Voltar

APRESENTAÇÃO

Conheci o Orion quando, em maio de 2000, cheguei com o J. Slocum, um Delta 32', no Centro Náutico da Bahia em Salvador. Fomos apresentados pela mesma circunstância que aproxima todos os velejadores entre si, a camaradagem, a solidariedade e as muitas histórias que cada um tem para contar. Ele estava na marina há algum tempo, com seu barco Bicho Papão, acompanhado da sua esposa Neca e da Belinha, uma simpática cadelinha Teckel. Voltamos a nos encontrar ao longo do ano, sempre em marinas ou em portos do litoral brasileiro. Orion é um grande camarada e um fazedor de amigos como poucos. É impossível ficar perto dele sem estar às gargalhadas. Velejador experiente, o seu mundo é o mar, e seu veleiro o local onde se sente mais a vontade.

Pouco tempo depois, fui informado do acidente pelo qual ele havia passado no litoral de Santa Catarina, tentando chegar a Porto Alegre, navegando sozinho desde Salvador. Soube aliviado que nada acontecera a ele, mas o Bicho Papão estava muito danificado, tendo perdido o mastro ao se chocar com um barco de pesca em alto mar. As versões, como sempre acontece nesses casos, eram as mais disparatadas possíveis. Como não consegui falar com ele, nunca soube ao certo a verdadeira história do ocorrido. Até agora.

Foi com alegria e surpresa que recebi este emocionante texto onde ele conta com dramáticos detalhes, os fatos que viveu à bordo de seu veleiro no final do ano de 2000. É uma leitura eletrizante que tem muito a ensinar àqueles que gostam do mar.

Osvaldo Hoffmann Filho



Pedrão, Orion e eu em Fernando de Noronha.

A FÚRIA DE NETUNO

Algo me dizia que eu estava perdendo um dia precioso para navegar rumo ao sul e chegar em Porto Alegre antes do Natal. Poderia ter ido direto ao Iate Clube de Santa Catarina, abastecer, descansar e seguir viagem no dia seguinte, ao invés de parar e descansar em Porto Belo, na abrigada enseada do Caxadaço (S 27º 07.7' e W 048º 31.6').


Fernando de Noronha - Vista do Forte

Eu estava vindo do nordeste com a minha mulher onde tínhamos ido especialmente para participar da XII Regata Recife-Fernando de Noronha, no dia 23 de setembro de 2000. Depois de Fernando de Noronha, acabamos ficando uns tempos em Recife, Maceió e Salvador, passeando pelos recantos turísticos e curtindo as belezas da natureza nestes lugares privilegiados por Deus. Aquele tinha sido um dos melhores anos da minha vida a bordo do Bicho-Papão I. Além de visitarmos lugares paradisíacos havíamos participado do Carnaval de Recife e Olinda, no começo do ano, das festividades e da largada da Regata dos 500 anos do Descobrimento do Brasil em Salvador, da regata Aratu-Maragogipe na Bahia de Todos os Santos, do Rallye Salvador-Recife e do Circuito da Costa do Sol em Maceió. Em Salvador a Neca pegou um avião para casa e a partir daí eu segui só, rumo ao sul. Naquela manhã, bem cedinho, quando passei pelo Farol da Barra, deixando Salvador, senti a falta dela para curtirmos juntos aquela imagem que, invariavelmente, nos remete ao passado onde antigos veleiros passavam por ali, entrando e saindo da Baía de Todos os Santos. Tivemos oportunidade de ver algo parecido em abril, quando os veleiros Cisne Branco, da Marinha Brasileira, o Sagres, da Marinha de Portugal, a caravela São Sebastião e a Nau Capitânia portuguesa navegavam naquelas águas. Foi lindo ver aqueles barcos antigos com as velas enfunadas saindo juntos rumo a Porto Seguro, na Regata comemorativa dos Quinhentos Anos do Descobrimento do Brasil.


Salvador - Farol da Barra

Sabia que teria que fazer poucas paradas a fim de chegar em Porto Alegre entre os dias 20 e 23 de dezembro. Pela primeira vez eu estava marcando uma data para chegar a algum lugar e isto no mar não é uma coisa sensata, uma vez que dependemos de Sua Majestade o Vento. O plano incluía apenas paradas de descanso em Abrolhos, e de reabastecimento em Vitória, Rio de janeiro, Angra dos Reis, Ilhabela, Florianópolis e, finalmente no Rio Grande do Sul, em Rio Grande e Pelotas onde poderia deixar o barco e voltar para buscá-lo em janeiro, num fim-de-semana qualquer. O tempo estava colaborando com a navegada me permitindo percorrer até cento e sessenta milhas náuticas por dia. Até o Rio de Janeiro curti velejadas extremamente agradáveis, com mar tranqüilo e ventos a favor em torno de quinze nós o tempo todo. Desde Vitória, uma baleia e seu filhote me comboiaram até a entrada da Baía da Guanabara. Perto de cabo frio recolhi as velas e fiquei parado bem próximo, assistindo as brincadeiras do bebê baleia. Maravilha!

Quando passava pelo litoral de Santos começou uma chuva fina, daquelas que molham até a alma e também reduzem muito a visibilidade no mar. Nestas condições a navegação se torna muitíssimo perigosa, até para quem tem radar instalado. Decidi entrar e me abrigar no Iate Clube de Santos. Pelos meus cálculos havia uma margem de tempo para estes imprevistos, pois dependia das condições da natureza e do equipamento. Um dia depois parti novamente para Florianópolis com tempo nublado e vento leste-nordeste forte, próximo dos vinte nós. Novamente o mau tempo me obrigou a mudar os planos e entrar na Baía de Paranaguá. Ancorei na sub-sede do Iate Clube, na Ilha da Cotinga. Aproveitei para ver a Neca e subir com ela até Curitiba. Eu estava com muitas saudades da família. Acabei ficando mais do que devia e reduzi a quase nada a folga que tinha para chegar a Porto Alegre.


Baía de Paranaguá - Ilha da Cotinga

A Neca ficou me abanando da lancha do clube, enquanto o Bicho-Papão se afastava lentamente com as velas abertas. A lancha fez a volta em direção ao clube e ela continuou abanando até sumir de vista. Gostaria de ter ficado mais tempo, mas precisava partir novamente rumo ao sul. O tempo estava bom, mas algumas nuvens no céu já anunciavam mudanças para os próximos dias. O vento continuava favorável e o barco deslizava suavemente. Somente perto de Porto Belo, já em Santa Catarina, começou a chover e eu decidi passar o resto do dia ancorado na enseada do Caxadaço. Não conseguia deixar de pensar nas previsões do tempo para os próximos sete dias, que eu obtivera na Internet em Curitiba. Elas indicavam ventos favoráveis durante mais cinco dias. Eu precisava um dia para ir até Florianópolis, um dia para abastecimento e mais três dias para navegar até o Porto de Rio Grande. Era muito apertado.

Aquela parada no Caxadaço diminuía um dia do meu tempo para chegar ao destino, antes da frente fria. Uma ansiedade incomum se apossou de mim naquela noite e quase não consegui dormir. O barulho de um grande barco de pesca ancorado perto, atrás das pequenas Anchovas, utilizadas como isca em alto mar também contribuiu com a minha insônia. Este tipo de pesca em enseadas é proibido, mas a fiscalização é precária em todo o litoral brasileiro, e as empresas de pesca, não se preocupam em preservar os berçários das espécies marinhas que, geralmente, situam-se na foz dos rios, nos manguezais, nas baías e enseadas. Um dia vai fazer falta. Talvez, então, criem o Movimento dos Sem Peixe - MSP e o governo, sempre ele, passe a distribuir cestas básicas para os pescadores e para aqueles que passarem a ser "pescadores" do MSP. É, cada vez tem mais gente na terra e menos peixe no mar...

