Parte 2

Caros amigos, aqui está a segunda parte das minhas aventuras náuticas. Como vocês sabem, saí de Paranaguá com o Zimbros, um veleiro de 36 pés, e cheguei em Ilha Bela depois de trinta horas de mar. Recebi muitas mensagens me cumprimentado pela iniciativa de descrever estas histórias. Obrigado a todos pelas boas palavras, só gostaria de dizer que esta narrativa nada mais é do que um simples e-mail ilustrado, portanto não esperem muito de mim e relevem os erros, as imperfeições, etc... (descanso é com "s", algavia é algaravia e existem quatro jeitos diferentes de escrever a palavra "porque". É mole?)



Zimbros em Ilha Bela: uma paradinha para comprar pão.

Ilha Bela ficou para trás e, com um blues na vitrola, levantamos vela e rumamos para a Ponta da Juatinga, porta de entrada da Baia de Angra dos Reis, nosso destino nesta etapa da viagem. Ainda faltavam umas dez horas de navegação, mas a região é linda demais e decidimos conhecer algumas enseadas, existem centenas delas por alí. Alfredo não concordou, estava com pressa e preferia chegar logo, mas Tarcísio só queria velejar. Para mim tudo estava bom, já conhecia aqueles pedaços de paraíso, e sabia que valia a pena gastar algumas horas pela região. Criou-se um impasse.

Diferenças à bordo ocorrem sempre, são normais e devem ser resolvidas com bom senso. Entretanto há momentos em que opiniões conflitantes viram uma encrenca sem fim. Não esqueça, você está numa casquinha de nós com outra pessoa te enchendo o saco, sem lugar para onde fugir, e é obrigado a ficar vendo a cara de quem também quer te jogar no mar. Certa vez convidei meu irmão e um amigo que não via há muito tempo, para velejarmos em Ilha Grande. Ficamos uma semana naquele paraíso, mas foi um inferno e até hoje não me recuperei direito. O cara era um pentelho, tudo o que eu dizia, ele argumentava ao contrário. Era do tipo "professor de Deus", queria dar palpites em todos os assuntos. Só não joguei no mar porquê era maior que eu. Velejar, muitas vezes, é conviver com forças adversas. E as humanas às vezes são muito mais difíceis que as naturais...

Em paz decimos ir para a Enseada da Fortaleza, próxima da Baia de Sítio Forte, famosa por suas marinas. Não estava longe, algumas milhas nos separavam do nosso destino. Velejávamos muito lentamente quando observei uma lancha enorme, uns 50 pés, creio, vindo rápidamente em nossa direção, por boreste. Tínhamos a preferência, por estarmos com vela, mas a aproximação parecia muito perigosa. Seguramente eles nos tinham avistado, apesar de fingirem que não. Por via das dúvidas, vale a lei do medo, desliguei o piloto automático e assumi o leme para manobrar se fosse necessário. O barco passou a uns 30 metros de nossa proa, erguendo uma sucessão de ondas que nos balançaram muito desconfortavelmente. Só aí o piloto virou para trás, e olhou em nossa direção para ver o estrago que tinha feito. Este tipo de exibicionista mal educado infesta os mares de todo o Brasil. Se acham os donos do pedaço, por conta do tamanho de sua conta bancária. O cretino deve ter ganho o dia contando para os amigos a sacanagem que fez conosco. Cada um vive suas emoções de acordo com sua natureza.


Fotomontagem de um trecho do litoral norte paulista. Notem a quantidade de enseadas e baias.

A brisa ficou fraca, cerca de três nós, andávamos muito devagar e decidi apelar para o vento de porão. É um corte, quando se liga o motor, o barulho tira um pouco da poesia, mas precisávamos ganhar terreno. Entramos na enseada da Fortaleza, uma praia de ricos, no Município de Ubatuba, mas longe da Rio-Santos e, portanto, ainda bastante preservada. Nem sempre dinheiro e bom senso andam juntos, mas alí, parece que deu certo. Lanchas apareceram com umas sereias tomando sol no convés e bebericando alguns drinques. Gosto de pensar que são elas é quem tem inveja de nós e que adorariam estar velejando conosco. Sonhar é tão bom....

Desde os tempos coloniais, um perigo que assola todo nosso litoral é a ocupação desordenada dos terrenos costeiros. A ambição dos empresários, a ignorância dos moradores e a incapacidade das autoridades municipais em conter os excessos, fizeram de uma das costas mais bonitas do mundo, uma verdadeira favela. Quando mais bonito o lugar, mais destrutiva é a ocupação. Em Santa Catarina o desmanche segue o rumo sul, partindo-se do Balneário Camboriú. Itapema, Meia Praia, Porto Belo, Bombas e Bombinhas foram totalmente arruinadas num período inferior à vinte anos. As praias de Quatro Ilhas, Mariscal, Canto Grande e Zimbros, são a bola da vez. O Caixa D'Aço, um dos lugares mais pitorescos do litoral catarinense é um dos exemplos mais tristes de poluição. Infelizmente o mau gosto, a ganância e a incompetencia ainda são males comuns das nossas elites.

