Parte Final

INTRODUÇÃO

Caros amigos, pedras que rolam não criam musgo, assim como cascos que navegam não criam cracas. Depois de retornar da dupla travessia do Atlântico prossegui com minhas viagens a bordo do Zimbros, dessa vez pelo litoral sul do Brasil. Voltei à Paranaguá onde vivi o vexame de ser expulso do Iate Clube sob alegação que meus textos denegriram os associados, a cidade e o mundo em geral. A diretoria digeriu mal as críticas que fiz a eles quando lá estive no caminho de ida da minha odisséia. Ou talvez não tenha entendido o humor sarcástico da minha escrita.

Menos mal! Na fuga sem porto fui recebido com calor no iate do Capri, na Baia de São Francisco do Sul. As matérias sobre minha viagem publicadas na Revista Náutica e na Revista da Pesca me abriram portas que eu jamais havia imaginado. Em outubro do ano passado naveguei o longo percurso de volta a Porto Alegre. Na chegada ao Iate Veleiros do Sul, talvez o lugar com a maior concentração de grandes velejadores do país, tive a honra de ser recebido como um um deles: três longos sinais sonoros e uma fraternal acolhida pelos amigos gaúchos. O Zimbros foi levado de volta ao estaleiro onde nasceu e lá ficou por cerca de três meses para uma merecida revisão geral. De volta a Floripa, participei com a garotada da praia de Zimbros do XVII Circuito Oceânico Ilha de Santa Catarina. De novo com a mesma acolhida. Dias depois da competição recebi do Comodoro do Iate Veleiros da Ilha, Luiz Carlos Neves e do Diretor de Vela, Alexandre Back uma elegante correspondência agradecendo nossa participação na regata. Manifestações como essa enchem a alma de qualquer marujo.

O melhor de tudo nesses mares tem sido a boa acolhida que recebo em todas (ou quase todas) marinas aonde aporto. Para um navegador de final de semana, acho que fui longe demais. Em dezembro do ano passado fui convidado a participar, no Maranhão, da Primeira Regata Ilha de São Luis à Ilha de Lençóis. Como escrever tem sido para mim tão emocionante como velejar, aqui estou de volta com meus Retratos de Viagem. Espero que não enjoem com mais este novo capítulo.


A Primeira Regata Ilha de São Luis a Ilha dos Lençois: treze veleiros participaram.

A REGATA

A primeira edição da Regata Ilha de São Luis à Ilha dos Lençóis largou à zero hora do dia 8 de dezembro de 2005. Participaram treze veleiros, a grande maioria multicascos. Foram 88 milhas de navegação tranqüila, vento constante com cerca de quinze nós de nordeste e mar calmo com, no máximo, três metros de profundidade. Algumas embarcações optaram por navegar mais próximo à costa, passando pelos bancos no limite de seus calados. Os primeiros colocados cruzaram a linha de chegada às dez horas da manhã seguinte. O último barco levou cerca de treze horas para completar o percurso.

Segundo o presidente da Associação de Vela e Esportes Náuticos do Maranhão, Benedicto Vasconcellos, o popular Betinho, a regata da Ilha de São Luís a Ilha de Lençóis será realizada todos os anos no mês de dezembro. “Nosso objetivo é a integração dos amantes das longas velejadas. A preparação dos barcos é fundamental: o evento movimenta a economia. Emprega eletricistas, pintores e marceneiros e cresce o número de encomendas de velas, cabos e todos os tipos de acessórios náuticos” afirma.

A quem tiver interesse em participar da próxima edição basta contatar a AVEN cujo endereço é Rua de Santiago, nº 99, CEP 65015-450 São Luis, Maranhão. Os telefones são 3268-2868 / 3227-5492 e o e-mail: bergeng@terra.com.br

DIÁRIO DE BORDO

São Luis do Maranhão é uma cidade de ventos eternos. Exceto naquela madrugada, início de dezembro, exato na largada da primeira regata Ilha de São Luis a Ilha dos Lençóis. Parecia que Éolo nos tinha abandonado no momento que mais precisávamos dele. Treze barcos participavam da competição. Todas as velas pareciam inúteis para vencer a Ponta de Areia em cuja enseada foi dada a partida.

