Parte quatro


Ilha da Cotia

Amanhecemos na Ilha da Cotia. Tomamos café, fizemos algumas fotos e lá pelo meio dia levantamos âncora com destino a Parati. Antes de deixar a Enseada de Parati Mirim, mostro à tripulação o Saco de Mamanguá, um braço de mar com cerca de um quilômetro de largura e que avança para dentro do continente no sentido nordeste-sudoeste por aproximadamente dez quilômetros. Cercado por elevações muito altas com mais de quinhentos metros de altura, é muito parecido com um fiorde norueguês, só que com mata atlântica e tempero tropical. Belo e perigoso lugar, pois quando sopra o oeste, a ventania encana no vale e desce o morro com força triplicada, é um “Deus nos acuda”. Como as margens são muito próximas fica muito fácil dar em terra. Já encalhei por ali anos atrás. Toc-toc, bato na madeira e viramos o bordo para fora do canal. Mas o vento está fraco e Tarcísio quer velejar de qualquer jeito. Infelizmente não dá, temos ainda algumas horas até Parati e quero chegar cedo à marina, pois não conheço o ancoradouro de lá.

Na saída da baia de Parati Mirim, mais uma imagem de cinema. Um barco pesqueiro está fazendo arrastão acompanhado por dezenas de pássaros que se alimentam com a sobra dos peixes que escapam da rede e dão na superfície. Aí entra em cena a incrível erudição do nosso proeiro de bordo, o ornitólogo e grumete Tarcísio Mattos. Dentre as aves que lutam por seu almoço, uma se destaca de todas por seu tamanho, é a fragata. Negra, tem quase dois metros de envergadura e seu rabo parece uma longa tesoura, durante o acasamento os machos exibem uma bolsa de pele vermelha no embaixo do papo. Segundo ele, este belo animal, devido ao seu peso, não consegue pousar na água, pois seria impossível alçar vôo de novo. O que faz o sacana para se alimentar? Fácil, rouba o peixe das aves menores ao seu redor. Mas a luta é braba e ninguém entrega sem briga seu pão. Um belo espetáculo, é o Discovery Chanell ao vivo e a cores.



Tarcísio: proeiro, taifeiro, ornitólogo, fotógrafo e também navegador.

Buenas, vamos adiante que ainda tem muito mar pela proa. Deixamos este paraíso para trás e colocamos força a vante no motor, 2.500 rpm e 7 nós de velocidade. O Zimbros desliza maravilhosamente por estas águas tranqüilas e nós ficamos mais faceiros do que marreco em lagoa de taipa, citando uma das pérolas do meu caro amigo e velejador Vitor Hugo Peterson, o grande Marimba.

Ok, chegamos finalmente nas águas frente à bela Parati. A vista de quem vem do mar é fascinante. O barroco da Igreja Santa Rita se destaca por entre o conjunto colonial da cidade fundada no século XVI. Por estas águas que navegamos passaram muito do ouro das Minas Gerais que ajudaram a abastecer a riqueza da Europa. Há quem diga que a fortuna extraída daqueles sertões de cobiça ajudou a fazer a revolução industrial do velho continente.



Vista de Parati. Encalhamos com esta vista.

Ah! Esqueci de dizer, a cerveja já corria solta há várias horas, o que dava um up na nossa alegria. Descobri co os freqüentadores do bar do Iate Clube Porto Belo, o Mar Criado, uma bebida maravilhosa e diferente, o Jägermeister um destilado alemão feito com ervas naturais. Não sei bem o que é isto, mas tem coisas que é melhor ignorar mesmo. Pois bem, tome gelado acompanhado de cerveja e aguarde o resultado. Mas como a curiosidade do nosso taifeiro Tarcísio não tem limites, ele juntou os dois num mesmo copo. Ficou uma delícia, com uma cor de cerveja preta e um gosto bastante curioso, meio amargo, meio doce. Não preciso escrever mais nada sobre o resultado, não é? Mesmo porque não me lembro muito bem. Quando voltar à Porto Belo, preciso mostrar esta nova alquimia aos cachaceiros do clube, Cláudio, Adalberto e Vinícius.

Estamos felizes, fotografando o belo casario da cidade, mas ligados ao ecobatímetro, o aparelho que mede a nossa profundidade. É raso e podemos encalhar facilmente. Nosso calado, a distância entre a linha d’água e a quilha, é de 1,70 metros, e estamos no limite! De repente Alfredo grita: “Comandante, estamos a um metro e noventa... um metro e oitenta... um metro e setenta...um metro e...”. O Zimbros dá uma parada brusca e, porra!, encalhamos! Que merda, não podemos pagar um mico destes na frente de todos os saveiros de turistas que passam ao largo. Eles têm um calado bem menor e estão num canal a bombordo de nós. No convés um bando de turistas dançando pagode e tirando fotos... “Força à ré e virar o rumo para trás, cacete!” Deu certo, e em pouco estamos safos. Não falei que os erros acontecem perto da chegada?

