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INTRODUÇÃO No final de maio, fui convidado por amigos do Rio Grande do Sul a alugar um veleiro por duas semanas nas ilhas gregas. Naturalmente aceitei, pois um cruzeiro pela Grécia talvez seja o sonho de todo navegador. O charter foi acertado facilmente do Brasil, via Internet. Existem dezenas de companhias que atendem a partir de Atenas e é fácil encontrá-las pela rede. O preço médio de um barco como o que alugamos fica em torno de 2000 Euros a semana, na baixa estação. Os barcos são bem equipados e é relativamente fácil navegar pelas ilhas. O nosso veleiro, um Jenneau 43 pés, pode abrigar até oito pessoas, mas o ideal são três casais. O barco tem quatro cabines e dois banheiros bem confortáveis. Ele vem equipado com todos os itens necessários a grandes percursos: Vhf, Epirb, piloto automático, chart-plotter, cartas náuticas, guia náutico bem detalhado de toda a costa, roupa de cama e banho, equipamento de primeiros socorros, cozinha bem montada, barco e motor de apoio, âncora com 70 metros de corrente, guincho elétrico, etc. E o que é melhor: tudo funciona a bordo. As ilhas gregas, embora bastante diferentes entre si, têm muita coisa em comum. A história, a cultura e o relevo são alguns exemplos. A maioria possui abrigos para todos os ventos. No caso do terrível Meltemi, por exemplo, o vento que sopra de norte, é sempre possível encontrar enseadas protegidas ao sul de todas as ilhas. E elas estão muito próximas umas das outras de modo que, com apenas algumas horas de navegação, é fácil encontrar proteção. Em todas as vilas portuárias em que estivemos existem bons ancoradouros, normalmente um cais público que é o centro da vila. E o que surpreende é que as estadias, a água e a energia são de graça. O guia náutico que acompanha os barcos tem todas as informações necessárias para uma navegação segura. O roteiro nós decidíamos na hora, em função de onde soprava o vento. O resto ficava por conta do acaso. E as surpresas foram muitas. DIÁRIO DE BORDO A ilha de Egina está localizada no Golfo de Sorônica, sete milhas a sudoeste de Atenas. Ao deixarmos a marina Kalamaki não foi difícil decidir que lá seria nosso destino, pois o vento soprava favorável com dez nós de velocidade. Apesar do sol, a sensação térmica era de frio. Tão logo partimos, um sentimento de euforia tomou conta da tripulação, afinal estávamos navegando em mares gregos. Atenas, deitada nas encostas de suas várias colinas ficava pra trás. Era possível ver ao longe as ruínas da Acrópole banhadas pela fraca luz da primavera. Em pouco tempo cobrimos a distância que separa Egina do continente. Como era cedo, resolvemos dar a volta na ilha para melhor apreciar a vista de sua costa calcinada. Egina não é grande, tem um formato triangular e mede aproximadamente dez quilômetros de comprimento por nove de largura. A maior parte da sua superfície é seca e montanhosa. Mas existem algumas plantações, sobretudo na parte oeste e o pistache é seu produto mais popular. Na primavera anoitece tarde no hemisfério norte, estava claro quando chegamos à pequena vila pescadora de Perdika, no sudoeste de Egina. Como era nossa primeira aportagem, ficamos inseguros quanto à estratégia de aproximação. No pequeno cais de concreto havia apenas um veleiro alemão estacionado a contra-bordo. Com a água clara, as pedras pareciam muito rasas e era impossível saber nossa profundidade com segurança. Não queríamos correr o risco de encalhar nas pedras justo na primeira parada. Jogamos a âncora cerca de 50 metros pela proa e encostamos de popa no pequeno cais. Com ajuda de um tripulante do barco alemão, prendemos nossas amarras nos cunhos do porto e comemoramos a chegada. Mas o tempo não quis colaborar com nossa emoção. Rajadas fortes vindas do oeste encheram o céu de nuvens ameaçadoras e logo o céu desabou sobre nós. Choveu a noite toda, mas pela manhã o sol voltou e sua luz coloriu a pequena vila. Acordamos com os sinos da igreja. Era domingo e pudemos ver na capela frente ao cais os moradores com seus melhores trajes na missa da semana. Mas não dispúnhamos de tempo para pensar na salvação da nossa alma. Demos uma rápida caminhada pela bucólica vila, cujas ruas estavam cheias de limoeiros carregados de frutos. Não resisti e apanhei alguns limões sicilianos para complementar nossos temperos de bordo. Ao meio-dia partimos, mas não fomos longe. A pouca distância, avistamos uma enseada deserta e arribamos em sua direção. Mas nossa privacidade não demorou a ser devassada. Vários outros veleiros, ao nos verem, seguiram nosso caminho e em algum tempo estávamos cercados de muitas embarcações.