Parti cedo naquela manhã com vento nordeste de uns quinze nós e um céu bastante nublado. Cheguei no Iate Clube de Santa Catarina - Veleiros da Ilha (S 27º 36.5' e W 048º 33.0'), fui até o mercado comprar os mantimentos para viagem, abasteci o barco de combustível, consultei as previsões do tempo na secretaria do clube e voltei para descansar. Na manhã seguinte fui novamente até a secretaria ver as novas previsões meteorológicas. O meu tempo havia reduzido. Elas indicavam apenas mais dois dias de ventos nordeste de quinze a vinte nós, antes de virarem para sudeste com intensidade de quinze a dezessete metros por segundo, o que daria no máximo trinta e cinco nós de contra-vento. Se eu rumasse, o mais rápido possível, diretamente para o sul verdadeiro, a partir do Cabo de Santa Marta, ganharia latitude suficiente para navegar direto para os molhes de Rio Grande com vento um pouco mais folgado, quando ele passasse para sudeste. Mas teria que sair naquele mesmo dia.


Chegando em Florianópolis - Ponte Hercílio Luz

O Bicho-Papão I é um Velamar, com 38 pés de comprimento, casco de fibra de vidro, construído no Rio de Janeiro pela Carbrasmar, em 1985. Armado em "Sloop", é também muito resistente e confiável e já tinha se comportado muito bem navegando com ventos de até trinta e cinco nós. Está em excelente estado de conservação e é muito fácil de ser levado por apenas uma pessoa. Sentia-me confiante em relação ao equipamento e em boas condições físicas. Desde 1996 navegava com este barco sem qualquer ajuda a maior parte do tempo. Estava decidido a voltar a Porto Alegre, depois de quase cinco anos navegando pelo litoral brasileiro. Além da manutenção que eu pretendia fazer no barco em Porto Alegre, era uma importante questão de foro íntimo. Meu pai estava muito doente e tudo levava a crer que seria o último Natal com ele. Nós poderíamos ficar por mais tempo ao lado dele ajudando a minha mãe no que fosse possível. Tinha também um orgulho bobo que me fazia imaginar entrando no "Veleiros do Sul", depois de tanto tempo fora, enfeitado com bandeirinhas no estaiamento, num domingo ao meio dia, com todo o pessoal almoçando no restaurante e no alpendre em frente aos trapiches. Chegara a sonhar com isto. Era muito forte a vontade de seguir navegando até em casa.

Estava na frente do quadro de avisos, analisando as previsões do tempo quando chegou o amigo e velejador Paulo Heck, de Porto Alegre, que estava morando em Florianópolis com a família há vários anos. Depois de ouvir os meus planos para continuar a viajem, me desaconselhou a enfrentar a frente fria que estava por vir. Disse para deixar o barco no clube e voltar para buscá-lo depois do Ano Novo e ele ficaria cuidando para mim. Era um conselho muito sensato. Liguei para Porto Alegre, falei com o meu genro. Ele disse que estava para chegar uma forte frente fria da Argentina e que era muito arriscado descer com aquele tempo. Voltei à secretaria e consultei outras previsões, calculei na carta náutica até aonde chegaria com aquele vento nordeste que sopraria durante mais quarenta a cinqüenta horas, se eu partisse depois do almoço com rumo sul verdadeiro. A partir deste ponto estimado, marquei o rumo para os molhes de Rio Grande, e achei que não seria tão ruim assim, navegar com um vento de aproximadamente trinta e cinco nós, entrando pela bochecha de bombordo, quase través, mesmo sendo o temido "Carpinteiro", acostumado a jogar embarcações nas praias e nos extensos bancos de areia do litoral gaúcho.

Já havia navegado sem problemas em meio a temporais e altas ondas naquele inóspito litoral. Porque seria diferente agora? Só porque eu viajaria sozinho desta vez? Bem, se saísse alguma coisa errada, pelo menos estaria pondo em risco somente a minha vida. Se a Neca estivesse junto certamente eu não partiria naquelas condições e com tantas incertezas. Mesmo assim eu não me sentia à vontade para decidir. Voltei a ligar para Porto Alegre para falar com o Felippe que ficara de pegar mais informações sobre a frente fria. Ele disse que ela estava sobre a Argentina, era forte e me alcançaria antes de eu entrar em Rio Grande mesmo que eu saísse naquele dia. Fiquei de dar um retorno da minha decisão mais tarde. Quando eu fui almoçar no restaurante do clube o Gerente Náutico me pediu para tirar o barco do trapiche de visitantes porque o máximo permitido ali era vinte e quatro horas. Eu teria que ir para outro lugar do clube depois do almoço. Na verdade eu queria mesmo é ir embora rumo aos pampas. O bom senso havia me abandonado e em seu lugar uma completa insanidade tomou conta de mim. Talvez tenha queimado um chip de memória e meu cérebro se tornou insensível às mensagens da natureza.

O tempo estava completamente nublado e úmido, com alguns chuviscos esparsos, e o vento nordeste soprando próximo dos vinte nós. Meu coração batia forte e alguma coisa pressionava o meu estomago e a minha garganta quando decidi partir. Liguei para a Neca e avisei que eu estava "descendo". Ela estava preocupada com a tão propalada frente fria que se aproximava do sul do Brasil, conforme previsões meteorológicas que foram apresentadas no noticiário da televisão ao meio dia. Para tranqüiliza-la, expliquei que eu teria dois dias e meio de vento nordeste e que estaria bem perto de Rio Grande quando a frente fria chegasse e que eu voltaria se o tempo ficasse muito ruim antes de atingir o ponto planejado (S 31º 00.0' e W 048º 32.0' = onde mudaria o rumo para Rio Grande). Perguntou-me se eu estava com a imagem de Santa Rita de Cássia a bordo. Somos devotos dela desde que casamos e sempre carrego ela comigo. A Neca desejou-me boa sorte e me fez prometer que não deixaria de usar cinto de segurança quando estivesse no convés.


Deixando Florianópolis rumo ao sul.

Era o dia 14 de dezembro de 2000, quinta-feira, 14:30 horas. Fui motorando até o canal perto da ponte, levantei a vela grande até a primeira forra de rizo, desliguei o motor e segui veloz pelo canal sul da Ilha de Santa Catarina com o vento me impulsionando pela popa. Uns vinte minutos depois o piloto-automático hidráulico parou de funcionar. Ele é interligado com o GPS, agindo diretamente no eixo do leme, e mantém o barco no rumo com grande precisão. Instalei o reserva, um Autohelm 3000, que funciona com uma correia na roda do leme, e tudo voltou ao normal, apesar da menor confiabilidade deste sistema. Quando fazia as manobras para sair do canal sul da ilha (S 27º 50.2' e W 048º 34.4'), um dos cabos que ficam pendurados no "Santo Antonio", na frente do timão, entrou entre a correia e a polia do piloto-automático e arrebentou a correia. Coloquei a sobressalente e fui em frente pensando se não seria um aviso Divino para que eu voltasse. Apesar de estar com genoa 3 e a vela grande na primeira forra de rizo, o Bicho-Papão "voava baixo" e mais uma vez o excesso de confiança e a vontade de chegar em Porto Alegre foram maiores que a prudência e o sentimento de que quase todos os "espíritos" estavam contra aquela aventura. Retirei a genoa 3 antes do anoitecer porque ela estava batendo muito com o vento empopado.