Voltamos 180º no rumo e saímos daquele atoleiro. Alfredo nos mostra os mastros do Paratii II e do Paratii, os dois míticos veleiros de Amyr Klink, parados não longe de nós, próximo à marina onde deveríamos ir. Não tem como não ver o novo barco do nosso maior navegador. Tem quase cem pés, é o maior veleiro construído no Brasil, e seu mastro se destaca frente aos outros que estão parados na marina. É um belo barco, parece um tanque de guerra com um design futurista. O que mais impressiona é seu tamanho e a altura de seus dois mastros Aerorig. O Paratii parece uma miniatura ao lado de seu irmão mais novo. Ambos estão na marina que pertence ao próprio Amyr. Navegamos ao lado do píer quando próximo a nós, alguém nos chama do convés de um veleiro ancorado na marina. Não consigo distinguir quem é, mas parece um caraíba amigo. Aproximamos mais e consigo ver o Betinho do veleiro Odyssea, um amigo de Curitiba que soltou suas amarras de Paranaguá e esta morando em Parati.


O Paratii II parece um tanque de guerra.

Nada como chegar numa cidade estrangeira e encontrar um amigo. Betinho já está neste porto há algum tempo e domina bem o costume dos nativos. Nos dá preciosas instruções para ancorarmos em segurança. Resolvemos parar no Recreio Das Caravelas, uma marina a bem ao lado e que pertence ao Aldo, um paulista também exilado nestes mares. A chegada à marina não foi sem problemas. Na hora de tirar a bóia de proa com o croque, um gancho que pesca o cabo de dentro d’água, o veleiro estava com muita velocidade e Alfredo não conseguiu segurá-lo. Resultado: o croque partiu-se ao meio e ficou boiando bem na nossa frente. Fiquei puto! Porra que barbeiragem bem na frente de todo mundo que estava no trapiche nos observando, inclusive o Betinho. Mas não foi nada grave, e alguns palavrões depois já estávamos devidamente presos em segurança no cais, bem ao lado do Vagabundo o belo veleiro do saudoso velejador Hélio Sette.

Aí começou a festa! Betinho veio a bordo com a namorada e nós abrimos todas as garrafas que ainda estavam intactas. Foi um grande momento. Nada como estar seguro num cais para poder relaxar. Um dos maiores prazeres de quem chega do mar é tomar um banho de chuveiro de verdade, sem limitações de consumo. Água quente correndo sem economia, xampu, sabonete e um chão que não balança. É inacreditável que existe um lugar assim. Renova a alma. Nos vestimos com roupas urbanas e fomos para a cidade, distante R$15,00 de táxi dali. A noite estava apenas começando.

Parati resgata hoje em dia parte de seu passado glorioso, quando era o segundo porto mais importante do país. Quase dois séculos de prosperidade ajudaram a construir um conjunto colonial de rara beleza, em que se destacam monumentos como o forte, erguido em 1803 e o chafariz de 1851, todo trabalhado em mármore branco. Mas hoje a fonte de renda é outra. Um turismo sofisticado é a grande vocação do município. São centenas de bons restaurantes, hotéis, bares, butiques e ateliês à disposição dos turistas. Mas tem que ter grana, pois tudo é muito caro. Localizada entre Rio e São Paulo, a cidade atrai o melhor das duas cidades. Os cariocas chatos ficam em Angra e os paulistas babacas em Ubatuba.


Rua de Parati

A festa foi boa e fomos dormir muito tarde. Acordamos cedo, era domingo e a tripulação precisava começar seu longo caminho de volta. Eu ainda fiquei mais dois dias na cidade acompanhando Betinho em seu cotidiano. Impressionei-me com a quantidade de velejadores vivendo à bordo. Muitos são ex-profissionais liberais que deixaram tudo de lado e escolheram outro modus vivendi. A vida é barata, segundo alguns dá pra se viver razoavelmente bem com apenas 500 reais ao mês. É uma opção. Outra surpresa foi o número de novas marinas que surgiram na região nos últimos anos. Há uma boa estrutura náutica a disposição daqueles que querem fazer algum reparo a bordo.

De Parati saí só em direção ao Porto Marina Bracuhy, 25 milhas no sentido de Angra. Precisava fazer alguns reparos no Zimbros e lá a estrutura náutica é um pouco melhor. Além disto, é mais fácil de chegar ao Rio. Foram três horas e meia de navegada no motor. Amanhecia e não tinha vento algum, mas a sensação de estar sozinho no mar não tem preço. Chegando à marina, deixei o barco com o amigo Ramon, outro exilado paranaense que vive lá, peguei uma van e me mandei para o Rio de Janeiro. Wilfredo Shurman disse uma vez que existem dois grandes momentos quando se veleja: a partida e a chegada.

(Final da parte quatro)


Abastecendo a adega do Zimbros.