Aos poucos uma suave brisa entrou de nordeste e, vagarosamente, as embarcações foram afastando-se uma das outras rumo ao breu da noite. O brilho da cidade apagou-se na nossa popa e víamos apenas as luzes de navegação dos outros barcos. O vento firmou-se, o mar estava de almirante! Para os competidores as condições eram ideais!

Como a costa maranhense desdobra-se no rumo nordeste, a medida que deixamos a Baia de São Marcos para trás, o vento passou a nos atingir em um través mais folgado e confortável. A lua surgiu por detrás das nuvens e, junto com as luzes das demais embarcações, passou a nos fazer companhia pelo resto da noite. Navegar em um catamarã é realmente uma experiência fantástica. Ao contrário do monocasco cujo piso nunca fica na horizontal, o multicasco, em mar calmo, é extremamente confortável e rápido. Na descida das ondas chegamos a alcançar, facilmente, mais que dezoito nós de velocidade. É uma qualidade que compensa sua pouca capacidade de orça e de manobra.

Eu chegara à capital do Maranhão na véspera vindo de Curitiba. Dessa vez eu fazia parte da equipe do veleiro Paprisa, um espartano catamarã de madeira com onze metros de comprimento. Nossa tripulação era composta de seis navegadores: Nonato, o comandante, Glauco, navegador e timoneiro, Joaquim um amigo de muitas velejadas, George, um piloto de ultraleve, o jovem Salomão, marinheiro auxiliar e eu.


A tripulação do Paprisa: ao fundo à esquerda, de chapéu, Anibal.

Amanheceu e mal conseguíamos distinguir a baixa costa a bombordo. Aos poucos, ao aproar o veleiro em direção a terra, pudemos identificar à frente as enormes dunas da Ilha dos Lençóis. Antes que você confunda, essa ilha não está no Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses que fica no lado oposto, quase na divisa com o Piauí. Nosso objetivo está localizado no litoral de Curupuru, nas Reentrâncias Maranhenses, ao norte do arquipélago de Maiaú, a 1º21” de latitude sul e 44º 53’ de longitude oeste.

A paisagem mágica da Ilha de Lençóis: de tirar o fôlego.

Longe de tudo e de todos, a Ilha dos Lençóis é um dos pontos mais ermos do Brasil em que eu já estive. Infinito arquipélago litorâneo, é formado por barras alagadas, rios, maguezais e furos costeiros que se prolongam terra adentro por milhas e milhas. É composta por uma imensa rede de canais de baixa profundidade que produz um ecossistema único no nosso país. Toda região foi transformada em Área de Proteção Ambiental em 1991

Ao meio-dia, sob um calor de rachar, cruzamos a linha de chegada. Cuidadosamente nos aproximamos da praia tentando evitar os traiçoeiros bancos que se escondem sob aquelas águas. Contornamos os baixios e nos dirigimos por um raso canal à pequena vila localizada ao sul da ilha. Era um evento festivo. Na chegada fomos acompanhados por algumas embarcações locais que nos fizeram a festa. Llugar isolado do mundo, o acesso mais rápido desde São Luis é por via marítima mesmo. Quem quiser chegar lá por terra tem que percorrer uma verdadeira peregrinação. E exatamente por esse isolamento a ilha tem uma aura mágica. A paisagem solitária é pontilhada, aqui e acolá por raras embarcações de pesca e por bandos de pássaros.

Lá vive uma enorme comunidade de albinos. A vila é pequena e pobre. Mas o que falta em assistência sobra em hospitalidade. Ancoramos no único boteco em milhas e milhas de distância e esvaziamos todas as garrafas disponíveis. Eu estava em outro planeta: do nada organizou-se uma partida de futebol com tripulação exclusivamente feminina. É isso mesmo que você leu: dois times de futebol feminino, onze para cada lado, com camisetas, juiz,bandeirinha e tudo! O time que me agradou terminou o primeiro tempo perdendo feio. Pedi licença e reuni as garotas para algumas orientações: rapidamente organizei a defesa, o meio-campo e o ataque. Mas de nada serviu minha primeira experiência prática como treinador: meu time perdeu feio de goleada!

