![]() |
||
Introdução Caros amigos tenho recebido muito e-mail me cumprimentando pelos meus relatos. Assim sendo, passo a anexar estas mensagens às crônicas, e convido aqueles que quiserem interagir comigo a enviarem também suas impressões. Parte cinco Voltei à Angra dos Reis um mês depois depois de ter deixado o Zimbros no Porto Brachy e retomei meu projeto náutico. Estava com a família, filho, irmã, irmão, sobrinhas, cunhado, periquito, papagaio, etc... Mas fiquei só na marina arrumando o que precisava ser consertado a bordo. Troquei o guincho da âncora, arrumei o piloto automático, costurei velas e mais uma dezena de pequenas coisas que precisavam de reparo. Dizem que as obras a bordo nunca param e fazem parte da terapia de todo navegador. Revisei rapidamente tudo e me preparei para partir. Muito em breve viria a me arrepender amargamente desta minha pressa. O Porto Marina Bracuhy é um condomínio antigo, construído nos anos 70 creio, e tem o maior pier instalado na área de Angra. Situa-se na Baia da Ribeira, Enseada do Bracuí. O acesso por mar é fácil e sinalizado e seu pessoal é muito atencioso. O telefone de lá é (24) 3363-1161 e pode-se também chamá-los pelo prefixo Eco 62 no canal 16 ou 68. Os veleiros predominam ali e a vista das embarcações no cais é um espetáculo. Reencontrei o Ramon, um amigo de Curitiba que hoje mora na marina com a esposa Ana, uma gentil espanhola de Palma de Mallorca. Engenheiro mecânico, chutou o balde e há oito anos mora no Maloi, um confortável veleiro de 40 pés. Antes de Angra, trabalhou muito tempo no Iate do Capri, onde deu uma geral no clube. Ele faz falta lá hoje. Ramon e Ana têm grandes planos, talvez ano que vem soltem as amarras da nossa costa em direção ao Mediterrâneo. O mundo ficou pequeno para eles.
Além do Porto Bracuhy, há muitas outras marinas em Angra, algumas bem novinhas. No Estaleiro Verolme e na Usina Nuclear existem duas muito bem equipadas. Não estive lá, mas disseram que são muito modernas, mas caras. É uma boa opção para quem vem de fora e quer deixar seu barco por estes mares. Paguei pouco mais de quinhentos reais de mensalidade no Bracuhy, um preço honesto. Bem ao contrário do Iate de Paranaguá, onde me cobraram mais de mil reais pelo mesmo período, oferecendo em troca uma estrutura de chorar. Paranaguá me parecer ser uma cidade de passagem: mercadorias e pessoas circulam por lá e deixam pouca coisa em troca. Apesar de tudo, gosto do seu ar provinciano, sua baia é um dos lugares mais bonitos do Brasil. Tenho grandes amigos "parnanguaras". Juca, Joaquim, Lúcia e o Baiacú são alguns deles, mas todos preferem viver em Curitiba. Angra dos Reis foi descoberta pelo português André Gonçalves no dia 6 de janeiro de 1502, Dia de Reis, daí o seu nome. Caminho obrigatório dos navegadores que iam para a Capitania de São Vicente, vivia infestada por todo tipo de gente ruim, corsários e mineteiros de todas as nacionalidades. Mas a natureza exuberante soube recebê-los com compaixão. São centenas de ilhas, cerca de quatrocentas, uma para cada dia do ano, segundo os moradores. Nesta região a Serra do Mar aproxima-se da costa e seu incrível relevo serve de moldura para as águas transparentes da baia. Estive ali a primeira vez ainda garoto. Aluno do Colégio Militar, ficamos hospedados na Escola Naval, localizada próxima à cidade. Lembro-me claramente do fascínio que aquelas águas me causaram. Acostumado com o cinza de Guaratuba, ali comecei a gostar do mar. O próximo passo do meu caminho seria até Vitória
no Espírito Santo, com uma parada estratégica em Cabo Frio.
Nesta perna da viagem me faria companhia o Betinho, o amigo paranaense
que reencontrei morando em Parati. Experiente navegador ele me inspirava
bastante confiança para vencer este trecho de aproximadamente 350
milhas náuticas (cerca de 630 Km). A viagem parecia ser sem surpresas,
já que ambos conhecíamos esta região da costa brasileira.
O único problema iria ser a passagem pelo Cabo de São Tomé
com vento favorável. Um passeio, achei, já que o serviço
de meteorologia previa ventos fracos vindos do quadrante norte. Triste
engano.