Para não forçar o piloto-automático "levava no braço" durante o dia. Ele ficou ligado durante toda à noite para que eu pudesse descansar. Para isto eu dormia vinte minutos, acordava com o despertador do marcador de tempo, verificava se tudo estava certo, se não tinha nenhum barco a vista, qual era a minha posição na carta náutica, voltava a dormir mais vinte minutos, acordava, verificava tudo novamente e assim por diante até o amanhecer e boa parte do dia. Em melhores condições de visibilidade esta rotina acontece de trinta em trinta minutos. O cálculo é simples. À noite consegue-se avistar uma luz a vinte milhas náuticas. Uma embarcação rápida em velocidade de cruzeiro percorre, aproximadamente, a metade desta distância em meia hora. Neste mesmo tempo eu percorro, em média, três milhas náuticas. Se estivermos em rumo de colisão, em trinta minutos estaremos a uma distância segura de sete milhas náuticas um do outro, o que possibilita uma mudança de rumo defensiva com bastante antecedência. Por esta razão o tempo de descanso é diretamente proporcional à visibilidade existente na ocasião. Com relação ao descanso físico, parece incrível, mas o nosso organismo se adapta com facilidade a estas condições.

Às três horas da manhã do dia quinze, o vento aumentou rapidamente e chegou aos quarenta nós durante uns dez minutos. Depois voltou a ficar em torno dos vinte nós e apenas algumas rajadas esparsas chegavam com força e rapidamente se extinguiam. Este vento instável passou a soprar mais de leste melhorando o desempenho e a estabilidade do barco. Abri novamente a genoa 3 e então mudei o rumo para duzentos e cinqüenta graus magnéticos, me aproximando mais rapidamente de Rio Grande e ficando mais perto da costa. Com isto eu buscava menor distancia quando entrasse a frente fria. Subia a onda, orçava um pouco, enchia as velas e arribava para descer novamente em alta velocidade. O Bicho-Papão chegava a "roncar" quando atingia a velocidade máxima. Era muita adrenalina. Tive que ficar no timão até o amanhecer quando voltou a soprar novamente nordeste com velocidade de quinze nós.

Para alimentação eu tinha levado doze sanduíches naturais já prontos (atum, frango e presunto), muitas frutas (bananas, laranjas e maçãs), vários daqueles copos de sopas desidratadas que é só colocar água fervendo, esperar três minutos e comer, várias barras de cereais da Nutry e de chocolate meio amargo, bolachas salgadas e doces, umas cinqüenta embalagens de chocolate com leite, daquelas que já vem com um canudinho preso na caixinha e vários litros de refrigerante. Além disto, a todo o momento eu enchia o bolso do impermeável com castanhas de caju que eu havia comprado em Recife. Na dispensa havia cinco caixas de leite desnatado, muitos pacotes de macarrão Miojo, arroz, enlatados de feijão, dobradinha, salsichas, sardinhas, palmitos, pepinos, etc., um salame italiano e três pães integrais. Certamente eu não morreria nem de fome, nem de sede.

A chuva vinha forte, parava uma ou duas horas e voltava com força novamente. A temperatura começou a cair me obrigando a colocar mais roupa quente por baixo do impermeável, e dois pares de meias de lã nos pés. Durante a noite acabei por colocar ainda luvas grossas e capuz de lã para me proteger do frio. O barco andava rápido com o vento forte que continuava a soprar de nordeste. Fechei novamente a genoa 3 e coloquei uma contra escota na retranca da vela mestra. Vagalhões de dois metros de altura me permitiam surfar e ajudavam a me concentrar no rumo durante o dia.

Eu sentia uma forte sensação de que tinha encontro marcado com algo muito ruim pelo caminho, mas não queria acreditar. Só para garantir, dei um toque para o meu Anjo ficar "ligado". Ainda não tinha passado por nenhum barco de pesca. Isto, por si só, já era um mau presságio, sem contar com a cor do céu de um chumbo escuro com alguns riscos paralelos negros e outros mais claros se fundindo com o mar. Somente alguns clarões apareciam timidamente dentro das nuvens e sumiam. Pareciam pequenas explosões, mas sem nenhum barulho. Como se alguém estivesse soldando alguma coisa no meio das nuvens. Tudo muito estranho. A visibilidade era ruim e eu navegava sem horizonte, sem mar e sem céu, em pleno dia. Um verdadeiro "buraco negro". Eu nunca tinha visto nada tão ameaçador. Parecia até aqueles cenários de filmes de ficção científica quando uma nave espacial da Terra chega em outro planeta, num cenário muito diferente de tudo que já se viu antes. Estava preocupado e me sentia muito tenso o tempo inteiro. Comecei a considerar se não seria melhor voltar para Florianópolis.

Às dezessete horas, quando já estava na posição S 30º 46.5' e W 049º 12.3', surpreendentemente o vento rondou para sudoeste, mas o mar continuou nordeste. Fiquei um pouco contrariado porque este era um vento inesperado e totalmente contra. Era muito cedo ainda para virar o vento. Ainda faltavam cerca de cento e setenta milhas para chegar em Rio Grande. Abri a genoa 3, mudei o rumo mais para o sul verdadeiro e continuei numa orça apertada, mas navegando confortavelmente. Às dezenove horas o piloto automático deixou de funcionar. A engrenagem que traciona a polia rodava livremente. Era hora de voltar para Florianópolis. Considerando a distância percorrida, as condições de mar e de vento e a hora da noite, teimei em continuar em frente, pelo menos até o amanhecer. Abaixei as velas, fiquei a deriva, desmontei, troquei o pino que havia quebrado e voltei a velejar num rumo um pouco mais aberto. Droga! Mais uma hora de atraso.

Durante a noite o vento passou para sul-sudeste com velocidade entre quinze e vinte nós. Se continuar assim está ótimo, eu pensei. Cambei e retomei o rumo direto para Rio Grande. Velejava durante a noite apenas com a vela grande, na primeira forra de rizo, e com motor. O mar começou a ficar encrespado. Parecia água fervendo. Esta turbulência ocorre sempre quando há mudança de vento, como acontecia naquele momento. Pensei em reduzir um pouco mais a vela grande durante a noite, mas como o vento permanecia constante em torno dos quinze nós e o barco estava andando bem, decidi deixar daquele jeito mesmo. Quanto mais rápido eu chegasse em Rio Grande melhor. Chovia muito, e a todo o momento os relâmpagos rasgavam o céu. A pouca visibilidade e a escuridão assustadora me deixavam muito preocupado. Decidi fazer turnos de quinze em quinze minutos.

