Parte oito


Depois de perder um dia todo resolvendo uma entrada d’água no Zimbros, partimos de Cabo Frio na tarde de 26 de julho de, um sábado, para Vitória no Espírito Santo. Os elementos estavam a nosso favor, temperatura 21º C, vento sudoeste de 10 nós e todas as encrencas eliminadas. Armamos as velas em Asa de Pombo, colocamos rumo 80º no piloto automático e partimos. Vitória estava a 170 milhas e a previsão de chegada era para o domingo à noite, se tudo desse certo.

Prosseguimos tranqüilos por todo o resto da tarde. Quando anoiteceu o vento diminuiu e ligamos o motor numa rotação baixa para ajudar na vela. Uso sempre este artifício para ganhar terreno. Nas noites de inverno e sem lua, é possível enxergar todo o firmamento em detalhes. Gosto de identificar as constelações do Cruzeiro do Sul, as Três Marias e o Escorpião e ver seu movimento no céu no transcorrer da noite. O mar também brilhava, e a esteira deixada pelo Zimbros na água cintilava com a luz das ardertias.

Ao longe podíamos ver na posição de uma hora (15º à boreste na proa) muitas luzes que pareciam ser de uma plataforma de petróleo com alguns navios ao seu redor. Esquisito, pois não lembrávamos de ter visto uma plataforma naquele ponto desde a última vez em que passamos por ali. Além do mais era muito raso para uma encrenca daquelas. Mas prosseguimos tranqüilamente no rumo ao Cabo de São Tomé.

As nove da noite estávamos a 20 milhas no través de Macaé, e a medida que chegávamos perto das luzes algo pareceu errado. Um dos navios, conseguimos identificar com dificuldade, era um rebocador enorme e estava em movimento, passando do nosso boreste para bombordo, ou seja navegava da direita para a esquerda em relação a nós. A super estrutura, que parecia um navio estacionado, estava à boreste do Zimbros. Diminuímos a marcha e tocamos pela popa do rebocador, tentando passar entre ele e aquilo que parecia ser um navio estacionado. Quando estávamos a algumas centenas de metros deles, no nosso rumo, foi que conseguimos decifrar o enigma. Um cabo de aço monumental unia as duas embarcações! A porra do rebocador estava transportando a mega plataforma de petróleo, que tinha a forma de um navio. Seu destino era Macaé. Deu um frio na espinha, pois íamos passar bem entre eles. Imediatamente mudamos o rumo e nos afastamos daqueles monumentos agourentos da Petrobrás. Foi um susto!

Desci imediatamente para dentro da cabine para tentar conferir as mensagens que eram ouvidas pelo rádio VHF, que estava ligado. Nada! Apenas papo furado entre as embarcações. Tinha apenas um oficial de merda, com sotaque malandro, querendo saber a hora de chegada a Macaé, para poder ir em terra com a tripulação, só isso. Fiquei muito puto! Ok, nós não estávamos certos, mas uma enorme operação de transporte de uma plataforma de petróleo numa região cheia de pesqueiros sem ninguém deles fiscalizado o tráfego de outros barcos, era o fim da picada. Eles não tinham sequer nos visto e, se isto aconteceu, não tomaram o menor conhecimento da nossa presença. Poderiam ter nos passado uma mensagem pelo rádio, uma bronca ou coisa parecidam mas nada, só conversa fiada. Cheguei a uma importante conclusão: no mar a noite, a menos que seja por alguma emergência, é imperativo manter-se afastado de qualquer luz que brilhe, não importa o tamanho nem o local.


En el mar hay que tener los ojos muy abiertos

Excluindo-se este incidente o resto da travessia seguiu sem sustos. Às três horas da manhã cruzamos o Cabo de São Tomé com tempo bom e brisa sul. Uma hora depois, mudei o rumo para 38º direto para Vitória, que estava a 110 milhas à frente. Teríamos ainda mais umas 15 horas de viagem. Às cinco cruzamos o paralelo 22, e fui dormir com os primeiros raios do domingo. Deitei pensando naquele cabo aço partindo ao meio o mastro do Zimbros.

Quando acordei eram oito da manhã, estávamos com Campos a vinte e quatro milhas pelo través. Nesta parte da costa, as profundidades são relativamente baixas, de 12 a 15 metros. Com ventos fortes é comum a formação de ondas violentas, dificultando muito a navegação. Mas não era o nosso caso, o dia estava radiante e ventava uma fraca brisa sul. Íamos apenas no motor. Ao meio dia começaram a aparecer ao longe pequenas trovoadas com chuvas. Betinho contou que quando quer ir atrás de vento ele sai de encontro a estes áreas de tormenta. Procede, pois onde há chuva, há vento. Estas regiões são áreas de baixa pressão e sempre é possível encontrar vento por ali. Raios também.