Betinho se apresentou no cais de embarque no final da tarde de quarta-feira, dia 23 de julho. Abastecemos com combustível e água e nos dirigimos ao centro da cidade de Angra, rumo ao Pirata’s Mall, um shoping center relativamente novo, localizado às margens da baia. O local tem uma estrutura interessante, hotel, marina, heliporto e um porto de desembarque. Na alta temporada há um congestionamento de iates, helicópteros e madames de todas as classes. A entrada do atracadouro é justa e não comporta todo o movimento dos turistas que querem matar o vício das compras. Dizem até que saem no braço por uma vaga no píer. No deck do trapiche, os saltos altos se prendem nas frestas da madeira e a fragrância de caros perfumes se misturam com o cheiro de merda que vem da baía. Mas a noite estava calma para nós. Chegamos sós, não havia nenhum outro barco no porto. Ao desembarcar fomos recepcionados pelo segurança, um negão invocado que, com uma voz ameaçadora, foi logo dizendo: “Aqui é só para desembarque e para compras rápidas. Cuidado, se for deixar o barco aqui, os cara soltam os cabo”. Com toda simpatia explicamos que pretendíamos ir ao supermercado e, em menos de uma hora daríamos o fora. Ele não parava de falar nos nossos calcanhares e chegou uma hora, desliguei os ouvidos para não me abalar com sua ladainha, afinal o cara é pago para desconfiar Fiquei com saudades do Mailer, o nosso gerente linha dura lá do Iate Porto Belo. Os navegadores de Floripa, que costumam reclamar dele, deveriam fazer uma escala aqui para ver o que é tratamento. Abastecer um barco para uma travessia de vários dias é uma arte. Como falei antes, uma das limitações num veleiro é a de energia elétrica. A geladeira deve funcionar apenas quando estamos com o motor ligado, ou no máximo algumas horas parado, e isto quer dizer que nem sempre é possível contar com alimentos que necessitam refrigeração. Outra dificuldade é o espaço de armazenamento que é muito limitado. Então na hora da compra é preciso alguma experiência para evitar excessos ou faltas. Verduras, legumes, massas, lentilhas e sopas em pacote e em latas são uma dieta legal. Tem-se que saber que dependendo do tamanho do mar, não é possível cozinhar absolutamente nada. Cereais do tipo Nutri e frutas são uma boa opção. Sucos também. Outro ponto é que sejam alimentos que cozinhem rápido, porque o gás também não pode ser desperdiçado. Por garantia fomos a um Bob’s e nos empanturramos com um X-Tudo e muita batata frita antes de encarar a viagem. Quando voltamos ao barco, eram dez da noite e o segurança havia sumido. Arrumamos tudo no lugar e nos preparamos para sair dali, jogar âncora num lugar calmo, dormir um pouco e partir bem cedinho. Mas estávamos seguros no pier, assim resolvemos que íamos dormir ali mesmo, pois o pior que nos poderia acontecer era sermos acordados no meio do sono e obrigados a cair fora antes. Não deu outra, lá pelas tantas da noite, outro segurança nos chamou e, um pouco mais educadamente nos disse que não poderíamos amanhecer ali. Negociamos uma trégua e juramos que antes do dia clarear, estaríamos longe. Ganhamos algumas horas a mais de tranqüilidade e lá pela cinco e meia da matina, soltamos nossas amarras do continente. Agora terra só em Cabo Frio. É um momento litúrgico! Estamos livres, dependentes apenas de nós mesmos e das forças da natureza. É uma hora grandiosa e apreensiva ao mesmo tempo. Escuro ainda, eu estava no leme sonolento, circulando no meio de bóias, barcos e lajes submersas. Mal podia distinguir as luzes de sinalização das outras da cidade e das embarcações ao redor. O cheiro do esgoto que cai na baia ardia nas nossas narinas, fazia frio e a noite estava estrelada. Ainda bem que nos agasalhamos. Tenho um gorro que é muito confortável nestas horas, pois protege as orelhas, as primeiras a ficarem geladas. Lentamente as luzes do alvorecer despontaram, e o perfil das montanhas começou a aparecer no horizonte. O barulho distante das aves marinhas anunciaram que um novo dia ia raiar. Imaginar que o mundo começava a ferver ao nosso redor e que nós estávamos naquela paz incrível era impagável. Uma chícara de café quente na mão, Tom Jobim na caixa, acelerei e o barco seguiu deliciosamente por entre o amanhecer.
|
||