Então começou o meu inferno astral. Sábado, dia 16 de dezembro de 2000, posição S 31º 23.1' e W 050º 22.8', pouco depois das oito horas da manhã, eu dormia no sofá do salão quando, numa adernada rápida fui jogado ao chão com grande violência, indo parar embaixo da mesa. Senti um forte dor na coxa esquerda, mas pulei rapidamente e subi capengando para ver o que estava acontecendo. Minha Santa Rita de Cássia! O vento sudeste uivava enlouquecido e o barco estava de proa para o vento mudando de bordo e adernava muito no topo das enormes ondas. A vela grande panejava como louca e de repente se enfunava novamente num outro bordo. Uma tala da vela mestra havia furado a bolsa e passava mais de um metro à frente do mastro. O piloto automático não havia agüentado e nos deixou sem governo. As gotas da chuva batiam nos olhos causando muita dor. Eu não acreditava que as condições de tempo tivessem se agravado tanto num intervalo de tempo tão pequeno. Ainda não haviam se passado quinze minutos desde a última verificação, quando o vento tinha até diminuído um pouco e as ondas, apesar de contra, na forma de vagalhões, permitiam um avanço razoavelmente tranqüilo. Mas agora o vento e o mar estavam totalmente ensandecidos. Eu havia subestimado as condições do tempo e, imprudentemente, desafiado as forças da natureza.

O anemômetro marcava quarenta e cinco nós. Tentei baixar a vela grande, mas o máximo que consegui foi até a segunda forra de rizo. Um slide que prende a testa da vela no mastro ficou preso na canaleta. Desci ao salão, coloquei uns óculos amarelos para proteger os olhos das gotas de chuva, peguei uma serra e voltei para o convés. Com um cinto de segurança preso na linha-da-vida e outro preso nos brandais, subi no mastro, serrei o slide, bati para dentro da canaleta e soltei a testa da vela. A tala que estava fora da bolsa já havia caído no mar. Quando comecei a baixar, notei que um cabinho do "lazy-jack", que prende a valuma da vela grande numa argola que corre pelo amantilho, havia arrebentado e se enrolado no cabo de aço. Prendi a retranca no centro, com um cabo em cada bordo, e comecei a puxar a vela com força tentando soltá-la, mas infelizmente, ou felizmente, a valuma rasgou. O vento terminou de deixá-la em frangalhos. Desta forma consegui recolher o que sobrou e prender na retranca. Desci, peguei a vela de temporal, que chamo de "Tormentim", e coloquei-a no mastro, com uma escota laborando na catraca de boreste. Prendi o leme virado uns trinta graus para bombordo e fiquei capeando.

Não era recomendável manter o motor ligado com o barco inclinado, geralmente, acima dos 25º. Isto poderia danificá-lo por falta de lubrificação. As ondas chegavam pela bochecha de bombordo, levantavam o barco e o forte vento jogava a proa para sotavento. No topo da onda ele adernava muito, voltava a andar em frente e se posicionar novamente com a bochecha de bombordo para a próxima onda. Quando a onda não vinha com "crista" a situação era até relativamente confortável. Era como se eu estivesse dentro de uma coqueteleira com movimentos de um lado para o outro e de cima para baixo. A visibilidade era péssima. A água subia e se transformava em espuma misturando-se à forte chuva. Uma onda enorme com "crista" explodiu sobre o barco e o mastro quase se encostou à água. Pensei que ia capotar. A quilha ficou totalmente fora d'água. Meu coração parecia querer sair pela boca. Comecei a rezar a primeira parte do Pai Nosso e a segunda parte da Ave Maria, repetidamente e com muita fé. Apesar de metades de orações, eu sentia que a comunicação com Deus era a mais profunda de toda a minha existência. Fiquei pendurado no guarda-mancebo, sentado com uma perna enroscada na catraca de bombordo enquanto a borda de boreste ficava enterrada na água até na altura das vigias. Tomara que agüentem tamanha pressão, me passou pela cabeça. Felizmente a gaiuta principal estava fechada e toda aquela água passou por cima sem problemas. A água estava muito gelada e não seria nada bom dar um "mergulho" naquele momento. Quando tentei entrar no barco o trinco da direita havia caído com a inclinação e trancado. Merda!!!... Levei mais de quinze minutos para conseguir abrir com o canivete. Tranquei os trincos para não acontecer novamente esta angustiante situação e desci para o salão.

Estava tudo espalhado pelo chão e sobre o sofá de boreste, apesar de não ter aberto nenhum armário. As coisas que estavam guardadas atrás do encosto do sofá de bombordo saíram voando sobre a mesa e caíram no sofá de boreste. Tudo que estava sobre a mesa de navegação e nas prateleiras das cabines e do banheiro da proa estavam no chão. Tinha cartas náuticas, lápis, canetas, compasso, tesoura, binóculos, lanterna, máquina fotográfica, raquete de tênis, ferramentas, saco de foguetes, latas de tinta e verniz, saco de reparos para fibra de vidro, mala da furadeira, caixa de pilhas elétricas sobressalentes, caixa de fios elétricos, sabonete, escova e muitas outras coisas pequenas. As cinco garrafas de vinho, que eu também guardava atrás do sofá de bombordo, voaram por sobre a mesa da sala e caíram no encosto do sofá do outro lado e, milagrosamente não quebraram. Até o paineiro do corredor estava de pé encostado no sofá. Arrumei tudo rapidamente em locais mais seguros e subi novamente. Parecia que eu tinha entrado numa imensa máquina de lavar roupas e certamente as coisas deviam piorar, pois tudo aquilo havia começado há pouco tempo. A temperatura tinha caído muito e me fazia tremer de frio. Na verdade talvez fosse o pânico que tentava tomar conta de mim. Eu não tinha tempo para me apavorar, precisava estar concentrado e fazer as coisas certas para poder sair daquele inferno.

Perto do meio dia vislumbrei uma imensa sombra escura a sotavento. Meu Deus! Era um navio rumando contra a tempestade. Meu coração disparou. Ele investia contra as imensas ondas que batiam forte na proa e espirravam esbranquiçadas em grande volume e embarcavam sobre o convés. O Bicho-Papão rolava de través em sua direção a uma velocidade média de três nós. Só faltava agora eu ser atropelado por um navio depois de tudo que passei. Desci rapidamente, falei com eles pelo rádio, dei a minha posição (S 31º 11.2' e W 050º 23.4'), qual era a minha situação e o meu deslocamento. Tranqüilizaram-me dizendo que também estavam me vendo e que eles passavam por mim naquele momento, não havendo risco de me abalroarem. Era o navio Gurupi ou Curupi e estava indo para Rio Grande. Perguntaram se estava tudo bem a bordo e se eu precisava de alguma coisa. Pedi para avisarem a Capitania em Rio Grande que estava tudo sob controle. Depois redigi um Aviso Geral em inglês, espanhol e português sobre a minha posição informando que estava a deriva. Nossa! Não consigo precisar a distância, mas com certeza eles devem ter passado muito perto para que tivéssemos nos visto com a visibilidade tão reduzida.

Naquela posição eu sabia que estava bem na rota dos navios que iam para o porto de Rio Grande, mas até aquele momento, não tinha me passado pela cabeça a possibilidade de ser abalroado por um deles. Passei a transmitir o Aviso Geral de dez em dez minutos sentado no chão ao lado da caixa de madeira que cobre o motor e onde o microfone do VHF conseguia alcançar. No intervalo entre uma transmissão e outra eu rezava e pedia forças e serenidade para poder fazer o que tivesse que ser feito e que nenhum navio me atropelasse. Pouco depois outra onda estourou sobre o convés e fiquei literalmente deitado sobre a lateral da tampa do motor. Isto passou a acontecer com mais freqüência. O mar estava cada vez mais violento.

