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Terminamos de almoçar na Ilha Anchieta, mas ainda faltavam 60 milhas para Parati, quer dizer mais umas dez horas de navegada. Recolhemos âncora e tomamos nosso rumo. Acontece que a cerveja e a macarronada do Tarcísio fizeram um efeito devastador na minha concentração. Um sono poderoso tomou conta de mim. Confesso que, pela primeira vez na viagem, usei da minha prerrogativa de comandante supremo à bordo e abandonei o cockpit aos cuidados dos marinheiros. Fui dormir sem culpa nenhuma. Esses caras são os tipos de companheiros que me inspiram total segurança. É como cochilar ao lado de um amigo que dirige seu carro numa estrada movimentada. Sono profundo, sonhos doces, que agradável sensação é uma pestana enquanto o barco segue veloz entre as ondas. Só o barulho da água batendo no costado. É melhor que muito balanço de rede por aí. De repente acordo com uma balburdia dos diabos no convéns. Ouço o barulho da retranca indo e vindo ao sabor dos ventos, e a correria da tripulação sobre minha cabeça. A cabine em que estou fica logo embaixo do cockpit e funciona com o uma caixa acústica. Qualquer batida ecoa como a bateria do Led Zeppelin sem melodia. Ainda de cuecas subo ao convés e vejo um não sei o que de baixa vela, enrola genôa, liga o motor, acelera, uma bagunça! Escurece e o céu está com uma cor chumbo assustadora, parece que vai acabar o mundo. Não adianta perguntar nada, eles nem deram pela minha presença, mas sabem o que estão fazendo. Então, quer saber? volto pra cama e depois fico sabendo o que rolou. Nada de especial! Foram apenas os preparativos para aguardar uma tormenta que acabou não vindo. Umas das piores coisas que podem acontecer enquanto se veleja, é ser surpreendido por uma tempestade. Já vivi esta experiência uma vez e, confesso, não gostei. Estava velejando com o Cordonazo, um Call 9.2, meu segundo barco, quando um vento sudoeste de uns 30 nós me atingiu, sem avisar, pela popa com todas as velas em cima. Perdi uma genôa que rasgou, e quebrei um dedo. Não consegui fazer o enrolador funcionar e a vela ficou batendo com a rajada. Rasgou-se como um trapo qualquer. Quis segurá-la na mão e lembro-me do meu anular esquerdo fazendo um ângulo de 45º em relação à sua posição normal. Na hora do pânico você nem sente dor. Sem vacilar, coloquei-o no lugar, assim como quem desentorta um garfo. Foi foda! Mas o medo, o tal medo que falei antes, é um sentimento maior que os outros, e a dor, simplesmente fica pequena frente à ele. Ainda bem que o barco era muito mais resistente que eu, e pude controlar a situação sem outros prejuízos. Improvisei uma tala para a mão e voltei para casa mais cedo. Ficar engessado por duas semanas foi o pior de tudo.
Já é noite quando volto para meu turno no cockpit. A ponta da Juatinga demora-nos à proa, parece que o tempo não passa e o barco não anda. Ligo o motor sob protestos do Tarcísio. Se depender dele, só andamos a vela, mas não dá, mas agora só quero chegar. A previsão era aportarmos em Parati, mas ficou tarde, e entrar à noite em um porto desconhecido com uma tripulação cansada tem muitos riscos. Os acidentes acontecem na maior parte das vezes na chegada, nunca em mar aberto. Alfredo costuma dizer que adentrar uma barra à noite é como pousar um Jumbo numa pista molhada. Engano dele, é bem pior. Pedras e baixios não demarcados assim como embarcações sem luzes de navegação são problemas reais e freqüentes. Tem muito mané por estes mares, principalmente hoje, um sábado. Vinícius estava certo quando disse que tudo acontece por que hoje é sábado. Até de poesia deve se valer um capitão para estar em segurança. O esgotamento complica tudo, então decidimos pernoitar na Ilha da Cotia na Enseada de Parati-mirim. A noite estava um breu, sem estrelas nem lua quando finalmente vencemos a ponta da Juatinga. Ali, as águas da Baia de Angra encontram-se com o mar aberto vindo do litoral paulista e a coisa ferve. Parece um caldeirão, perfeito para fazer os neófitos enjoarem e nunca mais quererem entrar num barco. Mas o mar estava tranqüilo, exceto pela correnteza. Aumentei a rotação do motor, dando mais força ao Zimbros. Ele reagiu bem e seguimos adiante a sete nós de velocidade. Agora tínhamos que navegar com atenção e vencer uma última ponta a bombordo. Parece que é sempre assim, quando queremos chegar logo, as pontas sucedem-se infinitamente e nunca vemos as luzes do nosso porto. Estamos no convés, Alfredo e eu conversando fiado. Tarcísio não larga do seu novo brinquedo, o chart-plotter. Após vários minutos enfurnado lá dentro surge ele na gaiúta de acesso, cigarro na boca, dizendo que vamos passar a alguns metros de uma laje submersa. Ok, confio no seu taco, mas se você estiver errado, prepare-se para morrer respondo