Parte sete

Depois de uma noite de cão vindos de Angra dos Reis, jogamos ferro frente à Praia dos Anjos em Arraial do Cabo, litoral leste do Rio de Janeiro. Estávamos cansados e tínhamos vencido as últimas 150 milhas em incríveis 27 horas, com velocidade média de 4,7 nós (pouco mais que 8 Km/h). Nas águas calmas da baia e à luz do dia pude ver todos os estragos causados no barco, além da infiltração de água. O burro, um alavanca metálica que segura a retranca, estava quebrado e o cabo de aço do guarda-mancebo tinha se soltado. Parecia que tínhamos vindo de uma batalha. O bravo Zimbros dava pena com tantas avarias. Mas o pior de tudo era a inundação no porão. Não conseguimos descobrir por onde a água entrava. Um problema muito grave e de difícil solução.

Já dizia Murphy que a melhor maneira de você encontrar algo que perdeu é procurar outra coisa. Assim resolvemos deixar para lá o problema e descansamos um pouco. Afinal tínhamos dormido algo em torno de três horas durante a noite toda. Era sexta-feira, o dia estava lindo e podíamos ver o povo chegando na praia bem na nossa popa. Limpamos o barco, esgotamos toda a água do porão e Betinho fez um belo e merecido almoço. Ouvindo um jazz da Diana Krall, abrimos umas cervejas, as primeiras em muitas horas, e relaxamos. Tínhamos chegado e estávamos em segurança do vento nordeste que ainda soprava forte.


Mais uma gracinha do Ramina

Esta região é, junto ao Cabo de São Tomé, o ponto em que o litoral brasileiro faz uma inflexão em direção ao nordeste. Morfologicamente foi criada há milhões de anos como resultado das correntes marítimas que incidiam sobre estas costas. Neste processo contínuo, o fluxo implacável depositou areia nos lugares mais rasos e bloqueou as águas dos rios dando origem às lagoas de hoje. Outra curiosidade importante é o fenômeno da Ressurgência. Trata-se do encontro de duas grandes correntes marinhas, as Falkland, fria vinda uma do sul, e a Equatoriana, quente do norte. O movimento destas massas arrasta consigo grandes quantidades de nutrientes, formando um imenso nascedouro, responsável pela manutenção de diversas espécies. Cabo Frio é uma das regiões mais piscosas do litoral brasileiro e convivem ali uma fauna característica tanto do sul quanto do norte do país. Legal não? O lugar é mágico mesmo!

Como parte de uma esquadra portuguesa, Américo Vespúcio desembarcou em 1503 na Praia dos Anjos. O cabo tornou-se então um dos pontos mais importantes do sudoeste da costa brasileira. Era o primeiro ponto a ser avistado do oceano pelos marinheiros, e isto fez com que figurasse em todos as cartas marítimas importantes da América do Sul no século XVI. Vespúcio, vocês conhecem, foi o cara que deu nome ao nosso continente. Sabem porque? Ele era um falastrão, escrevia todas suas aventuras, exagerando e fantasiando muito os fatos. Foi um dos meus precursores. Na época, a imprensa tinha acabado de ser inventada e a publicação destes relatos de viagem fazia o maior sucesso na Europa. Eram baratos e contavam aventuras alucinantes de um mundo utópico, mas povoado por monstros e sereias. Um sucesso editorial consumido avidamente pelo imaginário de um povo assolado pela ignorância, pela fome e pelas doenças. Assim este mundo distante e mítico passou a ser chamado pela plebe e pelos nobres como a terra do doidão Américo Vespúcio. Daí para América foi um pulo.

Levantamos âncora lá pelas duas da tarde e nos dirigimos à Cabo Frio, pouca milhas ao norte. Lá existe uma sub-sede do Iate Clube do Rio de Janeiro e é um excelente lugar para reabastecermos e fazermos os reparos necessários e, o que era melhor, poderíamos dormir lá. Em menos de uma hora nos deparamos com a barra da Lagoa de Araruama, em cujo canal localiza-se a marina. Passei um rádio para o clube anunciando nossa chegada e pedindo permissão para atracarmos. Nem todos os navegadores têm este hábito, que considero essencial. È um principio básico de boas maneiras, pedir licença para chegar na casa dos outros. Mas o cara que escutou no outro lado da linha não entendeu bem, e ficou meio confuso quando disse que gostaríamos de abastecer e perguntei qual seria o melhor bordo para pararmos. Existe ali uma correnteza muito forte e o vento não tinha acalmando ainda. Nestas condições é muito difícil fazer uma aproximação com segurança. O cara respondeu como quem quer se livrar do abacaxi, “O posto já está fechado, mas vocês pode parar por estibordo”. Disse ok e desliguei o rádio. Quando subi para o convés, caiu a ficha. “Que lado é estibordo mesmo Betinho?” perguntei. É um termo antigo, não existe mais e foi substituído pelo boreste, o lado direito da embarcação, para que não se confundisse com o bombordo. Eles falam grego por aqui, pensei.

