Parte nove

Vitória, madrugada de domingo dia 17 de agosto. Um céu cinza chumbo que ameaçava cair sobre nós sem piedade e um vento sul forte, eram as nossas companhias no momento de largar amarras do Iate Clube. Enquanto deixávamos as águas abrigadas, preparamos tudo para agüentar o mau tempo que nos esperava. A saída foi um pouco chata, pois tivemos que ficar atento às lajes que existem por lá e a tripulação ainda estava desacostumada a lidar com as velas e com o plotter. Mas o astral estava bom.

Com destino a Salvador, desta vez me faziam companhia três novos velejadores. André, um amigão de Fortaleza, José Tadeu, outro amigo, e o Guto meu irmão que mora em Floripa. Era uma tripulação heterogênea, não se conhecia entre si, e nunca tinham navegado no Zimbros. André e Tadeu são, como eu, arquitetos. É muito arquiteto à bordo e eu já estava preparado para as tergiversações de sempre. Guto é designer e trabalha há anos como professor da Universidade Federal de Santa Catarina. Equipe de primeira, já que todos estavam tinindo de vontade de se fazerem ao mar. Na véspera dei as instruções básicas de segurança e de organização para que pudéssemos ter, nos próximos oito dias, a melhor convivência possível. Mas eles, naturalmente, nem prestaram atenção.


André, Tadeu (na úncia vez que lavou louça) & Guto.

Armamos uma Asa de Pombo e, quando deixamos as águas abrigadas do porto, é que pudemos ver o que nos esperava. O mar estava grande e desencontrado e o sul roncava forte, com mais de 20 nós. Estávamos com toda a vela grande aberta e não demorou muito para que tivéssemos que rizá-la. Não foi uma operação fácil, já que era nossa primeira manobra juntos. E, aqui entre nós, falar em enrolador da escota, escota de boreste, escota da grande, adriça da grande, amantilho do pau, cabo do rizo e por aí afora, e querer ser compreendido não é fácil. Nem eu me entendo direito algumas vezes, é corda para enforcar todo um batalhão.

Para facilitar nossa operação, tivemos que aproar o barco no vento. Isto fez com que balançasse muito, com as ondas entrando pela proa. Parecia que o mar tinha aumentado muito de tamanho, afinal, antes íamos com vento de popa, que é um pouco mais confortável. De repente uma onda sacana embarcou pela proa e, adivinhe, nos pegou em cheio no cockpit. Parece que ouvi uma risadinha de Netuno, he, he, he....Puta merda! Não deu nem pra reclamar, tive que subir rapidamente no convés, ir até o mastro e baixar a grande o quanto antes. Ufa, deu certo! Mas eram só oito e meia da manhã e, como estava sem impermeável, fiquei com toda minha roupa molhada. A moral a bordo baixou rapidamente.

Fui para dentro da cabine checar o plotter e as cartas náuticas. Na saída de Vitória, no rumo de Abrolhos, há uma laje submersa bem perigosa, e estávamos perto da mardita. Demorei muito para localizá-la na tela e, num instante, acabei enjoado. Que merda! Era só o que me faltava. Não deu outra, corri para fora e devolvi meu café da manhã aos peixes do litoral capixaba. Bah, que sensação horrível. Foi aí que a moral da tropa baixou de vez. Imaginem o choque da tripulação ao ver seu capitão botando os bofes pra fora, assim logo de cara numa viagem de uma semana?

Mas foi um mal-estar passageiro e, num instante, fiquei bom de novo. Respirei fundo, voltei pra dentro da cabine e coloquei um cover de Ticket To Ride com o Charlie Garcia a todo volume. Foi um choque! De repente todos começamos a cantar juntos e aquela música deu a levantada no astral que precisávamos. Adoro estes altos e baixos que se vivem a bordo. Em alguns momentos sente-se um tédio sem tamanho, e no segundo seguinte, inverte-se tudo, passa-se por uma chacoalhada total, e finalmente sente-se um prazer incrível. Coisa para loucos, não?