Um barulho forte na popa me fez saltar e ir ver o que havia acontecido. O leme estava solto e chocou-se com força no batente fazendo um barulho que parecia ter quebrado alguma coisa na popa. Apertei com força o ferrolho, amarrei um cabo no timão, preso num cunho, fixei novamente o leme para bombordo e voltei para dentro. Quando o barco ficava na cava da onda, uma montanha de água espumante parecia que ia nos esmagar e engolir. Não sei precisar, mas aquelas ondas deviam ter, no mínimo, uns cinco metros de altura. O problema era a acentuada inclinação delas. Eu olhava aquelas "paredes" de água e me sentia um inseto prestes a ser esmagado. Muito pequeno diante de tudo aquilo! Imaginei surfistas descendo aquelas ondas, como no Havaí, e pensei: "- O que eu estou fazendo aqui?". Sempre respeitei a natureza, mas nunca senti tanto medo como naqueles momentos. Eu não havia plantado ventos, mas estava colhendo uma tempestade para ninguém botar defeito.

Estava com muita fome, frio e cansado, mas tinha que ficar atento o tempo inteiro. Acabei tomando dois flaconetes de concentrado de guaraná para me reativar e enchi novamente os bolsos com castanha de caju e barras de cereais, meus principais alimentos desde que deixara Florianópolis. A forte dor que sentira na perna quando bati na mesa me deixara um pouco enjoado e sem muita vontade de comer.

O vento soprava em torno dos cinqüenta nós, mas freqüentemente chegava na marca dos sessenta e até passava disto algumas vezes. A situação era desesperadora. Eu não acreditava no que estava vendo. A escala do anemômetro analógico, que estava instalado na época, ia de zero a sessenta nós, mas muitas vezes eu vira o ponteiro além da última marca, colado no batente. Como o barco andava mais ou menos três nós de través, em direção à costa, em pouco menos de dez horas eu chegaria no Farol da Solidão (S 30º 42.2' e W 050º 28.5') e, na melhor das hipóteses, daria com o barco na praia escapando dos bancos de areia. Um veleiro como o Bicho-Papão, encalhado em um banco de areia, dificilmente escapa de naufragar nestas condições de vento e de mar. A onda levanta o barco e quando ele desce a quilha bate com força na areia. A repetição destas pancadas violentas acaba quebrando o fundo do casco e colocando o barco a pique.

Um veleiro chamado Dos Nós, de Porto Alegre, com o Paulo Ribeiro no comando, acompanhado pelo Emílio de Tapes, com destino a Florianópolis, estava ali por perto em "árvore seca" (S 31º 10.1' e W 050º 09.7'). A todo o momento nos comunicávamos pelo rádio e sempre era muito confortador e tranqüilizante ouvir a voz do Emílio. Também estava por ali (S 31º 18.0' e W 050º 37.0') uma traineira chamada Luiz Gregório, com o comandante José Luiz e mais três tripulantes que tentavam chegar em Rio Grande. Que Deus nos ajude. De tarde, recebemos previsões nada alentadoras dos navios. A tempestade ia durar, pelo menos, mais dezoitos horas com ventos de força oito e nove na Escala Beaufort. O Emílio avisou que eles estavam "correndo com o tempo". Eu também não poderia ficar por ali tanto tempo. Estava a cento e duas milhas da entrada dos molhes para o porto de Rio Grande (S 32º 11.1' e W 052º 04.5'). Uma pena, mas tinha que voltar.

Liguei o motor para mudar de posição e ele apagou. Tentei novamente e nada. Troquei o filtro do primeiro estágio, sangrei o sistema e então funcionou. Passei a velejar no rumo sessenta graus magnéticos, a favor das ondas e do vento apenas com a vela de temporal e andando a velocidades incríveis quando surfava onda abaixo. Agora era eu o surfista. Tinha que tomar muito cuidado para não enterrar a proa após descer a onda. Com o forte vento o meu deslocamento verdadeiro era de aproximadamente cinqüenta graus magnéticos. Eram quase cinco horas da madrugada do dia dezessete, quando o Bicho-Papão se atravessou todo na descida de uma onda e adernou violentamente. Havia estourado o cabo de aço do timão e o barco ficou sem governo. Estava na posição S 30º 37.0' e W 49º 46.5', e faltavam ainda, aproximadamente, cento e noventa milhas para chegar em Florianópolis. "Puta que pariu!!!!" gritei com raiva.

Passei a timonear com a cana-de-leme de fortuna, de aproximadamente cinqüenta centímetros de comprimento. Impossível. Depois de três horas, com duas almofadas nas costas e sentado sobre outra, achei que ia ter um enfarte ou algo parecido. Apoiava-me com as costas no suporte do bímine e segurava o leme com os pés. A dor nas costas foi ficando insuportável. Pensei em usar uma redução para cada lado, presa na ponta da cana de leme, mas lembrei-me que o piloto automático hidráulico, apesar de estar com problemas, poderia ser controlado manualmente, considerando que age diretamente no eixo do leme. Certamente não teria sido afetado pela quebra do cabo de aço do timão. Fui para a mesa de navegação e senti que não seria difícil manter o rumo daquela forma se eu conseguisse permanecer acordado. Tomei mais dois "Rebites", comi meia barra de chocolate meio amargo e passei a noite toda mantendo o rumo manualmente através do controle remoto do piloto. Mantive um rumo mais aberto, 80º magnéticos, evitando o máximo possível "pegar onda" e aumentar a velocidade.

No domingo, dia 17, amanheceu mais tranqüilo. O mar havia se acalmado, mas o vento ainda soprava em torno dos vinte e cinco nós. Eu não conseguia mais manter os olhos abertos e ficar acordado. Resolvi ficar capeando novamente, me alimentar e dormir um pouco. Antes, porém, pela "décima vez", tirei a bússola do piloto automático Navico, desmontei, limpei com benzina os terminais, peguei a ponta mais fina do canivete e comecei a limpar os furinhos da conexão. Peguei um clipe e raspei por dentro, coloquei mais um pouco de limpador de contatos elétricos, e MILAGRE... FUNCIONOU!!!!!! Informei ao Emílio que tinha conseguido fazer funcionar o piloto hidráulico interligado com o GPS e ele manifestou a maior alegria. Comi até não poder mais, abri a genoa 3, coloquei o Navico no comando e fui dormir. Considerando a boa visibilidade passei a fazer turnos de trinta minutos de descanso durante o restante do dia.


A Vela Grande rasgada na retranca e a "Tormentim" no mastro.

Mantive contato freqüente com o Emílio e nos encontramos pela tarde. Então tive oportunidade de vê-lo pela primeira vez. Eles se aproximaram por boreste e chegaram a uns vinte metros do Bicho-Papão. O Paulo, eu já conhecia de Porto Alegre. Ao lado dele no leme, um loiro gordo e alto, com um sorriso farto e apenas uma perna, me acenava alegremente. Era o meu "anjo da guarda" do VHF, o Emílio. Um personagem inesquecível e que, mesmo sem saber, muito havia me ajudado a superar aqueles momentos difíceis durante a tormenta. Lamentaram o estado da vela mestra ferrada na retranca. À noite, com vento de uns quinze nós e um mar com ondas de um a dois metros, consegui descansar completamente. A única coisa que me preocupava eram as constantes chamadas da Estação Costeira - Osório Rádio que, desde o dia anterior, eu ouvia pelo VHF, mas não conseguia responder devido à distância que me encontrava.

