![]() |
||
Partimos, Betinho e eu, de Angra dos Reis ao amanhecer do dia 24 de julho, uma quinta-feira, rumo à Vitória no Espírito Santo com uma escala para abastecimento em Cabo Frio. Tudo estava perfeito, mar calmo, temperatura amena e até um vento de noroeste soprava a favor, com rajadas de 15 a 20 nós. Lá pelas oito da manhã içamos vela, desligamos o motor e ficamos largados no cockpit tomando um solzinho de inverno. Nestas horas os assuntos vão aparecendo assim do nada e ficamos horas de papo furado, contando histórias de navegador. Luis Alberto Macedo é paranaense e veleja há mais de vinte anos. Engenheiro civil, foi outro que não quis agüentar as instabilidades da nossa economia, fechou sua empresa e deu um boa noite para o gaiteiro e para as chatices do dia a dia, içou panos e deu um rumo novo para sua vida. Além da vela tem outras paixões como o vôo livre. Já foi tetra-campeão paranaense, campeão catarinense, sul americano e outros títulos que, modestamente, recusou-se a contar. Sempre com um sorriso no rosto, seus casos são inacreditáveis. Divirto-me muito com suas experiências e me sinto um amador frente à suas histórias.
Prosseguimos tranqüilos com um vento fraco de través. O barco anda lentamente, mas nós não temos nenhuma pressa. A previsão de chegada em Cabo Frio é lá pelas duas da madrugada, portanto, não faz mal se atrasarmos um pouco. Além de aventureiro, Betinho é também um excelente cozinheiro, e lá pelo meio dia, ele prepara um excelente macarrão à bolonhesa com refogado de legumes e vinho branco, perfeito! Pouco depois já conseguimos visualizar o contorno do Rio de Janeiro, o Pão de Açúcar, o Corcovado e o Morro Dois Irmãos fazem um belo perfil, e sempre imagino o fascínio que causaram nos primeiros portugueses que lá chegaram. A região foi descoberta pelo explorador português André Gonçalves, o mesmo de Angra, no dia 1º de janeiro de 1502. Julgando tratar-se da foz de um rio os navegadores deram-lhe o nome de São Sebastião do Rio de Janeiro. A baia era habitada pelos tamoios que a chamavam Iguaá-mbará (enseada do rio mar) ou Niterói (água que se esconde). Mais tarde os invasores construíram uma casa onde hoje fica a praia do Flamengo que era chamada pelos indígenas de carioca (casa de branco), termo que acabou denominando os futuros moradores daquelas plagas. Os pobres indígenas nunca poderiam imaginar que, cinco séculos no futuro, os descendentes daqueles brancos voltariam a transformar aquele lugar numa terra selvagem. O vento já havia rondado para leste e finalmente fixou-se em nordeste. No início era fraco, mas com o correr das horas foi ficando um pouco mais forte, algo em torno de 10 nós (aproximadamente 18 km/h), nada assustador já que o mar permanecia tranqüilo. Normalmente o nordeste sopra forte até anoitecer, quando arrefece completamente. Nossa previsão era de motorarmos durante uma noite calma e sem vento e, portanto não nos preocupamos muito em ajustar as velas. Em Angra eu mandei fazer alguns reparos na vela grande e ela teve que ser retirada do mastro. Na hora de colocá-la de volta os responsáveis não repuseram as cabos de rizos que servem para diminuir a vela em caso de mau tempo. Eu nunca saio ao mar sem que este procedimento esteja cumprido, porque não se sabe o que Netuno nos pode aprontar. É uma operação relativamente simples que pode ser executada por apenas um homem desde que todos os cabos estejam instalados. Mas não foi isto o que aconteceu. Anoiteceu e nada do nordeste nos dar uma folga. Ao contrário, o vento aumentou para vinte nós, e o mar começou a ficar desencontrado. Fui para a proa para liberar um pequeno cabo que poderia ser útil em outro lugar, abaixei a cabeça para retirá-lo de onde estava e, pronto, comecei a marear. Num instante fiquei enjoado e quase chamei o Hugo. Não existe sensação pior no mundo. Pode aparecer na sua frente a mais formosa dama querendo servir-lhe de inimagináveis carinhos e você rejeita! Não há Gisele Bünchem no mundo que o faça levantar sequer a pestana do olho esquerdo. É o cão! Deitei imediatamente no banco do cokpit e fiquei ali nocauteado, esperando melhorar. O vento aumentou, o mar piorou e, graças a Deus, melhorei um pouco com alguns ainda neurônios ainda funcionando para poder fazer alguma coisa. O barco seguia com muita dificuldade com todos os elementos conspirando contra. As ondas eram baixas e curtas, conhecidas como “quebra coco”. Adivinhe por quê? Era uma porrada seguida da outra e a cada três ou quatro vagas, o Zimbros batia de chapa na cava entre elas e parecia que ia ao fundo. Amigo, é uma porrada de seis toneladas, parece que tudo vai partir-se ao meio. Nestas horas você fica torcendo para que o barco tenha sido bem feito e que não tenha sido laminado numa segunda feira com derrota do Grêmio e do Internacional, aqui entre nós uma coisa não muito rara. “Queres aprender a rezar? Faça-te ao ar” diz um antigo adágio português, e é isto mesmo. O que parecia ser um passeio virou uma tortura. A melhor saída numa condição