Eram umas nove da manhã quando cruzamos o paralelo 20. De repente pudemos ver a pouca distância de nós, a bombordo, um jato de água vindo da respiração de uma enorme baleia e de seu filhote. Que coisa linda, os marabalismos que estes bichos fazem na superfície. Nunca os tinha visto tão próximos, nem tão grandes. São um pouco assustadores pelo seu tamanho. De julho a novembro recebemos em nosso litoral a visita desses animais que podem chegar a 40 toneladas e medir 16 metros! Eles vêm da Antártica em busca de águas mais quentes e calmas para terem seus filhotes. O Banco de Abrolhos é a principal área de concentração de Jubartes no Atlântico Sul Ocidental. A estimativa é que aproximadamente 1.600 baleias visitem a região no nosso inverno. Descobrir que todas essa baleias são baianas foi uma boa surpresa para mim.

Três da tarde, as velas estavam bem reguladas e andávamos muito bem. Sete, oito, nove e até dez nós de velocidade, uma delícia! Mas o mar não dava folga, continuava ruim. E o dia, então. Parecia que o céu ia desabar, feio mesmo. Todos estávamos com fome e sem coragem de descer para a cozinha. Sobrou para quem? Pra mim é claro. Fui lá e aqueci dois estrogonofes de frango, destes prontos da Sadia, e fiz um arroz nas coxas, mas que, haja vista nossa situação, foi o melhor das redondezas. Ninguém reclamou e todos comemos com prazer aqueles pratos bem quentinhos e revigorantes. “Tadeu você gostaria de estar aqui ou numa fila de um restaurante lá em Santa Felicidade?” perguntei para ele. Os risos, a música e a comida quente fizeram a tripulação aos poucos retomar a fé no seu comandante.

Anoiteceu e íamos no mesmo ritmo, vento e mar fortes. Um pouco mais organizados, conseguimos nos revezar em turnos, já que a noite ia ser longa. Pude dormir um pouco, salgado mesmo, e me recuperei bem. Nossa idéia era chegar em Abrolhos ao amanhecer, mas conferindo no plotter, pude ver que nossa velocidade era maior que o previsto, o que significava chegar durante a noite no arquipélago. Era tudo o que eu não queria. O Zimbros tem uma âncora de 12 Kg com 15 metros de corrente, ideais para as enseadas de Santa Catarina, mas não muito confiáveis nas profundidades baianas. Meu plano era pegar uma das bóias que existem ao norte da Siriba, uma das ilhas do arquipélago, e para isso tínhamos que chegar com luz. Resolvi enrolar toda a genoa, para diminuir o pique. Mas, por incrível que pareça, a velocidade reduziu pouco, de oito para sete nós, quase nada. Assim prosseguimos nesta batida.

Às três da manha já víamos as luzes do farol da Ilha de Santa Bárbara, a principal, mas as coisas ficaram mais pretas. O vento aumentou e o mar piorou. Caramba, que tribuzana! O negocia era encarar, e assim foi. A aproximação com as ilhas foi meio complicada, pois o plotter não tem uma carta detalhada do local. Amanhecia, mas o contorno das ilhas ainda era muito prejudicado pelo lusco-fusco. Abaixamos a vela grande, ligamos o motor e seguimos com muito cuidado, navegando entre os recifes e baixios da área. Finalmente pudemos avistar as bóias e nos aproximamos com cautela. Apanhá-las foi um sufoco. Pesadas, não conseguimos tirá-las d’água e tivemos que laçá-las como caubóis. Ainda bem que deu certo de primeira, pois já estava pensando em sair dali e jogar âncora no lado norte da ilha principal.

As ondas batiam enfurecidas nos recifes à frente e na popa. Próximos a nós, sobre os rochedos da Siriba, um casco de veleiro naufragado nos mostrava que o lugar não era para brincadeiras. Uma perspectiva não muito agradável para aquela hora da manhã. Pedi que descessem o bote e que alguém fosse até a bóia para colocar mais um cabo de amarração. Guto, de cuecas, rapidamente resolveu a situação. A partir de então, seria só correr para o abraço. Mas o mar, as ondas e o vento não encorajaram comemorações, estávamos muito cansados e tensos com a chegada. Tomamos um merecido banho quente, fizemos um pequeno lanche e nos abrigamos no calor de nossos cobertores. Antes, porém liguei os alarmes de profundidade e de posição para dormir um pouco mais tranqüilo. Foram 170 milhas desde Vitória, completadas em 24 horas! Não vou dizer a vocês que foi um passeio descontraído, foi sim uma batalha ganha com valentia. Parabéns à tripulação!

