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Porto Belo a Paranaguá - sufoco solitário Nesse último final de semana, fui à Porto Belo colocar as novas velas que eu encomendara para o Zimbros. Era tarde de sábado e estava prevista a entrada de uma frente fria fraca. Resolvi aproveitar o tempo e trazer o barco até Paranaguá. Como não achei quem me acompanhasse, decidi vir só. O plano de bordo era navegar até Armação da Penha, dormir algumas horas e partir ao amanhecer. Saí às seis da tarde do Iate Porto Belo. Às nove, a previsão do site de meteorologia do INPE confirmou-se e a frente chegou. Desliguei o motor, abri a genoa e continuei de vento em popa. As ondas aumentaram e esfriou rapidamente. O inverno começava naquele dia. Ao chegar à Armação, no abrigo da ponta da Vigia, onde pretendia pernoitar, o vento cresceu muito pela proximidade de terra. É um fenômeno chamado "força de Venturi". O atmosfera comprime-se no relevo e o vento acelera morro abaixo. Com rajadas muito fortes, tentei ancorar, mas o ferro não pegou e o barco arrastou. Corri para a proa e com ajuda do guincho quis levantar a âncora, mas estava difícil, pois o barco dançava na correnteza. Finalmente, com esforço, consegui tirar a âncora. Ao voltar ao cockpit, descobri o pior: o barco tinha corrido algumas dezenas de metros e estávamos presos em uma enorme rede de pesca. Fiquei sem o controle do leme, totalmente atado aos cabos submersos. O vento forte fez o veleiro enredar-se com mais força. As ondas batiam com força no costado e eu não conseguia me livrar daquela prisão. “O que fazer?” eu me perguntava sem acreditar que estava dentro de um pesadelo real. Não podia mergulhar pra cortar o cabo, pois o barco poderia partir sem mim. Ficar dentro daquela água gelada era opção que eu menos desejava. E, acima de tudo, nunca se abandona um barco na hora do pavor. Era impossível ligar o motor, pois havia o risco de enroscar a rede no hélice e ficar sem ele. “Caralho!” gritei para o vazio. Estava escuro e frio. Pensei em ficar por lá mesmo até o amanhecer, mas vi com temor que o barco começava a arrastar-se junto com a rede em direção à praia da Penha. E eu não conseguia fazer nada. “Vou dar nas pedras, que triste fim para o bravo Zimbros” considerei o pior. Eram onze da noite e o vento uivava nos estais. Eu estava só, sem motor, sem leme e em direção à costa. Nunca tinha me acontecido nada igual antes. Tive enfim uma idéia temerária: abrir toda a vela de proa e esperar as conseqüências. Eu corria o risco de danificar o leme. Depois de alguns minutos que me pareceram eternos, vi que o barco arrastava-se com mais velocidade para a praia. Fechei imediatamente a genoa. Procurei manter a calma, desci na cozinha e tomei alguns goles de água. Ainda me restavam duas alternativas: jogar as três âncoras que sempre trago a bordo e se isto não adiantasse, pediria ajuda pelo rádio. Sentei-me no cockpit e esperei alguma luz. Abri novamente a vela de proa. Uma rajada que chegou a trinta nós fez o barco forçar a rede e ela rompeu-se, finalmente. Mas ainda fiquei com metade dela arrastando pela popa. Aliviado, resolvi me afastar daquele porto perigoso. Eu conseguia distinguir um enorme colar de pequenas bóias de isopor me seguindo pela esteira. Mas o próximo abrigo estava a mais de 40 milhas, na ilha da Paz, barra da baia de São Francisco. Sem alternativa, resolvi encarar o trecho. Naveguei a noite toda, dormia em intervalos de 15 minutos e acordava com o despertador do celular. O céu ficou pesado com nuvens baixas e a visibilidade diminuiu. Havia alguns barcos de pesca ao largo, e eu procurava manter a máxima distância possível deles. Mas o vento e as ondas me empurravam generosamente em direção ao meu destino. Próximo à ilha, ao arribar o Zimbros para acertar seu rumo, as ondas nos jogaram de um lado para outro feito brinquedo. Não resisti à dança e botei pra fora o que não tinha no estômago. A cada minuto, eu checava a posição no ploter, voltava para o leme e ejetava os bofes na amurada. Não era uma cena muito romântica, devo admitir, mas finalmente com alegria, cheguei à ilha da Paz ao alvorecer. O vento continuava forte e frio. Joguei âncora, liguei o alarme de posição e tentei dormir. Mas foi em vão. Desmaiei por meia hora, suponho. Acordei com o balanço nervoso do barco. Imediatamente subi para verificar a causa e vi que tínhamos arrastado por mais de mil metros. Estávamos quase no través da ilha do Cação. Meu sono foi tão profundo que nem ouvi o som do alarme. Voltei ao meu ancoradouro original, próximo ao farol da ilha e tentei dormir com os olhos e ouvidos ligados. Ao levantar, um par de horas mais tarde, vi que o tempo estava com uma cara horrível. E eu também, solitário naqueles ermos de Netuno. Veio-me à cabeça a famosa pergunta que sempre assola os velejadores na hora do sufoco: “o que é que eu estou fazendo aqui?”. Mas o mar ruim não é um bom lugar para lamentações. Eu tinha que sair dali o quanto antes. Comi uma banana vencida, fiz um café ruim acompanhado de pão seco e me preparei para navegar. Eu ainda tinha quase nove horas até Paranaguá. Levantei âncora, abri a vela de proa pela metade e parti. O vento vinha de alheta e o mar de través. Eu sentia muito frio, principalmente nos pés e na cabeça. Coloquei o barco no rumo do canal da Galheta e fui dormir enquanto navegava. Descansava por quinze minutos, despertava, checava o horizonte e voltava para o beliche. Eu estava tão ruim que mal conseguia comer. Só pensava em chegar. Às três da tarde avistei, com alívio, a primeira bóia da Galheta. Finalmente entrei na baia de Paranaguá. Nas águas abrigadas, pela primeira vez, senti fome. Preparei rapidamente uma salada de tomate com sal, azeite e ervas. Passei o pão no molho que sobrou do prato, tomei uma taça de vinho e me senti ótimo. Eu consegui vencer o mau humor do tempo e do mar. Ao anoitecer, aportei no Iate Clube de Paranaguá. Acordei no dia seguinte com todos os meus músculos doídos. Enquanto ouvia os conselhos da minha mulher para nunca mais repetir tal ousadia, eu não pensava em nada, exceto na hora de navegar de novo.
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