daquela seria rizar e arribar (baixar e folgar) as velas mudando o rumo para alto mar. Quer dizer seguir com o vento batendo num ângulo de aproximadamente noventa graus em relação a nós. A pressão nas velas dá mais estabilidade ao barco que deixa de bater tanto e nos faz ir um pouco mais confortalvemente. Só que cadê os rizos? Não estavam montados e naquela hora seria muito perigosos tentar colocá-los no lugar. Seria preciso ficar em pé num convém que balançava assustadoramente e o perigo de se cair na água era real. São muitos os perigos para quem tem paixão e para quem está no mar. Um dos piores, 7,5 na escala Richter, é o MOB, Man Over Boat. Cara, o se alguém cair do barco numa situação daquelas, pode acender uma vela para ele. Diminuímos a rotação do motor para 1.800 giros. Andamos a três nós (quase a velocidade de uma pessoa caminhando) e procuramos ficar bem quietinhos, de um jeito em que tudo pudesse doer menos. Foram horas assim. O plano era chegarmos às duas da madrugada em Arraial do Cabo, mas nesta hora estávamos ainda muito longe. Um minuto demorava um século. Mas quando tudo está ruim a tendência é que piore ainda mais. Betinho entrou na cabine e lá de dentro me avisou que o barco estava fazendo água. Porra! Era só o que faltava. Desçi para conferir e, de fato todo o porão estava cheio de água. Provei um pouco e constatei o pior, era água salgada, vinha de baixo. Cacete, onde está vazamento? Não dava para responder naquela hora, escuro e com o barco balançando muito. As bombas de porão estavam funcionando bem, então deixamos todos os paineiros (os pisos de madeira que cobrem os porões) abertos para poder controlar a enchente e voltamos para cima, rezando baixinho. Pareceu que a água parou de entrar. Ficamos quietos no cockpit e o assunto acabou-se totalmente. Não dava para comer nada, impossível ir lá dentro com este balanço, é enjôo na certa. As coisa mais simples viram um tormento. O xixi é um dos dramas.Não dá para ficar balançando o pirulito na beirada do barco, e descer para o banheiro esta descartado. O negócio era segurar a vontade ou mijar ajoelhado no cockpit do barco e depois jogar uma água mineral em cima. A bordo, certas horas não tem glamour nenhum. Os primeiros raios da aurora começam a aparecer lá pelas quatro horas. Às cinco ainda era escuro e o dia apareceu lá pelas seis da manhã. Mas o vento continuava forte, de 20 a 25 nós, bem na cara. Agora já dava para ver o mar, as ondas eram altas e com uma freqüência desencontrada. Por cima delas uma espuma branca que sobrava da força do vento fazia uns desenhos lisérgicos, que me lembraram a rebentação do mar de Guaratuba, socorro! Mas nada hávia a se fazer, exceto esperar. Consigui ver, na posição de onze horas (cerca de 15º à bombordo na proa), o Boqueirão de Arraial do Cabo. Parecia tão perto, mas o Chart-Plotter nos dizia que ainda faltavam muitas horas até lá, e o tempo não passava... Vindo do mar por oeste, neste trecho a costa corre no sentido leste-oeste e pode-se ver ao longe o farol localizado no extremo sul da Ilha de Cabo Frio e o Focinho do Cabo, um ínstimo assustador que dá de cara para os maus humores do Atlântico. A costa se eleva numa escarpa de uns duzentos metros de altura interrompida por uma estreita passagem, o Boqueirão. Em noites de mau tempo e com neblina, muitas embarcações desviadas pela força dos ventos e das correntes marinhas, foram a pique batendo de encontro aos paredões abruptos da costa. É um lugar sinistro e belo ao mesmo tempo.
O mar, protegido pelo cabo, ficou mais calmo e consegui acelerar um pouco o Zimbros. Parecia mentira que podíamos ir a cinco, seis e até sete nós de velocidade. Vimos vários barcos pescando ao redor e a paisagem ficou familiar. Chegamos, o Boqueirão nos abriu suas portas, o abrigo que nos daria segurança. É um novo mundo, em nada parece com o mesmo mar de antes. Um so radiantel, praias de areias brancas e uma água transparente e calma estavam bem ali ao nosso alcance. A profundidade passou de cinqüenta metros para dois e trinta e pequenas ondas se quebraram na proa do barco deixando à vista o fundo do mar de areias bem clarinhas. Cara, que diferença! É o paraíso. Estávamos bêbados de cansaço e felizes, o corpo relaxou e nos veio uma sensação de dever cumprido. Arraial do Cabo visto do mar parece uma cidade oriental. “Chegamos a Tanger” brinquei com Betinho, fantasiando com o milenar porto do Marrocos. “Alguém que vi de passagem numa cidade estrangeira, lembrou dos sonhos que eu tinha e esqueci sobre uma mesa...” tocava “Um gosto de sol” de Milton Nascimento. O momento era só de poesia, no rosto um ar africano de Albert Camus e lembrei-me de um livro do Ítalo Calvino, “As Cidades Invisíves”, uma crônica louca das fantasias que todo estrangeiro tem ao cruzar novas fronteiras. Quinhentos anos depois de Américo Vespúcio, jogamos âncora na Praia dos Anjos (que nome lindo!) e, porra cara, foi demais! Me senti um herói. Mas os pepinos não acabaram ainda. Num barco eles nunca acabam.
|
||