamos prender o barco na maré cheia com as adriças, uma em terra e outra n'água, escorar sua popa, esperar a vazante e fazer o serviço. Simples não?

Assim foi, com ajuda dele, encalhamos o barco na maré cheia, paralelo à margem. Duas âncoras à bombordo seguravam a adriça da grande dentro do canal. Outra adriça fixava por boreste o barco em terra. Agora seria só esperar a maré vazante, prevista lá pelas dez da noite. Neste intervalo fomos à Porto Seguro comprar o material necessário aos reparos, Guto, eu e mais um amigo que apareceu para dar ajuda, o Iêns, um velejador lá de Vitória. Mas o relógio corria contra nós, pois teríamos até as seis da tarde para fazer todas as compras e já eram quatro. Rápido tripulação!


Barra de Santo André: o Zimbros encalhado.

A equipe funcionou bem e conseguimos tudo o que precisávamos: serras, parafusos, cabos-de-aço, chaves sobressalentes e um montão de tralhas extras. Mas chegamos ao barco umas dez da noite. Escuro, frio e cansados, aquela não seria uma boa hora para nossa tarefa. Deixamos para a manhã seguinte a operação. Cedo, já estávamos n'água, Guto, André e eu na função de cortar o leme. Não foi difícil já que ele é feito de fibra e a parte que teve que ser retirada era pequena. O pior foi mesmo o frio, mas conseguimos neutralizá-lo com algumas doses de conhaque. Agora nos restava esperar a maré encher e verificar se nosso conserto tinha funcionado.

Me valeram as orações, pois o leme voltou a trabalhar normalmente. Foi uma alugação dos diabos, mas a tripulação mostrou seu valor. Estávamos prontos para partir com a maré, e não podíamos perder mais tempo. Ficamos parados dois longos dias e tínhamos um bom caminho ainda até Salvador. Valeu pela experiência o desastre causado por mim. Nunca mais adentro uma barra não sinalizada sem um prático local. Ademais, os longos dias passados em Cabrália e em Santo André nos tinha mostrado um lado pouco conhecido aos passageiros mais apressados: a amizade e a atenção dos amigos. Mais uma vez tenho que dar os parabéns ao Guto, ao André e ao Tadeu pela dedicação, sem eles acho que estaria ainda naqueles pântanos de agonia. Velejar é sofrer e gozar juntos!

(final da parte 10)