Depois do futebol, fomos visitar os outros competidores. Como acontece com todas as regatas o resultado foi motivo de muitas histórias e debates. O assunto era um só. Betinho, o organizador do evento e presidente da Associação de Vela do Maranhão, nos recebeu a bordo do seu barco e gentilmente tentou nos explicar o inexplicável. Em uma competição à vela, onde não há juízes nem platéia, cada barco é navegado pela consciência de cada um. E sempre existem as suspeitas, sobretudo dos que chegam depois, que alguém ligou o motor na escuridão sem testemunhas da noite. Discutir injustiças faz parte do assunto de todas as regatas que já participei. Beto, Aníbal, seu irmão, Glauco, Joaquim e eu passamos boas horas no cockpit do catamarã para chegar a nenhuma conclusão, exceto que o evento tinha sido o máximo. Beto, feliz, fazia jus ao brilho da competição.

Ao entardecer a incrível variação de maré no litoral do Maranhão fez que todos os barcos ficassem encalhados na areia da praia. Na chegada, com maré cheia, procura-se parar de proa em direção à terra para que, quando as águas descerem, os barcos não fiquem adernados no leito seco de areia. A amplitude das águas, que pode chegar a sete metros, é a principal motivo do sucesso dos multicascos entre os velejadores maranhenses. Os catamarãs foram introduzidos no início dos anos 60 pelo lendário Manoel Jorge, navegador, construtor e aventureiro português que aportou em São Luis a bordo de seu pequeno trimarã e escolheu a cidade para morar. O cara é mesmo venerável e todos os elogios lhe são unânimes. Tive a oportunidade de conhecê-lo, ainda que rapidamente.

Maré baixa: todos os barcos ficam encalhados na areia.

Próximo ao Equador a noite chega cedo e rápido. Escureceu pouco depois das seis. A lua não demorou a aparecer e seu brilho acendeu as dunas ao lado das quais estávamos fundeados. Para quem nunca testemunhou um espetáculo assim, qualquer descrição é inútil, pois não há nada equivalente nos grandes centros. Apesar da beleza e dos papos intermináveis, dormimos logo. O dia tinha sido longo e inesquecível. Estávamos muito cansados e ainda nos restavam cerca de 90 milhas para a volta.

No dia seguinte a flotilha reunida partiu rumo a São Luis. Mas o percurso era outro. A volta foi um passeio pelas reentrâncias, através da solidão dos igarapés e do verde baixo dos manguezais que nos levaram até a ilha de Mangunça, onde pernoitamos. Nos canais, minha maior surpresa foi testemunhar as revoadas do Guará, o exótico pássaro de plumagem vermelha cujo nome tupi batizou muitos pontos do nosso litoral. Por exemplo, Guaratuba significa lugar de muito pássaro e Guarapari armadilha de pássaros. Lamentavelmente, hoje o Guará está praticamente extinto no sul do país.


Reentrancias Maranhenses: revoada de Guarás

A navegação pelas reetrâncias foi uma aventura à parte da qual eu jamais havia testemunhado nada parecido. Em alguns trechos, entre um canal e outro, seguíamos por mar aberto em busca da entrada seguinte. Os timoneiros procuram navegar entre os furos, o espaço entre uma arrebentação e outra, para vencer os baixios das barras e finalmente acessar aos rios internos. Foi realmente muito assustador para mim velejar entre ondas que se quebravam de todos os lados em um leito raso de oceano. Mas eles sabiam o que estavam fazendo e nos safamos bem de todos os perigos.

De Mangunça até São Luis foram sete horas de viagem em mar aberto com vento nordeste constante de quinze nós. Condições ideais para os multicascos mostrarem toda sua capacidade de velejar com rapidez, segurança e conforto. Às dez da manhã identificamos ao longe o perfil da cidade. Ao meio-dia chegamos na Ponta de Areia. Ao desembarcar fomos surpreendidos, Joaquim e eu, com um gentil convite do Comandante Nonato para participarmos da próxima edição dessa inesquecível regata.