No final da tarde retornamos à marina Kalamaki para resolvermos algumas pendências de viagem e para solucionarmos pequenas dúvidas com relação ao barco. Partimos ao amanhecer. O vento soprava de popa com quinze nós de velocidade. O mar estava perfeito sem ondas, mas a temperatura era baixa. Não demorou a alcançarmos o mítico cabo Sounion acima do qual se eleva a imponente ruína do templo de Posseidon. Homero em sua Odisséia faz referência a esse cabo. Lá seu timoneiro morreu e foi enterrado com uma cerimônia Foi emocionante seguir os passos de Ulisses. O sol esquentou e pudermos ver vários veleiros em todas as direções. Cruzamos as dez milhas do estreito de Kea e alcançamos Kavia, pequena enseada ao sul da ilha da ilha de Kea. Um conjunto de casas brancas e alguns moinhos restaurados ocupavam a encosta da colina. A água estava transparente, embora muito fria, cerca de 20ºC. Assim mesmo, o sol encorajou um rápido mergulho. Almoçamos e logo em seguida partimos rumo ao norte. Kea possui onze milhas de comprimento por cinco de largura. É, como todas as ilhas das Cíclades, de origem vulcânica, com relevo acidentado e clima seco. Estacionamos nosso veleiro em Nikolaou, pequena vila a noroeste de Kea. Na entrada da baia, sobre a encosta do cabo Nikolaou, um promontório de pedra ao norte, podíamos identificar uma surpreendente capela-farol. Ao que parece, os gregos sempre souberam somar com pragmatismo todas as vantagens do sagrado com o terreno e ali estava a prova disto, um edifício cuja função era iluminar, em todos os sentidos, a vida dos homens.A primeira impressão, a que realmente vale, foi marcante. Estávamos em um pequeno povoado, com suas casas brancas, janelas azuis e um minúsculo cais de frente para alguns bares e restaurantes pitorescos.
Amanheceu com chuva, mesmo assim a paisagem que nos cercava não perdeu seu brilho. No cais de concreto, compramos direto dos pescadores lula e polvo frescos. Em seguida partimos. Navegamos vinte milhas no rumo nordeste até a ilha de Andros. No caminho, cruzamos por muitos ferry-boats que fazem o transporte de tudo entre as ilhas. O vento era fraco, mesmo assim seguimos à vela, sem pressa alguma, de olhos nos instrumentos para evitar surpresas desagradáveis, como alguma pedra no meio do caminho. Mas as profundidades no Egeu são muito grandes, sempre acima dos 50 metros, e os perigos são bem sinalizados nas cartas e no guia. No começo da tarde, o sol apareceu e aqueceu nossa fome. Preparamos um delicioso risoto de lula e polvo, acompanhado de retsina, o popular vinho branco bastante consumido na Grécia. Andros é a ilha mais ao norte e a segunda em tamanho das Cíclades. Seu relevo impressiona de longe. O monte Kouvarion tem mais de mil metros de altura. A temperatura estava agradável, mas no inverno o clima costuma ser hostil, chegando até a nevar. É um local, como toda Grécia, de muita história. Persas, espartanos, e turcos já fizeram ali seu território estratégico. Depois vieram os romanos, bizantinos e venezianos. Paramos em Gavrion, um pequeno porto localizado dentro de uma enseada aberta para o sul, mas protegida por um molhe de pedras. A cidade está a leste da pequena baia, cuja maior dimensão não passa de mil metros. A vila é um paraíso com restaurantes, bares e alguns pequenos mercados. O povo é simpático e discreto. Parece que seu maior passatempo é jogar conversa fora. Casas brancas e a igreja sobre uma colina marcam a paisagem. No dia seguinte, recolhemos âncora e partimos logo no começo da tarde. Apesar do sol, ainda estava frio. Naquelas latitudes setentrionais