Na segunda-feira pela manhã, dia 18, soprava um vento terral de uns dez nós, o mar estava espelhado e azul como o céu. O nascer do sol naquele dia fora esplendoroso. "Pense numa coisa liiiiinda....", como diriam meus amigos Nelson e Lúcia de Natal. Senti um grande conforto espiritual em meu coração. Nem parecia que tinha acontecido tudo aquilo dois dias antes. Apenas as dores por todo o corpo não me deixavam esquecer que realmente eu havia vivido aquele pesadelo. Desliguei o motor e continuei navegando com menos velocidade, mas com uma paz que há muito não sentia. Eram deploráveis as minhas condições físicas e psicológicas e precisava relaxar e recuperar as forças. Tirei umas fotos do barco apenas com a vela de temporal no mastro e a genoa 3 na proa. Agora o melhor era continuar com tranqüilidade rumo a Florianópolis. Osório Rádio voltou a me chamar sem eu conseguir dar retorno. Estava muito longe da costa. Avisei ao Emílio que ia mudar o rumo para me aproximar do Cabo de Santa Marta e poder me comunicar com Osório Rádio ou Laguna Rádio. Temia que algo ruim tivesse acontecido com o meu pai.

Alterei o rumo para trinta e oito graus magnéticos e, depois de algum tempo naquela tranqüilidade, só com o barulho da água batendo no casco, senti um apetite de leão. Comi dois sanduíches e tomei duas caixinhas de leite achocolatado, voltei ao convés e fiquei observando uma grande quantidade de barcos de pesca no horizonte. Aquela imagem me enchia de felicidade. Certamente eu havia voltado ao planeta Terra. Fiz marcação de angulação com um navio de pesca preto que vinha em sentido contrário. Ele se encontrava a uns quinze graus a boreste, quatro a cinco milhas na minha frente. Como o ângulo relativo aumentava, ele deveria passar por boreste, aproximadamente a uma milha de distância. Fiquei despreocupado.

Um pouco depois consegui me comunicar com Laguna Rádio que me colocou em contato telefônico com a minha filha Cínthia, em Porto Alegre. Ela me contou que haviam morrido dois velejadores no litoral do Paraná, que em Rio Grande as ondas haviam passado por cima dos molhes, muitas ressacas no litoral e muitas tragédias nas cidades por causa do vento, da chuva e do mar. Toda a família e vários amigos estavam preocupados e tentavam entrar em contato comigo há dois dias e não conseguiam. Informei que estava tudo bem a bordo, quais eram os meus planos e pedi a ela para tranqüilizar a todos e avisar a esposa do Emílio que estava tudo bem no Dos Nós. Subi na escada, dei uma olhadinha para frente, pelo plástico transparente do dog-house, não vi nada no meu rumo e fui ao banheiro. Uns quinze minutos depois voltei para o convés.

Quando saía pela gaiuta principal ouvi um barulho estranho às minhas costas, na proa. Olhei naquela direção e levei um susto. O navio negro de aço estava muito perto e em rota de colisão. Vinha de encontro a mim quase roda-a-roda, a oito ou nove nós de velocidade, com um grande bigode branco na proa, urrando como um gigante raivoso e com seus dois enormes braços abertos para me pegar. Havia um homem debruçado na janela da cabine de comando, a bombordo, e quatro ou cinco marinheiros agrupados na popa, protegidos pelo casario, lado a lado, olhando para o Bicho-Papão e, dois deles pelo menos, riam como se algo muito engraçado estivesse para acontecer. Eles não pretendiam fazer nada.... Gritei "VAI BATER!" e corri para ligar o motor e engatar uma ré para tentar segurar o barco, pois, além de estar numa velocidade baixa, próxima dos três nós, não tinha leme para dar uma guinada rápida. Não deu tempo.

Eram pouco mais de oito horas da manhã, na posição S 28º 36,7' e W 048º 42,5', entre o Cabo de Sta. Marta Pequena e Sta. Marta, quando o enorme braço de aço, usado para puxar a rede de pesca, bateu no estai de proa e veio derrubando tudo. O mastro dobrou um pouco abaixo da primeira cruzeta e caiu sobre o Turco, na popa, e o Bicho-Papão virou de lado, girou a proa para bombordo e bateu de raspão com o púlpito na alheta de bombordo do navio. Tudo com um barulho de destruição aterrador. Parecia que o barco estava sendo esmagado e se partindo ao meio. Por sorte não havia nenhuma rede sendo puxada, senão poderia ficar preso nela, capotar, ser arrastado e até naufragar. Se não tivesse aqueles braços de aço abertos o navio passaria a uns três metros do meu costado sem causar nenhum dano além de um grande susto. Com o choque fui jogado de costas perto da gaiuta principal e bati com a cabeça em algum lugar. Quando passei a mão na nuca notei que estava sangrando bastante.

A segunda cruzeta de boreste, que ficou apoiada na estrutura de aço do turco, começou a escorregar e se apoiar na proa do bote inflável que estava pendurado atrás. Peguei a faca que sempre levo presa na mesa do cockpit e cortei os cabos que prendiam a proa do bote, deixando-o pendurado pela popa. Prendi rapidamente um cabo no mastro e passei no cunho da popa por bombordo e esperei o mastro terminar de cair. Assim que ele despencou, cacei o cabo rapidamente e prendi no cunho. Coloquei outro cabo e cacei na catraca o mais que pude. O sangue corria pelas minhas costas e a cabeça doía muito. Uma forte ânsia me fez ajoelhar na borda e vomitar. Apesar do mar calmo, achei melhor proteger o costado. Coloquei uma bóia circular e dois salva-vidas entre o mastro e o costado. Ele ficou uns sete metros dentro d'água. Pela sua inclinação, calculei que ficara com uns dois metros e meio de calado. Com meio metro a mais ainda daria para passar pelo canal sul e chegar ao clube.

Olhei o convés cheio de escotas, adriças, cabos de aço e velas esparramados por todo lado, o mastro quebrado mergulhado na água e a retranca caída sobre o "dog-house" destruído e não acreditava no que via. Um completo caos. Prendi um cabo onde o mastro havia dobrado e amarrei as pontas nos cunhos da proa para que não continuasse dobrando para trás. Soltei o bote na água, desci nele, recolhi uns cabos soltos na água, para que não se enrolassem no hélice, passei mais um cabo pela cruzeta e o prendi no cunho da popa, para firmar melhor o mastro. Novamente tornei a vomitar. Então sentei no cockpit, segurei com força o corte da cabeça e comecei a chorar copiosamente. Aquilo tudo tinha sido demais para mim.


Pouco depois do "acidente"

Era tragédia demais pra minha cabeça. Doía terrivelmente no fundo do peito, como se tivessem me arrancado o coração sem anestesia. O Bicho-Papão foi a realização de um dos maiores sonhos da minha vida. Sempre tive muito orgulho do meu barco e com ele tive grandes momentos de felicidade. É como um filho para mim, um fiel companheiro e sempre o tratei com muito amor. Agora fora vítima de uma agressão covarde e seu estado geral me enchia de imensa dor. O navio seguiu seu rumo como se nada tivesse acontecido. Provavelmente deviam estar dando boas risadas enquanto eu ficava ali daquele jeito ferido na alma e no corpo. Desgraçados! Malditos! Minha dor rapidamente se transformou num ódio profundo. Com toda a certeza eles haviam mudado o rumo que estavam no momento em que fiz a marcação e não deram a menor chance para me defender. Não avisaram pelo rádio, não tocaram sino, buzina ou apito, não pararam ou diminuíram a velocidade e nem desviaram. Não tentaram evitar de nenhuma forma algo que eles estavam vendo que fatalmente ia acontecer. Porquê?