Prosseguimos em direção à Ilha Anchieta, poucas milhas ao norte. Nunca havia parado lá, é a segunda maior ilha do litoral norte de São Paulo, um paraíso. Por volta do século XVI, era habitada pelos índios tupinambás, liderados pelo famoso cacique Cunhambebe. Hans Staden, Manoel da Nóbrega e o próprio José de Anchieta, protagonistas de grandes momentos da nossa história, viveram por ali. No decorrer de alguns séculos, nela aportaram portugueses, ingleses, franceses, holandeses, escravos e até virou sede de uma vila em 1885, a “Freguesia do Senhor Bom Jesus da Ilha dos Porcos”. Alguns anos depois, passa a chamar-se Ilha Anchieta, em homenagem ao famoso jesuíta. Em 1942, abrigou uma prisão, que dez anos depois foi palco da mais sangrenta rebelião de nosso país, até aquele momento. Muitos morreram, e nem mesmo os tubarões que cercavam a ilha foram capazes de deter a fuga dos presos. Vejam vocês que a crise do nosso sistema carcerário não é de hoje. Atualmente o local abriga a administração do Parque Estadual da Ilha Anchieta ea sede do projeto Tamar.

Era sábado, o mar estava cheio de navegadores de final de semana. Barcos de todos os tamanhos tomavam conta da paisagem. O engraçado é que ninguém cumprimenta ninguém. Há um ar meio blasé entre os embarcados, assim do tipo não sei quem você é, portanto não me incomode, também sou importante. Isto não é comum entre os velejadores, nos cumprimentamos sempre e, se possível, trocamos algumas palavras amistosas. Somos uma tribo diferente, mais solidária. Mas as lanchas são maioria, afinal qualquer babaca pode ter uma.



Vistas da Ilha Anchieta

Abri o bar lá pelas onze da manhã, é sempre uma hora muito aguardada pela tripulação. Procuro esperar até o meio dia, mas a ocasião pedia um drinque, seria bom para a moral da tropa, sobretudo a minha própria. Cerveja gelada combina com sábado no mar. Para falar a verdade combina com qualquer dia à bordo. Observo na carta náutica uma anotação feita por mim anos atrás, é uma enseada muito pequena localizada a alguns minutos da nossa posição. Decido conferir e nos dirigimos para lá. Neste momento ninguém sabe bem o que quer, nem eu mesmo. Mas valeu a pena, o lugar é realmente lindo, uma pequena praia com uma casinha de pescador e algumas palmeiras, coisa de fotografia. Só cabia um barco lá dentro e já estava ocupada por uma lancha. Resolvi me aproximar. Contudo, chegando mais perto vi que seria um risco pararmos muito próximo da outra embarcação. A correnteza estava forte e poderia nos jogar de encontro às pedras. Ficamos de fora, pouca coisa, uns 50 metros ao largo, não mais que 4 metros de profundidade. Para surpresa de todos joguei âncora e decidi que o almoço ia ser por alí mesmo. E o banho estava liberado.

Num barco existem muitos tipos de limitações. As principais são as de consumo de energia e de água. Os banhos em longas travessias devem ser super-regulados. Nada desta história de ficar debaixo do chuveiro quente para relaxar. Lavar louça é outro exercício de economia, deve-se tirar o grosso com água salgada e usar a doce só para enxaguar. O pior mesmo é o banho. O ideal é lavar-se com água do mar e depois, usando uma garrafa de plástico, destas de 1,5 litros, tirar o sal com a água doce. Cada tripulante tem direito a uma garrafada por dia. Com freqüencia dormimos salgados mesmo. As mulheres detestam esta parte. A esposa de um amigo me contou que toma banho escondida, enquanto ele dorme. Isto dá corte marcial sem direito a recurso, vai pra prancha mesmo.

O lugar onde paramos para almoçar era perfeito. "Chegamos Alfredo" disse a ele. Foi engraçado, todos rimos muito e a frase serviu de mote para o resto da viagem. Qualquer coisa boa que acontecia dizíamos: “chegamos Alfredo”. Em poucos minutos estávamos nadando. A água estava fria, mas maravilhosa, super-transparente, de um verde só encontrado naquelas latitudes. Era possível ver todo o costado submerso do barco. Conferi se estava tudo ok, se o hélice estava no lugar, se o leme estava fixo, etc, sabe como é, quem tem, tem medo. Tarcísio mostrou mais um de seus talentos com uma bela macarronada ao molho de tudo que encontrou na cozinha, coisa de alquimista. Nesta hora a cerveja já corria solta e a alegria tomou conta. Este foi um daqueles momentos que ficam para sempre... Mas ainda faltavam 60 milhas pela proa, quer dizer mais umas dez horas de navegada e já era uma e meia da tarde. Com muita preguiça, decidimos partir.

(Final da parte dois. Semana que vem tem mais)


"Chegamos Alfredo": O Zimbros navega em águas tranquilas.