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Caros internautas, recebi um e-mail de uma querida amiga me perguntando como tinha sido a viagem que fiz no feriado de Corpus Christi, navegando de Paranaguà à Angra dos Reis. Comecei escrevendo sem compromisso, como não quer nada, e quando vi já tinha preechido quatro páginas de aventuras. Achei pouco provável que alguém se interessasse por um relato tão longo e resolvi deletar tudo. Mas fiquei com pena, me empolguei tanto no texto que não quis jogá-lo fora. Então dei continuidade à minha descrição. Quem sabe um dia mando para os amigos pensei. Pois é, assim nasceu esta narrativa que envio pra vocês que agora estão aí perdedo tempo na Internet. Confesso, fui inspirado por meus queridos amigos cearenses Valmir e Liliana, que moram em Portugal e, em todas sua viagens pela Europa, descrevem suas experiências para os amigos daqui do Brasil. Suas anotações são muito bem humoradas, e sempre embarco junto com eles quando as leio. Meu barco é o veleiro Zimbros. Tem 36 pés e foi feito em Porto Alegre nos estaleiros Delta do amigo Ricardo Weber. O projeto é do argentino Nestor Volker, que apesar de porteño é um baita cara. Seus desenhos são ultramodernos e ele é um campeão no que faz. É novo, a melhor marca que existe, e foi para a água no dia 2 de fevereiro de 2001, dia de Iemanjá. Seu porto de parada é o Iate Clube Porto Belo em Santa Catarina. Este ano completei 50 anos, e vou dizer pra vocês, não é uma efeméride qualquer. Quando fiz 40 foi mais leve, mas meio século é muito mais que meio caminho andado. Sou pré-sênior, um gentil eufemismo do caro Hans Voswinckel. Então resolvi que não tinha mais tempo a perder, apesar de me achar um cara que nunca perdeu tempo. Mas a vida é breve e resolvi dar tratos à bola. "Vou me mandar" decidi. Mas não é bem assim, minhas responsabilidades ainda são muitas, e tenho um caminhão de coisas que dependem muito de mim. Vou me mandar em etapas foi uma solução mais salomônica, e então nasceu este projeto de partir com o Zimbros em direção ao norte, até onde não sei bem. A primeira etapa, comecei no mês de maio indo de Porto Belo até Paranaguá, onde deixei o barco por cerca de 50 dias. A segunda fase da viagem vou contar agora, procurando mostrar as emoções que passam pela cabeça de quem gosta de aventuras. Um monte de bobagens que poderiam ser ditas num papo de botequim. Mas como nem sempre posso estar sentado com quem quero nos botecos que gosto, achei que escrever seria uma boa idéia. Embora esta seja minha primeira experiência desde que fiz o exame de admissão para o Colégio Militar, há muito tempo. Por favor relevem os erros e as chatices, mas por outro lado vocês podem estar testemunhando o nascimento de um novo escritor (Te cuita Hemingway!). Para minha história não ficar monótona, resolvi dividi-la em partes. Então vamos lá para a primeira, embarquem comigo, tomem um dramin, respirem fundo e tenham muita paciência....
Parte um Saímos de Paranaguá quarta feira dia 18 de junho, véspera do feriadão de Corpus Christi. Já era noite, estava frio, não ventava e uma neblina chata deixava o clima molhado. À bordo, Tarcisio, Alfredo e eu estávamos um pouco apreensivos. Eles são bons, entendem bem de vela e de mar, mas sair pela barra de Paranaguá à noite assusta um pouco. O barco tem um aparelho, o chart-plotter, um gps interligado a uma carta náutica que mostra a nossa posição em relação à costa e ao mar, mas não dá para confiar cegamente. Ficamos ligados até chegarmos ao mar aberto, lá pela meia noite. O encontro da maré enchente com as águas da baia causaram uma ondulação meio assustadora. Mas durou pouco, e logo alcançamos uma profundidade mais segura e as vagas ficaram mais regulares. Daí em diante tudo ficou tranqüilo e fui dormir. O medo é uma companhia sempre presente para quem navega, principalmente nas longas travessias. Dormimos, comemos e velejamos, muitas vezes sem visibilidade nenhuma. Sempre ouço histórias de containers abandonados ou de baleias dormindo que se chocam contra a embarcação. Se isto acontecer longe da costa, pode virar uma tragédia. Um casco rachado abaixo da linha dágua é um pesadelo para qualquer um que está no mar. É uma possibilidade remota, mas existe sempre um perigo no ar e o medo nos ajuda a ficarmos ligados. Não dá para vacilar com Netuno que ele engole os que pisam na bola. Quem diz que não sente nada, ou esta mentindo ou nunca pensou direito nas conseqüências de uma pedra no seu caminho.... Outro agravante seríssimo é o fato do seguro do barco não se responsabilizar por qualquer dano, caso não haja alguém habilitado a bordo. E é claro que ninguém tinha a carteira de Mestre Amador, exigida nas navegações ao largo da costa brasileira. Somos todos os três Arrais Amadores, quer dizer autorizados apenas para navegações interiores (rios e baias). Emoção pouca é bobagem. Navegamos todo o dia e toda a noite seguinte sem ver terra, só mar, nuvens e pássaros. Na madrugada da segunda noite caiu uma chuva de matar. Foi no meu turno, lá pelas três da manhã. Eu estava mal vestido, senti muito frio, encharcado e com sono. Nestas horas a gente sempre se pergunta o que está fazendo ali e sente saudades no velho travesseiro. Mas foi uma breve recaída, logo acordei Alfredo e passei o turno para ele. Alfredo Vidal é um amigo do Rio Grande do Sul que mora em Curitiba há mais de 10 anos. Aprendeu a gostar do Atlético, de Santa Felicidade, destas coisas, mas não esqueceu o chimarrão e o Internacional. É caladão e reservado, mas que fala as coisas certas na hora certa. Quando jovem, foi campeão de monotipos em Porto Alegre, quer dizer, sabe regular uma vela como ninguém. Bebe pouco, não fuma e não gosta de música alta. O coitado nem imagina a nau de insensatos em que se foi se meter. Amanheceu e estávamos próximos da ilha São Sebastião no litoral paulista. Já tínhamos deixado pra trás Santos e o interminável trecho da costa norte do Paraná. Resolvemos parar para abastecer, mas chegamos ao posto flutuante de Ilha Bela muito cedo, estava fechado. Amarramos o barco junto ao seu costado e fomos dormir. Acordei com uma algavia de piratas, e pensei que estávamos sendo atacados, embora muitos séculos nos separem das visitas que os ingleses faziam por estas bandas. Alarme falso, eram só os frentistas do posto, uma tribo parecida em todo o lugar do mundo. Colocamos diesel, água e nos mandamos. O café da manhã foi à bordo. Paramos num pequeno cais da prefeitura e Tarcísio desceu até a panificadora e trouxe uns pães quentes que levantaram nossa moral. O dia estava maravilhoso, soprava uma brisa sudeste, ideal para o nosso rumo. Coloquei um blues na vitrola, levantamos a grande, desenrolamos a genôa e miramos a bússola pra ponta da Juatinga, porta de entrada da baia de ilha grande, nosso destino. (final da parte um) ![]() O merecido descanço depois da chegada. |
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