Liguei o motor, coloquei o barco no rumo novamente e acionei o piloto automático. Prendi todos os cabos e velas que estavam em cima do convés, lavei a cabeça e limpei o corte com PVPI. Felizmente era apenas superficial no couro cabeludo. Pouco depois apareceu o Dos Nós e ficaram desolados com o que viram. Mostrei para eles o navio que se afastava e pedi que obtivessem pelo rádio o nome do comandante e do navio. Eles conseguiram contato e anotaram: navio, JUQUEÍ I; e comandante Jorge Lemos ou Jorge Mendes (eles não tinham entendido muito bem). Um pouco mais de uma hora depois, quando o Dos Nós já tinha seguido viagem, o navio voltou, emparelhou comigo, a uns cinqüenta metros de distancia e o comandante, aparentando muito nervosismo, me perguntou se eu queria reboque. Mesmo com vontade de matá-los, disse que seguiria com os meus próprios meios até Imbituba para comprar combustível. Eu precisava de uns quarenta litros de óleo Diesel para que pudesse ir até Florianópolis onde teria mais condições para consertar e guardar o barco. Ele disse que me cedia o Diesel. Então eu soltei o bote, com vários cabos emendados, e eles largaram dois galões de vinte litros dentro e foram embora. Abasteci e fui lentamente até o clube aonde cheguei um pouco antes das sete horas da manhã. Quase vinte e quatro horas após o acidente. Depois de um percurso de sessenta milhas náuticas e de muito trabalho para manter o barco no rumo e evitar as águas mais rasas do canal sul da ilha, finalmente cheguei ao Iate Clube de Santa Catarina - Veleiros da Ilha, de onde nunca deveria ter partido alguns dias antes em condições tão desfavoráveis.

Acelerei e encalhei propositadamente num banco de lama que existe à esquerda de quem chega ao clube. Levei a âncora dentro do bote por uns trinta metros e soltei na água. Voltei para o barco, cacei bem o cabo da âncora, prendi no cunho e me atirei na cama exausto. Tinha dado o melhor de mim para exaurir o meu mensageiro e possibilitar ao meu anjo se concentrar exclusivamente em me salvar. Conseguimos! Tenho certeza absoluta que naquele momento meu anjo também se recolheu para descansar. Fora demais para nós dois. Acordei somente às onze horas da noite, com uma tremenda dor de cabeça. Tomei uma aspirina, um litro de leite com dois sanduíches naturais e voltei a "morrer". No dia seguinte (20.12.2000), fiz um desjejum reforçado e, depois de me encher de tristeza ao ver novamente o péssimo estado do Bicho-Papão, fui na Capitania de Florianópolis fazer o Boletim de Ocorrência sobre o "acidente". Fui atendido pelo Sr. Antonio que me orientou a fazer o registro em Itajaí para que o processo andasse mais rápido, considerando que o barco e a tripulação do JUQUEÍ I estavam registrados lá. Ele disse que não tinha pessoal para fazer a perícia no barco e que eu podia tirar o mastro sem problemas. No outro dia a Neca chegou de Curitiba. Me abracei nela e novamente chorei. Ajudado pelo amigo Guedes, tirei e preparei o mastro para mandar para o Niels, da Farol Náutica, em Porto Alegre, para avaliação e recuperação do que fosse possível.

No dia 21, quinta-feira, fui com a Neca na Delegacia da Capitania dos Portos em Itajaí. Quem nos atendeu lá foi o Capitão-Tenente (AA) Eduardo Ribeiro de Souza, Encarregado da Divisão de Segurança de Tráfego Aquaviário a quem entreguei a declaração detalhada sobre o abalroamento, com cópia dos meus documentos e do barco. Recebi uma cópia protocolada da primeira página da declaração. Ele disse que as normas determinavam que o processo fosse instaurado em cinco dias e que eu seria contatado em breve. Mostrou-me o registro da ocorrência feita na Delegacia da Capitania dos Portos de Imbituba, pelo comandante Jorge Mendes do Juqueí I: "Estávamos trabalhando quando o veleiro se aproximou por bombordo e nos bateu". Como não concordava com aquela declaração fiquei de levar, para serem anexadas no processo, as fotos que eu havia tirado do Bicho-Papão após o abalroamento que mostravam o mastro deitado para trás, provando o ângulo em que os barcos se chocaram, além de outros detalhes.


Retratos do caos

Colocamos o Bicho-Papão na vaga do Tandy, amigo do Veleiros do Sul de Porto Alegre, e o Paulo Heck ficou de cuidar para mim. Finalmente partimos para as festas de fim de ano em Porto Alegre, felizes de estarmos juntos, de termos uma família maravilhosa, bons amigos e muita saúde para reverter as situações adversas. A Farol Náutica é uma das maiores produtoras de mastros de alumínio do país e, devido à grande demanda de serviços o Niels só pôde consertar o meu mastro após o verão. Depois de pintá-lo, passar os cabos e colocá-lo no lugar, o mastro voltou a dar dignidade ao Bicho-Papão. Um veleiro sem mastro é muito triste de se ver. Passei o resto do ano entre Porto Alegre e Florianópolis terminando de consertar tudo. Aproveitei para fazer por ali mesmo "aquela" manutenção geral que pretendia fazer em Porto Alegre. Neste trabalho recebi a ajuda inestimável do Christian e sua equipe do Armazém Naval, excelente loja náutica e oficina de reparos que funciona no próprio Iate Clube de Santa Catarina.


Quase pronto, faltando apenas a retranca, a vela e o guarda mancebo de bombordo.


Thiago, eu, Paulo Heck, Eloi Franzen (Peneirinha) e o Christian Franzen, proprietário do Armazém Naval.

Estive ainda em janeiro de 2001 na Delegacia da Capitania de Itajaí e entreguei as fotos para o Capitão-Tenente (AA) Eduardo Ribeiro de Souza que me informou que os tripulantes das duas embarcações seriam ouvidos em breve e que eu seria contatado no meu endereço, pela Internet ou pelo meu celular.

Depois de diversas ligações telefônicas para Itajaí e, estranhamente, sem conseguir falar com qualquer pessoa que pudesse me dar informações sobre o andamento do processo, perdi as esperanças de que alguma coisa realmente viesse a ser feita por "aquelas autoridades" da Delegacia da Capitania dos Portos. Quero ressaltar que a Marinha do Brasil, em que pese a atuação daquela DCP, muito tem contribuído para o desenvolvimento da navegação no Brasil além do grande apoio a todos velejadores de oceano participantes de regatas ou não. No final de 2001, um ano depois, retornei a Itajaí e fui informado na Delegacia da Capitania que o processo, inquérito, ou seja lá como chamem, sequer havia sido aberto e já havia perdido o prazo para isto. Lamentável! Instaurar um processo civil contra o comandante Jorge do Juqueí I? Seria perda de tempo porque não havia testemunha isenta, que não estivesse envolvida no abalroamento. Eu queria que houvesse o processo na Marinha para que, pelo menos, ficasse registrada a ocorrência. Isto, pelo menos, serviria de precedente caso o comandante Jorge Mendes voltasse a se envolver com seu navio, de quase cem toneladas de arqueação bruta, em "acidentes" com veleiros ou outros barquinhos. Tentei entrar em contato com Fernando Pinto das Neves, proprietário da embarcação, mas foi inútil.