só esquenta depois das duas da tarde. Navegamos pelo lado ocidental da ilha, bem próximo à costa para apreciar seu relevo teatral. Quinze milhas abaixo, cruzamos o estreito de Dhisvaton, que separa Andros de Tinos. A passagem estreita, com pouco mais de mil metros, fez vento aumentar e chegamos a alcançar nove nós de velocidade. A garganta é um lugar que costuma ficar feio em dias de mar e ventos fortes. Alcançamos Tinos, finalmente. A ilha é montanhosa e árida. Seu nome vem de Tenok, que significa cobra no idioma fenício, uma alusão às serpentes que habitavam a ilha. Segundo a mitologia, Poseidon, irmão de Zeus, deus do mar, andou aprontando por lá. Historicamente Tinos foi lar dos minoanos, a primeira civilização a aparecer na Europa. Depois vieram os frígios que também são citados na Odisséia. Após a morte de Alexandre o grande, a ilha ficou sob controle dos macedônios. É deste tempo a sua vocação religiosa. Peregrinos a caminho do oráculo de Delfos, no continente, faziam escala na ilha, de modo que o ambiente sagrado impregnou-se para sempre nos seus costumes. Hoje a ilha é um importante centro de peregrinação cristã ortodoxa. O período bizantino foi de declínio, pois Tinos foi assolada por piratas, epidemias e fome. Em 1.200 vieram os venezianos que lá ficaram por 500 anos. Em seguida chegaram os turcos. Paramos na cidade de Tinos, em cujo porto existe um cais de concreto reservado para veleiros e visitantes. Largamos âncora a cerca de 50 metros pela proa e estacionamos de proa, amarados ao cais. No dia seguinte partimos. A apenas sete milhas a sudeste de Tinos, chegamos, com vento fraco, porém favorável, na pequena e deserta ilha de Rinia. Ancoramos na baia de Kormou Ammos, deserta e árida com apenas uma capela sobre uma colina desolada. Mergulhamos na água fria e aquecemos nosso espírito com ouzo, um destilado forte feito de aniz. Almoçamos um saboroso churrasco e nos largamos sobre o convés como se o tempo não existisse. Horas mais tarde partimos e, com as últimas luzes, alcançamos Mikonos. Fundeamos a contra bordo do novo cais, localizado uma milha ao norte do centro antigo. O lugar, embora cheio de barcos e transatlânticos, ainda está em obras e não existe qualquer tipo de apoio, exceto o cais. Havia três mega navios de turistas fundeados ao largo. A cidade, a mais procurada das Cíclades, estava tomada por hordas de turistas de todas as nacionalidades. Se não for o lugar mais badalado do Egeu, seguramente é o mais fotografado. É o paraíso da agitação de das compras. Contamos centenas de joalherias nas suas ruas sinuosas. O centro da cidade ou Chora, como eles chamam todos os centros, é um labirinto de ruelas estreitas de traçado medieval com casas brancas semelhantes a cubos. Mas o tempo não ajudou. Com chuva e frio partimos no dia seguinte. Nosso novo rumo era Paros, dezoito milhas ao sul. Vencemos a distância em três horas. Entramos no colorido porto de Náousa, com seu casario branco, ruas sinuosas e inúmeros barcos de pesca. Um molhe de pedra construído sobre a torre de um antigo castelo veneziano protege o acesso. A ancoragem, como sempre, foi feita com a âncora pela proa e a popa presa ao cais por cabos. O que Mikonos ficou nos devendo, Náousa nos forneceu em dobro. A vila é, no meu entender, a mais charmosa da Cíclades, um lugar para quem gosta de sofisticação sem deslumbramentos. Existem centenas de lojas e restaurantes a disposição de poucos turistas. Embora estivéssemos em maio, nos últimos dias da baixa temporada, a cidade estava vazia e ainda guardava um pouco do seu ar provinciano.