Um dos grandes medos de quem navega são os raios. Ninguém gosta de falar muito, mas imaginar uma descarga destas em cima da gente é de arrepiar. Já ouvi muitas histórias sobre isto. Parece que o mar é um grande para-raio e as chances de ser atingindo é remota. Dou três batitinhas na madeira e afasto o pensamento para outra coisa. Sempre debaixo de uma trovoada evito pegar nas partes metálicas do barco. O Fipa, skiper do Athena, não usa nem cinto de segurança para não ter que prendê-lo no estai de popa. Ouvi certa vez, um velejador lá de Floripa contar que foi atingido por um raio numa tempestade de verão. Disse que no momento, ouviu um estrondo monstruoso que o deixou atordoado. Sem perder a consciência, ele, na hora, não entendeu bem o que havia se passado. Aos poucos foi colocando as idéias no lugar e, depois de descobrir que todos os seus instrumentos eletrônicos estavam queimados, concluiu que era um raio. O prejuízo foi grande, mas o cara viveu para contar a história. Betinho diz não temer raios, mas por via das dúvidas, deixa seu barco bem ao lado do Paratii II, que é equipado com para-raios.

Aos poucos nos aproximamos da costa e foi possível enxergar novamente os contornos da Serra do Mar, que no Espírito Santo volta a se aproximar do litoral. Deixamos ao lado as enseadas de Guarapari e acertamos o piloto no rumo de Vitória. Ao anoitecer cruzamos a confusão de luzes de sinalização do porto. Como eu fazia a navegação apenas pelo Plotter, tive dificuldade em achar as bóias do porto pela razão de que, quando você muda a escala da carta, é muito difícil achar os detalhes apenas correndo com a seta pela tela. Quanto maior a escala, menor a área cartografada que aparece. Foi uma confusão no meio de tantos navios e lajes. Aprendi mais uma lição: antes de entrar em algum porto é melhor já deixar todos os pontos e rotas importantes plotados e nomeados na carta eletrônica.

Passei um rádio para o Iate e comuniquei nossa chegada. Era noite de domingo e o risco de não ter ninguém de serviço no clube era grande. Lembrei-me do Iate de Paranaguá aonde cheguei na mesma circunstância com a vazante da maré muito forte. Foi um desastre. Com um único funcionário me ajudando a colocar o barco entre duas vagas muito estreitas, não deu outra., o Zimbros atravessou na correnteza e foi de encontro aos barcos que estavam parados. Resumo: o apoio do guarda-mancebo entortado, a borda falsa amassada , uma defensa na água e muitos palavrões no ar. Mas a culpa não foi do coitado, um ignorante, mas minha, que deveria ter abortado a aproximação.

Mas não estávamos no litoral do Paraná e sim em Vitória e o pessoal de terra nos ajudou com muita atenção. Betinho assumiu o controle dos cabos e estacionou o barco com muita classe. Aprendi mais uma com ele: quando se laça a bóia da poita, a que vai prender a proa, deve-se passar o cabo pela mão da bóia, jogá-la de volta na água, e trazer ao convés a ponta do cabo. Só então, de pé e confortavelmente, deve-se fazer o nó, com uma laçada bem grande. Eu procurava prender a bóia com muito esforço no cunho da proa e fazia o nó bem próximo a ela. Era um desconforto tanto na hora de chegar como na hora de sair. Grande Betinho!


O Zimbros em Vitória ao lado de uma cópia do Spray.

Paramos ao lado de um veleiro que tinha o casco copiado do famoso Spray, do Joshua Slocum. Eram 19:30 horas e tínhamos percorrido 185 milhas desde Cabo Frio e 340 de Angra dos Reis. Estávamos cansados mas satisfeitos. Acordamos na segunda-feira e começamos a preparar nossa volta para o final da tarde. Contatei o Glauber, dono de uma loja de material náutico dentro do clube, que nos atendeu muito bem e nos deu boas dicas sobre a nossa estadia. Ele é um bom contato em Vitória e seu telefone é (27) 9982-5434. Almoçamos uma moqueca capixaba (uma redundância, segundo eles, pois a autêntica moqueca só pode ser de lá), arrumamos as malas e em poucos minutos, estávamos no Aeroporto. Estava ansioso para voltar, sentido falta dos meus filhos e louco para abraçá-los. "Mar é morada de saudade" diz uma música da Cesária Évora.