Tudo bem! Continuo com a minha capacidade de amar e de sonhar intactas. Quero agradecer a minha família, aos amigos e ao Iate Clube de Santa Catarina que me deram um inestimável apoio ajudando a me recuperar emocionalmente e buscar forças para consertar os estragos sofridos pelo Bicho-Papão. Não posso deixar de salientar aqui também, que nos momentos mais difíceis, quando o mar se mostrou mais forte e mais revolto, quando o vento uivava enlouquecido e o céu parecia um enorme buraco negro, acreditei com muita fé em meu coração, que Deus era mais poderoso que o mar, que Seu amor era mais forte que o furor do vento e que Suas verdades enchiam de luz o meu caminho. Estou vivo, velejando novamente e vou continuar fazendo o meu melhor possível para viver em paz e harmonia com os meus semelhantes, com a natureza e principalmente com o meu Comandante Supremo. Como escreveu Gibran Khalil Gibran, "Somos o campo e o lavrador". Agradeço a Deus por tudo de bom que acontece na minha vida e, desta vez em especial, pela ajuda recebida quando o mar furioso tentava me engolir.


Órion Brasil da Costa Veleiro Bicho-Papão I

Glossário do Bicho-Papão I:

-Adernar = Inclinação lateral da embarcação;
-Adriça = Cabo usado para içar velas, bandeiras, etc.;
-Alheta = Parte do costado entre o través e a popa.
-Amantilho = Cabo preso no topo do mastro que mantém a retranca em posição horizontal;
-Anemômetro = Aparelho para medir a velocidade e a força dos ventos;
-Arribar = Desviar a proa da linha do vento;
-Árvore Seca = Quando o barco está com todas suas velas recolhidas;
-Bombordo = Lado esquerdo do barco visto de popa para proa;
-Boreste = Lado direito do barco visto de popa para proa;
-Bímine = Cobertura de lona azul, usada para proteger o timoneiro do sol. No Bicho-Papão está amarrada no turco;
-Cabo = Cordas utilizadas no barco;
-Caçar = Puxar ou tracionar cabos, escotas e adriças manualmente ou através da catraca;
-Calado = É a distância vertical medida entre a superfície da água e a parte mais baixa da embarcação. O Bicho-Papão tem calado de dois metros;
-Capear = Navegar em capa em temporais é a forma de manter uma velocidade mínima de governo e de deslocamento da embarcação, evitando choques com as ondas e aguardando melhoras nas condições de tempo para depois continuar em frente;
-Catraca = Mecanismo que serve para puxar cabos e escotas;
-Cinto de Segurança = Cinto preso no tórax com uma alça de inox onde é presa a ponta de um cabo, de aproximadamente dois metros de comprimento, com um mosquetão. Na outra ponta também tem um mosquetão preso na Linha-da-Vida e corre por ela quando se anda pelo convés;
-Cockpit = Parte do convés onde se controla a posição e a tensão das velas e onde se acha o timão;
-Correr com o Tempo = Navegar a favor do vento acompanhando o tempo;
-Costado = Parte lateral da embarcação de proa a popa;
-Cruzeta = Vergas laterais no mastro que servem para orientar os cabos de aço que seguram o mastro de pé;
-Cunho = Ferragem fixa no convés usada para prender cabos;
-Dog-House = Armação de alumínio, coberta de lona azul e plástico transparente, sobre a gaiuta principal;
-Escala Beaufort = É uma tabela que contém a graduação da velocidade do vento. Força 8 está entre 34 e 40 nós, força 9 entre 41 e 47 nós, força 10 entre 48 e 55 nós, força 11 entre 56 e 63 e, finalmente, força 12 ventos com velocidade de 64 nós ou maior;
-Escota = Cabo usado para manobrar a vela controlando seu ângulo em relação ao vento;
-Estai = Cabo de aço que segura o mastro para a proa e para a popa;
-Esteira = Parte inferior da vela;
-Forra de Rizo = Sistema para diminuir o triangulo da vela reduzindo sua superfície de contato com o vento. No Bicho-Papão tem três forras de rizo na vela mestra;
-Gaiuta Principal = Abertura de entrada e saída da cabine também conhecida como escotilha de acesso;
-Genoa 3 = Pequena vela presa no estai de proa pelo gurutil. No Bicho-Papão também existe a genoa 2, com 25% de superfície a mais;
-GPS = Global Positioning System. Aparelho eletrônico chamado de Sistema Global de Posicionamento por Satélite que calcula a posição geográfica em que se encontra;
-Gurutil = Parte frontal das velas triangulares de proa;
-Lazy Jack = Sistema utilizado para manter a vela grande sobre a retranca quando é abaixada;
-Leme-de-Fortuna = Leme de emergência;
-Linha-da-Vida = Cabo que circula o convés, preso rente ao chão na popa e na proa, por onde corre o mosquetão do cinto de segurança;
-Milha Náutica = 1852 metros;
-Nó = Medida de velocidade correspondente a, aproximadamente, 1,15 Milha por hora ou 1 Milha Náutica por hora;
-Orçar = Navegar o mais perto possível da linha do vento;
-Paineiro = Placas móveis de madeira que servem de assoalho na cabine;
-Pé = Medida linear correspondente a 30,48 centímetros;
-Popa = Parte posterior da embarcação;
-Proa = Parte da frente da embarcação;
-Punho da Escota = Local da vela onde se prende a escota;
-Quilha = Parte da estrutura do casco, no sentido longitudinal, pelo fundo, sendo a peça que dá resistência ao deslocamento lateral. Geralmente construídas de chumbo ou ferro serve de lastro, dando maior estabilidade à embarcação;
-Radar = Equipamento que permite a localização de outras embarcações através de ondas eletromagnéticas extracurtas;
-Retranca = Verga horizontal onde é esticada a parte inferior ou esteira da vela grande;
-Roda-a-Roda = Sentido longitudinal da embarcação de proa a popa. Diz-se também de duas embarcações navegando uma para a outra, no mesmo alinhamento e em rumos opostos;
-Slide ou Colchete = Peça de nylon presa na testa da vela e que corre por dentro de uma canaleta no mastro;
-Sloop ou Eslupe = Espécie de veleiro armado com apenas um mastro, vela de proa e vela mestra;
-Sotavento = Lado para onde sopra o vento;
-Talas = Varas de fibra de vidro inseridas em bolsas horizontais na vela mestra para melhorar sua aerodinâmica. No Bicho-Papão são quatro talas que vão da valuma até a testa da vela (sistema "Full Batten");
-Testa da Vela = Parte frontal da vela grande que é presa no mastro;
-Timão = Conhecido também como roda de leme, serve para governar a embarcação;
-Timoneiro = Pessoa que manobra o leme e dirige a embarcação;
-Través = Direção perpendicular ao sentido longitudinal da embarcação. Vento de través entra pelo flanco num ângulo de 90º;
-Turco = Armação de aço inoxidável na popa, onde é içado o bote e amarrado o bímine.
-Valuma = Parte posterior da vela, de fuga do vento;
-Vela Grande ou Mestra = É a vela principal. A que tem a maior área vélica;
-Vela de Temporal = Vela pequena, com tecido muito forte e com cabo de aço na sua testa/gurutil. Pode ser usada no lugar da genoa ou da vela mestra;
-Vento Empopado = Vento por trás, no sentido longitudinal da embarcação;
-Vento Folgado = Diz-se quando navegamos com vento a favor ou o máximo possível fora da linha do vento;
-VHF = Rádio de comunicação de alta freqüência. Alcance médio de 25 milhas;


Novamente em Fernando de Noronha, pela quarta vez, com os amigos
Átila, Claudinha e Erica (no colo da Neca), em setembro de 2002.

Um brinde à vida!