Na manhã seguinte, partimos para Paroikiá, a Chóra, ou capital de Paros. A cidade viveu seu auge com os romanos devido ao comércio de mármore, que é abundante na ilha. Hoje é um balneário pitoresco com sua beira mar cheia de bares, restaurantes e cafés. É também o centro geográfico das Cíclades, razão pela qual é parada da maioria dos ferrys que circulam na região. Chegamos em uma hora festiva: havia um encontro de embarcações infláveis que reunia mais de 250 botes de todos os clubes das ilhas adjacentes, inclusive de Creta. Vimos alguns botes de grande porte como um off-shore com mais de trinta pés e outro com três motores de 250 HP cada. À noite, na festa de entrega dos prêmios, pudemos testemunhar como os gregos são generosos quando o assunto é festa. Havia uma pequena banda e, em instantes, todos dançavam em círculo ao som dos instrumentos típicos. Apesar da hospitalidade e do clima de festa, partimos no dia seguinte, na hora de sempre, pouco depois do meio-dia. Como havia previsão de ventos fortes vindos do sul, decidimos desistir das ilhas de barlavento, como Ios e Santorini, e seguir no rumo oeste, para Sifnos, a vinte milhas de distância. Fizemos uma navegação maravilhosa com a vela principal na primeira forra de rizo, pois a meteorologia tinha antecipado ventos com força quatro para a tarde. Orçamos com folga para o sul de Sifnos, safamos a enseada de Gialos, castigada pelas rajadas e, com brisa de popa, subimos a costa montanhosa de Sifnos em direção ao norte. Nosso destino era a enseada de Kamarés, a principal da ilha, mas fomos surpreendidos pela incrível baia de Vathi, cinco milha antes. O vento parou completamente. Ligamos o motor e prosseguimos próximos à costa, para poder apreciar os dramáticos desenhos de seu relevo. As cartas indicavam uma pequena entrada que não conseguíamos distinguir, mesmo a poucas milhas de distância. Repentinamente, como um milagre, a rocha de mais de cem metros de altura, abriu-se mostrando um lago mágico em seu ventre. Vathi é um anfiteatro natural esculpido entre os rochedos vulcânicos da costa. Como vimos, é difícil localizá-la do mar. Tem aproximadamente uma milha de diâmetro e é protegida de todos os ventos, exceto oeste. Diminuímos nossa marcha e não foi difícil decidir que ficaríamos por lá mesmo. Ao chegarmos próximos à praia oposta à vila, fomos surpreendidos por outra visão idílica: uma bela mulher, nua como veio ao mundo, preparava-se para entrar no mar. A tripulação arregalou os olhos e fechou a boca. Ela nadou próxima a nós como se não existíssemos e prossegui seu lânguido banho, costa afora. Não se ouvia um único ruído a bordo. “Cuidado tripulação, ela pode ser uma ninfa” eu quebrei o silêncio. Como não era o caso de nos amarrarmos ao mastro, fugimos para a vila, do outro lado da baia. Em pouco, estávamos parados como de costume, com âncora na proa e amarrados ao cais pela popa. Desembarcamos e fomos aproveitar as últimas luzes do dia. Em seguida nos acomodamos em um pitoresco restaurante, dos muitos que existem na beira mar, para degustarmos as maravilhas da culinária grega. A vila, embora remota e minúscula, conta com uma boa estrutura turística como restaurantes, bares, cafés, lojas e até um bom hotel. Um cais de concreto foi construído próximo à capela a beira-mar. Aparentemente na Grécia não existem os ridículos escrúpulos dos nossos órgãos ambientais que, para preservar a natureza, costumam condenar os nativos a fome. Sou da opinião que a construção de marinas atrai turistas e, em conseqüência, gera empregos, sobretudo os indiretos com o turismo. Imagino como seria Cananéia, Guaraqueçaba e tantos outros belos lugares do nosso litoral com uma marina de apoio aos navegadores. Mas as exigências ambientais são tão absurdas que inviabilizam quaisquer investimentos neste setor.