Paramos no pequeno, mas confortável porto por bombordo e, ao contrário do eu queria, o mesmo funcionário nos indicou um local longe do posto de abastecimento. Como galo vira frango em terreiro alheio, fiquei quieto, joguei as amarras e prendemos bem o Zimbros de encontro ao caís de madeira. Finalmente pisei em terra e tudo pareceu balançar um pouco. Agradeci, me apresentei e ouvi estupefato do rapaz: “Se vocês querem abastecer o posto ainda não fechou!” Não entendi nada. Porque o cara, primeiro disse que o posto estava fechado e depois não nos permitiu parar ao lado da bomba? Deixo para lá, afinal estamos noutro país mesmo. Abastecemos com as nossas garrafas de plástico, destas de vinte litros, carregando de lá para cá todo o combustível que precisávamos, mais ou menos 60 litros.


O Zimbros parado por bombordo no Iate de Cabo Frio

Anoitecia rápido e fui atrás do problema da entrada de água. Foi uma trabalheira, desmontar todos os paineiros e móveis da cozinha para procurar de onde vinha tanto mar. Após várias horas e exercícios inacreditáveis de contorcionismo achei que tinha encontrado a razão: uma infiltração na saída do esgoto da pia da cozinha, supus. Sequei toda a umidade, limpei a superfície interna da válvula e passei um tubo inteiro de silicone. Depois disto relaxei, liguei para casa e para todo mundo dizendo que estava vivo e em segurança. Tomamos banho e nos preparamos para uma balada em Búzios, afinal de contas era sexta-feira e a noite estava apenas começando. E o que era melhor, o vento começou a soprar no quadrante sul, ideal para nosso rumo.

Armação de Búzios é um lugar muito charmoso e caro. Pode-se achar lá todos os tipos de hotéis, restaurantes, butiques e botecos. Um povo bonito e charmoso passeia despreocupadamente pela rua principal, fechada ao trânsito de veículos. É um bálsamo para os olhos, meninas de todas as cores e formas. É possível a ancoragem frente à Praia dos Ossos, bem perto do agito da cidade. Estive ali há anos com o Juca e o Marimba, é desconfortável, pois o nordeste bate forte lá. Optamos por um táxi mesmo. Foram quarenta reais e alguns sufocos para vencer os quilômetros que separam Búzios de Cabo Frio. É uma parada imperdível para quem vem do oceano. Comida boa, bebida gelada e música sofisticada era tudo o que queríamos naquela hora, e assim foi com crepe, vinho branco e jazz. Às duas da manhã, quase dormindo nas esquinas, pegamos uma van e voltamos à nossa casa flutuante.

Acordei mais cedo do que desejava com a luz que invadia minha cabine e com os passos do Betinho que já estava na função da partida. O vento tinha mudado para sul e tudo parecia em ordem, estávamos abastecidos, o vazamento havia sido controlado. Seria só soltar as amarras para Vitória, disse adeus ao clube e pus força a vante no motor.

Mas ainda não era nossa hora. Já tínhamos andado um bom pedaço e o barco continuou a fazer muita água, e não era pela saída do esgoto da cozinha como eu pensara. Mergulhei no mar para verificar se não havia nenhuma avaria no casco, mas nada! O que fazer agora? Confesso que me deu um desânimo de matar, queria desistir de tudo. Mas não é bem assim, a encrenca estava ali e precisava ser resolvida. Há horas em que se tem que pegar o boi pelo chifre. Decidi voltar à Cabo Frio e aí entrou o Betinho com toda sua sabedoria náutica: “Temos que achar esta droga de qualquer jeito”. E assim foi, voltamos ao iate e nos preparamos para desmontar todo o barco se preciso.

Uma vez no clube, fui à cidade comprar materiais indispensáveis para quem sai no mar. Braçadeiras, mangueiras, uma bomba d’água sobressalente, impermeabilizantes, câmaras velhas de bicicleta e, importantíssimo, um pequeno espelho para que pudéssemos enxergar dentro das cavernas inacessíveis do barco. Foi tiro e queda. Betinho com ajuda do espelho e da sua experiência conseguiu achar o vazamento. Era na junta do escapamento com o silencioso. A braçadeira que une os dois tinha se soltado com as porradas que o barco levara na noite anterior. Por ali passa a água que refrigera o motor e como não estava bem preso, ela vazava aos baldes com o motor ligado. O reparo foi fácil e em breve demos adeus ao clube pela segunda vez no mesmo dia. Eram duas e meia da tarde e na nossa proa tinham mais uns trezentos quilômetros até Vitória.