sem me mover do banco e sem manifestar qualquer emoção. Aquilo foi demais para o Alfredo. Ele detesta navegação noturna, é acostumado a fazer regatas no Guaíba, e acha que nas profundezas do mar há sempre uma laje esperando por uma proa. Vou dormir, boa noite a todos disse com seu sotaque dos pampas e se mandou pra cama. Estranho o Alfredo, um colorado como ele deveria estar mais acostumado a sofrer. Na verdade tudo foi um teatro nosso. Tarcísio sabia o que estava fazendo e eu sabia que ele sabia. Por via das dúvidas dou uma conferida na telinha e estamos bem safos da pedra. Tudo vai sob controle. Tarcísio Mattos é uma figura rara de Floripa. Trabalha com fotografia e é o principal responsável por uma editora na cidade. Faz belos trabalhos, e recentemente presenteou-me com um livro dele sobre a ponte Hercílio Luz. Nos momentos de lazer veleja seu pequeno barco pelas águas daquela ilha. Infeliz, não? Gosta de regatas, e para ele, vento de três nós é suficiente para velejar. O que importa é o caminho, não o destino filosofa citando um mandamento budista. Mas ele não tem nada de místico, tem os pés no chão, ou melhor, na proa de um barco adernado, que é seu lugar favorito. Para quem vem do litoral paulista a enseada de Parati-mirim é acessada através de uma pequena passagem entre a Ilha Deserta e o continente. Parece seguro, mas as cartas náuticas trazem poucos detalhes deste trecho, e a eletrônica diz que existem pedras por alí. Porra!, logo agora que queremos chegar, não dá pra usar este atalho. Devemos passar por fora da ilha, isto vai aumentar o caminho mais umas milhas. Há pouco, o Tarcísio disse que ouviu alguém comentar não sabe onde, que a velocidade de encalhe para um veleiro poder dar marcha a ré e safar-se é 3,5 nós. Será verdade? Decido testar no ato. Jack Kerouak, o escritor beat, uma vez disse que só vale o que for vivido. Resolvo pagar pra ver, e tocamos bem no meio da passagem a 3,5 nós de velocidade, e seja o que Deus quiser. Ainda bem que Ele ajudou e deu certo! Só pra lembrar, Kerouak morreu cedo, vítima de suas próprias experiências com drogas e álcool. No mar o seguro morre de velho, mas gosto de dar trabalho ao meu anjo da guarda. Eram aproximadamente dez da noite quando soltamos âncora frente à Ilha da Cotia. Já estive ali há alguns anos com o Juca, é um dos mais belos lugares do planeta. Era noite de lua nova, e mal podíamos distinguir o que nos cercava, alguns barcos e muitas luzes, aparentemente casas novas colocadas nas encostas da ilha e da baia. Ocuparam meu paraíso pensei. Não existe nada melhor que chegar a um lugar seguro, tomar um Black Label com soda e gelo e relaxar. Bastam duas doses pra você alcançar o nirvana. Alguns amigos dizem que sexo é melhor. Talvez eles nunca tenham vivido a sensação destes momentos. A enseada de Parati-mirim é uma pequena baia ainda protegida da invasão imobiliária que atingiu o litoral cortado pela Rio-Santos. Suas águas são limpas e claras, não existe poluição ali. À noite é possível contemplar um mar de ardentias irradiando na superfície. Ardentias são fosforescências marítimas que brilham à noite, estrelas submersas num firmamento aquático. É um momento mágico, pra mim de felicidade atemporal. Estou sempre à procura disto, cura todos os desconfortos de navegar e faz valer a pena não ter a alma pequena. Não é sempre que se pode viver isto, e sexo, vocês sabem, tem uma vez por mês (he, he, he...).
Finalmente amanhece, é domingo, acordamos lá pelas dez, o sol está quente e a temperatura marca 25º C, perfect! E a grande surpresa? As luzes que eu imaginara construções recentes eram na verdade a iluminação dos mastros de dezenas de veleiros parados na enseada. Contamos 28. Barcos de todos os tamanhos, cores e nacionalidades, um espetáculo! Poucas vezes vi tantos fora de um porto. Estar ali no meio daquele mar de aventureiros me faz gostar mais de mim. Sou aquariano, um signo do ar. Uma sala fechada para mim é uma prisão e a rotina me mata homeopaticamente. Não consigo ficar parado e sempre quero estar noutro lugar daquele em que estou. Mas, apesar de tudo, meu dia a dia é comum, minhas idéias são banais e nunca vou conseguir mudar o mundo. Entretando no mar me sinto diferente, vencendo meus desafios e medos, em certos momentos me sinto um herói. Quixotesco, mas herói. Depois do café da manhã, lá pelo meio dia, com a brisa e o calor aumentando, todos começam a pegar seu rumo e nós também. O guincho que levanta minha âncora faz tempo que não funciona mais, e tenho que puxá-la na mão mesmo. Droga! Sempre tem algo estragado à bordo, é normal. Algumas imprecações depois já estamos boiando, prontos para partir. Fizemos algumas fotos e tchau. Agora o rumo é Parati. (Final da parte três)
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