O dia amanheceu nublado e resolvemos partir mais cedo, apesar das belezas de Vathi. Em uma hora chegamos a Kamarés, um porto movimentado de ferrys e de navios de passeio. Era final de feriado e a cidade estava congestionada de carros e turistas que voltavam ao continente. Estacionamos de popa no cais, a contra bordo de outro veleiro e como o vento nos pegava de través, procuramos reforçar nossas amarras para evitar surpresas. A baia prolonga-se no sentido oeste-leste e é cercada por altos morros. Embora o vento soprasse de sul, o relevo fazia com que as rajadas entrassem forte pela abertura da baia e nos apanhasse de lado. Começou a chover e o movimento dos turistas no final de feriado deu um ar mais melancólico à tarde. As rajadas aumentaram e nosso barco, o primeiro da linha, começou a mover-se com perigo em direção ao vizinho. Ao checar o cabo de âncora, vimos o pior: ele estava completamente solto. Não nos restou muito a fazer, exceto partir imediatamente. Começava a anoitecer. Decidimos jogar ferro próximo a outro veleiro dentro da baia. O vento aumentou, mas felizmente os 70 metros de corrente fizeram seu papel e ficamos bem presos. Mas a noite foi terrível, mal conseguimos dormir com a sinfonia do vento nos estais. Ainda ventava ao amanhecer. Decidimos partir, contudo havia algumas compras a serem feitas em terra. Fundeamos novamente no porto, desta vez entre dois veleiros. Rapidamente abastecemos nossa despensa e nos preparamos para zarpar. Soltamos as amarras do cais e com ajuda do motor, puxamos a âncora com o guincho elétrico. Quando a âncora ficou a prumo, descobrimos que ela estava presa à corrente de um outro veleiro. E não havia jeito que fazê-la soltar-se. A profundidade era acima dos seis metros e a água estava em ponto de congelamento. Sem alternativas, mergulhei na água gelada e com ajuda de um cabo, soltamos nossa âncora da corrente. Foi um choque térmico terrível pra mim. Rapidamente tomei um banho de água doce, agasalhei-me e dormi até o próximo destino, a ilha de Serifos. O vento soprava forte de sudoeste e o mar não estava para amigos. Logo chegamos ao abrigado porto de Lavadhi, o principal de Sérifos. Alugamos três pequenas motos e fomos desbravar o interior montanhoso da ilha. A mitologia conta que Perseu e sua mãe foram jogados na costa rochosa da ilha. O lugar já foi um grande fornecedor de ferro e cobre. Hoje o turismo é sua principal fonte de renda. A ilha tem montanhas áridas e enseadas de tirar o fôlego, mas o mais fantástico foi chegar na antiga Chóra, a pequena vila branca encravada colina acima ao norte do porto. Com suas casas brancas e seu labirinto de ruas medievais é o lugar ideal para fotografias. O topo da montanha é dominado por uma pequena capela com vista para o horizonte infinito.
Com pesar deixamos nosso porto às três da tarde. Resolvemos navegar pela costa leste da ilha, mais protegida das rajadas que sopravam de sudoeste. Velejamos com vento pela alheta que descia acelerado das costas calcinadas de Sérifos. Não demoramos a alcançar Kithnos, onde paramos em Loutrá, o porto principal da ilha. Mas chegamos tarde e a marina estava lotada. Conseguimos um lugar fora do cais, a sotavento do molhe. Melhor impossível. Mas a experiência em Sifnos ainda estava bem viva na minha mente, assim, por precaução, fiz um spring em uma pedra do molhe. Uma lua cheia apareceu e iluminou nossas idéias. Resolvemos comemorar a última ilha com um derradeiro churrasco no cais, ao som de Eric Clapton e aquecidos por um encorpado Metaxa.
Partimos às dez da manhã com o mesmo vento sudoeste que nos movia há dias. O tempo passou muito rápido e tínhamos que voltar para Atenas. Decidimos refazer nossos passos e seguir até Kavia, nossa primeira parada ao sul de Kea. Almoçamos e logo zarpamos. Cruzamos o estreito de Kea, que separa as Cíclades do continente e, novamente, nos deparamos com o Cabo Sounion e seu templo imortal. Lá de cima, Posseidon parecia saudar o retorno da nossa odisséia. Heráclito de Éfeso, um filósofo da antiguidade, afirmava que todas as coisas se movem e nada é absolutamente imutável. Ficou célebre suas palavras:“ninguém toma banho duas vezes no mesmo rio, pois, quando voltar para o segundo banho, nem o rio nem o banhista serão os mesmos”. Acho que seguimos os ensinamentos do velho mestre, pois, na despedida, nos sentíamos transformados pelas incríveis experiências daquelas últimas duas semanas. |