Acordamos poucas horas mais tarde, mas completamente refeitos da noite anterior. Finalmente chegamos a Abrolhos e o negócio agora era aproveitar a estadia. Mas o dia não estava ajudando, nublado e com um vento incômodo. Arrumamos um pouco a baderna de bordo, fizemos um belo almoço. André mostrou que também sabe tudo de cozinha. Ele fez uma salada de maionese que ficou muito boa e acabou sobrando para outras refeições. Uma ótima dica para se ter no barco é batata. Cozidas, podem ficar armazenadas por dias e serem usada numa infinidade de opções.

André Grieser é de Fortaleza e um grande amigo que conheci quando morei lá no começo dos anos 80. Casou-se com a Márcia, também arquiteta, e minha anfitriã nos tempos em que eu ia ao Ceará passar férias. Adoro eles, e nunca perdemos contato nesses anos todos. Ele soube das minhas aventuras pelos meus relatos, e mandou-me um e-mail oferecendo seus serviços. Topei na hora. André tem um grande talento, sabe resolver problemas e esta fazendo, há três anos, no quintal de sua casa, um pequeno veleiro de 14 pés todo em madeira. Além disso é um pensador de primeira.


André Grieser: arquiteto, construtor de barcos, taifeiro, mecânico e livre pensador.

Depois dos mergulhos e do almoço, reuni o conselho para deliberamos sobre o nosso destino. Dali iríamos até Cabrália, ao norte de Porto Seguro, a 110 milhas e 16 horas de navegada. Conferindo as alturas da maré para o dia seguinte, concluímos que deveríamos partir logo, tendo em vista que a entrada da Barra de Santo André teria que ser com maré alta. Portanto não disporíamos de muito tempo naquele paraíso.

Abrolhos foi visto pela primeira vez em 1503, pela expedição do famoso navegador português Gonçalo Coelho, a mesma que descobriu Angra dos Reis. Junto com ele estava Américo Vespúcio que anotou na sua carta de navegação: "Quando te aproximares da terra, abre os olhos". O aventureiro queria designar uma área cheia de recifes de corais de origem vulcânica, que chegam a ter 15 Km de extensão por 5 Km de largura, localizado à cerca de 70 Km da costa baiana. Em 1983 a área passou a ser o primeiro parque nacional marinho do Brasil. Estive ali pela primeira vez há três anos e lembro-me da impressão que me causou a beleza do lugar sobretudo a transparência de suas águas, que tem uma visibilidade em torno dos 15 metros. São quatro ilhas, Redonda, Siriba, Guarita e Sueste, de uma beleza inóspita, pois não há arvores lá. Na Sueste há uma única palmeira, parece que plantada de propósito. Discutimos sua natureza. "É uma instalação minimalista à Mies van der Rohe", concluímos. Para quem não sabe, o grande arquiteto foi um dos inventores da arquitetura moderna e também quem definiu o conceito de que, em arte, menos é mais. É papo de arquiteto, eu avisei lá no começo.

Mas tínhamos de partir, infelizmente. Arrumamos tudo para agüentar mais uma noite de sofrimento, fizemos algumas imagens e demos adeus àquele paraíso. Ventava um sul mais brando que na véspera e o mar estava com uma cara um pouco mais simpática, mas ninguém acreditou muito naquelas facilidades. Iríamos de encontro à terra avistada por Cabral cinco séculos antes. Muita coisa mudou desde então, mas estávamos felizes de poder navegar pelos mares da Bahia. Infelizmente estas emoções iriam durar pouco.


Abrolhos: O farol da Ilha de Santa Bárbara visto do norte

(Final da parte nove)